Desenho de religiosos apontando o dedo para um estudioso.

Como a ciência evolutiva pode nos fazer moralmente melhores

Em Ciência, Comportamento, Consciência, Filosofia, Sociedade, Sociedade por Michael E. PriceComentários

A mora­li­dade é impor­tante para os assun­tos huma­nos por duas razões prin­ci­pais.

Em pri­meiro lugar, atra­vés de bar­rei­ras cul­tu­rais, o bem-estar dos indi­ví­duos é for­te­mente afe­tado pela sua posi­ção moral.

Um indi­ví­duo tido em uma con­si­de­ra­ção moral rele­vante em uma antiga soci­e­dade era recom­pen­sado, ou cele­brado como um herói, enquanto quem tinha lugar baixo, moral­mente, pode­ria ser adver­tido, iso­lado, con­de­nado ao ostra­cismo ou morto.

Em segundo lugar, a capa­ci­dade de uma soci­e­dade de com­pe­tir com outras soci­e­da­des pode depen­der muito do con­teúdo de seu sis­tema moral.

Um sis­tema moral que pro­move com sucesso valo­res asso­ci­a­dos à com­pe­ti­ti­vi­dade econô­mica e polí­tica, por exem­plo, pode ser extre­ma­mente van­ta­joso para a soci­e­dade que a aco­lhe.

Nos­sas cren­ças morais, então, têm um impacto crí­tico sobre os des­ti­nos de ambos os indi­ví­duos que jul­ga­mos, e as soci­e­da­des a que per­ten­cem (dois dos meus posts ante­ri­o­res rela­ti­vos a estes temas estão aqui e aqui).

Dado que a moral é tão impor­tante, é óbvio que temos pre­o­cu­pa­ção sobre ter­mos cer­teza se está­va­mos sem­pre fazendo o certo.

Mui­tas vezes, no entanto, nos­sos juí­zos morais são base­a­das prin­ci­pal­mente em nos­sas rea­ções emo­ci­o­nais ime­di­a­tas sobre o com­por­ta­mento dos outros, e nos­sas ten­ta­ti­vas de jus­ti­fi­car nos­sas deci­sões são ape­nas raci­o­na­li­za­ções post hoc des­tas emo­ções.

Mui­tas vezes nos sen­ti­mos apai­xo­na­dos por nos­sas cren­ças morais, mas enten­de­mos muito pouco sobre por que as temos.

Se for soli­ci­tado que jus­ti­fi­que­mos uma suposta crença, pode­mos evo­car um prin­cí­pio como a bon­dade, um suposto bem maior, ou a von­tade de Deus. Mas esses prin­cí­pios são fre­quen­te­mente defi­ni­dos de forma ambí­gua, tor­nando-se difí­cil ou impos­sí­vel de defini-los em um sig­ni­fi­cado “per­ma­nente” (ver o meu post rela­ci­o­nado aqui).

Tortura de homem na roda | Como a ciência evolutiva pode nos fazer moralmente melhores

Muito obri­gado, mora­li­dade irra­ci­o­nal

Quando a crença moral em ques­tão é rela­ti­va­mente incon­tro­versa, a ambi­gui­dade das nos­sas jus­ti­fi­ca­ções pode não ser um grande pro­blema.

Por exem­plo, a mai­o­ria das pes­soas em uma cul­tura oci­den­tal con­tem­po­râ­nea con­corda que fisi­ca­mente ata­car outra pes­soa ape­nas para obter van­ta­gem é errado, e per­ce­bem a jus­ti­fi­ca­ção como pra­ti­ca­mente auto-evi­dente (algo nas linhas de “vio­lên­cia não pro­vo­cada con­tra outras pes­soas é ruim”).

Mas e se a crença moral é uma com a qual parte esma­ga­dora da soci­e­dade não con­corda?

