Não, a ciência não é sua inimiga. Um ensaio apaixonado de Steven Pinker.


A NECESSIDADE DA CIÊNCIA

Os grandes pensadores da Idade da Razão e do Iluminismo eram cientistas.

Não só muitos deles contribuíram para a matemática, física e fisiologia, mas todos eles eram teóricos ávidos nas ciências humanas. Eles foram neurocientistas cognitivos, que tentaram explicar os nossos pensamentos e emoções através de nossos mecanismos físicos ou pelo sistema nervoso. Eles principalmente especularam sobre a vida humana utilizando nossos instintos como base, pois nós, como animais, não estamos livre deles. Eles foram nossos psicólogos sociais, que descreveram os sentimentos morais que nos atraem uns aos outros, as paixões egoístas que nos inflamam e as nossas debilidades que frustram nossos melhores planos.

Todos esses pensadores – Descartes, Spinoza, Hobbes, Locke, Hume, Rousseau, Leibniz, Kant, Smith, – são notáveis, principalmente por terem elaborado suas ideias na ausência de teoria formal e dados empíricos, sem a possibilidade de testar suas ideias filosóficas cientificamente, dando margem a diversas interpretações generalizadas. As teorias modernas de matemática e computação não haviam sido inventados naquela época. As palavras “neurônio”, “hormônios”, e “genes” não significavam nada para eles.

Ao estudarmos esses pensadores, nos dá vontade de viajarmos de volta no tempo e oferecer-lhes um pouco de ciência do século XXI para preencherem lacunas em seus argumentos ou orientá-los para contornar algum obstáculo científico. De qualquer forma, o que essas figuras históricas fariam se tivessem o conhecimento científico atual? Será que mudariam suas teorias?

Não precisamos fantasiar sobre esse cenário, porque nós estamos vivendo ele. Nós temos as obras dos grandes pensadores e um conhecimento científico que eles jamais poderiam ter sonhado em obter.

Essa é uma época extraordinária para compreensão de nossa condição humana. Problemas intelectuais seculares da antiguidade estão sendo resolvidos por meio de estudos científicos sobre a mente, o cérebro, os genes e a evolução. Poderosas ferramentas foram desenvolvidas para explorá-las, de neurônios geneticamente modificados que podem ser controlados com pontos de luz até a mineração do chamado “big data“- um meio de entender como as ideias se propagam dentro de nossa mente.

Alguém poderia pensar que os escritores da área de humanas ficariam encantados e energizados pelo florescimento de novas ideias das ciências. Mas estaria errado.

Embora todos concordem que a ciência pode curar doenças e monitorar ambientes, a intrusão da ciência nos territórios das humanidades tem sido profundamente ressentida. Assim como é a aplicação do raciocínio científico à religião; muitos escritores sem um traço de crença em Deus sustentam que há algo indecoroso sobre os cientistas. Nos principais jornais de opinião, críticos que usam a ciência como argumento são regularmente acusados de determinismo, reducionismo, essencialismo, positivismo e, o pior de tudo, algo chamado de “cientificismo”.

Surpreendentemente, nos últimos anos, houveram denúncias de cientificismo em diversos veículos de comunicação, como no New Republic, Bookforum, The Claremont Review of Books, The Huffington Post, The Nation, National Review online, The New Atlantis, The New York Times, e Standpoint.

Esses acontecimentos refletem uma natureza bipartidária, que se encontra em muitos lugares. A análise crítica a seguir é de Jackson Lears, de 2011, uma revisão na The Nation de três livros de Sam Harris:

“Essas premissas científicas forneceram as bases epistemológicas para o darwinismo social e noções evolucionárias de progresso, bem como argumentos para o racismo científico e o imperialismo. Essas tendências se uniram na eugenia, criando uma doutrina de que o bem-estar humano poderia ser melhorado e, eventualmente, aperfeiçoado por meio da reprodução seletiva, do “ajuste” e a esterilização ou a eliminação do que seria “impróprio” na sociedade… Qualquer estudante sabe sobre o que aconteceu em seguida: a catástrofe do século XX. Duas guerras mundiais, o abate sistemático de inocentes numa escala sem precedentes, a proliferação de armas destrutivas inimagináveis, colapso de diversas nações; todos esses eventos envolvidos, em vários graus, devido à aplicação da pesquisa científica à tecnologia avançada.”

