Sempre achei muito interessantes as pesquisas sobre o cérebro. A ideia de que um amontoado de células que trocam sinais elétricos e químicos seja capaz de gerar, de algum modo, atributos aparentemente abstratos (intencionalidade, em bom vocabulário técnico em filosofia da mente) é desconcertante.

Muitas pessoas ficam curiosas a respeito desse órgão, mas intuitivamente atribuem a ele somente as atividades motoras do corpo, e não coisas como a consciência, o pensamento, o entendimento e nossas crenças. Isso se deve à nossa formação cultural judaico-cristã, que dá mordiscadas em Platão, que foi quem começou com essa história de que existiria um mundo abstrato separado do físico – e que existiria também um “eu” separado do físico, ideia que vai se transmutar no conceito de espírito mais tarde, a partir do Cristianismo. Portanto, soa no mínimo estranho pensar pela primeira que o que somos, em suma, tem a ver com nossa constituição e funcionamento material em interação com o mundo (o resultado do funcionamento de algo físico, é físico também?).

Também devemos muito a Descartes, filósofo que, na Era Moderna, escreveu que a mente era uma substância não-física, enquanto o corpo era físico (a res cogitans e res extensa). Ambos seriam distintos, obviamente, para sempre separados mas em constante interação graças à glândula pineal (ninguém defende esse argumento mais hoje em dia, a não ser uns professores irresponsáveis que ensinam, numa mistura descabida de neurociência e esoterismo barato, que cristais na glândula pineal teriam algo a ver com algum acesso ao sobrenatural).

Autoajuda não é psicologia para leigos

Aliado a essas bases sócio-culturais, temos os hábitos insuficientes, qualitativa e quantitativamente, de leitura dos brasileiros, que, quando leem, são versados em romances de banca e livros de autoajuda, mas quase nunca em literatura realmente relevante.

Não adianta me dizer que o importante é ler, independente do que seja, ou que estou sendo intelectualmente elitista. Pra mim, um sujeito que leu 500 livros genéricos de 50 Tons de Cinza tem o mérito parecido com o de um cara que malha há 5 anos e continua pegando 5 kg no bíceps. Nenhum dos dois terá crescimento algum, nem muscular nem intelectual. (não tem problema algum ler entretenimento, o problema é o excesso disso, é quando essa é a única opção)

Digital Life Design (DLD) Conference
Deepak Chopra, um dos Papas da auto-ajuda, que adora transformar dilemas psicológicos em ingênuas teorias quânticas, pervertendo de uma só vez física, neurociência e psicologia.

A literatura de autoajuda, portanto, é prejudicial porque ela não informa nada ao leitor, só comunica o que ele já sabe, não passando de senso comum e wishful thinking. Para piorar, ainda cria a ilusão do conhecimento. Digo isso pensando nas pessoas que, quando falo que sou formado em psicologia, começam a listar os livros de autoajuda que já leram, como se isso tivesse realmente a ver com o que estudei na faculdade.

Quando falamos de psicologia e de neurociência, a situação também preocupa, pois tais tipos de livros pretendem simplificar assuntos que não tem nada de simples e que dependem de certo background teórico para se entender profundamente. É nesse bojo que nascem os livros relacionando ‘trocentas’ leis do sucesso ao funcionamento cerebral, ou prometendo aos leitores táticas para melhor controlar seus cérebros (?), para usar mais esse ou aquele hemisfério, especializado nisso ou naquilo.

Foi pensando em todo esse cenário caótico que decidi listar instigantes e surpreendentes compreensões e evidências modernas sobre o cérebro, visando desfazer possíveis mitos difundidos. Para me embasar, usei um recém-publicado artigo de um proeminente neurocientista, Eric Kandel, especialista em memória,  o The New Science of Mind and the Future of Knowledge.

Consciousness: um problema filosófico ou científico?

O termo foi posto em inglês porque em português existe uma sorrateira armadilha. Temos a mesma palavra – consciência – para nos referir à capacidade de estar ciente de alguma coisa (awareness) e para a experiência qualitativa (consciousness) de sentir algo como a dor, o prazer, o tato etc.

O problema mais antigo com o qual os filósofos se defrontam é o da consciousness, especificamente sobre se a experiência de sentir algo pode ser reduzida a algo físico, como partes cerebrais sendo ativadas.

