O Clube da Luta é um filme sobre homens de verdade

O Clube da Luta é um filme sobre homens de verdade

Em Comportamento por Victor LisboaComentário

1. A confraria dos homens castrados

Não importa o nome do sujeito. Por isso, vamos chamá-lo de “pobre coi­tado”, certo?

Pois bem, ima­gine que o pobre coi­tado tem insô­nia e só con­se­gue dor­mir caso se abrace, sema­nal­mente, a um homem cas­trado e com seios. Embora hete­ros­se­xual, esse outro sujeito per­deu suas bolas na ten­ta­tiva de aten­der o ideal de potên­cia mas­cu­lina da soci­e­dade moderna — você sabe, bíceps explo­dindo e coi­sas do tipo.

E aí temos nosso amigo pobre coi­tado, abra­çado junto aos seios do outro cara, con­fra­ter­ni­zando com um grupo de homens cas­tra­dos e cho­rando reli­gi­o­sa­mente todas as sema­nas. Isso deixa nosso herói satis­feito, por mais estra­nho que pareça. Mas, para ser aceito na comu­ni­dade dos homens cas­tra­dos, ele pre­cisa fin­gir tam­bém ser tam­bém um eunuco.

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Ele gosta de mim por­que pensa que meus tes­tí­cu­los tam­bém foram remo­vi­dos”

Con­fessa-nos o pobre coi­tado

É assim que começa Clube da Luta, livro de Chuck Palah­niuk publi­cado em 1996. Ape­nas três anos depois, o livro resul­tou no cele­brado e con­tro­verso filme de David Fin­cher. Ambos, filme e livro, foram suces­sos de público e de crí­tica. Mais que isso, tor­na­ram-se obras icô­ni­cas sobre a iden­ti­dade mas­cu­lina e a sub­ver­são pos­sí­vel nos dias de hoje.

Este artigo, não é uma crí­tica da obra de Chuck ou do tra­ba­lho de Fin­cher, não é uma sinopse e nem pre­tende entre­gar as sur­pre­sas da trama. Aqui, vamos ten­tar des­co­brir a exata natu­reza da men­sa­gem de Palah­niuk e os moti­vos pelos quais essa men­sa­gem, mesmo quando não é total­mente com­pre­en­dida, exerce uma curi­osa atra­ção no público mas­cu­lino.

E a chave para sua com­pre­en­são é olhar para além das apa­rên­cias. Por exem­plo, na his­tó­ria ori­gi­nal, há moti­vos per­fei­ta­mente lógi­cos e razoá­veis para o pobre coi­tado (o nome do pro­ta­go­nista não é dito) estar, no iní­cio da nar­ra­tiva, abra­çado a um homem cas­trado. Mas os moti­vos e as expli­ca­ções não nos impor­tam. O que importa, aqui, é a ima­gem. E o que ela diz res­peito a mui­tos homens de hoje em dia.

Pois acre­dite: o pobre coi­tado não é um per­so­na­gem esqui­sito oriundo da mente de um escri­tor extra­va­gante. É, na ver­dade, o retrato da rea­li­dade con­tem­po­râ­nea. A ima­gem do pobre coi­tado bus­cando acei­ta­ção em um grupo de cas­tra­dos é, tal­vez, a metá­fora mais irô­nica até hoje cri­ada sobre o homem moderno, e sobre as razões pelas quais ele é, em mui­tos aspec­tos, ainda um menino.

Você, lei­tor, cruza pelo pobre coi­tado diver­sas vezes por dia nas cal­ça­das. Fica ao seu lado no ôni­bus, nas filas e nos ele­va­do­res. Tal­vez ele seja seu vizi­nho. Ou seu colega de tra­ba­lho. E, se não tomar­mos cui­dado, pode­mos des­co­brir um dia, no espe­lho, que o pobre coi­tado somos nós pró­prios e que esta­mos, em nosso dia-a-dia, no tra­ba­lho, na famí­lia, na facul­dade, fin­gindo ser­mos eunu­cos para ser­mos acei­tos no grupo dos homens que per­de­ram con­tato com sua iden­ti­dade mas­cu­lina.