Já o caso abaixo foi capturado num discurso de 2007, de Leon Kass, assessor de bioética de George W. Bush:

“Ideias e descobertas científicas sobre a natureza viva e do homem são perfeitamente bem-vindas e inofensivas em si mesmas, mas estão sendo convocadas para fazer a batalha contra os nossos ensinamentos religiosos e morais tradicionais, e até mesmo com a nossa auto-compreensão como criaturas com liberdade e dignidade. Uma fé quase religiosa surgiu entre nós, deixe-me chamá-la de “cientificismo sem alma” – que acredita que a nova biologia elimina todo o mistério, podendo dar um relato completo da vida humana, dando explicações puramente científicas do pensamento humano, amor, criatividade, julgamento moral e até mesmo por que acreditamos em Deus… sem cometer erros. As apostas nisso são altas: em questão está a saúde moral e espiritual da nossa nação, a vitalidade contínua da ciência e nossa própria auto-compreensão como seres humanos e como filhos do Ocidente.”

Estes são pontos interessantes, mas fracos. A ciência não pode ser culpada pelo genocídio, pela guerra e ela não ameaça a saúde moral e espiritual da nossa nação. É, pelo contrário, indispensável em todas as áreas de interesse humano, incluindo a política, as artes e a busca de sentido, propósito e moralidade.

O CIENTIFICISMO

O termo “cientificismo” não é uma palavra com significado propriamente dito, é mais um jargão, usado como rótulo por qualquer doutrina incoerente. Às vezes é equiparado com posições excêntricas, como a de que “a ciência é tudo o que importa” ou que “os cientistas podem resolver todos os problemas“.

Cientificismo, nesse sentido, não é a crença de que os cientistas ou adeptos da “ciência” são particularmente nobres e/ou superiores. Pelo contrário, as práticas que definem a ciência incluem um debate aberto, revisões, testes e dentre outros métodos, que são explicitamente projetados para contornar os erros e pecados a que os cientistas, seres humanos, são vulneráveis.

Cientificismo não significa que todas as hipóteses científicas atuais são verdadeiras; a maioria não é, uma vez que a formulação de teorias falsas e refutação das mesmas é a força vital da ciência. Não é uma característica imperialista para dominar a humanidade, a promessa da ciência é enriquecer e diversificar as ferramentas intelectuais de erudição humanística, não eliminá-las.

A ciência não cultiva um dogma de que o material, o físico é a única coisa que existe. Os próprios cientistas estão imersos no meio etéreo de informações, incluindo as verdades da matemática, a lógica de suas teorias e os valores que orientam suas condutas. Nessa concepção, a ciência é uma peça como a filosofia, a razão ou o humanismo iluminista.
Ela se distingue por dois ideais.

A ciência não é sua inimiga
Jan Vermeer – o astrônomo.

O MUNDO É INTELIGÍVEL

Primeiro, é que o mundo é inteligível.

Os fenômenos que experimentamos podem ser explicados por princípios que são mais gerais do que os próprios fenômenos. Estes princípios podem por sua vez ser explicados por mais princípios fundamentais, e assim por diante. Ao observarmos nosso mundo, nos encontramos com ocasiões inexplicáveis, em que somos forçados a admitir que “isso simplesmente funciona assim” ou “é mágica”.

O compromisso com a ciência não é uma questão de fé bruta, mas gradualmente valida-se de acordo como o quanto mais o mundo se torna explicável em termos científicos. Os processos da vida, por exemplo, costumavam ser atribuído a um fenômeno vital e misterioso; agora sabemos que eles são movidos por reações químicas e físicas entre moléculas complexas.

Desprezantes do cientificismo muitas vezes confundem a inteligibilidade com algo chamado de reducionismo. Mas, para explicar um acontecimento complexo, devemos levá-lo ao campo científico, embora nem sempre essa abordagem seja possível.

