A moralidade é importante para os assuntos humanos por duas razões principais.

Em primeiro lugar, através de barreiras culturais, o bem-estar dos indivíduos é fortemente afetado pela sua posição moral.

Um indivíduo tido em uma consideração moral relevante em uma antiga sociedade era recompensado, ou celebrado como um herói, enquanto quem tinha lugar baixo, moralmente, poderia ser advertido, isolado, condenado ao ostracismo ou morto.

Em segundo lugar, a capacidade de uma sociedade de competir com outras sociedades pode depender muito do conteúdo de seu sistema moral.

Um sistema moral que promove com sucesso valores associados à competitividade econômica e política, por exemplo, pode ser extremamente vantajoso para a sociedade que a acolhe.

Nossas crenças morais, então, têm um impacto crítico sobre os destinos de ambos os indivíduos que julgamos, e as sociedades a que pertencem (dois dos meus posts anteriores relativos a estes temas estão aqui e aqui).

Dado que a moral é tão importante, é óbvio que temos preocupação sobre termos certeza se estávamos sempre fazendo o certo.

Muitas vezes, no entanto, nossos juízos morais são baseadas principalmente em nossas reações emocionais imediatas sobre o comportamento dos outros, e nossas tentativas de justificar nossas decisões são apenas racionalizações post hoc destas emoções.

Muitas vezes nos sentimos apaixonados por nossas crenças morais, mas entendemos muito pouco sobre por que as temos.

Se for solicitado que justifiquemos uma suposta crença, podemos evocar um princípio como a bondade, um suposto bem maior, ou a vontade de Deus. Mas esses princípios são frequentemente definidos de forma ambígua, tornando-se difícil ou impossível de defini-los em um significado “permanente” (ver o meu post relacionado aqui).

Tortura de homem na roda | Como a ciência evolutiva pode nos fazer moralmente melhores
Muito obrigado, moralidade irracional

Quando a crença moral em questão é relativamente incontroversa, a ambiguidade das nossas justificações pode não ser um grande problema.

Por exemplo, a maioria das pessoas em uma cultura ocidental contemporânea concorda que fisicamente atacar outra pessoa apenas para obter vantagem é errado, e percebem a justificação como praticamente auto-evidente (algo nas linhas de “violência não provocada contra outras pessoas é ruim”).

Mas e se a crença moral é uma com a qual parte esmagadora da sociedade não concorda?

Considere, por exemplo, as divergências amargas entre os americanos sobre questões como a desigualdade de renda, o casamento gay, o controle de armas, a legalização das drogas, aborto e a separação de igreja e estado.

Nós seríamos mais capazes de seguir em frente a partir dessas disputas de maneiras produtivas e assim progredir mais facilmente e rapidamente se ao menos pudéssemos entender mais sobre nossos próprios códigos morais.

Mas como podemos fazer isso quando nossas crenças parecem tão opacas à introspecção? É fácil sentir-se apaixonado por nossas crenças, mas como podemos ver por trás de nossas emoções, para descobrir de onde nossas crenças vieram e se elas estão de fato nos levando para onde queremos ir?

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A ciência evolutiva fornece a chave para tal progresso moral.

 

Ciência evolutiva a serviço da moral

Quando eu digo que a ciência evolutiva é a chave do progresso moral, há pelo menos uma coisa que eu não quero dizer e duas coisas que quero.

O que eu não quero dizer é que o próprio processo evolutivo pode fornecer orientação sobre o certo ou errado.

Se algo aumentou ou aumenta a aptidão reprodutiva, isso significa que devemos julgá-lo como moralmente bom? Claro que não; eu concordo com os filósofos que identificam tal pensamento como um “apelo à natureza” falho ou “falácia naturalista”.

Considere ações comportamentais que são provavelmente uma evolução de adaptações psicológicas: muitas delas (por exemplo, a xenofobia) geralmente podem ser consideradas ruins, enquanto muitas outras (por exemplo, o investimento parental) normalmente poderiam ser considerada boas.