Mas não se engane. Ser ou não cas­trado não tem nada a ver com ser o “fodão”, o “pega­dor” e muito menos ser um sujeito que não leva desa­foro para casa. Clube da Luta, ao con­trá­rio do que o título sugere, não é a his­tó­ria de algum tipo de UFC, não des­creve luta­do­res que bus­cam a vitó­ria em um cam­pe­o­nato clan­des­tino. Clube da Luta não é sobre saber ven­cer, não é sobre sequer bater, mas sobre saber apa­nhar do modo cor­reto: apa­nhar da vida sem se cur­var, tor­nar-se orgu­lhoso de suas cica­tri­zes e das his­tó­rias que elas tes­te­mu­nham.

É, na ver­dade, um filme sobre a enfer­mi­dade que impede mui­tos homens de cres­ce­rem.

Edward Norton, David Fincher e Brad Pitt

Edward Nor­ton, David Fin­cher e Brad Pitt

Mas para enten­der­mos o diag­nós­tico da doença e, tam­bém, qual seria a cura pos­sí­vel, pre­ci­sa­mos falar sobre as ideias que três sujei­tos cha­ma­dos “Robert” apre­sen­ta­ram pou­cos anos antes de Chuck Palah­niuk escre­ver seu livro.

2. O cavaleiro medieval de Robert Johnson

Sete anos antes de Clube da Luta ser publi­cado, sur­giu nas livra­rias ame­ri­ca­nas um pequeno e obs­curo livro inti­tu­lado He (“ele”). Tra­tava-se de um ensaio, no qual seu autor, Robert John­son, pro­pu­nha que a lenda da busca do Santo Graal pelo cava­leiro Sir Per­ci­val era, na ver­dade, uma fábula medi­e­val sobre a trans­for­ma­ção dos meni­nos em homens, em cuja trama encon­tra­ría­mos, ocul­tas, as cha­ves para a solu­ção de mui­tas ques­tões que desa­fiam os homens de hoje em dia.

Sir Per­ci­val, segundo a lenda, era um cava­leiro da Távola Redonda que havia sido cri­ado por sua mãe, sem a par­ti­ci­pa­ção do pai e afas­tado do mundo mas­cu­lino, mundo esse carac­te­ri­zado por bata­lhas e due­los (qual­quer seme­lhança com Clube da Luta não é mera coin­ci­dên­cia). Pro­te­gido da rea­li­dade gra­ças ao zelo materno, Sir Per­ci­val foi obri­gado a, repen­ti­na­mente, con­fron­tar-se com o mundo dos homens, repre­sen­tado pelos cava­lei­ros do Rei Arthur e pela Corte do Rei Amfor­tas, sem qual­quer ori­en­ta­ção de como agir senão seguindo os ingê­nuos con­se­lhos de sua mãe, con­se­lhos esses que o fazem agir impro­pri­a­mente.

Para o autor de He, os homens de hoje em dia, assim como o Sir Per­ci­val da lenda, esta­riam con­fu­sos a res­peito de sua iden­ti­dade mas­cu­lina, pois os pais foram, em sua mai­o­ria, inca­pa­zes de ajudá-los a fazer cor­re­ta­mente a tra­ves­sia do mundo materno para o mundo dos homens.

"The Temptation of Sir Percival", de Arthur Hacker.

The Temp­ta­tion of Sir Per­ci­val”, de Arthur Hac­ker.

Os pais moder­nos, segundo Robert John­son, ficam muito tempo afas­ta­dos dos lares, sub­me­ti­dos que estão a jor­na­das de tra­ba­lho que con­so­mem suas ener­gias. Em suas pou­cas horas de folga, estão exaus­tos. Essa é uma situ­a­ção já ana­li­sada, há pouco tempo, aqui mesmo, no PdH. A cri­a­ção dos filhos, por­tanto, fica­ria ao cargo das mães (se não tra­ba­lha­rem), das avós e das pro­fes­so­ras na escola.

