Sempre fui um entusiasta da ciência. No meu modo de enxergar o mundo, não fazia muito sentido simplesmente acreditar superficialmente em alguma visão sobre seu funcionamento. Ao contrário, quando se trabalha com o método científico, adquire-se a possibilidade de bolar hipóteses sobre como alguma coisa funciona, e em seguida, testá-las.

Assim, temos uma retroalimentação entre a construção de teorias simples e poderosas (leia-se parcimoniosas) e da prerrogativa de testar essas ideias. Testar é importante porque o que pensamos teoricamente pode fazer muito sentido, mas só sabemos se aquele pensamento corresponde à realidade testando-o (lembrando que “teste”, aqui, não tem a ver com sua experiência de vida, mas com testes controlados cientificamente). Essa é a beleza do método científico.

O que conquistamos com isso em termos de bens práticos (educação, tecnologia, saúde) e de explicações para temas mais profundos sobre a vida, o universo e de tudo mais dispensa maiores comentários, pois basta olhar ao redor ou ligar a televisão que será percebido. Porém, muitas pessoas ainda têm uma atitude hostil em relação à ciência e manifestam um ceticismo infantil quanto aos estudos mais consolidados por evidências diversas.

Lamentavelmente, isso não parte apenas do senso comum, formado por pessoas com entendimento nulo ou insuficiente sobre o conhecimento e metodologia científica. Também vem, em grande medida, da onda pós-moderna e irracionalista que toma de assalto as universidades.

Como podem tantas pessoas ter uma atitude tão contraditória em relação à ciência? Como podem acreditar que um remédio vai fazer efeito ou que o computador vai ligar ao apertar um botão e ao mesmo tempo não aceitarem que o homem foi à Lua, ou que o planeta está passando por um período de aquecimento global, ou desconfiarem da Evolução e do Big Bang, se todas essas conclusões são tiradas com base num mesmo procedimento?

Pensando nisso, resolvi mencionar a Evolução para ilustrar um dos erros mais comuns que as pessoas cometem ao julgar determinada teoria popular, e também listar alguns dados que podem esclarecer um pouco esse ‘destrambelhamento’ cognitivo.

A Evolução injustamente no banco dos réus

Em geral, quanto mais uma determinada teoria científica interfere nas crenças pessoais do público, mais refratária a população se torna em relação a essa dada teoria. É o caso da Evolução, desde que Darwin começou a divulgar as primeiras evidências sobre esse processo, em meados do século XIX. Não vou explicar minuciosamente como funciona a evolução por seleção natural, mas vou falar o suficiente para elucidar as críticas populares mais erradas sobre o tema.

Em suma, a Evolução é o processo descrito por uma das teorias atuais mais corroboradas interdisciplinarmente. Isso significa que existem evidências vindas da genética, paleontologia, psicologia, neurociência, biologia, antropologia, só para citar algumas. Temos muitos motivos, portanto, para aceitar essa como a melhor teoria para explicar de onde viemos, assim como temos ótimos indícios para aceitar a Relatividade Geral e Especial como as melhores explicações para a gravidade e para a inexistência de um sistema referencial absoluto.

Evolucionismo: para alguns, é Darwin se metendo onde não deve.
Evolucionismo: para alguns, é Darwin se metendo onde não deve.

Porém, são duas as reclamações mais citadas pelo público que se recusa a aceitar a perspectiva evolucionista: (i) “mas a evolução é só uma teoria”; ou então (ii) “não vejo nenhum macaco hoje em dia parindo um ser humano”.

Sobre (i), é bom esclarecer que usar esse argumento é dar um grande atestado de ignorância quanto ao funcionamento do método científico – o que é muito comum mesmo entre especialistas. A ciência não trabalha com teorias no sentido que entendemos cotidianamente, como uma espécie de hipótese imaginária, um achismo. Em termos de método científico, teoria é o nome que damos a hipóteses fortemente corroboradas por evidências. Desse modo, as chamadas teorias representam o que existe de mais fundamentado no mundo científico, e a evolução é uma delas.

Numa variação bem comum desse ponto, alguns dizem que o Criacionismo é uma visão alternativa perfeitamente cabível em relação à Evolução. Isso não é verdade por um motivo simples: o Criacionismo não é uma teoria científica, então é no mínimo desproporcional usá-lo como alternativa. Seria como se eu dissesse que o mito da Caixa de Pandora pode explicar os males do mundo como alternativa à filosofia ou à psicologia.