A maioria dos cientistas parece partir do pressuposto de que isso é uma possibilidade. Assim, ao contrário das definições filosóficas, que são conceituais, eles buscam definições operacionais, que podem ser testadas empiricamente. Mas hoje ainda temos debates sobre isso em ambos os reinos acadêmicos, tanto no empírico quanto no filosófico.

Muito do que as obras mais populares atribuem ao cérebro não passa de crendice, assim como a existência de marcianos.
Muito do que as obras mais populares atribuem ao cérebro não passa de crendice, assim como a existência de marcianos.

No lado empírico, entendia-se que a consciência tinha a ver com o processamento dos inputs sensoriais. Desse modo, danificando essas vias que levam impulsos nervosos de órgãos sensoriais ao cérebro, apagaríamos a consciência. Experimentos feitos mostraram que não era bem por aí, pois animais afetados nessas áreas permaneciam acordados e conscientes.

Por outro lado, estimular certa região cerebral nos cachorros os fazia entrar em coma. E quando estimulada a mesma região novamente, eles despertavam. Esse foi o início das primeiras definições operacionais para consciousness.

Posteriormente outros pesquisadores ampliaram-na, fazendo com que o fenômeno virasse a junção entre atenção e awareness. Ou seja, quando uma pessoa está ciente de alguma coisa e prestando atenção, se poderia dizer que ela está consciente qualitativamente, no sentido consciousness.

Alguns experimentos, de certa forma, reforçam essa concepção fragmentada em vários outros construtos, pois alguns estudos sugerem que esse estado não está relacionado à ativação única de certa região cerebral, mas de várias.

Além disso, alguns filósofos já vem tentando elaborar definições mais empiricamente testáveis, como é o caso do filósofo americano Daniel Dennett, crítico ferrenho dos argumentos que visam estabelecer um status ontológico e irredutível da consciência, concordando com os Churchland (com os quais já concordei bem mais do que hoje), que defendem a tese de que a consciência qualitativa é uma ilusão meramente conceitual.

Se você ficou muito confuso, esses dois vídeos podem ajudar. Eles são curtos e interessantes, mas é possível perceber a diferente abordagem com que os dois filósofos tratam o problema da consciência:

https://www.ted.com/talks/dan_dennett_on_our_consciousness?language=pt-br

http://www.ted.com/talks/david_chalmers_how_do_you_explain_consciousness?language=pt-br

O inconsciente

Falar de consciência, em qualquer sentido que se queira, acaba suscitando pensamentos sobre sua contra-parte, o inconsciente.

Apesar de aparentemente simples, para falar de inconsciente é preciso se posicionar bem no tempo e no espaço, pois o termo já teve diferentes significados. Hoje não é o mesmo que era há quase dois séculos nas mãos de Freud, e muitos pesquisadores de renome atuais confundem as coisas, como o próprio Kandel, além das publicações direcionadas ao público leigo da Super Interessante.

Eric Kandel in his New York Office
Eric Kandel

É bom compreender que a ideia de inconsciente não foi criada por Freud. O psicanalista deu ‘apenas’ tons muito pessoais ao inconsciente, fazendo-o algumas vezes parecer um outro eu dentro da estrutura consciente do psiquismo, e  criando uma elaborada teoria sobre seu funcionamento – o que foi uma novidade para a época, de fato.

A popularidade que o construto ganhou com a psicanálise foi a principal influência nas modernas teorias cognitivistas sobre o processamento de informação consciente e inconsciente do cérebro, que influencia a tomada de decisão, o julgamento estético e até nossas supostas conclusões mais racionais. Mas, destacadamente, o inconsciente do qual mais se fala hoje em âmbito científico é o de tom mais computacional e cognitivo.

É uma questão apenas de processamento de informação, característica marcante do paradigma computacional usado como embasamento da maioria das teorias cognitivistas hoje usadas.

Nesse modelo, a mente seria uma espécie de software rodado pelo cérebro, o hardware.

Essa concepção marca o desuso das teorias psicológicas de ar freudiano, inseridas dentro de um panorama maior chamado de psicologia dinâmica. A verdade é que muito pouca gente especializada as usa hoje, e isso deve à dificuldade operacional dessas teorias se comparadas com as cognitivistas; em palavras mais leves, as teorias do psiquismo dinâmico são difíceis de testar em experimentos, são barrocas demais, o que as derruba num limbo que pode facilmente beirar à pseudociência.