Isso sem falar de casais divor­ci­a­dos, cuja guarda dos filhos seria das mães, e de outras famí­lias em que os pais, embora fisi­ca­mente pre­sen­tes, estão emo­ci­o­nal­mente dis­so­ci­a­dos da cri­a­ção de seus filhos.

A his­tó­ria do nosso amigo, o pobre coi­tado, pode ser con­si­de­rada a lenda de um cava­leiro moderno, de um Sir Per­ci­val sem arma­dura e sub­me­tido, pela soci­e­dade moderna, a um ames­qui­nha­mento de sua mas­cu­li­ni­dade jamais cogi­tado mesmo nas mais mira­bo­lan­tes fábu­las da Idade Média.

3. A sociedade frustrada de Robert Moore

O per­so­na­gem Tyler Dur­den que, em Clube da Luta, salva o pobre coi­tado de sua triste situ­a­ção, tem por hob­bie inse­rir ima­gens por­no­grá­fi­cas (algo pró­prio do mundo adulto) em fil­mes para cri­an­ças. Isso parece doen­tio se tra­tar­mos Clube da Luta como uma his­tó­ria que se passa no mundo real. Mas se aten­tar­mos ao fato de que esta­mos, na ver­dade, diante de uma fábula sobre os homens atu­ais, per­ce­be­mos que esse per­so­na­gem tem por hábito inse­rir, no ima­gi­ná­rio infan­til, sinais de que há um mundo adulto a ser enfren­tado.

Cinco anos antes de Clube da Luta ser publi­cado, Robert Moore escre­veu o livro Rei, Guer­reiro, Mago e Amante, no qual propôs a ideia de que nossa soci­e­dade não é exa­ta­mente patri­ar­cal, mas, na ver­dade, alfa-patri­ar­cal: não reprime ape­nas as mulhe­res (o que já seria ruim o bas­tante), mas, como um líder enciu­mado, oprime tam­bém os homens.

A lógica interna desse sis­tema seria a mesma que faz o líder de um grupo de maca­cos tomar sexu­al­mente todas as fêmeas e, ao mesmo tempo, sub­ju­gar os demais machos, que só ficam obser­vando, frus­tra­dos, a farra de seu líder. Como um enorme ani­mal-alfa, os cen­tros de poder dessa soci­e­dade (os cen­tros finan­cei­ros e polí­ti­cos) atu­a­riam tal qual um chi­panzé que, para man­ter-se no topo da hie­rar­quia, pre­cisa repri­mir os impul­sos de todos os demais machos, a fim de evi­tar a com­pe­ti­ção por sua posi­ção domi­nante.

O animal-alfa é uma espécie de deus entre os homens (Imagem: "A estátua de Zeus em Olímpia")

O ani­mal-alfa é uma espé­cie de deus entre os homens (Ima­gem: “A está­tua de Zeus em Olím­pia”)

Não se trata, claro, de uma cons­pi­ra­ção orga­ni­zada de exe­cu­ti­vos que, sen­ta­dos em uma grande mesa em Wall Street deci­dem “ei, vamos cas­trar os outros caras para ficar­mos por cima”. Nada mais errado, nesse assunto, do que apos­tar em teo­rias cons­pi­ra­tó­rias ou em ide­o­lo­gias para­noi­cas e anti­ca­pi­ta­lis­tas.

Não há nada de inten­ci­o­nal e tam­pouco de econô­mico na ori­gem desse fenô­meno. A “cas­tra­ção” social dos homens é, ape­nas, a con­sequên­cia natu­ral das esco­lhas que, gra­du­al­mente, nos­sos ante­pas­sa­dos fize­ram ao longo de sécu­los.

E a melhor forma de “cas­trar” os homens é mantê-los como meni­nos pelo resto de suas vidas.