Para (ii), tenho o que imagino ser uma analogia poderosa que explica muito simples e eficientemente por que esse raciocínio está errado.

Pense no inglês britânico e no americano. Temos duas línguas iguais, mas com sotaques associados bem distintos. Levando em conta que os Estados Unidos começaram como uma colônia inglesa, não podemos supor que um inglês chegando ao Novo Mundo já tinha seu modo de falar instantaneamente mudado. Para haver essa diferenciação, foram necessários séculos. Os falantes foram se modificando gradualmente, até que os sotaques se transformaram totalmente. Seria simplesmente incoerente questionarmos por que não vemos ingleses parindo filhos com sotaque americano ainda hoje. 

A universidade pública forma pesquisadores. Ou não?

O mais preocupante dessa situação é que tais pérolas não ocorrem somente na população leiga, como seria de se esperar. Os resultados preliminares de um estudo ainda não publicado, do Laboratório de Psicometria e Psicologia Positiva (LP3 – UFRJ) [do qual faço parte], mostram que a situação também pode ser preocupante na esfera acadêmica.

Criamos uma Escala de Atitude em Relação à Ciência tanto para o público geral (EARC-G) quanto para a Psicologia (EARC-P) [se você quer participar, entre em contato conosco]. A ideia era exatamente a mais óbvia possível, isto é, ver como as pessoas em geral (independente de grau de instrução, área, gênero etc) e estudantes e profissionais da Psicologia reagiam à ciência, se eles estudam ativamente publicações científicas, se gostam do que lêem, se acreditam que o método científico ajuda mais do que atrapalha, e assim por diante.

Sério, você está fazendo isso errado.
Sério, você está fazendo isso errado.

Ainda não finalizamos a coleta de dados, mas estamos encontrando resultados interessantes e preocupantes. Resultados preliminares mostraram que a atitude em relação à ciência (na Psicologia) de alunos de universidades particulares é maior do que a de alunos de universidades públicas, analisando uma amostra de diversos estados. Isto é, parece que alunos de universidades públicas estão saindo de lá com uma certa repulsa em relação ao método científico, ou no mínimo indiferença – o que é totalmente o oposto do esperado.

Isso é preocupante. É como se tivéssemos uma escola de confeiteiros, e esses confeiteiros saíssem do curso sem aprender nada sobre fazer bolos, ou achando que é irrelevante aprender sobre bolos. 

Por trás do véu do ceticismo ingênuo contra a ciência

Não levantamos esta informação no nosso estudo, mas um dado interessante que qualquer universitário pode perceber em seu dia-a-dia é a existência de um ceticismo ingênuo em relação a certos elementos do universo das ciências.

Por exemplo, muitas pessoas (inclusive não universitários) são resistentes quanto a aceitar fatos já consumados, como a ida do homem à Lua e o aquecimento global. Muitas dessas refutações são pautadas em pensamento conspiratório, o que sempre começa com uma interrogação muito genérica e apelativa: “Mas será que…” ou “E se…”.

Uma das maiores evidências dessa estrutura argumentativa é a série Ancient Alien, do History Channel.

Geralmente os episódios começam com uma explicação aceita entre os cientistas, sobre como as pirâmides foram construídas, por exemplo. Mas, em seguida, vem a interrogação cética genérica, invocando o que a ausência de certa evidência x poderia significar, ou como tal teoria mais aceita poderia ser, na verdade, fruto de alguma conspiração para esconder fatos sinistros.

Porque, óbvio, um canal sobre História PRECISA falar de Aliens.
Porque, óbvio, um canal sobre História PRECISA falar de Aliens.

Em suma, essa é a base do tal ceticismo ingênuo. São levantadas todas as possibilidades de que uma dada conclusão científica esteja errada, nem que isso leve em conta deuses ou alienígenas com uma tecnologia divina. E o interessante desse fenômeno é que ele não parte necessariamente de pessoas com baixo grau de escolaridade ou que são avessas à ciência; pelo contrário, às vezes parece vir mais de pessoas com boa instrução, que costumam ler livros e jornais.