Da mesma forma, muitos comportamentos que são provavelmente os subprodutos da adaptações que evoluíram (como por exemplo, leitura e matemática) podem ser considerados bons, enquanto que muitos outros (por exemplo, a dependência de drogas pesadas) poderiam ser julgados como maus.

Basta dizer: se um comportamento é ou não adaptativo, ou se é produto ou subproduto de uma adaptação evolutiva, não significa nada sobre seu valor moral.

Então, se o processo evolutivo fornece orientação zero sobre o certo e o errado, como saber quais devem ser nossas crenças morais?

Depende de nós.

Temos que fazer o nosso melhor para concordar sobre os nossos objetivos sobre como deve ser nossa sociedade e, em seguida, defender e fazer cumprir as normas morais com base em quão útil achamos que elas serão para realizar esses objetivos.

O que me leva ao primeiro caminho em que a ciência evolutiva seja a chave do progresso moral:

Quanto melhor entendermos a natureza humana, melhor poderemos projetar sistemas morais que incentivem a expressão das nossas adaptações psicológicas “boas”, enquanto desencorajam a expressão de nossas expressões “más”.

Um sistema moral será “bem sucedido” em uma sociedade não tentando ignorar ou substituir a natureza humana, mas sim privilegiando estrategicamente alguns aspectos de nossa natureza sobre outros.

Se queremos reduzir a violência na nossa sociedade, por exemplo, não devemos negar o fato de que os seres humanos têm adaptações psicológicas para a violência. Devemos, além de reconhecer esse fato, praticar as adaptações para a resolução pacífica de conflitos que temos.

Então, devemos aprender o máximo que pudermos sobre com que tipos de adaptações podemos trabalhar, de modo que possamos projetar melhor a nossa cultura para incentivar a implantação das adaptações pacíficas e desencorajar a implantação dos meios mais violentos.

Leia mais: Sobre a personalidade de humanos e peixes

A segunda razão pela qual a ciência evolutiva pode permitir o progresso moral, é que o conhecimento sobre a função de uma crença moral é essencial para avaliar a utilidade dessa mesma crença.

Ao testar previsões sobre como uma crença moral diz respeito a certas variáveis individuais e ambientais, podemos aprender muito sobre os problemas que a crença foi projetada para combater (por evolução biológica ou cultural), tanto para resolver situações em ambientes passados, e sobre se essa mesma crença ou comportamento continua a cumprir essa mesma função em ambientes atuais.

Por exemplo, estudos recentes sugerem que a força física de uma pessoa – isto é, o grau em que ela seria capaz de competir agressivamente por status (e, portanto, por recursos) em ambientes ancestrais – prediz suas atitudes em relação à violência política e desigualdade social.

Em outras palavras, as pessoas parecem ter crenças morais que teriam vantagem individualmente em uma sociedade em que as competições de status foram decididas em grande parte pela força física.

Estes resultados sugerem que os mecanismos mentais produzindo suas crenças:

  • foram projetados para aquisição de status, e
  • podem não cumprir essa função particularmente bem nas sociedades modernas, em que as competições são decididas mais pela tecnologia, inteligência e educação, e em seguida pela força física.

Disputas morais são um divisor de águas em muitas sociedades contemporâneas, e muito está modificando seu atual curso, tanto em termos de bem-estar individual e competitividade social.

Ao desvendar e analisar a natureza humana, a origem e função das crenças morais biológicas e culturalmente evoluídas, a ciência evolutiva está gerando um conhecimento que pode nos ajudar a seguir em frente com essas disputas nas formas mais racionais e produtivas possíveis.


Tradução de Rodrigo Zottis do artigo original em inglês.


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escrito por:

Michael E. Price

Michael E. Price é PhD, professor de Psicologia e diretor do Centro de Cultura e Evolução, na Universidade de Brunel, em Londres.