Essa manu­ten­ção dos homens no estado infan­til ocorre de duas for­mas. A pri­meira é eli­mi­nando os ritu­ais soci­ais que deve­riam mar­car e regis­trar o momento em que dei­xa­mos de ser meni­nos para nos tor­nar­mos homens. A segunda é esti­mu­lando os meni­nos a man­ter-se nessa con­di­ção atra­vés do culto aos brin­que­dos: pro­du­tos de con­sumo e sím­bo­los de sta­tus que, iro­ni­ca­mente, repre­sen­tam justo o que o ima­gi­ná­rio do menino supõe ser “coisa de homem”: ideias de potên­cia, de viri­li­dade e de cora­gem.

Na busca por pos­suir esses “brin­que­dos”, os homens tor­nam-se pos­suí­dos por eles.

Mas isso nunca fun­ci­ona per­fei­ta­mente, pois os meca­nis­mos soci­ais são imper­fei­tos. Mesmo quando adqui­rem todos os brin­que­dos que seu dinheiro pode com­prar, os homens, ainda meni­nos, sen­tem-se des­con­ten­tes, pres­sen­tem que algo vai mal em suas vidas.

No coti­di­ano dos pobres coi­ta­dos, seu des­con­forto com o fato de ainda serem meni­nos pro­duz diver­sas espé­cies de dis­fun­ções: insô­nia, estresse, impo­tên­cia, com­por­ta­mento “wor­kaho­lic”, alco­o­lismo, endi­vi­da­mento exces­sivo, ansi­e­dade, depres­são — a lista é imensa. Há sem­pre um ruído de fundo, uma peça do que­bra-cabeça que não se encaixa na ima­gem geral, lem­brando aos meni­nos que já deve­riam ter se tor­nado homens.

4. Os rituais de passagem de Robert Bly

Em Clube da Luta, o pobre coi­tado é res­ga­tado de sua triste situ­a­ção gra­ças a um con­junto de even­tos que, embora pare­çam casu­ais, for­mam, em seu con­junto, um pro­cesso. E esse pro­cesso, quando olhado com dis­tan­ci­a­mento, revela ser nada mais do que a repro­du­ção de um ritual de pas­sa­gem do estado de menino para o estado de homem. Algo muito pare­cido, em sua essên­cia, com os ritu­ais tri­bais que, pri­mi­ti­va­mente, mar­ca­vam o momento em que o menino saía do mundo da mãe e ingres­sava no mundo do pai e dos outros guer­rei­ros da aldeia.

Ritual de passagem de uma tribo da Papua Nova Guiné (Foto: Timothy Allen)

Ritual de pas­sa­gem de uma tribo da Papua Nova Guiné (Foto: Timothy Allen)

Em 1990, o poeta ame­ri­cano Robert Bly escre­veu o ensaio João de Ferro: um livro sobre homens. Uti­li­zando como pará­bola o conto “João de Ferro” dos Irmãos Grimm, Bly demons­trava que, dife­rente das anti­gas comu­ni­da­des tri­bais, a soci­e­dade moderna sofre de uma grave defi­ci­ên­cia: a falta de ritu­ais sig­ni­fi­ca­ti­vos.

Ritu­ais são impor­tan­tes por regis­tra­rem e cele­bra­rem a pas­sa­gem de uma etapa da vida para outra, con­fe­rindo sig­ni­fi­cado a esses momen­tos. Mais que isso, os ritu­ais, sendo tes­te­mu­nha­dos pela comu­ni­dade, tra­zem aos par­ti­ci­pan­tes a per­cep­ção con­tí­nua de que não são indi­ví­duos iso­la­dos, mas per­ten­cem a um grupo. Uma soci­e­dade sem ritu­ais, ou em que os ritu­ais se tor­na­ram meras for­ma­li­da­des, cerimô­nias vazias, é uma soci­e­dade onde há con­fu­sões entre os papéis: há homens agindo como meni­nospais agindo como filhos e pouca sen­sa­ção de per­ten­ci­mento à comu­ni­dade.