Por exemplo, nenhum pensador são iria tentar explicar a I Guerra Mundial na linguagem da física, química e biologia, mais sim com uma percepção perspicaz dos objetivos dos líderes da Europa de 1914. Ao mesmo tempo, uma pessoa curiosa pode legitimamente perguntar o que as mentes humanas naquela época buscavam com seus objetivos, que resultou na combinação mortal daquele momento histórico. Para isso, a abordagem científica seria o melhor a optar.

ADQUIRIR CONHECIMENTO É DIFÍCIL

O segundo princípio é que a aquisição de conhecimentos é difícil. O mundo não revela seu funcionamento de forma espontânea, e mesmo que o fizesse, nossas mentes teriam dificuldade de absorver conteúdo. Para compreendermos o mundo, devemos cultivar soluções alternativas para as nossas limitações cognitivas, incluindo o ceticismo, o debate aberto, a precisão formal, e os testes empíricos, muitas vezes exigindo proezas de engenho.

Muito de nossa cultura parece cultivar uma indiferença à ciência, embora esteja muito ligada a ela. De que forma, então, a ciência ilumina os assuntos humanos? Vou começar com algo mais ambicioso: as questões mais profundas sobre quem somos, de onde viemos, e como definir o significado e propósito de nossas vidas.

Esse é o território tradicional da religião, e seus defensores tendem a ser os críticos mais excitáveis do cientificismo. Eles estão aptos a aprovar, por exemplo, o plano de partilha proposto por Stephen Jay Gould, em seu livro Rocks of Ages, segundo o qual as preocupações próprias da ciência e da religião parecem estar divididas, cabendo à ciência apenas analisar e compreender o universo, enquanto a religião recebe o compromisso de ditar questões de significados e valores morais.

Infelizmente, quando você começa a estudar o universo, isso se mostra ao contrário. A perspectiva moral de qualquer pessoa cientificamente alfabetizada – que não esteja presa ao fundamentalismo – exige uma ruptura radical com concepções religiosas de significado e valor.

Para começar, as descobertas da ciência implicam que os sistemas de crenças de todas as religiões do mundo tradicionais – e suas culturas e teorias sobre as origens da vida, dos seres humanos e das sociedades – estão erradas. Nós sabemos disso, mas os nossos antepassados não imaginavam que os seres humanos pertencem a uma única espécie de primata africano que desenvolveu a agricultura, o governo e a escrita tarde em sua história.

Agora, sabemos que a nossa espécie é um pequeno galho de uma árvore genealógica que abraça todas as coisas vivas e que surgiu a partir de produtos químicos pré-bióticos há quase quatro bilhões de anos. Nós sabemos que vivemos em um planeta que gira em torno de uma das centenas de bilhões de estrelas em nossa galáxia, que é uma das cem bilhões de galáxias em um universo de 13,8 bilhões de anos de idade, possivelmente, um de um grande número de universos. Sabemos que nossas intuições sobre espaço, tempo e matéria são incomensuráveis com a natureza da realidade em escalas que são muito grandes e também muito pequenas. Sabemos que as leis que regem o mundo físico (incluindo acidentes, doenças e outros infortúnios) não têm metas que dizem respeito ao bem-estar humano.

planeta terra | a ciência não é sua inimigaNão existe tal coisa como destino, providência, karma, feitiços, maldições, augúrio, retribuição divina ou orações respondidas, embora a discrepância entre as leis da probabilidade e o funcionamento da cognição pode explicar porque as pessoas acreditam que essas coisas existem.

E nós sabemos que nós nem sempre sabemos destas coisas, que as tão amadas convicções de todos os tempos e culturas podem ser decisivamente falsificadas, sem dúvida, incluindo algumas que temos hoje.

