“Todos esses que aí estão
Atravancando o meu caminho,
Eles passarão.
Eu passarinho!”.

– Mário Quintana

Suponho que muitas mulheres ouviram nalgum momento de sua vida algo como “você diz isso porque é mulher”, e tiveram a sensação como já tive de que isso é dito para desqualificar nosso argumento. Ouvir isso é quase como escutar o eco dos enquadramentos de nossas ancestrais em quadros disformes de histeria. “Você diz isso porque é mulher”, “você age desse modo por ser mulher”, é como se significasse: evidentemente, você age de um modo menos certo e fala coisas menos válidas que um homem, pois o pensamento masculino é o parâmetro de valia das ações e das palavras.

Quando era adolescente, eu não era muito paciente com conversa de “menininha”. Preferia conversar com meus amigos meninos. Eu me sentia orgulhosa quando me achavam diferente das outras meninas. Ouvir que algo que dissesse derivava do fato de ser menina era uma ofensa para mim. Eu queria ser uma pessoa. Uma pessoa que, apesar de ser mulher, fosse tão boa quanto um homem. Se o que eu dissesse não se parecesse com a argumentação racional e lógica de um homem, se fosse tomado como uma divagação emocional feminina derivada de uma confusão hormonal inferior, sentia-me ultrajada.

Não percebia que me movia pela via errada para alcançar o que buscava.

Pela via equivocada porque não há nada de errado em dizer algo por ser mulher. Aparentemente, quer-se uma mulher que se pareça com uma quando convier, mas rejeita-se o feminino quando ele é inconveniente, quando confronta o padrão masculino. Você pode bem ser mulher e agir como mulher, contanto que isso sirva ao universo masculino. Do mesmo modo como você pode ser gay, contanto que não expresse feminilidade – que se contenha, afinal de contas, o que está ligado ao imaginário do que seria feminino é inferior e deve ser o mais possível suprimido. Isso é o que está nas entrelinhas das nossas relações.

Como uma Mulherzinha
Foto por Jonathan Santhus

E, para provar o meu valor, eu aceitava as entrelinhas. As mulheres tem de dar provas constantes de que são tão ou mais inteligentes e tão ou mais capazes que os homens de fazer algo, em todos os espaços sociais. São quase que invariavelmente vistas primeiramente como uma espécie de peça decorativa, para não dizer outra coisa. De modo que, talvez como muitas, eu me confrontei com a necessidade de ultrapassar a barreira de ser vista antes de tudo como mulher para ser acreditada. E isso apesar de me parecer com uma, de me vestir como uma, de me mover como uma, o que me causava constrangimento e dificuldade, como se estivesse sendo acusada de ser mulher a todo instante e não pudesse merecer crédito por isso tanto quanto o homem que “historicamente” criou a ciência, as artes, e é o ser que constrói e pensa por excelência, enquanto ela é o outro diante dele.

No entanto, não há absolutamente nada de errado em ser e agir como uma mulher. E nenhuma mulher jamais precisará adotar o parâmetro masculino como ideal de igualdade. Como me disse um grande amigo, os índios não tem que se vestir para terem valor diante dos portugueses; os portugueses que se pelem! Isso é, o empoderamento não está em modificar a si próprio – ao inverso, está em aceitar e afirmar as próprias características que tem valor intrínseco. A autora Cecília Oliveira falou brilhantemente nisso em outro contexto, no texto “Olha, eu sou da pele preta: graças a deus!“. É exatamente isso, e podemos estender para dizer que somos mulheres, graças a deus. Ser mulher não torna ninguém melhor ou pior. Dizer algo ou fazer algo porque se é mulher tampouco, não importando se com isso a pessoa que fala está se referindo a qualquer coisa que entenda como natural ou a qualquer coisa cultural, pois o efeito é o mesmo.

Não é o abandono, mas a apropriação do que se é que nos empodera. Sim, falo coisas porque sou mulher, faço coisas porque sou mulher e minha sensibilidade não tem menos valor, nem o modo como eu me movimento no mundo. Ser mulher caracteriza meu ponto de vista e participa de minha definição enquanto pessoa, mas não sou menos pessoa por ser mulher. E não há nem fragilidade nem inferioridade no feminino, há o menosprezo que criou conceitos falsos. Aceitar-se e tornar-se mulher – mais que isso, aproximar-se aos poucos de si mesma enquanto indivíduo único – é abandonar esses preconceitos e viver a realidade de que as distinções e hierarquias forjadas são o que há de frágil. Assim, com leveza e suavidade, sopramos as cartas do baralho que nos foram postas, uma a uma, e nos livramos disso tudo, para que sigamos em frente tão fortes quanto somos.


escrito por:

Clarissa de Baumont

Formada em Direito pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul e servidora pública em execução penal. Teve a alma aprisionada pela arte ao nascer e foi condenada a enxergar poesia no mundo. Por isso, topa (quase) qualquer negócio artístico. Toca piano para inspirar, canta para expirar e escreve para ser livre.


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