O segundo assassinato das vítimas de Charlie Hebdo

O segundo assassinato das vítimas de Charlie Hebdo

Em Consciência, Religião, Sociedade por Victor LisboaComentário

1. A jovem de calcinha e nossos comentaristas 

Não há outra forma de dei­xar isso mais claro do que com essa metá­fora.

Uma menina de 16 anos sai nas ruas ves­tindo de cal­ci­nha fio den­tal. Após umas qua­dras, ela é estu­prada por dois delin­quen­tes.

Parece mais do que óbvio que a ver­da­deira moti­va­ção do estu­pro não é o fato de a menina estar ves­tindo cal­ci­nha pelas ruas, por mais impru­dente que seja. Qual­quer mulher tem o direito de andar da forma que qui­ser, pois abso­lu­ta­mente nada jus­ti­fica ou ate­nua o crime de estu­pro.

O uso da cal­ci­nha fio den­tal pode ter sido um fato que, na mente dos cri­mi­no­sos, dis­pa­rou o gati­lho de sua ação naquele espe­cí­fico momento. Mas não have­ria gati­lho se não hou­vesse uma arma pre­vi­a­mente fabri­cada. E a arma, no caso, e causa ver­da­deira do estu­pro, é uma cul­tura machista que trata a mulher como objeto e enxerga em deter­mi­na­das ves­ti­men­tas um con­vite indu­vi­doso para o sexo.

Ocorre que na imprensa e nas redes soci­ais diver­sos “for­ma­do­res de opi­nião” deci­dem dis­cu­tir o quanto andar nas ruas de cal­ci­nha fio den­tal e salto alto é ina­pro­pri­ado. Todos esses “for­ma­do­res de opi­nião” res­sal­tam eu seus tex­tos que não estão ate­nu­ando ou ten­tando jus­ti­fi­car o estu­pro, mas acham que é uma boa opor­tu­ni­dade para dis­cu­tir-se o uso de cal­ci­nha nas ruas.

Pior ainda, alguns che­gam ao cúmulo de ana­li­sar a situ­a­ção econô­mica dos dois delin­quen­tes, casu­al­mente mora­do­res da peri­fe­ria, e a situ­a­ção econô­mica da vítima, casu­al­mente filha da classe alta, para suge­rir que os estu­pra­do­res foram colo­ca­dos naquela situ­a­ção por uma con­jun­tura social pro­vo­cada pela classe abas­tada a qual per­ten­cia a menina. Esses ana­lis­tas, claro, sem­pre sali­en­tam que, com isso, de modo algum dese­jam ame­ni­zar o crime. 

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Isso é muito curi­oso, pois revela uma enorme inco­e­rên­cia. Ora, se esses “for­ma­do­res de opi­nião” não estão ten­tando jus­ti­fi­car o estu­pro pelo uso da cal­ci­nha, deve­riam estar dis­cor­rendo sobre o estu­pro e suas ver­da­dei­ras cau­sas. Con­tudo, ao deci­dir falar da cal­ci­nha, con­tra­di­zem com seus atos e sua abor­da­gem aquela res­salva que fazem de que não estão ten­tando jus­ti­fi­car os cri­mi­no­sos.

Não é outra coisa a que está ocor­rendo neste momento em rela­ção ao aten­tado à reda­ção da revista Char­lie Hebdo. O que mais vemos nas redes soci­ais agora são aná­li­ses sobre a impro­pri­e­dade da linha edi­to­rial da revista fran­cesa (como as que temos aqui, aqui e aqui), e muito pou­cas, quase nenhuma, abor­da­gem sobre o ver­da­deiro pro­blema: o cres­ci­mento do fun­da­men­ta­lismo ao redor do pla­neta — e não ape­nas do fun­da­men­ta­lismo islâ­mico, mas tam­bém do cris­tão e do isra­e­lense.

