O corpo de Chester Bennington foi descoberto em sua casa às nove da manhã desta quinta. O vocalista do Linkin Park enforcou-se ou na noite do dia 19 de julho ou na madrugada do dia 20. Nessa última hipótese, Chester decidiu se matar no aniversário de seu grande amigo Chris Cornell, que também cometeu suicídio há só dois meses. Chris, curiosamente, também se enforcou.

Aos 41 anos, Chester era um artista bem sucedido, músico admirado por uma legião de fãs, de talento reconhecido por seus pares, casado e com seis filhos. Apesar de ter conquistado muitas das metas de nossa sociedade, Chester julgou, por algum motivo, que sua vida não era digna de ser vivida. O mesmo pode ser dito de Chris Cornell, vocalista de duas bandas que deixaram sua marca na história do rock, casado e pai de três filhos, músico com uma carreira ambicionada por muitos colegas de profissão. Para ele, de alguma forma, tudo o que havia conseguido não lhe trazia qualquer razão para viver.

Chester e Chris não eram apenas amigos, mas também parceiros musicais. Quando soube da morte de seu amigo, Chester escreveu uma carta de despedida. Na carta, ele cita as músicas Rocky Raccoon e A Day in the Life dos Beatles e um sonho que teve com a banda britânica na noite em que o amigo se matou.

O suicídio de dois artistas que são referência para sua geração é um fato que deve nos preocupar. Estamos em uma época em que, com o suicídio de artistas como Chester Bennington, Chris Cornell, David Foster Wallace e Kurt Cobain, esse ato absurdo e injustificável tende a ser romantizado, erroneamente, por uma legião de admiradores.

A isso vem se juntar séries de TV que, também equivocadamente, glamourizam o suicídio, como 13 Reasons Why. E se isso não fosse o bastante, surgem “jogos” como o Baleia Azul, que estimulam e gameficam o suicídio de jovens que não encontram ajuda em uma sociedade que está, ela mesma, bastante perdida a ponto de oportunizar esse tipo de coisa. Só no Brasil, a taxa de suicídios nos últimos anos subiu de forma alarmante.

A morte é um assunto tabu em nossa sociedade. Ninguém gosta de falar sobre esse tema. E falar da morte voluntária é o tabu elevado à segunda potência. Mas esse silêncio acovardado da sociedade apenas reforça e permite a disseminação de um grande mal. O suicídio não é um papo que deve ser limitado à opinião de especialistas, e muito menos um problema que deve ser deixado aos cuidados de medicamentos. Esse é um assunto sobre o qual todos precisamos falar, sem intimidações.

Quando dois artistas célebres e admirados se suicidam em intervalo tão curto e em circunstâncias que nos levam a pensar que de alguma forma o ato do primeiro foi um dos fatores que impulsionou o ato do segundo, quando seriados de TV e “jogos” estimulam, voluntariamente ou não, o suicídio de pessoas emocionalmente fragilizadas, é chegada a hora de todos nos perguntarmos: o que está havendo? o que deixamos de ouvir e o que deixamos de dizer, enquanto comunidade, a essas pessoas?

A tempos são os jovens que adoecem, e uma sociedade em que a doença da alma leva artistas talentosos e jovens perdidos ao suicídio pode ser considerada ela própria doente.

Leia a carta de despedida escrita por Chester a Chris Cornell a seguir:

“Sonhei com os Beatles ontem à noite. Acordei com Rocky Raccoon tocando na minha cabeça e um olhar preocupado do rosto da minha esposa. Ela me disse que meu amigo acabara de falecer. Pensamentos sobre você inundaram minha mente e chorei. Ainda estou chorando, com tristeza, bem como com gratidão por ter compartilhado momentos muito especiais com você e sua bela família. Você me inspirou de maneiras que você jamais poderia imaginar. Seu talento era puro e incomparável. Sua voz era alegria e dor, raiva e perdão, amor e mágoa unidas em uma só coisa. Suponho que seja o que todos nós somos. Você me ajudou a entender isso. Acabei de ver um vídeo de você cantando “A Day In The Life” pelos Beatles e pensei em meu sonho. Gostaria de pensar que você estava dizendo adeus à sua maneira. Não consigo imaginar um mundo sem você nele. Peço-lhe que encontre paz na próxima vida. Eu envio meu amor para sua esposa e filhos, amigos e familiares.