Foi pensando nessas relações que o psicólogo Stephan Lewandowsky realizou uma pesquisa investigando como o ceticismo em relação ao aquecimento global e a ida do homem à Lua se relacionam com características investigadas previamente. Por exemplo, em outra pesquisa, Lewandowsky observou que sujeitos que creem numa ideologia liberal de mercado são mais propensos a não acreditarem que HIV causa AIDS, ou que o fumo realmente causa câncer de pulmão. Estudos anteriores também reportam que o pensamento conspiratório está significativamente correlacionado com o ceticismo ingênuo (Stephen reportou os resultados de sua pesquisa na Scientific American e na Psychological Science).

As análises mostraram que há fortes correlações entre os fatores apontados, isto é, sujeitos fiéis à ideologia de livre mercado e indivíduos com uma estrutura cognitiva caracterizada pela ideação conspiratória são propensos não só a desacreditarem o aquecimento global e a viagem à Lua, mas também a exibir a mesma postura em relação à ciência como um todo.

Explica-se isso pelo fato de a ideologia laissez-faire, por exemplo, deixar seus adeptos em alerta quanto à possibilidade de alguma evidência científica ter sido forjada com base em disputas de mercado (empresas de cigarro perderiam mercado com a constatação dos males que o fumo causa para a saúde; empresas poluidoras teriam problemas ao ser constatado que estão de fato ajudando a destruir as condições ambientais favoráveis à vida terrestre).

O pensamento conspiratório, por sua vez, obviamente faz com que algum cenário oculto, conhecido por poucos privilegiados, seja revelado como a verdadeira causa de algo, uma realidade por trás do véu, por assim dizer – seja ela a Nova Ordem Mundial, Deus, a CIA ou os Grays.

Poderíamos especular também se o grau de instrução interfere nos níveis de aceitação da ciência e rejeição das pseudociências. É coerente pensar que grupos mais instruídos (com Ensino Superior, por exemplo) teriam esse tipo de inclinação, porém, isso parece ser um dos mitos da divulgação científica. Evidentemente que uma pessoa que é criada em contato com a ciência vai conhecer mais sobre a temática, mas isso parece não ser relevante em termos de rejeição de pseudociências. Países que se posicionam muito bem no ranking mundial de educação científica também tem alta pontuação na rejeição da Evolução e crença no Criacionismo, por exemplo, como ocorre nos EUA.

Em suma, costumamos pensar no conhecimento em relação à ciência e rejeição de pseudociências como um dos extremos de uma linha, mas os resultados sugerem que é mais realista pensar em termos de duas linhas independentes: uma para o nível de conhecimento científico e outra para os níveis de crença em pseudociência.

Assim, como o estudo de Lewandowsky mostra, outros parecem mostrar que o que mais exerce impacto na aceitação de teorias científicas e rejeição de pseudociência não é bem o nível de conhecimento que se tem, mas a ideologia.

Se você foi criado em uma família cristã praticante, é bem provável que você desenvolva certo ceticismo em relação à Teoria da Evolução, por exemplo. E isso é constatado tanto pelas pesquisa quantitativas quanto pela minha experiência cotidiana. O Pirulla fez um vídeo que traz várias referências interessantes sobre isso:

 

A ideologia é o fator mais importante, no fim das contas 

Isso é o mesmo que dizer que por mais que um grupo de pessoas tenha muitos conhecimentos sobre ciência, elas não necessariamente vão renegar pensamentos obscurantistas, conspiratórios, mágicos ou pseudocientíficos, em nome do know-how que possui.

Porém, sim, temos que continuar nos esforçando para que a população tenha cada vez mais acesso e motivação para entender como o mundo funciona, por uma perspectiva científica, mas é inútil acreditar que somente isso pode mudar realmente a realidade cultural para além da mera formação de indivíduos capazes para o mercado de trabalho. Podemos ter uma sociedade super produtiva e funcional, mas que ainda deseja que Criacionismo seja ensinado nessas escolas, como ocorre em países como Estados Unidos e Coreia do Sul, o que soa contraditório em relação ao que consideramos bom senso e coerência, mas que os dados mostram que é muito comum mundo afora.

escrito por:

Felipe Novaes

Já quis ser paleontólogo, biólogo, astrônomo, filósofo e neurocientista, mas parece ter se encontrado na psicologia evolucionista. Nas horas vagas lê compulsivamente, escreve textos sobre a vida, o universo e tudo mais, e arruma um tempinho para o Positrônico Podcast. Contudo, durante todo o tempo procura se aprimorar na sabedoria e nas artes jedis do aikido.


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