Em mui­tas anti­gas cul­tu­ras, inclu­sive em tra­di­ções tri­bais, havia ritu­ais des­ti­na­dos a mar­car cla­ra­mente a pas­sa­gem do menino para o mundo dos homens. Em algu­mas tri­bos ame­rín­dias, os homens fin­giam, ceri­mo­ni­al­mente, “rap­tar” os meni­nos dos bra­ços de suas mães, que simu­la­vam resis­tir e per­ma­ne­ciam cho­rando ceni­ca­mente enquanto ele se afas­tava.

Em geral, a cri­ança acre­di­tava na ence­na­ção, e era o sufi­ci­ente para dar-lhe o recado: o cor­dão umbi­li­cal emo­ci­o­nal foi cor­tado de vez.

Em outras tra­di­ções indí­ge­nas, os meni­nos sub­me­tiam-se a algum desa­fio em que deve­riam demons­trar bra­vura: pre­ci­sa­vam enfiar suas mãos em uma col­meia cheia de abe­lhas ou, então, ficar uma noite inteira sozi­nhos em uma flo­resta inós­pita. Ao final da pro­va­ção, eram aco­lhi­dos entre os homens como sendo um deles. A par­tir daquele momento, haviam dei­xado de ser meni­nos.

Uma das carac­te­rís­ti­cas de nossa soci­e­dade seria a falta de um ritual de pas­sa­gem, des­ti­nado a mar­car o momento em que um homem deixa de ser menino. Nesse aspecto, as mulhe­res teriam uma ligeira van­ta­gem em rela­ção a nós. Não só o pri­meiro ciclo mens­trual mar­ca­ria cla­ra­mente a pas­sa­gem bio­ló­gica para o mundo das mulhe­res, mas, tam­bém, a tran­si­ção emo­ci­o­nal seria cele­brada no ritual do “baile de debu­tan­tes” ou na famosa “festa de quinze anos” (em que a menina dança com todos os homens da famí­lia, situ­a­ção essa que, a uma mente cri­a­tiva e mali­ci­osa, daria o que pen­sar a res­peito de seu sig­ni­fi­cado sim­bó­lico).

Quanto aos meni­nos, eles pre­ci­sam se virar sozi­nhos. Com pais ausen­tes, seja emo­ci­o­nal­mente (alco­o­lismo, divór­cio) ou fisi­ca­mente (jor­nada de tra­ba­lho exces­siva), e sem qual­quer ritual no qual pos­sam per­ce­ber sua pas­sa­gem para o mundo dos homens, ten­dem a uni­rem-se para criar os seus pró­prios ritu­ais. É um movi­mento ins­tin­tivo, incons­ci­ente.

Todo homem já foi assim.

Todo homem já foi assim.

Por isso, segundo Robert Bly, temos tan­tos ado­les­cen­tes reu­nindo-se para pra­ti­ca­rem atos trans­gres­so­res, des­ti­na­dos a colo­car sua cora­gem a prova: jovens que fazem rachas, jovens que se tor­nam ski­nhe­ads, jovens que uti­li­zam tor­ci­das orga­ni­za­das como des­culpa para agre­dir mem­bros de times rivais.

Sem uma apro­va­ção de homens adul­tos cuja auto­ri­dade res­pei­tem, sem uma soci­e­dade que lhe ofe­reça ritu­ais de pas­sa­gem sig­ni­fi­ca­ti­vos, a solu­ção óbvia é cri­a­rem seus pró­prios ritu­ais.

Em Clube da Luta, a cura para a enfer­mi­dade de nosso amigo, o pobre coi­tado, con­siste em par­ti­ci­par de um grupo de homens que lutam entre si. Homens que eram, eles pró­prios, pobres coi­ta­dos. E o que os une, ini­ci­al­mente, é algo pri­mi­tivo, algo que com­par­ti­lha­mos com nos­sos ante­pas­sa­dos mais remo­tos: a pro­pen­são à vio­lên­cia física. Mas eles não uti­li­zam essa pro­pen­são ani­mal para machu­car seus ini­mi­gos, suas mulhe­res ou seus filhos. Não, eles são esper­tos e têm bom cora­ção. Por­tanto, uti­li­zam sua agres­si­vi­dade ins­tin­tiva para lutar entre si.

