Já parou para pensar por que você ri? É até estranho refletir a respeito disso. Parece que somos inerentemente dotados dessa qualidade. Rimos porque achamos que algo seria engraçado.

Por isso, gostamos, de maneira geral, de nos expressar dessa forma que, muitas vezes, achamos estar relacionada a algum tipo de divertimento. No entanto, novamente te pergunto: o que é risível?

Primeiramente, vamos tratar do que seria o risível para, posteriormente, destrinchar a ideia de cômico. Para depois analisar suas representações simbólicas e ver seus efeito na história.

Vamos ver, logo, o que é o risível e como ele se manifesta.

 

O risível como dispositivo mecânico

Há uma certa dificuldade de tirar uma definição do que de fato seria o riso, porém, o filósofo do século XX, Henri Bergson, escreveu uma obra chamada “O Riso” e nela podemos abstrair certas definições do que de fato seria o risível.

Vejamos.

De acordo com ele, a ideia de risível surgiria quando os homens adquirem um aspecto de coisa.

Com isso ele queria dizer que habituamos em processar a vida tendo uma racionalidade lógica e, ao fazermos isso, passamos a enxergar o homem inserido num sistema de rotina mecanicista. A ruptura de uma sequência de acontecimentos, que esteja fora dessa lógica racional, evocaria risos na pessoa.

Observe que os risos que são provocados dessa maneira perpassam uma ideia de lucidez, porque há um momento de quebra da realidade e percepção de que, na verdade, as coisas não ocorrem necessariamente daquela forma.

Bergson traz uma afirmação de que essa transição de automatismo para lucidez seria como se fosse um desvio da vida.

“É cômico todo arranjo de atos e acontecimentos que nos dê, inseridas uma na outra, a ilusão da vida e a sensação nítida de uma montagem mecânica.”

Os risos, nesse ínterim, seriam além de um momento de lucidez, uma forma de correção da realidade. Uma conduta que de imediato mostraria o erro da vida e corroboraria em reconstruí-la novamente.

Podemos interpretar o riso dessa forma tendo um viés cético. Todavia, há certamente outras alternativas para causar comicidade. Vamos analisá-las.

 

O risível como dispositivo sádico

Vimos agora que o riso pode ter uma função social de cunho intelectual. Mas rimos também, sem dúvidas, da desgraça, da fealdade e da desilusão.

Podemos tratar isso como sendo algo inserido na natureza humana, tendo como subsídio certas perspectivas pessimistas do âmbito filosófico e psicanalítico, quando apontam para uma condição inerentemente sádica da nossa espécie.

Nesse sentido, o antropólogo cultural chamado Ernest Becker com seu livro “A negação da morte” trata do sadismo dizendo que

“[…] é uma atividade natural da criatura, o impulso em direção à experiência, ao domínio e ao prazer, a necessidade de tirar do mundo aquilo de que precisa para aumentar a si mesmo e prosperar.”

Com efeito, o que podemos tirar dessa riquíssima interpretação do homem diz respeito em como, na verdade, tentamos reanimar nossa vitalidade para resolver nossas contradições íntimas que tangem, em grande parte, de um impulso instintivo.

Mas os risos que emanam desse instinto sádico, portanto, seriam uma válvula de escape. Uma rota de fuga em virtude da realidade irracional e a pulsão de um corpo animalesco incontrolável.

Podemos pensar, por conseguinte, que por ser algo biológico tendemos a libertar a tensão que adquirimos a partir dos risos que, nesse caso, têm uma roupagem imoral. Fato que podemos ver se tratar de risos mal vistos pela sociedade. Nada ético por sinal.

 

O risível como dispositivo cínico

Por fim, para encerrar a análise do que é risível e suas formas de manifestações, temos o riso tendo um caráter cínico.

O cinismo que prega-se aqui é o mesmo ditado pelo senso comum, isto é, característica na qual uma pessoa age com deboche, desdém, desprezo, ironia a uma situação ou a uma pessoa.

Ao avaliarmos ela, podemos ver que o riso cínico integra uma parte do riso mecânico e o riso sádico, uma vez que também insinua um período contingente de lucidez e falta de pudor.

Você já se viu em uma situação de impotência diante da realidade? Sim?

Caso tenha, o riso cínico trata, sobretudo, de uma situação de impotência que, a despeito de toda sua capacidade racional, da sua habilidade física, de seu talento musical, da sua capacidade sexual enaltecida, consiga intervir e mudar a realidade.