2. O assassinato insidioso

Alto lá!”, alguém pode estar dizendo neste momento, “os car­tu­nis­tas da Char­lie Hebdo não esta­vam ape­nas exer­cendo seu direito de livre­mente fazer o que qui­ses­sem de suas vidas, como a menina na metá­fora da cal­ci­nha estava: eles ofen­de­ram de forma agres­siva a fé reli­gi­osa de mui­tos fieis”. Ou seja, eles teriam ido muito além no exer­cí­cio de um direito indi­vi­dual, ata­cando direi­tos alheios.

Em pri­meiro lugar, a metá­fora ainda con­ti­nua válida, pois o sen­ti­mento de ofensa reli­gi­osa é tão sub­je­tivo e cul­tu­ral­mente ori­en­tado quanto o sen­ti­mento do que é sexu­al­mente esti­mu­lante. Ambos depen­dem da con­jun­tura cul­tu­ral e de carac­te­rís­ti­cas sub­je­ti­vas daquele que se sente ofen­dido ou esti­mu­lado. Tenho ami­gos cató­li­cos que riem das pia­das sobre a Bíblia fei­tas pela turma do Porta dos Fun­dos, enquanto outros da mesma fé odeiam vis­ce­ral­mente qual­quer coisa rela­ci­o­nada a esse grupo de humor.

Em segundo lugar, ainda que admi­ta­mos o argu­mento de que os car­tuns da revista Char­lie Hebdo eram, de fato, ofen­si­vos e absur­da­mente des­res­pei­to­sos (e eu acho o que eram), abor­dar nesse momento tal ques­tão, por mais res­sal­vas que se faça de que o aten­tado foi ter­rí­vel e con­de­ná­vel, é uma forma sim de insi­nuar, pela esco­lha de um tema tão irre­le­vante, que os car­tuns foram a causa do crime e, por­tanto, que as víti­mas tinham certa res­pon­sa­bi­li­dade em suas mor­tes.

Em outras pala­vras, fazer a esco­lha de apro­vei­tar este momento para ana­li­sar a suposta impro­pri­e­dade dos car­tuns da Char­lie Hebdo, ou então para dis­cor­rer sobre a neces­si­dade de limi­tes para a liber­dade de expres­são, ao invés de optar por abor­dar o ver­da­deiro pro­blema evi­den­ci­ado no aten­tado, é per­pe­trar cole­ti­va­mente um novo assas­si­nato de todas as víti­mas do ato ter­ro­rista do dia 07 de janeiro. Um assas­si­nato não de seus cor­pos, mas um homi­cí­dio insi­di­oso, aco­var­dado, de suas repu­ta­ções e de sua posi­ção de víti­mas de um ato de bar­bá­rie.

Pois os car­tuns da revista Char­lie Hebdo não foram, de modo algum, a causa do aten­tado ter­ro­rista.


3. Onde estão cartunistas curdos e a islamófobos da Nigéria?

A prova de que os car­tuns não tem vín­culo real com as cau­sas do aten­tado ter­ro­rista sur­giu dois dias depois, na forma da seguinte man­chete:

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Dois mil mor­tos cau­sa­ram o menos como­ção inter­na­ci­o­nal do que doze fran­ce­ses assas­si­na­dos. E nem mesmo esse crime des­co­mu­nal­mente bár­baro parece ter moti­vado nos­sos ana­lis­tas a lar­ga­rem sua aná­lise sobre car­tuns para, final­mente, dis­cu­ti­rem o pro­blema do for­ta­le­ci­mento do fun­da­men­ta­lismo. Afi­nal, é muito mais diver­tido acu­sar car­tu­nis­tas mor­tos de isla­mo­fo­bia do que enfren­tar a ques­tão de que eles e mais 2 mil nige­ri­a­nos são víti­mas de uma “mons­tru­o­si­dade cole­tiva” que está sur­gindo e devo­rando parte de nosso pla­neta.

