Por que algumas pessoas simplesmente se recusam a acreditar nas mudanças climáticas, apesar de todas as provas científicas?

Furacões medonhos. Temperaturas extremas. Secas devastadoras. Enchentes apavorantes. 97% da comunidade científica concorda: tudo isso é resultado de mudanças climáticas causadas pelas ações do homem. Os 3% que discordam geralmente estão atolados até os joelhos na lama das gigantes que cagam dinheiro com a exploração de combustíveis fósseis. Eu sei. A julgar pela quantidade de espertinhos que citam com todo conhecimento de causa um desses 3% nos comentários de artigos que tratam do assunto, seria de se esperar que fossem muito mais. Mas não. São 3%. Contra 97%.

Eles são como aquele seu tio maluco que ainda mora no porão dos seus avós. Por mais que pareçam insignificantes, sempre conseguem colocar o resto da família em apuros.
Eles são como aquele seu tio maluco que ainda mora no porão dos seus avós. Por mais que pareçam insignificantes, sempre conseguem colocar o resto da família em apuros.

E mesmo assim, esses 3% – acompanhados de um pequeno exército de seguidores fervorosos – fazem tanto barulho que, por mais louco que pareça, nós ainda estamos discutindo se as mudanças climáticas realmente estão acontecendo ou não e se elas são resultado de ações humanas. Esses 3% convenceram governos nacionais. Convenceram grandes empresas. Podem até ter convencido você. E como resultado, nós estamos patinando em uma discussão sem fim rumo à fome, à sede, à guerra e à extinção. Será que esses “céticos” são burros? – nós nos perguntamos, indignados. E acreditando firmemente que esse ceticismo tem base em ignorância, nós empilhamos relatórios e mais relatórios, artigos e mais artigos, gráficos e mais gráficos, na esperança de que algum desses dados científicos vai conseguir penetrar o cérebro pastoso e retardado dessas pessoas e fazê-las entender. “Olhe essas medições!” – nós dizemos, exasperados, chacoalhando dados na cara deles. “Olhe esses dados, completamente isentos de interesses de grandes empresas ou governos!” – nós continuamos, um pouco mais alto, e um pouco mais exasperados. “Como vocês podem ser tão burros?!” – gritamos, por fim, perdendo a paciência, e jogando a discussão privada abaixo.

Poucos são os que se aventuram a salvá-la uma vez que ela alcança toda a merda de discussões passadas presa no encanamento.
Poucos são os que se aventuram a salvá-la uma vez que ela alcança toda a merda de discussões passadas presa no encanamento.

Mas será que os céticos das mudanças climáticas são realmente burros ou ignorantes? Afinal, se fosse assim tão simples, nós já teríamos resolvido o problema no primeiro relatório científico, e já estaríamos engajados em ações para reverter os efeitos das nossas ações sobre o planeta. Na verdade, um estudo recente publicado na revista Nature que comparou a visão de 1540 americanos sobre mudanças climáticas com o seu conhecimento científico e capacidade de raciocinar logicamente diz que não. Essas pessoas conhecem e entendem toda a ciência das mudanças climáticas. Elas conhecem e entendem todos os relatórios, gráficos e dados que nós chacoalhamos na cara deles. O problema aqui não é ignorância, nem burrice. O problema é ideologia.

Mesmo assim, sempre vai existir o espertalhão que, ao verificar a geada lá fora, vai falar "Aquecimento global, hein? Até parece!"
Mesmo assim, sempre vai existir o espertalhão que, ao verificar a geada lá fora, vai falar “Aquecimento global, hein? Até parece!”

Como assim, ideologia? Bem, além de avaliar a capacidade de entendimento científico dos participantes, o estudo também avaliou que tipo de pessoas eles eram. Perguntando se eles concordavam ou discordavam de afirmações como “Precisamos reduzir as desigualdades entre ricos e pobres, brancos e negros e homens e mulheres” e “O governo precisa impor limites nas escolhas dos indivíduos para que elas não interfiram no bem-estar da sociedade”, o estudo conseguiu dividir os participantes entre dois grupos: os individualistas-hierárquicos (que acreditam que as pessoas devem se virar sozinhas e respeitar a autoridade) e os igualitários-comunalistas (que acreditam que a desigualdade tem que diminuir e o bem estar da sociedade deve ser priorizado).