Tenho um bom exemplo dos gregos antigos: Demócrito, filósofo atomista, ao abrir um corpo para analisá-lo, começou a rir sem parar diante do que via. Por que os risos? Muito provavelmente ele se deparou com a completa impotência diante de toda aquela complexidade biológica explícita.

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Demócrito era um tanto risonho.

Essa impotência nos ensina muito. E os risos que emanam a partir dela também.

Talvez seja a forma de riso mais trágico, uma vez que expõe a nós, na maioria das vezes, de uma forma grotesca, a nossa insignificância e incapacidade que nem mesmo os avanços da tecnologia ou da ciência vão nos garantir ou salvar.

Podemos interpretar e ver o riso cínico como uma expressão de cansaço e desistência que surge, quando a percepção de que tudo está fora do controle e qualquer forma de insistência e tentativa se mostrou inútil – nesse caso, nada melhor do que dar umas boas gargalhadas.

Elucidamos três formas de como se manifesta o risível. Vamos ver agora como ele se manifesta simbolicamente na sociedade.

 

A ameaça da comicidade para as instituições de poder

Você já pensou o que as risadas podem representar para uma instituição que detém poder?

Todas essas entidades que constroem um discurso de dominação a partir de um sentido de verdade tentam privar-se dessa supremacia – vemos que ao longo da história, ela foi constituída ora por uma fala naturalizante, ora por Deus, ora pela razão.

Mas de que adianta todo esse discurso edificado por tanta inteligência se algumas pessoas chegarem lá e começarem a rir? Se essa verdade construída não é levada a sério, não há como legitimá-la.

Portanto, o riso representa uma forte arma de destruição e subversão frente a uma autoridade que visa adquirir e difundir poder.

No filme e livro de Umberto Eco, “O Nome da Rosa“, o autor nos mostra muito bem como a ideia do riso é uma ameaça clara para a Igreja.

Não muito diferente, Georges Minois em “A história do riso e do escárnio” nos dá subsídio histórico de como de fato isso se repercutiu.

“O Cristianismo é pouco propício ao riso. […]: o riso não é natural no Cristianismo, religião séria por excelência. Suas origens, seus dogmas, sua história o provam. Para começarmos, o monoteísmo estrito exclui o riso do mundo divino. Do que poderia rir um Ser todo-poderoso, perfeito, que se basta a si mesmo, sabe tudo, vê tudo e pode tudo?”

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No filme “O Nome da Rosa”, o medo da igreja em relação ao cômico é muito claro.

Pensemos bem nos contrastes e efeitos do cômico. A razão, até certa medida, é manipulável e retém para produzir um efeito ético, principalmente na sociedade atual, uma relativa parcimônia.

Isso significa que ela lida com as problemáticas tendo em vista avaliá-las com ponderação.

Veja que tal coisa não ocorre da mesma forma no cômico que poderá, como bem quiser, de acordo com seu humor e arbitrariedade, julgar as coisas e os fatos por princípios, ora estéticos, ora movidos por uma descontrolada pieguice, e destruir bem como quiser o que não for agradável para si.

Nessa história, quem detém grande parte da autoria do cômico? A arte.

Portanto, reconhecidamente a arte vai ser um grande inimigo da verdade, a qual seria as instituições de poder como a Igreja e o Estado, porque não se importam propriamente com sua veracidade ou falsidade, mas com o que traz divertimento e prazer.

Por isso, grande parte delas vai se orgulhar das mentiras, das máscaras, do palhaço. Vão se preocupar mais com a aparência do que com a essência, com glamour do que virtude, com paixões que inteligência. Sem sequer tentarem buscar um efeito pedagógico social ou moral através dela.

 

O riso e o caos

Pelo que vimos até agora, o riso esconde algo caótico em seu caráter. Mas nem por isso vamos repudiá-lo, motivo pelo qual ele tem, pelas suas várias roupagens, uma forte relação com as nossas sensações que, a devidas restrições, não podemos negar a fim de não fazer, da supremacia da razão, algo absoluto e ditatorial.

Por isso, se para Igreja o riso for algo do diabo, iremos representá-lo; se para o Estado for algo irracional, iremos dançar. O riso, em última instância, é o paradoxo, a contradição evocada pelo risível que nos dará, em certos momentos, uma expressão para a vida.


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escrito por:

Victor Sado

Tem a impressão meio vaga de si, aqui e acolá é uma pessoa diferente. Não é muito estático por definição, mas tem medo de mudanças. Vê muita sabedoria em pessoas que agem conforme pensam e, sobretudo, daquelas que possuem um charme formal e vulgar na sua forma de estar. Aprecia, com muito prazer, café com chocolate depois do almoço. Escreve como fuga ou somente porque acha chique.


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