Primeiro: A Meditação é como roupa.

Para cada ser humano no planeta há uma meditação – a sua meditação. Ela é como uma roupa feita sob medida: a meditação que cai bem em você não é a meditação que é confortável e ajustada para o corpo e mente de outra pessoa.

Mas há elementos comuns a toda meditação, como há elementos comuns a todas as roupas.

E esses elementos em comum eu identifiquei após minha trajetória pessoal por várias escolas budistas, ao longo de mais de duas décadas. Comecei com uma grande simpatia pelo Zen Budismo. Foi quando acompanhei o trabalho de Alfredo Aveline na revista budista Bodisatva, antes de ele trocar o Zen pelo Budismo Tibetano e tornar-se o Lama Padma Santem (numa curiosa combinação de mahayana sob a chancela de um grupo vajrayana, da linhagem nyingma). Em seguida, estudei brevemente na escola tibetana de Tsongkhapa. Por fim, retornei ao Zen Budismo com orientação da Monja Ishin, uma americana que resolveu se radicar em Porto Alegre após anos de formação no Japão, e fiz algumas aulas de meditação do Professor Monteiro, que ficou dezoito anos no Japão, fazendo mestrado e doutorado sobre o Budismo na China.

Se há palavra que reflete essa minha trajetória é “errática”. Como bom ocidental, armo acampamento em torno de certo aprendizado e depois passo para outro tipo de ensinamento, de preferência algum que conteste ou ao menos contraste com o anterior. Não professo qualquer religião em particular, e tentei abstrair desses aprendizados o que pode ser praticado e compreendido para além da moldura de dogmas e princípios espirituais.

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Mas desconfio que, durante essa trajetória, descobri a roupa feita sob medida para mim. A meditação que mais se encaixa com minha vivência pessoal. Se ofereço minha experiência agora, é porque meditação é como roupa: cada um tem a sua, mas todas as roupas tem a mesma utilidade.

Segundo: Meditação é como exercício físico.

E quando falamos de meditação, é disso que tratamos: de utilidade. Por favor, elimine de sua cabeça qualquer ideia que associe meditação budista a algo “transcendente” (como aqueles que pregam a tal “meditação transcendental” gostam de supor), a algo “místico”, “espiritualizado” ou, pior ainda, religioso. Essas são as principais ideias que impedem as pessoas de conseguirem verdadeiro benefício com a meditação budista: a crença de que a meditação levará você a algum estado de êxtase místico, a uma posição de superioridade espiritual em contraponto ao mundo “material”.

Não, a meditação não tem nada a ver com uma fantasiosa fuga para reinos metafísicos, com o suposto despertar de um sonho que seria essa realidade em que vivemos. A meditação é um exercício para manter sua mente aqui, neste instante do mundo concreto no qual você e eu estamos imerso e ao qual pertencemos.

A meditação é uma prática, um exercício para a mente que potencializa suas faculdades da mesma forma que há exercícios físicos que potencializam nosso tônus muscular e elasticidade.

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E, como o exercício físico, a meditação depende de ser praticada com frequência. Assim como o tônus muscular só surge com o exercício repetido ao longo de semanas, até mesmo meses, os efeitos da meditação na consciência humana só surgem com paciência e disciplina.

Mas qual é a assiduidade ideal da meditação? Por quanto tempo ela deve durar? Bem, isso depende, pois aqui é bom lembrar daquela comparação que fizemos com uma roupa: cada um tem uma frequência e tempo de meditação que se ajusta perfeitamente à sua pessoa. Alguns dizem que o ideal é meditar todos os dias, em duas ocasiões, de quinze minutos a meia hora. Há inclusive pessoas que participam de retiros em que se medita por dias a fio, praticamente durante todo o tempo em que não se está dormindo ou satisfazendo outras necessidades fisiológicas.

Para mim, pelo menos, a “roupa meditativa” ideal é todos os dias úteis, durante vinte minutos e pela manhã. Mas o ideal é que os iniciantes comecem com períodos e frequências menores, até se acostumarem, exatamente como alguém que não está acostumado a fazer exercícios deve começar levantando pesos pequenos.


Terceiro: Meditação é como lavar as mãos.

Mas, afinal, por que meditar? Aqui quero contar uma história engraçada. Na Idade Média, nos países europeus em que a religião hebraica era proibida e os judeus eram perseguidos, havia uma lista de vários “hábitos tipicamente judaicos” que eram divulgados pelas autoridades entre a população, para ajudar no reconhecimento de judeus dissimulados. Entre eles estava o estranho hábito de lavar as mãos antes das refeições. Isso mesmo, para os europeus medievais era uma esquisitice que alguém lavasse as mãos antes de comer algo – não lhes ocorria que esse não era um costume necessariamente religioso, mas uma prática de higiene bem salutar.