E, no fim de semana que se seguiu, tive­mos mais uma evi­dên­cia de que seguía­mos um cami­nho equi­vo­cado:

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Esse último crime foi per­pe­trado pelo mesmo grupo que trei­nou os Irmãos Kou­a­chi no Iêmen. O que se observa é que, na mesma semana do aten­tado em Paris, tanto na Nigé­ria quando no norte do Ira­que gru­pos fun­da­men­ta­lis­tas com aspi­ra­ções e visões de mundo seme­lhan­tes aos ter­ro­ris­tas que inva­di­ram a reda­ção da Char­lie Hebdo mata­ram milha­res de ino­cen­tes — e pelo que nos consta nenhuma des­sas outras víti­mas dese­nhou nenhum car­tum, e nenhuma delas vive em um país de pri­meiro mundo isla­mo­fó­bico que opri­mia os seus algo­zes. Na ver­dade, o fun­da­men­ta­lismo islâ­mico mata por moti­vos estú­pi­dos, como, por exem­plo, o fato de uma menina ten­tar ir à escola.

E se os irmãos Kou­a­chi esti­ve­rem vivos neste exato momento naquele lugar espe­cial do paraíso reser­va­dos aos fieis que se sacri­fi­ca­ram na Guerra Santa, cada qual cer­cado de 72 vir­gens, cer­ta­mente estão olhando aqui para baixo e dando risa­das.

Em pri­meiro lugar, con­se­gui­ram colo­car em che­que a incon­di­ci­o­nal liber­dade de expres­são garan­tida em paí­ses como França e Esta­dos Uni­dos, e que não pos­suí­mos em nosso país ape­nas devido à nossa atra­sada herança cató­lica e à difi­cul­dade de secu­la­ri­zar­mos efe­ti­va­mente o nosso Estado — um Estado atu­al­mente pres­tes a ser cap­tu­rado por fun­da­men­ta­lis­tas neo­pen­te­cos­tais, como se a mal­di­ção do Clero já não tivesse cau­sado male­fí­cios por sécu­los ao Bra­sil.

Em segundo lugar, outro motivo para os irmão esta­rem feli­zes lá, em meio à farra com as vir­gens, é que os radi­cais do outro lado, ou seja, os reais isla­mo­fó­bi­cos da Europa, tal como Jean-Marie LePen e sua filha, estão apro­vei­tando a opor­tu­ni­dade para con­quis­tar mais espaço e legi­ti­ma­ção pública na implan­ta­ção de suas polí­ti­cas de xeno­fo­bia. E acre­di­tem, isso tal­vez não inte­res­sasse dire­ta­mente aos irmãos Kou­a­chi, mas é de grande ser­ven­tia para aque­les que os ades­tra­ram no Iêmem, e que os uti­li­za­ram como peões.

Sim, para o Estado Islâ­mico e demais fun­da­men­ta­lis­tas muçul­ma­nos, a radi­ca­li­za­ção euro­peia é tão útil quanto foi para Bin Laden a Guerra ao Ter­ror imple­men­tada pelos ame­ri­ca­nos, den­tro de uma lógica segundo a qual quanto maior for o ódio e o pre­con­ceito dos oci­den­tais, mais fácil será con­ver­ter jovens ao fun­da­men­ta­lismo.

E isso tudo nos traz a uma impor­tante lição que os bizan­ti­nos apren­de­ram a res­peito de per­der o foco sobre o que ver­da­dei­ra­mente importa. 


4. De bizâncio à esquerda moderna

Em 1453, a cidade de Cons­tan­ti­no­pla estava em alvo­roço. Um impor­tan­tís­simo debate era tra­vado a res­peito de um assunto de ele­vada rele­vân­cia. Diante dos olhos empol­ga­dos da soci­e­dade bizan­tina, as auto­ri­da­des reli­gi­o­sas dis­cu­tiam aca­lo­ra­da­mente sobre uma desa­fi­a­dora ques­tão: 

Os anjos tem ou não sexo?

O pro­blema é que, do outro lado dos muros da cidade, os muçul­ma­nos, sob o comando de Maomé II, não que­riam saber desse papo de anjos e sexo. Esta­vam ocu­pa­dos ani­qui­lando todo o exér­cito do impe­ra­dor Cons­tan­tino XI. Em 29 de maio, ven­ce­ram seus ini­mi­gos, inva­di­ram Con­tan­ti­no­pla e saque­a­ram, estu­pra­ram e mata­ram o quanto pude­ram. 