A CIÊNCIA REFORÇA NOSSA RESPONSABILIDADE SOCIAL

Embora o ocidente tenha sido moldado de acordo com valores religiosos judaico-cristãos, muita da visão de mundo que orienta os valores morais de uma pessoa bem informada hoje em dia é uma visão de mundo que nos foi dado pela ciência. Embora os fatos científicos por si só não ditem valores, eles certamente nos concedem possibilidades de analisar novamente o mundo ao nosso redor e contestar outras afirmações feitas previamente.

A ciência descascou uma sociedade regida por comportamentos religiosos e lançou dúvidas acerca da moralidade. A refutação científica sobre a teoria de deuses vingativos e forças ocultas, minou práticas como o sacrifício humano, a caça às bruxas, a cura pela fé, o julgamento por ordálio e a perseguição de hereges.

A ciência, ao expor a ausência de finalidade nas leis que regem o universo, força-nos a assumir a responsabilidade pelo bem-estar de nós mesmos, da nossa espécie e do nosso planeta. Pela mesma razão, isso mina qualquer sistema moral ou político com base em forças místicas, missões, destinos, dialética, lutas ou idades messiânicas. Algo de que a história da sociedade humana está cheia.

E em combinação com algumas convicções – que poucos de nós valorizamos nosso próprio bem-estar e que somos seres sociais que incidem sobre os outros -, podemos modificar códigos de conduta. Fatos científicos militam em direção a uma moral defensável, aderindo aos princípios que maximizem o florescimento de seres humanos e outros seres sencientes.

Esse humanismo, que é inseparável de uma compreensão científica do mundo, está se tornando a moralidade de fato das democracias modernas, das organizações internacionais, e liberalizando as religiões e suas promessas não cumpridas, desafiando os imperativos morais que enfrentamos hoje.

Além disso, a ciência tem contribuído de forma direta para o cumprimento desses valores. Se fosse para listar as mais orgulhosas realizações de nossa espécie (deixando de lado a eliminação dos obstáculos que estabelecemos em nosso próprio caminho, como a abolição da escravatura e a derrota de regimes totalitários), muitas teriam o legado concedido pela ciência.

A mais óbvia é a realização emocionante do próprio conhecimento científico. Podemos dizer muito sobre a história do universo, as forças que formam o instante, o material do qual somos feitos, a origem dos seres vivos e as máquinas de vida, incluindo a nossa própria vida mental. Melhor ainda, este entendimento não consiste em uma mera listagem de fatos, mas em princípios profundos e elegantes, como a percepção de que a vida depende de uma molécula que transporta informações, dirige o metabolismo e replica-se.

A ciência também tem fornecido ao mundo imagens de beleza sublimes: organismos exóticos, galáxias distantes e planetas exteriores, circuitos neurais fluorescentes e um planeta chamado Terra que nos abriga, iluminado por uma estrela há quase 150 milhões de quilômetros, que paira sobre o espaço. Como grandes obras de arte, estas não são apenas imagens bonitas, mas também aprofundam nossa compreensão do que significa ser humano e do nosso lugar na natureza.

planeta terra | a ciência não é sua inimiga

A CIÊNCIA AUMENTA A QUALIDADE DE VIDA

Ao contrário do pensamento generalizado de que a tecnologia criou uma distopia de privação e de violência, cada medida de prosperidade humana está cada vez mais em ascensão. Os números mostram que, após milênios de pobreza quase universal, uma proporção crescente da humanidade está sobrevivendo ao primeiro ano de vida, indo para a escola, votando nas democracias, vivendo em paz, comunicando-se por telefones celulares, desfrutando de pequenos luxos, e sobrevivendo à velhice.

A Revolução Verde na agronomia, sozinha, salvou um bilhão de pessoas da fome. Se você quiser exemplos de uma vitória grandeza moral, simplesmente vá ao Wikipedia e pesquise sobre os dados de “varíola” e “peste bovina“. Embora sejam doenças existentes, seu ápice está no passado, indicando que o engenho humano quase erradicou duas das doenças mais cruéis da história da nossa espécie.

O vídeo abaixo mostra o crescimento da população mundial devido à Revolução Industrial, a Medicina Moderna e a Revolução Verde. Tecnologias que atuaram diretamente no impacto benéfico dos seres humanos.

