Adaptação dos livros de George RR Martin, a série Game of Thrones é um sucesso mundial. Produzida pelo gigante americano HBO, foi bem sucedida na tentativa de manter a atenção de sete milhões de espectadores ao redor do mundo. Como explicar tal sucesso?

A teoria política pode esclarecer o entusiasmo por esta distopia glacial. Além do entretenimento que oferece, Game of Thrones trata de questões sobre a natureza das instituições políticas do Ocidente e expressa ansiedades contemporâneas sobre a estabilidade da ordem mundial.

A série apresenta um mundo imaginário onde o caos reina e a violência é diária. A morte pode ocorrer a qualquer momento, e os principais protagonistas da série têm em comum o mesmo objetivo: terminar com a desordem através da conquista do trono do ferro. Qualquer semelhança com o mundo atual não é mera coincidência.

Hobbes na terra dos dragões

O cientista político Dominique Moïsi resume a atmosfera da série: ela seria como “Hobbes na terra dos dragões” . Assistimos a uma história que retrata os principais elementos da promessa feita pela noção de soberania, na forma como o filósofo inglês Thomas Hobbes teorizou. Considerado como o pensador da modernidade política, Hobbes compromete-se, em seu Leviatã, a manter a sociedade unida em torno de um pacto aprovado pelo povo para escolher e transferir poder a um soberano.

Através do monopólio do poder estatal, o Leviatã deve impor a paz e banir a violência privada. Game of Thrones descreve um universo hobbesiano de guerra civil em que todos os indivíduos são inimigos em potencial. No decorrer das temporadas, a série descreve o derramamento de sangue na luta pela constituição de um poder central forte o suficiente para equilibrar e conter as ambições de cada uma das “Casas” (ou seja, de cada uma das diferentes famílias envolvidas), que representam um sistema arcaico a ser superado, no qual há fragmentação de poder semelhante ao feudalismo. A série pode ser considerada como uma narrativa teleológica do advento da modernidade política.

Jon Snow é antimoderno?

O pensamento político, que tenta explicar a formação do Estado, descreve o feudalismo como um sistema caracterizado por uma fragmentação do poder e por um conjunto de vínculos hierárquicos baseados na dependência entre vassalos e senhores. A “desfeudalização” implica, portanto, para o sociólogo Pierre Bourdieu, num processo de “desfamilialização”, definido como uma “ruptura gradual de laços naturais de lealdade primária baseados no pertencimento a uma família”. Essa modernidade política traz consigo uma nova racionalidade que resulta numa transferência de lealdades do clã para o Estado.

Nessa perspectiva, a figura de Jon Snow encarnaria uma racionalidade pré-moderna construída com base na fidelidade ao clã e à família, seja essa sua família de origem ou aos Night’s Watch. Sua atitude moral é marcada por uma recusa de fazer concessões com finalidade política. O nono episódio da sexta temporada ilustra essa situação. As apostas são decisivas: a captura de Winterfell, bastião do norte, está ao seu alcance. Esse castelo pertence à família Stark, da qual Jon Snow é considerado filho ilegítimo. No entanto, está nas mãos de Ramsay Bolton, que reina lá em terror, depois de autoproclamado “rei do Norte”.

Dilemas Morais

Na Batalha dos Bastardos, Jon Snow enfrenta uma escolha: resgatar seu irmão com o risco de sacrificar todo seu exército ou deixar Ramsay Bolton como senhor do castelo de sua família. Esse dilema contrasta com algo que ocorre no segundo episódio da temporada: Ramsay Bolton decide matar seu pai para usurpar seu poder. Essa atitude de Ramsay mostra um consequencialismo extremo: as ações são avaliadas apenas em termos de suas conseqüências, ou seja, de seus resultados.

Jon Snow escolheu, por outro lado, salvar seu irmão. Essa decisão está em consonância com a conduta ética que ele mantém ao longo da série. Seu princípio de avaliação moral visa analisar uma ação de acordo com sua conformidade com uma norma considerada absoluta. Emmanuel Kant dá uma formalização teórica em Fundamentos da metafísica dos costumes quando ele discute o chamado “direito de mentir”. Hoje, vários filósofos morais são inspirados por essa abordagem. Jeremy Waldron fala de “absolutismo” para descrever a adesão incondicionada a certos valores tidos por absolutos – no caso de Jon, as noções tradicionais de honra e respeito pela família.