Obrigado por me permitir fazer parte de sua vida.

Com todo o meu amor.

Seu amigo,

€ # £ $ + £ R]} £ [] [] [G + O] [“

  • Muito triste. O silêncio já diz tudo.

    obs: tá devendo um texto sobre PKD, hein.

  • Caio

    link park eh ruim de mais, esse cara usava muito efeito na voz.

    • Dry FZ

      Linkin Park** (Corrigindo)
      Desculpe-me lhe corrigir, mais não consigo ver alguém escrevendo o nome de banda errado, Ainda mais sendo da minha banda preferida.
      E o fato da banda usar alguns efeitos não torna ela “Ruim demais” Todos cantores/Bandas usam efeitos.
      Chester não usava muitos efeitos, Tem nem o porque vc falar que Linkin Park é ruim demais, é uma das melhores bandas, deixou seu nome marcado na história do Rock

  • Leticia Kira

    bando de ingratos com a vida, sem falar egoístas

    • Isso me buga. Egoístas são pessoas que só pensam si mesmas. Se um suicida é egoísta, isso significa que ele só pensa em si mesmo, que ele tem um alto senso de auto-importância? Mas então por que ele se matou?

      • Leticia Kira

        O motivo nunca saberemos. Porém muitas pessoas se suicidam porque não sabem lidar com a dor que sentem. Ela somente quer que o sofrimento acabe. Digo egoísta, pois ele somente pensou na sua dor, não na família que ele deixou, que com certeza o amava.

        • Marcos Viana

          É muito delicado dizer que uma pessoa é egoísta por cometer suicídio. Na verdade é muito delicado falar de suicídio com um certo ar de julgamento àquele que cometeu tal ato. Não sabemos o que se passou em sua mente, não sabemos como estava sua vida, não sabemos os sentimentos que o rodeavam. Será que ele somente pensou em sua dor? E se ele pensou, qual o problema? Nós somos seres coletivos, mas com nossa individualidade, e eu diria que todos somos egoístas, por não querer, muitas vezes, que o outro tome suas decisões, independente de quais sejam, para pensar em nós primeiro.

          A morte, o suicídio, são pontos importantíssimos de serem estudados, precisamos mesmo.

          • Exatamente.

            Às vezes a dor de uma pessoa é tão grande que só nos resta entender que mesmo deixando entes queridos pra trás, é difícil continuar sentindo tal dor.

            Não sei se cabe esse julgamento de “ah fulano deveria ter pensado em cicrano”.

            Geralmente quem comete suicídio está justamente num estado em que essa lucidez não existe mesmo.

            Seria como pedir a alguém que tem depressão pra não ficar triste. Po, a condição da depressão envolve justamente a dificuldade imensa em deixar de lado a tristeza e outros sintomas.

            É tolo pedir simplesmente o contrário.

          • Daniel Cavassani

            A solução para a depressão é justamente falar para a pessoa deixar de ser triste.
            Depressão sempre existiu, e sempre tendeu a ser superada sem ajuda de nada, o problema é que modernamente estamos dando um patamar especial a ela e no fundo incentivando todos os sentimentos tristes.

            Se quer ajudar a pessoa a superar a depressão, faça ela enfrentar a dor e superar logo, não adianta ficar passando a mão na cabeça dizendo “você tá tristinho, continue trancado no quarto escuro tomando seus remedinhos”, a melhor coisa que você pode fazer é na verdade tirar ela do quarto e fazer cumprir com suas obrigações diárias, isso por si só já vai ser um ótimo remédio a ajudar a combater a depressão.

            A sociedade tem que entender que lidar com a dor não é degustar ela, mas sim racionaliza-la e seguir em frente, mas atualmente ela insiste em dizer que devemos sentir e ficar chorando pelos cantos, e isso é bonito, chegando ao absurdo de glorificar a tristeza com essa onda de sad boys e sad girls.

            O 13 Reasons demonstra a diferença, em tempos atrás suicidio era socialmente visto como ato de fraqueza e pecado mortal, hoje ele é retratado de maneira bonita e dramática. Os comentários demonstram isso, o Chester está sendo blindado de criticas por ter SIM abandonado a família e os filhos, está sendo colocado em um patamar especial.