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Hoje em dia é bem difícil que alguém não se detenha por alguns segundos e analise se suas mãos estão sujas e precisam ser lavadas antes de segurar uma fatia de pizza ou de bolo sem o uso de um guardanapo. É algo automático, um hábito saudável tão introjetado no nosso costume que consideramos natural.

Mas, para nossos antepassados europeus, um pouco de imundície nas mãos antes das refeições não incomodava nem um pouco.

O mesmo ocorre com a meditação. Assim como o corpo produz naturalmente suor, nossa mente produz naturalmente pensamentos – e, embora muitos desses pensamentos sejam salutares, o acúmulo caótico deles ao longo de um dia inteiro deixa nossa consciência um bocado bagunçada. Assim como nossa sociedade adotou o hábito, antes considerado estranho e hoje tão natural, de lavar-se as mãos antes das refeições, um dia quem sabe nossa civilização vai adotar o também salutar costume de todos meditarmos diariamente para mantermos a consciência sem muita bagunça.


Quarto: Meditar é fazer uma reforma no seu banheiro.

E como é que a meditação ajuda a deixar a consciência livre da bagunça?

Antes de mais nada, é bom desfazer mais uma confusão a respeito da meditação. Não, a meditação não tira de sua cabeça de “pensamentos negativos”, não livra você dos “sentimentos indesejáveis”. Esses pensamentos e sentimentos continuam lá, você sempre os vivenciará. A meditação não faz você “ser alguém melhor”, a meditação faz com que você perceba e vivencie quem você é exatamente neste preciso momento. É bem verdade que, com a continuidade diária da meditação, aos poucos você vai notar que algumas coisas melhoram e que, para efeitos práticos, você tornou-se alguém mais “aprimorado”, mas isso não é exatamente uma mudança em quem você é, e sim em uma ampliação daquilo que você já é neste exato momento. Não se tira nada de sua vida, nem pensamentos negativos, nem sentimentos indesejáveis: apenas o lugar em que eles estão ficou maior.

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É isso mesmo. Pense, por exemplo, como você fica aborrecido com um pequeno problema do seu dia a dia, alguma bobagem irrelevante que falaram a você mas que lhe irrita muito. Algumas pessoas ficam de mal humor durante o resto do dia quando seu carro é arranhado ou quando alguém lhes fecha no trânsito. E nem preciso falar do que ocorre quando nos vemos diante daqueles problemas realmente sérios, que nos arrasam totalmente.

Nesses casos, e em tantos outros de nossa vida cotidiana, é como se estivéssemos dentro de uma pequena saleta junto com aquele problema, junto com aquele pensamento feio ou aquele sentimento desagradável. É como ficar em um banheiro minúsculo em que colocaram uma grande geladeira duplex: nós não conseguimos espaço sequer para respirar, não conseguimos deixar de prestar atenção na geladeira e, ao mesmo tempo, somos incapazes de ver todos os lados dessa mesma geladeira que preenche toda nossa visão, porque não podemos nos mover confortavelmente ao redor dela. Nem há a opção de decidir onde colocar essa geladeira, porque simplesmente ela já ocupa quase todo o espaço disponível.

Se a geladeira é um fato, pensamento ou sentimento desconfortável, esse banheiro minúsculo é a sua consciência.

E quando você medita, é como se a geladeira ainda estivesse lá, mas o minúsculo banheiro transforma-se em um grande estádio de futebol. Finalmente, você pode consegue respirar e se movimentar. Finalmente, não é obrigado a ficar olhando e sendo cutucado pela geladeira. E, melhor ainda, pode olhar a geladeira em todos os seus lados, pode até mesmo distanciar-se dela e ver que, afinal, ela nem era tão grande assim.

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Dito em outras palavras, as paredes do minúsculo banheiro começam a se ampliar quando você simplesmente aceita ficar ali, tranquilamente, junto àquela grande geladeira.

Aquele problema que tanto lhe incomodava, aquele sentimento que lhe perseguia, pode ser analisado em todos os seus aspectos, e ele não domina completamente sua atenção. Há espaço para outras coisas. Aliás, até mesmo o seu ego, que antes era tão grande ao ponto de ocupar completamente todas as dimensões daquele minúsculo banheiro e ser confundindo com sua própria consciência, agora pode ser observado dentro desse grande estádio. Você, por fim, vê o quanto seu ego é pequeno, o quanto ele é frágil e, até mesmo, um pouco feio. Mas você não sente raiva ou vergonha pelos defeitos de seu ego. Afinal, um “julgamento” sobre o que é certo e errado também é um outro objeto dentro desse espaço ampliado. Você assume um olhar amoroso, compreensivo, sobre seu ego e suas falhas – mas, por outro lado, agora ele já não controla totalmente sua vida.

