O Gordo e o Magro em filme cômico.

O cômico e seus efeitos na sociedade

Em Consciência, Filosofia por Victor SadoComentário

Já parou para pen­sar por que você ri? É até estra­nho refle­tir a res­peito disso. Parece que somos ine­ren­te­mente dota­dos dessa qua­li­dade. Rimos por­que acha­mos que algo seria engra­çado.

Por isso, gos­ta­mos, de maneira geral, de nos expres­sar dessa forma que, mui­tas vezes, acha­mos estar rela­ci­o­nada a algum tipo de diver­ti­mento. No entanto, nova­mente te per­gunto: o que é risí­vel?

Pri­mei­ra­mente, vamos tra­tar do que seria o risí­vel para, pos­te­ri­or­mente, des­trin­char a ideia de cômico. Para depois ana­li­sar suas repre­sen­ta­ções sim­bó­li­cas e ver seus efeito na his­tó­ria.

Vamos ver, logo, o que é o risí­vel e como ele se mani­festa.

 

O risível como dispositivo mecânico

Há uma certa difi­cul­dade de tirar uma defi­ni­ção do que de fato seria o riso, porém, o filó­sofo do século XX, Henri Berg­son, escre­veu uma obra cha­mada “O Riso” e nela pode­mos abs­trair cer­tas defi­ni­ções do que de fato seria o risí­vel.

Veja­mos.

De acordo com ele, a ideia de risí­vel sur­gi­ria quando os homens adqui­rem um aspecto de coisa.

Com isso ele que­ria dizer que habi­tu­a­mos em pro­ces­sar a vida tendo uma raci­o­na­li­dade lógica e, ao fazer­mos isso, pas­sa­mos a enxer­gar o homem inse­rido num sis­tema de rotina meca­ni­cista. A rup­tura de uma sequên­cia de acon­te­ci­men­tos, que esteja fora dessa lógica raci­o­nal, evo­ca­ria risos na pes­soa.

Observe que os risos que são pro­vo­ca­dos dessa maneira per­pas­sam uma ideia de luci­dez, por­que há um momento de que­bra da rea­li­dade e per­cep­ção de que, na ver­dade, as coi­sas não ocor­rem neces­sa­ri­a­mente daquela forma.

Berg­son traz uma afir­ma­ção de que essa tran­si­ção de auto­ma­tismo para luci­dez seria como se fosse um des­vio da vida. 

É cômico todo arranjo de atos e acon­te­ci­men­tos que nos dê, inse­ri­das uma na outra, a ilu­são da vida e a sen­sa­ção nítida de uma mon­ta­gem mecâ­nica.”

Os risos, nesse ínte­rim, seriam além de um momento de luci­dez, uma forma de cor­re­ção da rea­li­dade. Uma con­duta que de ime­di­ato mos­tra­ria o erro da vida e cor­ro­bo­ra­ria em recons­truí-la nova­mente.

Pode­mos inter­pre­tar o riso dessa forma tendo um viés cético. Toda­via, há cer­ta­mente outras alter­na­ti­vas para cau­sar comi­ci­dade. Vamos ana­lisá-las.

 

O risível como dispositivo sádico

Vimos agora que o riso pode ter uma fun­ção social de cunho inte­lec­tual. Mas rimos tam­bém, sem dúvi­das, da des­graça, da feal­dade e da desi­lu­são.

Pode­mos tra­tar isso como sendo algo inse­rido na natu­reza humana, tendo como sub­sí­dio cer­tas pers­pec­ti­vas pes­si­mis­tas do âmbito filo­só­fico e psi­ca­na­lí­tico, quando apon­tam para uma con­di­ção ine­ren­te­mente sádica da nossa espé­cie.

Nesse sen­tido, o antro­pó­logo cul­tu­ral cha­mado Ernest Bec­ker com seu livro “A nega­ção da morte” trata do sadismo dizendo que

[…] é uma ati­vi­dade natu­ral da cri­a­tura, o impulso em dire­ção à expe­ri­ên­cia, ao domí­nio e ao pra­zer, a neces­si­dade de tirar do mundo aquilo de que pre­cisa para aumen­tar a si mesmo e pros­pe­rar.”