A INDIFERENÇA CULTURAL À CIÊNCIA

Embora a ciência seja beneficamente incorporada em nossa vida material, moral e intelectual, muitas das nossas instituições educacionais, incluindo faculdade e colégios, cultivam uma indiferença à ciência. Devido à ausência da abordagem da ciência em instituições educacionais, os alunos podem dar a entender de que a ciência possibilita(ou) diversos casos de atrocidade humanas, ou seja, culpabilizá-la por crimes que são tão antigos quanto a civilização, incluindo o racismo, a escravidão, colonialismo e genocídio.

Da mesma maneira que, ao longo da história, os analfabetos culparam a ciência devido aos movimentos políticos com argumentos pseudocientíficos – particularmente, o darwinismo social e a eugenia. O darwinismo social, foi uma filosofia laissez-faire de Herbert Spencer. Não foi inspirada pela teoria da seleção natural de Darwin, mas sim por uma concepção de que uma força natural e misteriosa conduzia o progresso da humanidade, então seria melhor deixá-la desimpedida.

O termo é frequentemente usado para difamar qualquer aplicação da evolução para a compreensão dos seres humanos. O termo foi popular entre os progressistas nas primeiras décadas do século XX, como forma de progresso social. Hoje, o termo é comumente usado para atacar a genética comportamental, o estudo das contribuições genéticas para as diferenças individuais.

Posso testemunhar que esta recriminação não é uma relíquia das guerras da ciência dos anos 1990. Quando Harvard reformou a sua exigência de educação geral de 2006 a 2007, o relatório preliminar de força-tarefa introduziu o ensino de ciência sem qualquer menção de seu lugar no conhecimento humano:

“Ciência e tecnologia afetam diretamente nossos alunos, em muitos aspectos, tanto positivos como negativos: elas levam a medicamentos que salvam vidas, à internet, armazenamento de energia mais eficiente e entretenimento digital; elas também pastoreiam armas nucleares, agentes de guerra biológicos, espionagem eletrônica e danos ao meio ambiente”.

Este estranho equívoco entre o utilitário e o nefasto não foi aplicado a outras disciplinas (apenas imagine motivar o estudo da música clássica observando que ele tanto gera atividade econômica quanto inspira nazistas). E não houve reconhecimento de que poderemos ter boas razões para preferir a ciência e o know-how sobre a ignorância e superstição.

Numa conferência de 2011, uma outra colega resumiu o que ela achava que era o legado misto de ciência: a erradicação da varíola, por um lado; o estudo de sífilis de Tuskegee no outro. O último estudo, envolveu formas precárias de estudo, resultando na mortes de milhares pacientes. A comparação é obtusa. Assim, assume-se que um dos estudos era o lado escuro inevitável do progresso científico, em oposição a uma violação universalmente deplorável, comparando uma única falha para evitar danos a algumas dezenas de pessoas com a prevenção de centenas de milhões de mortes por século, em perpetuidade.

As recentes denúncias de cientificismo tem sido devido à aplicação da neurociência, da evolução e da genética aos assuntos humanos. Certamente muitas dessas aplicações são errados, o que é jogo justo para a crítica: a varredura dos cérebros dos eleitores sobre como eles olham para rostos dos políticos; atribuir a guerra a um gene para a agressão; explicar a religião como uma adaptação evolutiva para unir o grupo.

No entanto, não é inédito que intelectuais inocentes em ciência avancem em ideias que são erradas, e ninguém está pedindo que os estudiosos de humanidades voltem para seus recantos e fiquem de fora das discussões sobre as coisas que importam. É um erro usar alguns exemplos equivocadas como uma desculpa para colocar em quarentena as ciências da natureza humana de nossa tentativa de compreender a condição humana.

A CIÊNCIA MELHORA A POLÍTICA

Tome a nossa compreensão da política, por exemplo. “O que é o próprio governo”, perguntou James Madison, “se não todas as características da natureza humana agrupadas?” As novas ciências estão reexaminando as conexões entre a política e a natureza humana, que foram avidamente discutidas no tempo de Madison, mas ignoradas durante um tempo, pois acreditava-se que os seres humanos eram seres completamente racionais e a política era um reflexo disso.