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Desde então, ficou famosa a expres­são “ques­tão bizan­tina”, ou seja, o debate sobre um assunto na ver­dade irre­le­vante, e que des­via nossa aten­ção de um perigo imi­nente.

Sem­pre que surge na inter­net um novo artigo sobre se os car­tuns da Char­lie Hebdo são ou não ofen­si­vos e se deve haver limi­tes para a liber­dade de expres­são, me recordo dessa his­tó­ria da queda de Cons­tan­ti­no­pla, pois me parece que é uma ver­são moderna do debate sobre o sexo dos anjos. Pres­su­põe-se, com isso, que o suposto pre­con­ceito de parte da popu­la­ção euro­peia aos imi­gran­tes islâ­mi­cos seja a causa real­mente deci­siva dos ata­ques ter­ro­ris­tas.

Por mais que, por exem­plo, Leo­nardo Boff res­salte em um artigo publi­cado dia 10 de janeiro que não deseja jus­ti­fi­car a ati­tude dos ter­ro­ris­tas, o mero fato de ele dis­cor­rer sobre a suposta isla­mo­fo­bia dos car­tuns da Char­lie Hebdo, tirando o foco do assunto real­mente impor­tante (o cres­ci­mento do fun­da­men­ta­lismo) acaba por mini­mi­zar a natu­reza hedi­onda do crime que tirou vida não só de car­tu­nis­tas, mas de outras pes­soas (entre elas, um poli­cial muçul­mano).

Mas isso é com­pre­en­sí­vel, se lem­brar­mos que a essas aná­li­ses se ori­gi­nam de comen­ta­ris­tas da esquerda. Não nos ilu­da­mos, a esquerda bra­si­leira é, em parte e salvo hon­ro­sas exce­ções, tão taca­nha quando nossa direita, e quando se depara com um fato ter­rí­vel como o ata­que ter­ro­rista à reda­ção da revista Char­lie Hebdo, tenta encai­xar uma situ­a­ção com­plexa den­tro da mol­dura rígida e sim­ples de suas con­vic­ções. Inca­paz de pro­tes­tar osten­si­va­mente con­tra o fun­da­men­ta­lismo islâ­mico (pois os fun­da­men­ta­lis­tas muçul­ma­nos são ini­mi­gos de seus ini­mi­gos, ou seja do paí­ses desen­vol­vi­dos do Oci­dente, nota­da­mente dos Esta­dos Uni­dos), vol­tam seu foco, apres­sa­da­mente, na dire­ção dos artis­tas poli­ti­ca­mente incor­re­tos do Char­lie Hebdo. 

Para com­ple­men­tar o encaixe na mol­dura de seu dis­curso, esses ana­lis­tas fazem ques­tão de lem­brar da situ­a­ção de penú­ria e pre­con­ceito a que estão sub­me­ti­das as comu­ni­da­des muçul­ma­nas na Europa. Con­cluído o encaixe da situ­a­ção com­plexa na mol­dura ide­o­ló­gica, o qua­dro que pen­du­ram na parede é esse: a culpa, de um lado, é dos paí­ses impe­ri­a­lis­tas e, de outro, do excesso de liber­dade de expres­são con­ce­dido a uma imprensa que deve ser tute­lada pelo Estado.

Pronto: con­se­guiu-se criar um dis­curso que pode, por exem­plo, ser opor­tu­nis­ti­ca­mente uti­li­zado para pre­gar o con­trole esta­tal dos meios de comu­ni­ca­ção (iro­ni­ca­mente deno­mi­nada “demo­cra­ti­za­ção da mídia”), como fez o ex-gover­na­dor do Rio Grande do Sul, Tarso Genro, no Twit­ter recen­te­mente:

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Com isso tudo, esta­mos dei­xando de dis­cu­tir o que real­mente importa e mini­mi­zando o ver­da­deiro perigo. Deve­ría­mos estar neste momento ana­li­sando as ver­da­dei­ras cau­sas dos ata­ques ter­ro­ris­tas.