Con­si­dere, por exem­plo, as diver­gên­cias amar­gas entre os ame­ri­ca­nos sobre ques­tões como a desi­gual­dade de renda, o casa­mento gay, o con­trole de armas, a lega­li­za­ção das dro­gas, aborto e a sepa­ra­ção de igreja e estado.

Nós sería­mos mais capa­zes de seguir em frente a par­tir des­sas dis­pu­tas de manei­ras pro­du­ti­vas e assim pro­gre­dir mais facil­mente e rapi­da­mente se ao menos pudés­se­mos enten­der mais sobre nos­sos pró­prios códi­gos morais.

Mas como pode­mos fazer isso quando nos­sas cren­ças pare­cem tão opa­cas à intros­pec­ção? É fácil sen­tir-se apai­xo­nado por nos­sas cren­ças, mas como pode­mos ver por trás de nos­sas emo­ções, para des­co­brir de onde nos­sas cren­ças vie­ram e se elas estão de fato nos levando para onde que­re­mos ir?

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A ciên­cia evo­lu­tiva for­nece a chave para tal pro­gresso moral.

 

Ciência evolutiva a serviço da moral

Quando eu digo que a ciên­cia evo­lu­tiva é a chave do pro­gresso moral, há pelo menos uma coisa que eu não quero dizer e duas coi­sas que quero.

O que eu não quero dizer é que o pró­prio pro­cesso evo­lu­tivo pode for­ne­cer ori­en­ta­ção sobre o certo ou errado.

Se algo aumen­tou ou aumenta a apti­dão repro­du­tiva, isso sig­ni­fica que deve­mos julgá-lo como moral­mente bom? Claro que não; eu con­cordo com os filó­so­fos que iden­ti­fi­cam tal pen­sa­mento como um “apelo à natu­reza” falho ou “falá­cia natu­ra­lista”.

Con­si­dere ações com­por­ta­men­tais que são pro­va­vel­mente uma evo­lu­ção de adap­ta­ções psi­co­ló­gi­cas: mui­tas delas (por exem­plo, a xeno­fo­bia) geral­mente podem ser con­si­de­ra­das ruins, enquanto mui­tas outras (por exem­plo, o inves­ti­mento paren­tal) nor­mal­mente pode­riam ser con­si­de­rada boas.

Da mesma forma, mui­tos com­por­ta­men­tos que são pro­va­vel­mente os sub­pro­du­tos da adap­ta­ções que evo­luí­ram (como por exem­plo, lei­tura e mate­má­tica) podem ser con­si­de­ra­dos bons, enquanto que mui­tos outros (por exem­plo, a depen­dên­cia de dro­gas pesa­das) pode­riam ser jul­ga­dos como maus.

Basta dizer: se um com­por­ta­mento é ou não adap­ta­tivo, ou se é pro­duto ou sub­pro­duto de uma adap­ta­ção evo­lu­tiva, não sig­ni­fica nada sobre seu valor moral.

Então, se o pro­cesso evo­lu­tivo for­nece ori­en­ta­ção zero sobre o certo e o errado, como saber quais devem ser nos­sas cren­ças morais?

Depende de nós.

Temos que fazer o nosso melhor para con­cor­dar sobre os nos­sos obje­ti­vos sobre como deve ser nossa soci­e­dade e, em seguida, defen­der e fazer cum­prir as nor­mas morais com base em quão útil acha­mos que elas serão para rea­li­zar esses obje­ti­vos.

O que me leva ao pri­meiro cami­nho em que a ciên­cia evo­lu­tiva seja a chave do pro­gresso moral:

Quanto melhor enten­der­mos a natu­reza humana, melhor pode­re­mos pro­je­tar sis­te­mas morais que incen­ti­vem a expres­são das nos­sas adap­ta­ções psi­co­ló­gi­cas “boas”, enquanto desen­co­ra­jam a expres­são de nos­sas expres­sões “más”.

Um sis­tema moral será “bem suce­dido” em uma soci­e­dade não ten­tando igno­rar ou subs­ti­tuir a natu­reza humana, mas sim pri­vi­le­gi­ando estra­te­gi­ca­mente alguns aspec­tos de nossa natu­reza sobre outros.