Como era de se esperar, os igualitários-comunalistas se preocupam muito mais com as mudanças climáticas do que os individualistas-hierárquicos. E o que é mais chocante: quanto maior a capacidade racional de cada um deles, mais fortes são as suas crenças preexistentes relacionadas à mudanças climáticas. Isto é, quanto mais inteligente o igualitário-comunalista, maior a sua preocupação em relação ao clima; e quanto mais inteligente o individualista-hierárquico, maior o seu ceticismo. Com isso, os pesquisadores descobriram que a identidade e as crenças políticas, culturais e sociais dos indivíduos são um indicador muito mais preciso da sua crença nas mudanças climáticas do que o seu nível de informação e inteligência.

Isso muda tudo. Para começo de conversa, prova que nós não podemos nos fiar somente em dados concretos e provas científicas para conscientizar as pessoas. O estudo sugere que nós só levamos esses fatores realmente em consideração quando o nosso trabalho profissional exige isso. Isso explica porque o grosso das pessoas que têm que lidar com as mudanças climáticas em nível profissional – como epideomologistas, equipes de prevenção de desastres, etc – não as negam. Para o resto de nós, que não vemos tão claramente e não somos afetados de forma tão direta por elas, fica a cargo da nossa ideologia definir se acreditamos ou não. A ciência, nesse caso, vai servir apenas para endossar a nossa própria visão – seja ela igualitária ou individualista. O que não servir para reforçá-la, será rejeitado como falso, errado, equivocado, enganoso, influenciado.

Por isso eu digo que quem vê outra coisa além de azul e preto só pode ser retardado ou estar sob o efeito de drogas.
Por isso eu digo que quem vê outra coisa além de azul e preto só pode ser retardado ou estar sob o efeito de drogas.

Dessa forma, o estudo prova como nossas crenças pessoais são mais fortes do que dados científicos, e como nós estamos dispostos a fazer uso da ciência de acordo com os nossos próprios interesses. O nome disso é raciocínio motivado, um fenômeno discutido pela primeira vez em 1950 pelo célebre psicólogo Leon Festinger. Desde então, muitos outros estudos comprovaram que as nossas crenças preexistentes, por mais ilógicas que sejam, são capazes de influenciar consideravelmente as nossas opiniões, mesmo quando novos fatos e descobertas que as contradizem são apresentados. O problema pode ser explicado pela descoberta neurocientífica de que as nossas emoções são ativadas antes do nosso raciocínio quando somos confrontados com novas pessoas, situações e ideias. A repulsa natural que sentimos contra informações que desafiam a nossa visão de mundo, por sua vez, contamina o nosso raciocínio, fazendo com que ao invés de raciocinar sobre um determinado assunto, nós o racionalizemos, buscando pensamentos e informações falsos que reforcem as nossas crenças preexistentes (se quiser saber mais, eu já escrevi sobre raciocínio motivado aqui ó).

Isso dá medo, eu sei, mas também empodera. Afinal, sabendo desse detalhe pouco animador da natureza humana, podemos tomar ações para trabalhar com ela da forma certa. Isso significa que temos que abandonar os nossos relatórios, gráficos e dados científicos e nos munir de outras ferramentas para convencer os céticos que o nosso mundo está indo para o brejo. Dan Kahan, o autor do estudo, sugere algumas estratégias práticas que distanciam a discussão da ciência – que já provou ser ineficaz para convencer pessoas – e podem dar mais resultado. Por exemplo, para convencer um individualista-hierárquico que as mudanças climáticas devem ser reconhecidas, seria uma boa ideia mencionar que a geoengenharia e a energia nuclear podem ajudar na solução. Da mesma forma, para convencer um igualitário-comunalista a aceitar a energia nuclear, mencione que ela pode ajudar a reverter as mudanças climáticas. Esse tipo de estratégia mantém a discussão fora dos pacotes de crenças predefinidos e nos retira de nossos grupos sociais/culturais antagonistas. Até porque antagonismo é a última coisa que nós precisamos quando se trata de salvar não só o planeta, como a própria raça humana.

Já diriam esses caras.
Já diriam esses caras.

 

escrito por:

Lara Vascouto

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