E não lutam para par­ti­ci­par de um cam­pe­o­nato. Sequer lutam para saí­rem vito­ri­o­sos da briga. Quem vence, quem ganha: isso não importa. Ao con­trá­rio, per­der uma luta, levar muita por­rada, parece, para aque­les homens, ser até mais impor­tante do que bater e ven­cer. Pois qual­quer um se com­porta da mesma forma quando sai vito­ri­oso. Qual­quer um, quando vence, mos­tra-se triun­fante, seja homem ou menino.

Mas só um homem é capaz de enfren­tar uma der­rota da qual não pode esca­par, só um homem man­tém a cabeça erguida quando apa­nha a ponto de ter que aban­do­nar a dis­puta, acei­tando que per­deu sem fazer disso o fim do mundo.

É por esse motivo que, aos “meni­nos” par­ti­ci­pan­tes do ritual, é neces­sá­rio lem­brar, a todo momento, que irão um dia mor­rer e que não são o cen­tro do uni­verso. É pre­ciso que­brar o fei­tiço que man­ti­nha os pobres coi­ta­dos pre­sos ao mundo materno. Como a mãe trata seu filho como sendo a coisa mais impor­tante do mundo, é natu­ral que a cri­ança acre­dite que é, de fato, alguém espe­cial, inven­cí­vel.

Uma das fun­ções do ritual de pas­sa­gem é rom­per com essa ilu­são ego­cen­trista, e con­fron­tar o menino com sua fali­bi­li­dade e mor­ta­li­dade.

O segundo passo da cura do pobre coi­tado (já não tão coi­tado assim) e de toda aquela legião que o acom­pa­nha, é par­ti­ci­par de pro­va­ções que tes­tam sua resis­tên­cia física e emo­ci­o­nal. Seja ficando de pé durante dias na frente de uma casa e ali se sujei­tando a todo tipo de ofen­sas pes­so­ais sem desis­tir, seja supor­tando a dor de uma ferida quí­mica em sua mão sem esca­par do sofri­mento, eles par­ti­ci­pam das eta­pas de um ritual que, ao final, con­ce­derá o que mais dese­jam: serem acei­tos no grupo dos homens e serem tra­ta­dos como tais.

Esse sen­ti­mento de “per­ten­cer à comu­ni­dade” é a con­clu­são do ritual de pas­sa­gem que leva meni­nos ao mundo dos homens. A sen­sa­ção de fazer parte de um grupo e de ser útil a esse grupo é indis­so­ciá­vel da expe­ri­ên­cia de ser um homem entre homens.

Mas uma comu­ni­dade não é uma orga­ni­za­ção estag­nada, que gira em torno de si mesma. Não é um meca­nismo como um reló­gio, mas uma estru­tura em movi­mento como um veí­culo. Uma comu­ni­dade não pode, ape­nas, garan­tir o con­forto e a segu­rança de seus mem­bros. Deve, tam­bém, cami­nhar na dire­ção de obje­ti­vos reco­nhe­ci­dos por todos como sig­ni­fi­ca­ti­vos, e atri­buir a cada mem­bro uma tarefa na rea­li­za­ção des­sas metas.

E o obje­tivo da nova comu­ni­dade cri­ada em Clube da Luta é mudar a soci­e­dade que os fazia tão infe­li­zes. Não se trata de des­truir os homens cas­tra­dos com os quais antes con­fra­ter­ni­za­vam, mas de res­gatá-los e con­vertê-los, tam­bém, de meni­nos em homens.

É curi­oso que a pri­meira regra do Clube da Luta seja não falar sobre o Clube da Luta. Só cri­an­ças não per­ce­bem que essa regra é uma isca ten­ta­dora e feita jus­ta­mente para as cri­an­ças a deso­be­de­ce­rem, como parte do pro­cesso de ques­ti­o­nar toda auto­ri­dade esta­be­le­cida. E o fato de que o Clube da Luta acaba se dis­se­mi­nando por todos os Esta­dos Uni­dos demons­tra que os seus mem­bros ainda são emo­ci­o­nal­mente infan­ti­li­za­dos — pois homens, afi­nal, sabem man­ter segre­dos.

