Podemos detestar quando as ruas da cidade alagam devido às chuvas, deixando a população à mercê da sujeira dos esgotos. Contudo, não faz muito tempo que as ruas das principais cidades do mundo estavam 24 horas por dia cheias de excrementos de seus moradores, sem nenhum tratamento apropriado. Para Chicago, que aumentou cerca de 100.000 habitantes de sua população entre 1830 e 1860, as coisas ficaram bem ruins. A cidade era construída alguns pés acima do nível do mar, ou seja, a falta de drenagem de Chicago transformou as ruas em verdadeiros pântanos de excrementos.

Uma piada popular em Chicago no início do século 19 envolve um cavalheiro que descobre um homem na rua enterrado até os ombros na lama. O cavalheiro pergunta ao homem: “Posso ajudá-lo?” Ao que o homem responde: “Não, obrigado, eu tenho um bom cavalo debaixo de mim.”

chicago na merda
Ruas de Chicago em 1871, nota-se a quantidade de lama e sujeira nas ruas.

Brincadeiras a parte, o problema dos resíduos de Chicago estava matando as pessoas. Poças de água poluídas paradas e excrementos em ruas públicas causaram a febre tifoide e a disenteria. Em 1854, um surto de cólera matou 6% da população da cidade. Quando os oficiais resolveram levar a sério o problema, logo perceberam que a quantidade de escavação necessária para construir um sistema de drenagem sob a cidade de baixa altitude seria caro demais. A engenharia norte-americana não era tão promissora na época.

Contudo Ellis Chesbrough elaborou um plano em 1856 para construir a primeira rede de esgotos abrangente da nação. Mas, para isso, seria necessário elevar a metrópole. Durante as próximas duas décadas, os edifícios no centro de Chicago foram elevados entre quatro e catorze pés por equipes de homens operando pés de macaco. Tudo manualmente.

chicago na merda
Ilustração de homens operando pés-de-macaco, 1868.

Um relatório de 1860 do Chicago Press & Tribune dizia o seguinte:

“Toda a frente de prédios de primeira classe no lado norte de Lake Street, entre La Salle e as ruas Clark, está agora subindo em torno de cerca de doze polegadas por dia. Estará em sua máxima altura amanhã à noite, constituindo um espetáculo inédito para nossos cidadãos, pois uma quadra da cidade irá caber em quase um acre, pesando mais de vinte e cinco mil toneladas sobre seis mil parafusos.”

Novas fundações foram instaladas sob os prédios, com esgotos angulares para levar os resíduos para o Lago Michigan. Em alguns casos, prédios inteiros eram movidos, a fim de abrir espaço para o sistema de drenagem.

Em 1868, um visitante da cidade observou: “não houve um dia que se passou durante a minha estadia na cidade em que eu não vi uma ou mais casas sendo elevadas em uma quadra. Um dia, vi nove.”

Na verdade, o mundo inteiro ficou maravilhado com as proezas da engenharia da cidade. Dessa forma, muitas outras cidades logo seguiriam a mesma tendência. Ao longo das próximas décadas, vinte cidades americanas viriam a construir seus próprios sistemas de águas pluviais e águas residuais. Isso influenciou países próximos e, posteriormente, o Brasil.

Apesar dos contratempos futuros (e havia muitos), Ellis Chesbrough conseguiu resolver problema do lixo da cidade e estimular um movimento nacional em direção a uma rede de esgotos mais abrangente. Então, da próxima vez que você der a descarga ou caminhar por uma rua sem fezes, lembre-se da dedicação e boa vontade de Ellis Chesbrough.

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O ilustríssimo Ellis Chesbrough.

escrito por:

Rodrigo Zottis

Rapaz que só faz o que faz pois espera que um dia seu legado possa ser completamente auto-explicativo.


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