Há, também, etapas da meditação em que esse estádio converte-se em algo ainda mais amplo. Em determinados momentos, esse estádio tem suas paredes derrubadas e nos vemos no meio de um imenso oceano. Às vezes, até mesmo, não há sequer o oceano. Esses são os grandes momentos, mas é bom não se preocupar tanto com isso agora e nem falar muito a respeito, e sim deixar a coisa fluir naturalmente. A busca de “objetivos”, a formulação de metas e de pré-concepções sobre o que você deve sentir e tornar-se após a prática meditativa é algo que atrapalha a própria meditação. É curioso, mas o ideal é adotar uma postura de quem não busca nada com a meditação: simplesmente medite, sem pensar no que pode acontecer.

Por fim, como começar a meditar?

A meditação é eficaz justamente porque é simples. Basta fazer o seguinte:

1- Arranje um local para meditar em silêncio, um espaço em que você não seja importunado por 5 a 15 minutos;

2 – Sente-se confortavelmente no chão, com as pernas dobradas de forma a não ser uma postura forçada, apoiando a base de sua coluna no canto de uma almofada baixa e firme, que permita manter sua coluna ereta sem dor, como na foto abaixo;

3 – Deite suas mãos sobre as coxas e, com os olhos abertos, descanse suas pálpebras, dirigindo seu olhar para um ponto ligeiramente além de onde estão suas pernas;

4 – Marque em seu celular ou despertador o tempo da meditação – recomendo começar com 5 minutos.

5 – Agora, feitas essas preliminares, comece a meditar: basta prestar atenção em sua respiração e contar cada expirar de 1 até 10. Quando chegar a 10, reinicie a contagem.

6 – Sem se esforçar, mas de forma muito gentil e suave, tente não pensar em coisa alguma, apenas na contagem durante as expirações, reiniciando sempre após o 10. É natural que, em algum momento, você se apanhe pensando em algo. Quando isso ocorrer e você perceber, apenas diga mentalmente a si mesmo a palavra “pensando” e retome a contagem do ponto onde estava (se não lembrar, recomece do 1).

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O importante é não se recriminar quando perceber que esqueceu a contagem e começou a pensar em algo. Simplesmente repita “pensando” com uma postura emocional tranquila, neutra, e retome a contagem. Nossa mente não consegue evitar de produzir pensamentos, então é muito normal que isso ocorra. Não faça grande caso da situação e também não faça muito esforço para manter-se concentrado na contagem das expirações – a meditação é uma prática relacionada à suavidade no controle de seus pensamentos, e não à rigidez.

Quando a prática da meditação tornar-se mais habitual e você constatar que já consegue ficar longos momentos sem pensar, você pode abandonar a contagem de 1 até 10. Simplesmente mantenha um foco suave nas expirações. Esse foco, repetindo, não pode ser intenso: digamos que você deve manter-se 25% concentrado na expiração, e o restante de sua atenção deve estar relaxada, tranquila.

Por fim, na tradição budista, há algo bem legal chamado sangha, uma comunidade de pessoas que buscam estimular reciprocamente a continuidade da prática da meditação. Em sua origem oriental, a sangha costuma possuir um vínculo religioso e estar associada a algum tipo de autoridade sacerdotal. Várias instituições religiosas budistas estimulam a existência de sanghas coordenadas por um monge, lama ou indivíduo que atua sob a orientação de uma dessas autoridades religiosas. Mas isso não é uma regra.

Dito de uma forma simples e mais ajustada à mentalidade ocidental moderna, uma sangha é um grupo de amigos que conversam, mas em silêncio: eles meditam juntos em alguns momentos da semana, num espaço especialmente preparado para a atividade. É até mesmo possível que, após essa conversa silenciosa, ocorra uma troca de vivências a respeito de como foi a meditação naquele encontro e de como a prática tem refletido em sua experiência cotidiana.

Assim, eles se apoiam mutuamente até que a prática de “lavar as mãos” torne-se natural e a pessoa encontre a forma de meditar que, feito uma roupa, ajusta-se melhor a seu corpo. Então, uma maneira bem útil de começar a meditar é encontrar um grupo de amigos que lhe ajude a lembrar da importância de manter esse hábito.

Não há malefícios na meditação, não há qualquer contraindicação – é algo simples e que traz apenas benefícios. A meditação não exige que você se vincule a qualquer crença religiosa ou ideologia. Meditar não custa nada, demanda só alguns minutos de seu tempo. Então, porque não começar agora?

escrito por:

Victor Lisboa

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