E é impor­tante aten­tar para o seguinte deta­lhe: quando fala­mos de encon­trar as cau­sas do ter­ro­rismo, o que bus­ca­mos é reco­nhe­cer quais con­jun­tu­ras dão ori­gem a atos ter­ro­ris­tas. Não se trata de encon­trar­mos res­pos­tas que resul­tem em medi­das repres­si­vas, pois essas, em geral, tem por con­sequên­cia ape­nas legi­ti­mar pre­con­cei­tos e aumen­tar o radi­ca­lismo de todos os envol­vi­dos (na ver­dade, os coman­dos ter­ro­ris­tas espe­ram por medi­das repres­si­vas do Oci­dente, pois legi­ti­mam seus atos e tra­zem mais adep­tos).

Trata-se de desar­mar o ter­ro­rismo na sua ori­gem, com­pre­en­dendo o que leva alguém a ati­tu­des tão extre­mas como as dos irmãos Kou­a­chi e da menina de 10 que, num aten­tado sui­cida, explo­diu um mer­cado na Nigé­ria e levou con­sigo a vida de 19 pes­soas.

O pró­prio Che­rif Kou­a­chi ten­tou ser rap­per antes de ade­rir ao fun­da­men­ta­lismo. Em que momento ele se tor­nou um faná­tico? Quais as con­di­ções arras­tam milha­res de seres huma­nos para as filei­ras do radi­ca­lismo?

Numa ten­ta­tiva de res­pon­der a essa per­gunta, mui­tos cedem à ten­ta­ção de atri­buir os ata­ques ter­ro­ris­tas à situ­a­ção econô­mica e social dos muçul­ma­nos na Europa Oci­den­tal. E, de fato, cons­tata-se que mui­tos muçul­ma­nos são ali víti­mas de pre­con­ceito e segre­ga­ção cul­tu­ral, ocu­pando pos­tos de tra­ba­lho pouco pres­ti­gi­a­dos e vivendo quase à mar­gem da soci­e­dade.

Porém, em 07/01/2015, duas mil pes­soas foram assas­si­na­das na Nigé­ria por um grupo de fun­da­men­ta­lis­tas islâ­mi­cos (Boko Haram), e três dias depois deze­nas de cur­dos no Ira­que foram mas­sa­cra­dos por um outro grupo de fun­da­men­ta­lis­tas islâ­mi­cos (Estado Islâ­mico). Não tenho notí­cias de que na Nigé­ria e nos ter­ri­tó­rios tur­cos exista isla­mo­fo­bia — até por­que a mai­o­ria dos cur­dos, hoje, são muçul­ma­nos.

Além disso, o poli­cial que foi morto pelos ter­ro­ris­tas era muçul­mano, o que evi­den­cia não ser assim tão rigo­rosa a ale­gada isla­mo­fo­bia. Pos­tos de tra­ba­lho que dão arma e auto­ri­dade para inter­ven­ção vio­lenta em nome do Estado são con­fi­a­dos a supos­tas víti­mas do pre­con­ceito num país da Europa: as auto­ri­da­des ira­ni­a­nas fariam o mesmo se um oci­den­tal cris­tão ou judeu ten­tasse ingres­sar nas filei­ras de sua polí­cia? Há, sim, seto­res isla­mo­fó­bi­cos em todos os paí­ses euro­peus, como há seto­res antis­se­mi­tas até hoje naquele mesmo con­ti­nente: porém, difi­cil­mente pode­mos afir­mar que essa seria a causa dos aten­ta­dos.

5. O verdadeiro inimigo

Falar sobre a isla­mo­fo­bia na França, sobre os exa­ge­ros dos car­tuns da Char­lie Hebdo e sobre a falta de opor­tu­ni­da­des dos jovens muçul­ma­nos na Europa é des­viar incons­ci­en­te­mente a aten­ção para o ver­da­deiro perigo que ronda a todos nós e que motiva várias espé­cies de aten­ta­dos ter­ro­ris­tas: o fun­da­men­ta­lismo reli­gi­oso.