Como humanos, somos atores moralistas, orientados por normas e tabus diante de uma sociedade, impulsionados por conflitos e inclinações de vingança. Esses impulsos normalmente operam abaixo de nossa percepção de consciência, mas em algumas circunstâncias eles podem ser gerados pela razão e debate. Estamos começando a entender por que e como esses impulsos moralistas evoluíram; como eles ocorrem no cérebro; como eles atuam em diferentes indivíduos, culturas e subculturas; e quais as condições para ligá-los e desligá-los.

A aplicação da ciência à política enriquece o nosso estoque de ideias acerca de diversos acontecimentos políticos e históricos, e também oferece os meios para determinar quais delas são mais corretas. Debates políticos têm sido tradicionalmente deliberados por meio de estudos de caso, da retórica e do que engenheiros de softwares chamam de HiPPO (highest-paid person’s opinion – opinião da pessoa mais bem paga). Não surpreendentemente, as controvérsias são levadas sem resolução.

Por exemplo, as democracias lutam entre si? Parceiros comerciais também? Grupos étnicos com valores opostos e vizinhos estão inevitavelmente propensos a se envolver em conflito sangrento? As forças de pacificação armada realmente mantêm a paz? As organizações terroristas conseguem o que querem? E que tal os movimentos não-violentos de Gandhi? São os rituais de pós-conflito de reconciliação eficazes na prevenção à renovação do conflito?

Nerds em história podem apresentar exemplos que suportam qualquer resposta, mas isso não significa que as questões são insolúveis. Os acontecimentos políticos são fustigados por muitas forças, por isso é possível que uma determinada força seja potente em geral, mas submersa em uma instância específica. Com o advento da data science – a análise de grandes conjuntos de dados, de acesso aberto a números ou textos -, dados de acesso aberto podem ser extraídos do barulho de debates, resolvendo problemas de história e ciência política de forma mais objetiva.

O melhor que posso dizer no momento é que as respostas para as perguntas acima são (em média, e todas as coisas sendo iguais) não, não, não, sim, não, sim e sim.

AS CIÊNCIAS HUMANAS PRECISAM DA CIÊNCIA

Ciências humanas é a área da qual a ciência está cada vez mais se afastando. No entanto, é exatamente essa área que parece necessitar de novas ideias. De acordo com a maioria dos dados, as matérias artísticas das universidades e o mercado das humanas estão em apuros. Cursos universitários estão sendo menos procurados, a próxima geração de estudiosos promete ser subempregada, causando afastamento em massa de possíveis estudantes. Nenhuma pessoa racional deve ser indiferente ao desinvestimento da nossa sociedade nas áreas humanas, que são indispensáveis para uma democracia civilizada.

Diagnósticos do mal-estar das áreas humanas apontam justamente as tendências anti-intelectuais em nossa cultura e à forma como as universidades moldam a agenda dos cursos humanos. Mas uma avaliação honesta teria que reconhecer que alguns dos danos são auto-infligidos. As matérias humanas ainda têm de se recuperar do desastre do pós-modernismo. Em outras palavras, sua excelência e aplicação foram perdidas. Vários presidentes de universidades e reitores lamentaram-me que, quando um cientista entra em seu escritório, é para anunciar alguma excitante nova oportunidade de pesquisa e exigir os recursos para persegui-la. Quando um estudante de humanas aparece, é para contestar a forma de como algo foi feito.

Isso não significa que é necessário descartar a forma como estudantes lidam com o curso. Pode não haver nenhum substituto para os métodos de aprendizagem de uma leitura atenta, descrição densa e imersão em prática. Mas seriam esses os únicos caminhos para a aprendizagem?