Com efeito, o que pode­mos tirar dessa riquís­sima inter­pre­ta­ção do homem diz res­peito em como, na ver­dade, ten­ta­mos rea­ni­mar nossa vita­li­dade para resol­ver nos­sas con­tra­di­ções ínti­mas que tan­gem, em grande parte, de um impulso ins­tin­tivo.

Mas os risos que ema­nam desse ins­tinto sádico, por­tanto, seriam uma vál­vula de escape. Uma rota de fuga em vir­tude da rea­li­dade irra­ci­o­nal e a pul­são de um corpo ani­ma­lesco incon­tro­lá­vel.

Pode­mos pen­sar, por con­se­guinte, que por ser algo bio­ló­gico ten­de­mos a liber­tar a ten­são que adqui­ri­mos a par­tir dos risos que, nesse caso, têm uma rou­pa­gem imo­ral. Fato que pode­mos ver se tra­tar de risos mal vis­tos pela soci­e­dade. Nada ético por sinal. 

 

O risível como dispositivo cínico

Por fim, para encer­rar a aná­lise do que é risí­vel e suas for­mas de mani­fes­ta­ções, temos o riso tendo um cará­ter cínico.

O cinismo que prega-se aqui é o mesmo ditado pelo senso comum, isto é, carac­te­rís­tica na qual uma pes­soa age com debo­che, des­dém, des­prezo, iro­nia a uma situ­a­ção ou a uma pes­soa.

Ao ava­li­ar­mos ela, pode­mos ver que o riso cínico inte­gra uma parte do riso mecâ­nico e o riso sádico, uma vez que tam­bém insi­nua um período con­tin­gente de luci­dez e falta de pudor. 

Você já se viu em uma situ­a­ção de impo­tên­cia diante da rea­li­dade? Sim?

Caso tenha, o riso cínico trata, sobre­tudo, de uma situ­a­ção de impo­tên­cia que, a des­peito de toda sua capa­ci­dade raci­o­nal, da sua habi­li­dade física, de seu talento musi­cal, da sua capa­ci­dade sexual enal­te­cida, con­siga inter­vir e mudar a rea­li­dade.

Tenho um bom exem­plo dos gre­gos anti­gos: Demó­crito, filó­sofo ato­mista, ao abrir um corpo para ana­lisá-lo, come­çou a rir sem parar diante do que via. Por que os risos? Muito pro­va­vel­mente ele se depa­rou com a com­pleta impo­tên­cia diante de toda aquela com­ple­xi­dade bio­ló­gica explí­cita.

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Demó­crito era um tanto riso­nho.

Essa impo­tên­cia nos ensina muito. E os risos que ema­nam a par­tir dela tam­bém.

Tal­vez seja a forma de riso mais trá­gico, uma vez que expõe a nós, na mai­o­ria das vezes, de uma forma gro­tesca, a nossa insig­ni­fi­cân­cia e inca­pa­ci­dade que nem mesmo os avan­ços da tec­no­lo­gia ou da ciên­cia vão nos garan­tir ou sal­var.

Pode­mos inter­pre­tar e ver o riso cínico como uma expres­são de can­saço e desis­tên­cia que surge, quando a per­cep­ção de que tudo está fora do con­trole e qual­quer forma de insis­tên­cia e ten­ta­tiva se mos­trou inú­til — nesse caso, nada melhor do que dar umas boas gar­ga­lha­das.

Elu­ci­da­mos três for­mas de como se mani­festa o risí­vel. Vamos ver agora como ele se mani­festa sim­bo­li­ca­mente na soci­e­dade.

 

A ameaça da comicidade para as instituições de poder

Você já pen­sou o que as risa­das podem repre­sen­tar para uma ins­ti­tui­ção que detém poder?

Todas essas enti­da­des que cons­troem um dis­curso de domi­na­ção a par­tir de um sen­tido de ver­dade ten­tam pri­var-se dessa supre­ma­cia — vemos que ao longo da his­tó­ria, ela foi cons­ti­tuída ora por uma fala natu­ra­li­zante, ora por Deus, ora pela razão.