E por fun­da­men­ta­lismo não se está alu­dindo ape­nas ao de ori­gem muçul­mana. O perigo surge ao redor do pla­neta e em todas as reli­giões.

Temos, no Bra­sil, o fun­da­men­ta­lismo das igre­jas neo­pen­te­cos­tais. Não se trata de um fun­da­men­ta­lismo ino­fen­sivo, mas atu­ante e que pro­duz sofri­mento des­ne­ces­sá­rio, como quando a ban­cada evan­gé­lica ten­tou excluir da lista de pro­ce­di­men­tos-padrão do SUS o aborto na gra­vi­dez decor­rente de estu­pro, uma hipó­tese legal­mente per­mi­tida pela Lei bra­si­leira. E se avi­zi­nham do ter­ro­rismo todos os homi­cí­dios com moti­va­ção homo­fó­bica per­pe­tra­dos no Bra­sil em 2014, ins­pi­ra­dos na mesma con­cep­ção de mundo dos pas­to­res neo­pen­te­cos­tais que enxer­gam na homos­se­xu­a­li­dade não ape­nas uma doença, mas um pecado efe­ti­va­mente mor­tal. 

Além disso, ao lado do fun­da­men­ta­lismo islâ­mico temos o fun­da­men­ta­lismo sio­nista, que per­pe­tra o genuíno ter­ro­rismo de Estado, como quando houve a inva­são da Faixa de Gaza em julho de 2014, da qual resul­tou até mesmo o bom­bar­deio de uma escola finan­ci­ada pela ONU. E nos Esta­dos Uni­dos temos a ges­tão Bush, res­pon­sá­vel pela inva­são do Ira­que e pelas atro­ci­da­des come­ti­das na pri­são de Abu Ghraib, que rece­beu total sus­ten­ta­ção polí­tica de gru­pos de fun­da­men­ta­lis­tas cris­tãos como o Chris­tian Coa­li­tion.

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Essa ampla pers­pec­tiva per­mite visu­a­li­zar um aspecto ter­rí­vel no fun­ci­o­na­mento des­ses gru­pos fun­da­men­ta­lis­tas espa­lha­dos pelo mundo: a radi­ca­li­za­ção de um deles resulta no for­ta­le­ci­mento e radi­ca­li­za­ção do outro. A radi­ca­li­za­ção do fun­da­men­ta­lismo sio­nista, com ata­ques à mino­ria pales­tina, tem como con­sequên­cia o aumento do radi­ca­lismo em todo o mundo islâ­mico, que por sua vez con­fere maior legi­ti­mi­dade aos fun­da­men­ta­lis­tas cris­tãos dos EUA e às suas rei­vin­di­ca­ções de reto­mada e manu­ten­ção da Guerra ao Ter­ror, que por seu turno arre­gi­menta a atu­a­ção de paí­ses ali­a­dos na Europa, o que tem como resul­tado o aumento da chance de atos ter­ro­ris­tas no velho con­ti­nente, do que resulta o for­ta­le­ci­mento da isla­mo­fo­bia. O cír­culo é inter­mi­ná­vel.

Enquanto não reco­nhe­cer­mos que o fun­da­men­ta­lismo reli­gi­oso, capaz de inter­fe­rir na polí­tica interna e externa das prin­ci­pais nações do mundo, é uma ame­aça cres­cente e um perigo real aos direi­tos huma­nos, às liber­da­des indi­vi­du­ais e à demo­cra­cia; enquanto não nos dedi­car­mos a ana­li­sar com seri­e­dade e sem pres­su­pos­tos ide­o­ló­gi­cos as razões que con­du­zem os indi­ví­duos a pro­fes­sar uma fé reli­gi­osa fun­da­men­ta­lista, esta­re­mos dis­cu­tindo o sexo dos anjos, esta­re­mos per­di­dos em dis­pu­tas inú­teis, sem notar que os faná­ti­cos de todos os cre­dos esca­lam nos­sos muros, para pilhar e vio­len­tar os valo­res huma­nis­tas con­quis­ta­dos às duras penas por nos­sos ante­pas­sa­dos.

Victor Lisboa
Editor do site Ano Zero.

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