Por Dr. Raymond Boisvert


“Tudo o que você pode comer.” e “Cerveja gelada.” são slogans feitos para atrair, quando deveriam, na verdade, repelir.

O que há com a gente, que achamos atraente o apelo no alimento pela quantidade; em um líquido tão gelado de modo que as sutilezas do sabor desapareçam?

Por um longo período, a avaliação, determinando o que é mais digno de seleção, foi dominada por temas familiares: moderação, limite e equilíbrio. Tome os antigos conselhos gregos: “Conhece a ti mesmo” e “Nada em Excesso.

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Estes estão intimamente relacionados.

Ao conhecer a nós mesmos, (1) percebemos a importância de alcançar a moderação, o ideal entre os extremos. Por sua vez, a moderação faz pouco sentido sem (2) uma apreciação por limites e (3) um senso de múltiplas variáveis que têm de ser mantidas em equilíbrio.

O mundo de alimentos oferece bons exemplos: sal, açúcar, gordura. Cada um deles é bom, com moderação, dentro de limites, como parte de uma dieta equilibrada.

A filosofia do “nada em excesso” prevaleceu por um longo período. Como qualquer posição, pode ser empurrada para excessos de si própria. “Limites” se transformam em estruturas sociais rígidas e códigos morais opressivos.

Assim o mundo moderno, pós-renascentista, foi inaugurado por um desafio aos limites. A era moderna foi libertária. Liberdade, isto é, rejeitando limites, restrições e limitações, tornou-se o maior bem.liberdade-libertacao | O Prazer de Comer Com Moderação - GEDBioética.

Um resultado positivo foi a criação de repúblicas democráticas. Porém, mais uma vez, a regra “nada em excesso” veio a ser violada. Não apenas violada, mas a própria regra foi questionada.

Limites tornaram-se intrinsecamente ruins. Tudo precisava ser transgredido, subvertido e superado. Temos aqui um padrão: o exagero. Tentativas apropriadas de reforma acabam sendo dominadas por simplificações e atalhos.

Nada oferece um atalho mais conveniente do que medidas quantitativas. Tal movimento também ajuda a incentivar uma outra tentação humana: a fuga da responsabilidade. Em vez de responsabilidade, procuramos algoritmos puros e fórmulas fáceis de seguir.

A posição do “nada em excesso” dificulta a fuga da responsabilidade. A moderação, por sua natureza, é um alvo elusivo. O sucesso depende de muitos fatores: circunstâncias individuais, o conjunto certo de ideais, tradição, experiência e provas de especialistas.

Esta mistura dificilmente fornece um claro e simplista ‘basta seguir este’ algoritmo. Em outras palavras, a incerteza e ansiedade são incorporadas no modelo do “nada em excesso”.

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Como contornar a incerteza? Minimizar a ansiedade? Reduzir a responsabilidade? Simples: abandone a filosofia do “nada em excesso” e adote uma abordagem de “desafio dos limites e busca de medidas quantitativas”.

Algo “bom” agora pode significar (a) ignorar os limites, buscando sempre superá-los, (b) ignorar o equilíbrio por meio da maximização de um resultado, e (c) ignorar a moderação, orientando-se por meio de medidas quantitativas.

O cientista social e analista de opinião pública Daniel Yankelovich descreveu essa última estratégia:

“O primeiro passo é medir qualquer coisa que possa ser facilmente medida. Tudo bem até aqui, na medida do possível.

O segundo passo é desconsiderar o que não pode ser facilmente medido ou dar-lhe um valor quantitativo arbitrário. Isto é artificial e ilusório.

O terceiro passo é a presunção de que, se não pode ser medido facilmente, realmente não é importante. Esta é a cegueira.

O quarto passo é dizer que aquilo que não pode ser facilmente medido realmente não existe. Isso é suicídio.”

O terceiro passo é onde “tudo que você pode comer” e “cerveja gelada” se encaixam. A simplificação, o atalho, é claro: o melhor “negócio” fornece o maior volume de comida pelo preço; a melhor cerveja é a gelada ao máximo.

Ambos os padrões são mensuráveis. Ambos estão limitados a um único fator. Ambos rejeitam limites. Nenhum almeja o ideal entre os extremos. Ambos, na verdade, identificam algo “bom” como a rejeição da moderação.

Então por que somos atraídos por esses convites? Nós assumimos uma atitude sobre “conhecer a si mesmo” que é bastante diferente da “nada em excesso”.

O autoconhecimento atual é um conjunto de desejos que buscam satisfação. A “boa” vida é aquela que maximiza a satisfação dos desejos, quebra limites, e encontra conforto em padrões quantitativos.

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Em suma, a resposta de hoje para “conhecer a si mesmo” é “Eu sou um consumidor.”

O “cidadão” de repúblicas antigas e modernas deu lugar ao “consumidor”. “Tudo o que você pode comer” acaba por ser um canto de sereia. É um chamado para sentir-se bem, não deixando os outros limitarem você.

No final, porém, Nêmesis, a deusa grega da punição, retorna. A subversão dos limites da comida vem com um custo não monetário inevitável: sobrepeso e prejuízo à saúde.

Nosso sistema de valor é muito distorcido. Sinais como “Tudo o que você pode comer” e “cerveja gelada” deveriam enviar um sinal claro: fique longe.

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