Pintura de mulher deitada com seu filho por cima. Texto de Natalia Marques, intitulado: Maternidade, feminismo e julgamento

Coisa de Mulherzinha

Em Sociedade por Clarissa de BaumontComentário

 “Todos esses que aí estão
Atra­van­cando o meu cami­nho,
Eles pas­sa­rão.
Eu pas­sa­ri­nho!”.

- Mário Quin­tana

Supo­nho que mui­tas mulhe­res ouvi­ram nal­gum momento de sua vida algo como “você diz isso por­que é mulher”, e tive­ram a sen­sa­ção como já tive de que isso é dito para des­qua­li­fi­car nosso argu­mento. Ouvir isso é quase como escu­tar o eco dos enqua­dra­men­tos de nos­sas ances­trais em qua­dros dis­for­mes de his­te­ria. “Você diz isso por­que é mulher”, “você age desse modo por ser mulher”, é como se sig­ni­fi­casse: evi­den­te­mente, você age de um modo menos certo e fala coi­sas menos váli­das que um homem, pois o pen­sa­mento mas­cu­lino é o parâ­me­tro de valia das ações e das pala­vras.

Quando era ado­les­cente, eu não era muito paci­ente com con­versa de “meni­ni­nha”. Pre­fe­ria con­ver­sar com meus ami­gos meni­nos. Eu me sen­tia orgu­lhosa quando me acha­vam dife­rente das outras meni­nas. Ouvir que algo que dis­sesse deri­vava do fato de ser menina era uma ofensa para mim. Eu que­ria ser uma pes­soa. Uma pes­soa que, ape­sar de ser mulher, fosse tão boa quanto um homem. Se o que eu dis­sesse não se pare­cesse com a argu­men­ta­ção raci­o­nal e lógica de um homem, se fosse tomado como uma diva­ga­ção emo­ci­o­nal femi­nina deri­vada de uma con­fu­são hor­mo­nal infe­rior, sen­tia-me ultra­jada.

Não per­ce­bia que me movia pela via errada para alcan­çar o que bus­cava.

Pela via equi­vo­cada por­que não há nada de errado em dizer algo por ser mulher. Apa­ren­te­mente, quer-se uma mulher que se pareça com uma quando con­vier, mas rejeita-se o femi­nino quando ele é incon­ve­ni­ente, quando con­fronta o padrão mas­cu­lino. Você pode bem ser mulher e agir como mulher, con­tanto que isso sirva ao uni­verso mas­cu­lino. Do mesmo modo como você pode ser gay, con­tanto que não expresse femi­ni­li­dade — que se con­te­nha, afi­nal de con­tas, o que está ligado ao ima­gi­ná­rio do que seria femi­nino é infe­rior e deve ser o mais pos­sí­vel supri­mido. Isso é o que está nas entre­li­nhas das nos­sas rela­ções.

Como uma Mulherzinha

Foto por Jonathan Santhus

E, para pro­var o meu valor, eu acei­tava as entre­li­nhas. As mulhe­res tem de dar pro­vas cons­tan­tes de que são tão ou mais inte­li­gen­tes e tão ou mais capa­zes que os homens de fazer algo, em todos os espa­ços soci­ais. São quase que inva­ri­a­vel­mente vis­tas pri­mei­ra­mente como uma espé­cie de peça deco­ra­tiva, para não dizer outra coisa. De modo que, tal­vez como mui­tas, eu me con­fron­tei com a neces­si­dade de ultra­pas­sar a bar­reira de ser vista antes de tudo como mulher para ser acre­di­tada. E isso ape­sar de me pare­cer com uma, de me ves­tir como uma, de me mover como uma, o que me cau­sava cons­tran­gi­mento e difi­cul­dade, como se esti­vesse sendo acu­sada de ser mulher a todo ins­tante e não pudesse mere­cer cré­dito por isso tanto quanto o homem que “his­to­ri­ca­mente” criou a ciên­cia, as artes, e é o ser que cons­trói e pensa por exce­lên­cia, enquanto ela é o outro diante dele.

No entanto, não há abso­lu­ta­mente nada de errado em ser e agir como uma mulher. E nenhuma mulher jamais pre­ci­sará ado­tar o parâ­me­tro mas­cu­lino como ideal de igual­dade. Como me disse um grande amigo, os índios não tem que se ves­tir para terem valor diante dos por­tu­gue­ses; os por­tu­gue­ses que se pelem! Isso é, o empo­de­ra­mento não está em modi­fi­car a si pró­prio — ao inverso, está em acei­tar e afir­mar as pró­prias carac­te­rís­ti­cas que tem valor intrín­seco. A autora Cecí­lia Oli­veira falou bri­lhan­te­mente nisso em outro con­texto, no texto “Olha, eu sou da pele preta: gra­ças a deus!”. É exa­ta­mente isso, e pode­mos esten­der para dizer que somos mulhe­res, gra­ças a deus. Ser mulher não torna nin­guém melhor ou pior. Dizer algo ou fazer algo por­que se é mulher tam­pouco, não impor­tando se com isso a pes­soa que fala está se refe­rindo a qual­quer coisa que entenda como natu­ral ou a qual­quer coisa cul­tu­ral, pois o efeito é o mesmo.

Não é o aban­dono, mas a apro­pri­a­ção do que se é que nos empo­dera. Sim, falo coi­sas por­que sou mulher, faço coi­sas por­que sou mulher e minha sen­si­bi­li­dade não tem menos valor, nem o modo como eu me movi­mento no mundo. Ser mulher carac­te­riza meu ponto de vista e par­ti­cipa de minha defi­ni­ção enquanto pes­soa, mas não sou menos pes­soa por ser mulher. E não há nem fra­gi­li­dade nem infe­ri­o­ri­dade no femi­nino, há o menos­prezo que criou con­cei­tos fal­sos. Acei­tar-se e tor­nar-se mulher — mais que isso, apro­xi­mar-se aos pou­cos de si mesma enquanto indi­ví­duo único — é aban­do­nar esses pre­con­cei­tos e viver a rea­li­dade de que as dis­tin­ções e hie­rar­quias for­ja­das são o que há de frá­gil. Assim, com leveza e sua­vi­dade, sopra­mos as car­tas do bara­lho que nos foram pos­tas, uma a uma, e nos livra­mos disso tudo, para que siga­mos em frente tão for­tes quanto somos.


Clarissa de Baumont
Formada em Direito pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul e servidora pública em execução penal. Teve a alma aprisionada pela arte ao nascer e foi condenada a enxergar poesia no mundo. Por isso, topa (quase) qualquer negócio artístico. Toca piano para inspirar, canta para expirar e escreve para ser livre.

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