          • Muitos transtornos (não sei se todos) podem desaparecer após remissão espontânea. isso significa que eles podem ir embora do nada e não tem como prever.

            Mas isso não é garantido. Levando em conta que a depressão não é só mera tristeza ou melancolia, e que essas pessoas tem altas chances de cometerem suicídio, além da saúde delas como um todo ficar bem prejudicada, é arriscado demais esperar que essa remissão espontânea aconteça.

            Ao longo da história as pessoas conviveram com diversos males, mas hoje temos condições de expurgar alguns deles da existência — ou controlá-los. Não vejo razão para não fazê-lo.

            “A sociedade tem que entender que lidar com a dor não é degustar ela, mas sim racionaliza-la e seguir em frente”

            Racionalizar é sempre uma opção nesses casos. Em termos clínicos isso pode ser chamado de reestruturação cognitiva. O problema é que alguns transtornos são caracterizados exatamente pela dificuldade em racionalizar. Então é simplesmente tolo dizer pra pessoa “é só racionalizar”. Muitas vezes ela sabe, mas não tem condições de racionalizar. Daí a importância da terapia. Vc desenvolve meios, aos poucos, de ir recobrando certa lucidez para usar essas estratégias que vc tá falando.

            Sobre famosos que cometem suicídio:

            Isso que vc falou é verdade. Rola uma glamurização e tal. Mas a questão não se resume a isso.

            a) depressão é caso sério, não é mera tristeza, é um problema de saúde mesmo;

            b) pessoas com depressão tem maiores riscos de cometer suicídio do que a população em geral;

            c) é tolice atribuir qualquer caráter positivo ao suicídio, mas isso não significa que devam demonizar quem comete;

            d) pessoas que se suicidam estão de fato sofrendo muito;

            e) a melhor abordagem não é glamurizar nem demonizar o suicídio, pois isso erra o alvo; é melhor entender o fenômeno; dizer que é mera frescura de adolescente leite com pêra não é entender, é fazer piada com um assunto MUITO sério.

          • Daniel Cavassani

            Depressão é sim algo preocupante, mas é uma doença que não atinge tantas pessoas assim, e seu tratamento e origem são no mínimo controversos, a eficácia dos antidepressivos por exemplo, são sempre colocados em duvida: https://oglobo.globo.com/sociedade/saude/antidepressivos-trazem-mais-prejuizos-do-que-beneficios-2896469

            Outro ponto da depressão é que ultimamente ela vem sendo ampliada demais, uma depressão “leve” não é algo difícil de se ter, e é basicamente melancolia.

            Ser condizente com a situação da pessoa é apoiar o estado dela, manter a pessoa no canto, sozinha e chorando não vai ajudar ela a racionalizar, continuar com o discurso de “coitadinha, está doente” não vai ajudar. Levar ela para o mundo vai, lembrar que o mundo é muito maior do que ela está sentindo vai.

            E a glamourização não é só com artistas famosos, dá uma volta pelo tumblr e você verá o tanto que suicídio é glamourizado, no facebook tem um movimento parecido. Passe um mês acessando essas páginas por uma hora, e você com certeza ficará deprimido.

            Não devemos julgar uma pessoa depressiva que se mata, se o caso realmente for uma depressão séria. Mas também precisamos separar o joio do trigo, se um adolescente retardado se mata (ou uma pessoa que aja como tal) deve sim ser julgado e até colocado como motivo de vergonha, no minimo deve ser deixado pra lá logo após o velório. Ficar lembrando ou gerar um movimento inteiro ao redor da morte de adolescente “leite com pera” só vai fazer outros retardados do mesmo nível seguirem esse caminho por atenção pós-morte.

            Nossa sociedade não está doente por que as pessoas estão doentes, ela está doente por a cultura não mais glorificar as virtudes humanas e sim normalizar e aceitar a doença.

          • Medicamentos antidepressivos geram muitos efeitos colaterais e às vezes são difíceis de ir ajustando a dose que melhor se encaixa no paciente. Esse é o principal problema com eles.

