Fonte: IFLScience (sempre divulgamos a fonte no final mas, dessa vez, pelo inusitado do conteúdo, divulgamos já no início).

Luzes brilhantes, calor, desprendimento do corpo, flashbacks do passado, encontros com espíritos: essas são as coisas que milhares, talvez até milhões de pessoas relataram quando se aproximaram (e depois retornam, óbvio) da morte. Essas chamadas “experiências de quase-morte” (EQM) são fenômenos amplamente reconhecidos, mas são tratadas com um considerável ceticismo entre a comunidade médica e científica, e muitos as interpretam como alucinações.

Apesar do número considerável de relatos sobre EQM, que estão aumentando sua freqüência devido à evolução das técnicas de ressuscitação cardíaca, há poucos estudos objetivos sobre essas experiências. Mas agora, pesquisadores da Universidade de Southampton acabaram de completar um estudo internacional de quatro anos com mais de 2.060 pacientes que tiveram parada cardíaca. O resultado do estudo nos fornece uma visão fascinante sobre esse estranho tópico.

Conforme descrito no periódico médico Ressuscitation, do Conselho Médico Europeu de Ressuscitação, o estudo foi criado para examinar a ampla gama de experiências conscientes associadas à parada cardíaca. A equipe de pesquisadores testou a validade das experiências relatadas usando marcadores objetivos para determinar se as afirmações dos pacientes correspondiam a eventos reais ou alucinações.

Dos 2.060 pacientes matriculados no estudo, 330 sobreviveram e 140 foram capazes de fornecer entrevistas estruturadas sobre suas memórias do evento. Os pesquisadores descobriram que 39% desses indivíduos descreveram alguma consciência do período que antecedeu a ressuscitação, ou seja, quando seus corações haviam parado de bater. A maioria desses pacientes, no entanto, não tinha memórias específicas do evento, o que sugere que muitas pessoas realmente têm atividade mental durante a parada cardíaca, mas perdem suas lembranças após a recuperação. De acordo com o autor principal da pesquisa, Dr. Parmia, isso pode ser resultado de lesões cerebrais ou drogas sedativas.

Por exemplo, a ketamina, um anestésico dissociativo usado para sedação e anestesia geral, é conhecida por fazer com que os usuários sintam um forte sentimento de desprendimento de seus corpos e uma sensação de paz ou alegria. O estado induzido é muitas vezes descrito como semelhante ao de experiências de quase-morte.

Um estudo anterior, que examinou a atividade cerebral de sete pacientes criticamente doentes removidos do suporte de vida, encontrou um pico de atividade neural ao fim da morte. O principal autor do estudo relatou que convulsões nas regiões de memória do cérebro do paciente poderiam ser responsáveis ​​por EQM.

Embora os pacientes do estudo atual não pudessem se lembrar de detalhes específicos, muitos tinham memórias com temas específicos. De acordo com o National Post, 20% dos pacientes disseram que se sentiram serenos e quase um terço sentiu que o tempo tinha diminuído ou acelerado. Alguns tiveram experiências tranquilas e viram luzes brilhantes e animais, enquanto outros sentiram medo e até mesmo relataram a sensação de serem arrastados por águas profundas.

Curiosamente, 13% desses indivíduos sentiram-se separados de seus corpos e um homem lembrou de deixar seu corpo inteiramente e observar sua ressuscitação no canto da sala de cirurgia. Demorou três minutos para o coração desse homem começar a bater novamente, mas ele conseguiu descrever detalhes específicos da equipe e do procedimento. Ele também lembrou dois sinais sonoros de uma máquina que fazia barulho a cada três minutos.

“Nós sabemos que o cérebro não pode funcionar quando o coração para de bater”, disse o Dr. Parnia à National Post . “Mas, nesse caso, a consciência parece ter continuado durante até três minutos após o momento em que o coração parou de bater, mesmo que o cérebro normalmente pare de funcionar após 20 ou 30 segundos a contar da parada cardíaca”.

Embora apenas 2% dos pacientes possam se lembrar claramente de “ver” ou “ouvir” eventos reais, como nesses casos os detalhes descritos são consistentes com os eventos verificados, é impossível desacreditá-los nesta fase, e é necessário mais pesquisa.

  • Queria saber mais sobre os tais marcadores objetivos que diferenciam uma alucinação de uma lembrança real.

    Não conheço nada sobre esse tema específico, mas é difícil ter uma técnica que proporcione essa distinção. Por exemplo, o aparelho de ressonância magnética vai detectar a atividade cerebral no momento em que ocorre. Quando a pessoa reporta uma lembrança, seja de uma alucinação ou de um evento que realmente ocorreu, o aparelho só pode dizer que a pessoa está vendo uma lembrança. Não imagino como possa haver uma distinção em relação à natureza da lembrança em si (se alucinação ou evento real). A essa altura, para o cérebro, o evento é bem real, sendo ele fruto de uma alucinação ou não.

    Outra coisa é essa suposição de que o cérebro deixa de funcionar quando o coração pára de bater.

    Tudo bem, ele para, obviamente, mas não é algo imediato. Deve existir um continuum entre o pleno funcionamento até nenhum funcionamento (quando nenhum sangue mais resta no cérebro). Nessa faixa temporal podem ocorrer processos que ainda não são bem compreendidos pela própria dificuldade tecnológica de bolar ferramentas pra explorar o fenômeno. Assim, as visões, as lembranças dessa experiência de quase morte podem ser uma consequência experiencial de um evento bem orgânico e neurológico, ou seja, o desfalecimento progressivo das funções do cérebro.

    De qualquer forma, o assunto é fascinante! Não usaria algum tempo comentando aqui se não fosse absolutamente instigante.

  • Felipe Maná

    De fato, é um tema em que se tateou, ainda, apenas a superfície. Talvez por isso, seja tão interessante e intrigante.
    Me pergunto se, talvez, as reações fisiológicas relatadas sejam um “efeito” e não a “causa”. Talvez seja possível vislumbrar alguma outra alternativa de elucidação apenas mudando a perspectiva de onde se olha o fenômeno.
    Muito obrigado pelo texto!

    • Talvez a ciência não consiga responder isso, talvez ninguém possa.