Os recuos regulares de Jon Snow ilustram o aspecto fatal da pureza moral. A série demonstra as consequências de uma atitude antipolítica que não parece pertencer a este mundo: deve-se enfatizar, a esse respeito, que o próprio Jon Snow ressuscitou na temporada anterior, mostrando que essa atitude antipolítica só é viável para alguém que não está sujeito à finitude e falibilidade humanas. A arte de exercer o poder implica no equilíbrio e em concessões. Então, não se mistura com os absolutos morais.

A astúcia é melhor do que a força?

Game of Thrones traz o conflito entre a pureza moral pré-moderna, antipolítica e um consequencialismo que confina ao cinismo que o fim vale os meios. Isso se reflete na escolha dos meios usados ​​para lutar. Jon Snow opta por um estilo que reflete valores guerreiros que honram a luta direta de homem contra homem, o que ocorre quando propõe a Ramsay, antes do início da batalha mais famosa da série, que resolvam tudo num duelo. Essa escolha destaca o valor do embate pessoal e da proeza marcial: ela se reflete na imaginação contemporânea do cavalheirismo medieval, justo o período de predominância do feudalismo.

Em contraste com esse ideal medieval, os personagens que usam astúcia e perfídia parecem moralmente desacreditados. O gênio maligno de Cersei é impressionante sob essa perspectiva. Seu poder está associado à desnaturalização e à perversidade moral. A série traz então o embate entre a força e a astúcia, aspecto da ciência política analisado por Jean-Vincent Holeindre.

Holeindre propõe uma interpretação alternativa a esse dilema entre força e astúcia, inicialmente proposto pelo historiador militar Victor Davis Hanson, a estratégia fundamentada no truque seria explicada por uma forma de “orientalismo militar”. Segundo Hanson, a força “virtuosa” dos ocidentais refletiria a superioridade de seu regime político, enquanto a “astúcia” é, historicamente, a prerrogativa dos “bárbaros”. Sua desqualificação da astúcia como uma tática aceitável é uma maneira de deslegitimar o inimigo mais fraco. Holeindre, porém, relativiza essa proposta mostrando que, na realidade, a astúcia e a força sempre caminharam de mãos dadas na história da estratégia militar ocidental.

Rumo a um “bom” Estado?

Na sétima temporada de GoT, surge um modelo alternativo, representado por duas mulheres: Daenerys Targaryen e Sansa Stark. Elas simbolizam uma figura da modernidade política, na qual a resolução de conflitos ocorre numa tensão dinâmica entre astúcia e força, entre a lealdade ao clã e a ganância pelo poder pessoal. Elas representam uma versão mais evoluída da lógica da Razão de Estado? Conceito que surge na idade média, a Razão do Estado estabelece as bases para uma autonomia da ciência política: governar é uma arte específica, que obedece suas próprias regras morais.

A herdeira dos Targaryen sempre lembra a todos: seu objetivo é tornar o mundo melhor. Assim, consegue de seus súditos uma mobilização que supera os limites do interesse individual.

Sansa, herdeira legítima do Stark que foi casada à força com Ramsay Bolton, não fica para trás. Em uma reviravolta surpreendente, ela salva Jon Snow no nono episódio da sexta temporada, fazendo um acerto secreto com Lord Baelysh para que os exércitos do Vale de Arryn ajudem a seu irmão. Sua chegada inesperada quebra o cerco do inimigo. Posteriormente, Sansa finge cair em uma armadilha astutamente criada por Lord Baelysh encurralar seu antigo aliado em uma outra armadilha, fazendo um ajuste prévio com os senhores do Vale. Essas duas figuras femininas representam uma moral pragmática, que mostra uma abordagem realista da política, a realpolitik.

Como diz o filósofo Slavoj Zizek, as obras culturais funcionam como uma espécie de realidade condensada, oferecendo-nos mais para ver do que nossas experiências diárias permitem. Algumas reinterpretam a história política à luz das questões contemporâneas. Game of Thrones, por exemplo, ressalta a estrutura de poder centralizado como forma de organização política destinada a superar sistemas de poder baseados em clãs ou feudos. Nesta perspectiva, as representações artísticas fornecem um terreno cultural comum para a troca de grandes questões políticas e morais.

Amélie Ferey
Doutoranda em Teoria Política e Relações Internacionais da USPC.
  • Felype R Sales

    Excelente artigo! Sublimes análises… Apoio mais textos como esse, é de suma importância falar de política e seus múltiplos paradigmas.