Se que­re­mos redu­zir a vio­lên­cia na nossa soci­e­dade, por exem­plo, não deve­mos negar o fato de que os seres huma­nos têm adap­ta­ções psi­co­ló­gi­cas para a vio­lên­cia. Deve­mos, além de reco­nhe­cer esse fato, pra­ti­car as adap­ta­ções para a reso­lu­ção pací­fica de con­fli­tos que temos.

Então, deve­mos apren­der o máximo que puder­mos sobre com que tipos de adap­ta­ções pode­mos tra­ba­lhar, de modo que pos­sa­mos pro­je­tar melhor a nossa cul­tura para incen­ti­var a implan­ta­ção das adap­ta­ções pací­fi­cas e desen­co­ra­jar a implan­ta­ção dos meios mais vio­len­tos.

Leia mais: Sobre a personalidade de humanos e peixes

A segunda razão pela qual a ciên­cia evo­lu­tiva pode per­mi­tir o pro­gresso moral, é que o conhe­ci­mento sobre a fun­ção de uma crença moral é essen­cial para ava­liar a uti­li­dade dessa mesma crença.

Ao tes­tar pre­vi­sões sobre como uma crença moral diz res­peito a cer­tas variá­veis indi­vi­du­ais e ambi­en­tais, pode­mos apren­der muito sobre os pro­ble­mas que a crença foi pro­je­tada para com­ba­ter (por evo­lu­ção bio­ló­gica ou cul­tu­ral), tanto para resol­ver situ­a­ções em ambi­en­tes pas­sa­dos, e sobre se essa mesma crença ou com­por­ta­mento con­ti­nua a cum­prir essa mesma fun­ção em ambi­en­tes atu­ais.

Por exem­plo, estu­dos recen­tes suge­rem que a força física de uma pes­soa — isto é, o grau em que ela seria capaz de com­pe­tir agres­si­va­mente por sta­tus (e, por­tanto, por recur­sos) em ambi­en­tes ances­trais — pre­diz suas ati­tu­des em rela­ção à vio­lên­cia polí­tica e desi­gual­dade social.

Em outras pala­vras, as pes­soas pare­cem ter cren­ças morais que teriam van­ta­gem indi­vi­du­al­mente em uma soci­e­dade em que as com­pe­ti­ções de sta­tus foram deci­di­das em grande parte pela força física.

Estes resul­ta­dos suge­rem que os meca­nis­mos men­tais pro­du­zindo suas cren­ças:

  • foram pro­je­ta­dos para aqui­si­ção de sta­tus, e
  • podem não cum­prir essa fun­ção par­ti­cu­lar­mente bem nas soci­e­da­des moder­nas, em que as com­pe­ti­ções são deci­di­das mais pela tec­no­lo­gia, inte­li­gên­cia e edu­ca­ção, e em seguida pela força física.

Dis­pu­tas morais são um divi­sor de águas em mui­tas soci­e­da­des con­tem­po­râ­neas, e muito está modi­fi­cando seu atual curso, tanto em ter­mos de bem-estar indi­vi­dual e com­pe­ti­ti­vi­dade social.

Ao des­ven­dar e ana­li­sar a natu­reza humana, a ori­gem e fun­ção das cren­ças morais bio­ló­gi­cas e cul­tu­ral­mente evo­luí­das, a ciên­cia evo­lu­tiva está gerando um conhe­ci­mento que pode nos aju­dar a seguir em frente com essas dis­pu­tas nas for­mas mais raci­o­nais e pro­du­ti­vas pos­sí­veis.


Tra­du­ção de Rodrigo Zot­tis do artigo ori­gi­nal em inglês.


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Michael E. Price
Michael E. Price é PhD, professor de Psicologia e diretor do Centro de Cultura e Evolução, na Universidade de Brunel, em Londres.

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