            Contestar a eficácia mínima de medicamentos do tipo é típico de profissionais anti-psiquiatria. É como um homeopata contestando os medicamentos tradicionais alegando que eles não funcionam, que tudo é uma grande conspiração da indústria farmacêutica — como se médicos anti-psiquiatria e homeopatas não quisessem dinheiro também rs.

            Digamos que psicoterapia (as testadas) e terapia farmacológica sejam as saídas mais garantidas atualmente pra quem tem depressão — ou outros transtornos.

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            Cara, depressão leve não é melancolia nem tristeza. O fato de ser um episódio isolado, uma depressão prolongada ou o caso mais extremo da depressão maior não exclui o fato de que o que a pessoa tem ou teve é depressão, e não tristeza. O que acontece é que segue-se um espectro de gravidade e de necessidade de certas estratégias terapêuticas.

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            Eu entendo o que vc quer dizer com isso de não reforçar os sintomas da pessoa com depressão. O problema é que a solução não é tão fácil assim. Apoio social é fundamental mesmo, mas não significa que isso sozinho vai controlar o transtorno. Pode ser é o ponto inicial pra um engajamento num tratamento. Em geral é assim.

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            Vc acha que alguém pode acabar com a própria vida só pra aparecer?

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            Interessante que a matéria que vc linkou no início diz que estamos glamourizando a normalidade (não aceitamos a doença, ou patologizamos o que é normal). Aí vc conclui dizendo o oposto, que estamos glamourizando a doença, que achamos legal ser doente. rs

        • Mas aí não seria egoísmo da família em achar que uma pessoas tem que viver só pela família?

        • Veja minha resposta acima 🙂

      • Lucas Kroeff

        o egoísmo pra mim reside no fato de que ele deixou, no mínimo uma esposa e 6 filhos desamparados.

        • Isso vai no que eu já tinha falado.

          Acho fora de questão julgar como egoísmo uma pessoa cometer suicídio. Alguém que faz essa escolha não está friamente escolhendo entre um sorvete de baunilha ou um de chocolate. Quem comete suicídio está justamente num estado em que a tomada de decisão é prejudicada pelo tormento emocional, existencial, etc.

          Questionar alguém nessa situação é como dizer “nossa, por que vc não deu o golpe tal naquele assaltante, roubou a arma, imobilizou ele no chão e ficou lá até a polícia chegar? Seu covarde!”. Evidentemente está fora de questão.

          Mas nós sentimos confortáveis com tal questionamento quando cometem suicídio.

    • Dry FZ

      Egoísmo é o hábito ou a atitude de uma pessoa colocar seus interesses, opiniões, desejos, necessidades em primeiro lugar, em detrimento (ou não) do ambiente e das demais pessoas com que se relaciona.
      Então egoísmo é o que vc acabou de fazer, Vc pois sua opinião em primeiro lugar.
      Egoísmo da sua parte julgar eles dois. (Chester e Cornell)
      Somente Deus pode julgar o ato deles (Chester e Cornell) Ninguém pode julgar eles pode julgar eles dois por nada.
      Ninguém sabe da vida deles, o que sabemos sobre eles são meros buatos.
      Se eles (Chester e Cornell) cometeram o ato de tirar sua própria vida (suicídio) eles tinham motivos, podem não fazer sentido pra vc e para outras pessoas mais para eles faziam.

      • Daniel Cavassani

        Não é por fazer sentido pra eles que os motivos estão certos e/ou não podem ser criticados.

  • Alef dos Santos

    O que está havendo? o que deixamos de ouvir e o que deixamos de dizer, enquanto comunidade, a essas pessoas?
    Como diria minha vó. Uma hora a panela de pressão estoura. Eu acho que a hora está chegando para diversas pessoas. São diversos fatores, não tem como. É complexo, mas será que não tinha outro caminho? Ou melhor, será que ele acreditava em outro caminho? Será que a pessoa que estava no volante era uma pessoa que estava machucada? Silêncio é a resposta.
    Meu medo é que isso se torne normal.

    • Normal no sentido de o suicídio se tornar comum? Duvido. Apesar de ter aumentado, ainda é uma taxa muito pequena. Creio que tenha correlação com o aumento da incidência de depressão, que tá diretamente associada ao risco de suicídio.