A combinação das humanidades com a ciência oferece inúmeras possibilidades de inovação no entendimento e no âmbito profissional. Arte e cultura são produtos de cérebros humanos. Elas se originam em nossas faculdades de percepção, se acumulam e espalham inspirando os outros. Não deveríamos estar curiosos para entender como essas conexões funcionam? Todos iriam ganhar com isso. As ciências artísticas iriam desfrutar mais da profundidade explicativa da ciência para explicar seus dogmas.

Em algumas disciplinas, isso é um facto consumado. A arqueologia, por exemplo, cresceu a partir de um ramo da história da arte e agora está em direção à ciência de alta tecnologia. Lingüística e filosofia da mente agora estão indo em direção à ciência cognitiva e neurociência.

Oportunidades semelhantes existem para a exploração. As artes visuais poderiam aproveitar a explosão do conhecimento da ciência e da visão, incluindo a percepção de cor, forma, textura e iluminação, e a estética evolutiva de rostos e paisagens. Estudiosos de música também têm muito a discutir com os cientistas que estudam a percepção da fala e da análise do cérebro humano com o mundo auditivo.

Quanto aos estudos literários, por onde começar? John Dryden escreveu que uma obra de ficção é “uma imagem justa e animada da natureza humana, que representa as suas paixões e humores e as mudanças de realidade a que está sujeita, para o deleite e instrução da humanidade.” A linguística pode iluminar os recursos da gramática, permitindo aos autores manipular a experiência imaginária de um leitor. A psicologia cognitiva pode fornecer informações sobre a capacidade dos leitores de conciliar a sua própria consciência com as do autor e dos personagens em determinada obra.

Geneticistas comportamentais podem atualizar teorias populares de influência dos pais com descobertas sobre os efeitos de genes, colegas e oportunidade, que têm implicações profundas para a interpretação da biografia e autobiografia – um esforço que também tem muito a aprender com a psicologia cognitiva da memória e da psicologia social de auto-apresentação. Os psicólogos evolucionistas podem distinguir os estímulos são universais daqueles que existem apenas em uma cultura particular, permitindo ao autor criar e manipular influências culturais individuais.

E, como na política, o advento da ciência na linguística, artes visuais e musicais mantém a promessa de uma expansão das “humanidades digitais.” As possibilidades de descoberta são limitadas apenas pela imaginação e incluem a origem e difusão de ideias, redes de influência intelectual e artística, a persistência da memória histórica, os altos e baixos de temas na literatura, e os padrões de censura não-oficial e tabu.

SIMPLIFICAR NÃO SIGNIFICA SER SIMPLISTA

No entanto, muitos dos estudiosos das humanidades têm reagido a essas oportunidades com certo desprezo e desconfiança, acreditando que a verdadeira arte são os impulsos humanos, desprovidos de explicações ou inspirações científicas, alegando que são simplistas, reducionistas, vulgares e, claro, cientificistas.

A ciência não é sua inimiga| Carl Sagan: "Vivemos numa sociedade intensamente dependente da ciência e tecnologia, em que quase ninguém sabe algo sobre ciência e tecnologia."

A reclamação sobre a simplificação é ilegítima. Para explicar uma coisa é necessário resumi-la sob princípios mais gerais, o que implica em um grau de simplificação. No entanto, simplificar não é ser simplista.

Uma apreciação dos elementos de uma obra pode coexistir com explicações em muitos outros níveis – desde a personalidade de um autor para o meio cultural, as faculdades da natureza humana e até as leis que regem os seres sociais.

Os críticos devem ter cuidado com os adjetivos. Se alguma coisa é ingênua e simplista é a convicção de que algum legado da humanidade deve ser fortificado e protegido do avanço científico, nos obrigando a estar satisfeitos com as formas correntes de entender o mundo. Certamente as nossas concepções sobre a política, cultura e moralidade têm muito a aprender de acordo como avançamos cientificamente, tendo maior compreensão do universo físico e da nossa constituição como espécie.

Tradução e adaptação: Rodrigo Zottis & Alysson Augusto


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escrito por:

Steven Pinker

Steven Arthur Pinker é um psicólogo e linguista canadense naturalizado estadunidense da Universidade Harvard e escritor de livros de divulgação científica.


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