Mas de que adi­anta todo esse dis­curso edi­fi­cado por tanta inte­li­gên­cia se algu­mas pes­soas che­ga­rem lá e come­ça­rem a rir? Se essa ver­dade cons­truída não é levada a sério, não há como legi­timá-la.

Por­tanto, o riso repre­senta uma forte arma de des­trui­ção e sub­ver­são frente a uma auto­ri­dade que visa adqui­rir e difun­dir poder.

No filme e livro de Umberto Eco, “O Nome da Rosa”, o autor nos mos­tra muito bem como a ideia do riso é uma ame­aça clara para a Igreja.

Não muito dife­rente, Geor­ges Minois em “A his­tó­ria do riso e do escár­nio” nos dá sub­sí­dio his­tó­rico de como de fato isso se reper­cu­tiu.

O Cris­ti­a­nismo é pouco pro­pí­cio ao riso. […]: o riso não é natu­ral no Cris­ti­a­nismo, reli­gião séria por exce­lên­cia. Suas ori­gens, seus dog­mas, sua his­tó­ria o pro­vam. Para come­çar­mos, o mono­teísmo estrito exclui o riso do mundo divino. Do que pode­ria rir um Ser todo-pode­roso, per­feito, que se basta a si mesmo, sabe tudo, vê tudo e pode tudo?” 

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No filme “O Nome da Rosa”, o medo da igreja em rela­ção ao cômico é muito claro.

Pen­se­mos bem nos con­tras­tes e efei­tos do cômico. A razão, até certa medida, é mani­pu­lá­vel e retém para pro­du­zir um efeito ético, prin­ci­pal­mente na soci­e­dade atual, uma rela­tiva par­cimô­nia.

Isso sig­ni­fica que ela lida com as pro­ble­má­ti­cas tendo em vista ava­liá-las com pon­de­ra­ção.

Veja que tal coisa não ocorre da mesma forma no cômico que poderá, como bem qui­ser, de acordo com seu humor e arbi­tra­ri­e­dade, jul­gar as coi­sas e os fatos por prin­cí­pios, ora esté­ti­cos, ora movi­dos por uma des­con­tro­lada pie­guice, e des­truir bem como qui­ser o que não for agra­dá­vel para si. 

Nessa his­tó­ria, quem detém grande parte da auto­ria do cômico? A arte.

Por­tanto, reco­nhe­ci­da­mente a arte vai ser um grande ini­migo da ver­dade, a qual seria as ins­ti­tui­ções de poder como a Igreja e o Estado, por­que não se impor­tam pro­pri­a­mente com sua vera­ci­dade ou fal­si­dade, mas com o que traz diver­ti­mento e pra­zer.

Por isso, grande parte delas vai se orgu­lhar das men­ti­ras, das más­ca­ras, do palhaço. Vão se pre­o­cu­par mais com a apa­rên­cia do que com a essên­cia, com gla­mour do que vir­tude, com pai­xões que inte­li­gên­cia. Sem sequer ten­ta­rem bus­car um efeito peda­gó­gico social ou moral atra­vés dela.

 

O riso e o caos

Pelo que vimos até agora, o riso esconde algo caó­tico em seu cará­ter. Mas nem por isso vamos repu­diá-lo, motivo pelo qual ele tem, pelas suas várias rou­pa­gens, uma forte rela­ção com as nos­sas sen­sa­ções que, a devi­das res­tri­ções, não pode­mos negar a fim de não fazer, da supre­ma­cia da razão, algo abso­luto e dita­to­rial.

Por isso, se para Igreja o riso for algo do diabo, ire­mos repre­sentá-lo; se para o Estado for algo irra­ci­o­nal, ire­mos dan­çar. O riso, em última ins­tân­cia, é o para­doxo, a con­tra­di­ção evo­cada pelo risí­vel que nos dará, em cer­tos momen­tos, uma expres­são para a vida.


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Victor Sado
Tem a impressão meio vaga de si, aqui e acolá é uma pessoa diferente. Não é muito estático por definição, mas tem medo de mudanças. Vê muita sabedoria em pessoas que agem conforme pensam e, sobretudo, daquelas que possuem um charme formal e vulgar na sua forma de estar. Aprecia, com muito prazer, café com chocolate depois do almoço. Escreve como fuga ou somente porque acha chique.

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