5. O que Clube da Luta não mostra

"Não fale sobre o Clube da Luta", uma regra feita para ser quebrada.

Não fale sobre o Clube da Luta”, uma regra feita para ser que­brada.

Não vou, claro, reve­lar exa­ta­mente como Clube da Luta ter­mina. Mas posso con­cluir cha­mando a aten­ção para a cena final do filme (antes dos cré­di­tos, que fique claro) e o fato de que aquilo que apa­rece em pri­meiro plano não é visto em nenhum outro momento ao longo da his­tó­ria.

No iní­cio da his­tó­ria, o evento que abala a enga­nosa paz que o pro­ta­go­nista encon­tra entre os homens cas­tra­dos é o ingresso, no grupo, de um ele­mento dis­so­nante: uma mulher. A pre­sença de uma mulher, ali, entre homens, é tão con­tra­di­tó­ria que o pobre coi­tado fica per­tur­bado. Para pio­rar, essa mulher sabe que ele está fin­gindo, sabe que ele tem bolas.

E aí está um fato óbvio, sina­li­zado na fábula moderna que é Clube da Luta: um menino pre­cisa tor­nar-se homem por­que é isso que lhe per­mi­tirá rela­ci­o­nar-se com as mulhe­res de sua vida de uma forma inteira e autên­tica. Nenhuma mulher quer um menino de seu lado, nenhuma mulher quer ser mãe de seu homem.

Ao longo de Clube da Luta, não vemos homens, mas meni­nos ten­tando tor­nar-se homens. Isso por­que os per­so­na­gens não têm qual­quer tipo de envol­vi­mento emo­ci­o­nal entre si: eles lutam, tre­pam, fazem pla­nos e cola­bo­ram em uma silen­ci­osa cons­pi­ra­ção con­tra a soci­e­dade, mas não se com­pro­me­tem emo­ci­o­nal­mente um com os outros. Todo seu labor, durante a his­tó­ria, parece ser des­tru­tivo. Pior ainda: parece ser auto­des­tru­tivo. E pura des­trui­ção, pura revolta, é ainda coisa de cri­ança.

Den­tre as dife­ren­ças entre meni­nos e homens, uma das mais impor­tan­tes é que meni­nos não assu­mem o com­pro­misso de cui­dar daque­les que amam, pela sim­ples razão de que nin­guém espera que o façam. Meni­nos, por defi­ni­ção, são cui­da­dos por adul­tos. Um homem, ao con­trá­rio, ape­nas se torna homem quando passa a cui­dar dos outros, quando não foge do envol­vi­mento emo­ci­o­nal com as pes­soas, e assume a res­pon­sa­bi­li­dade de velar, de pro­te­ger e de estar ao lado daque­les que amam: sua com­pa­nheira, seus pais, seus filhos, seus ami­gos.

Homens cons­troem, homens pre­ser­vam o que é bom. Eles não des­troem indis­cri­mi­na­da­mente. Pre­fe­rem apri­mo­rar o que já existe, eli­mi­nando o que há de defei­tu­oso com cri­té­rio e res­peito à vida humana.

Isso a his­tó­ria de Clube da Luta não mos­tra. E não o faz por­que é a nar­ra­tiva de um ritual de pas­sa­gem de meni­nos que pre­ci­sam tor­nar-se homens. Quando isso ocorre, quando o ritual cum­pre sua fun­ção e é bem suce­dido, temos homens fei­tos, e a his­tó­ria acaba: a força sub­ver­siva e des­tru­tiva que os impul­si­o­nava a cres­cer deve ser des­car­tada, para que os homens vejam o reflexo de sua matu­ri­dade nos olhos de suas com­pa­nhei­ras, e com elas pas­sem a cons­truir.

Victor Lisboa
Editor do site Ano Zero.

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