A biologia e o ambiente

Todo esse tema parece ser filosófico e psicológico demais, e a essas áreas não costumamos atribuir nada de físico no sentido mais palpável do termo. Prova disso é a expressão cotidiana “isso é psicológico”, quando alguém resolve brincar com a ideia de que o calor ou a dor são psicológicos, como se coisas psicológicas não fossem nem físicas nem reais.

(Assista aqui uma palestra de Steven Pinker, psicólogo que argumenta veementemente contra a ideia da tábula rasa, defendendo a interação entre inatismo e aprendizado)

Esse pressuposto também fica evidente quando as pessoas tentam forçar uma separação real entre biologia e ambiente ou biologia e cultura, como se uma coisa excluísse a outra.

A linguagem em si já é um exemplo de como essa cisão é ultrapassada. É consenso que o Homo sapiens tem uma predisposição a aprender a linguagem. Temos áreas do cérebro especializadas na fala e no entendimento da língua, por exemplo, e desde muito cedo as crianças já balbuciam facilmente os rudimentos de uma linguagem. Entretanto, sem educação, sem estimulação da cultura e do ambiente próximo, obviamente a criança pode passar toda a vida sem aprender a falar, ler e escrever.

Estudos mostram que até mesmo moscas tem um funcionamento bem dinâmico entre o que trazem de programação genética e o que aprendem. Moscas que passam seu estado de pupa isoladas de outras moscas viram adultas pronunciadamente mais agressivas do que as outras, criadas em grupo.

Definitivamente, existe uma linha tênue entre o que é inato e o que é aprendido, por isso alguns autores acabam utilizando uma outra forma de falar sobre essa relação dialética. Francisco Varela, um biólogo chileno que travou um diálogo muito produtivo com o budismo, preferia pensar nos organismos como sistemas dinâmicos que eram modificados e que modificavam o ambiente, numa relação inseparável.

É um modelo que vem inspirando pesquisadores da chamada embodied cognition, que preferem pensar a mente humana fora dos construtos de inputs e outputs do modelo computacional tradicional. De certo modo, apesar de não invocar forças vitalistas do além, essa abordagem entende que os processos conscientes não podem ser reduzidos ao funcionamento de algo orgânico específico, porque é fruto de toda a interação organismo-meio.

Tendo esses fatos em vista, não é mais possível encarar o aprendizado, a cultura ou as diferenças individuais como uma espécie de prova de que a biologia não tem a ver com nossa psicologia. Tudo bem, talvez tenhamos que entender o processo de forma mais dinâmica, mas sem excluir o biológico.

O que surpreende é que as ciências humanas adotam uma visão obscurantista de negação da biologia, mas ao mesmo tempo não sabem o que colocar em seu lugar.

Psicanálise ou Psicoterapia?

Talvez eu tenha ido muito além do que o público leigo possa querer pensar sobre a psicologia, mas certamente uma coisa sobre a qual todos se interessam é a terapia – provavelmente por ser algo mais pragmático, aparentemente.

Uma das primeiras coisas que devo avisar é que psicanálise é psicanálise. O que significa isso? Que é controverso ainda dizer que a psicanálise é algo totalmente externo à psicologia ou que ela é um ramo dentro da psicologia; e algo que fornece maior peso à primeira opção é a possibilidade de se tornar um psicanalista mesmo sem ter cursado psicologia. Portanto, Freud não era psicólogo, e estudar psicologia é tudo, menos fazer um curso inteiro sobre o neurologista.

O tratamento da parte física e o da parte…não-física (?)

Além disso, tem aquela crença difundida de que os medicamentos psiquiátricos tratam a parte física do transtorno, e a psicoterapia trata a parte não-física (de problemas também considerados não-físicos).

monk neuroscience
Intercâmbio de ideias interessante, entre monges budistas e cientistas, que mostra as modificações cerebrais do treino meditativo

Na medida em que vimos que é impossível retirar a biologia dos processos que aparentemente não são físicos (aprendizado, cultura, individualidade etc), não é possível também tratar a psicoterapia como uma espécie de terapia ectoplasmática (essa é a única palavra que encontro para me referir a algo que não é físico).

Estudos mostram que tratamentos de transtornos como a depressão, via terapia cognitiva-comportamental, aumentam as conexões entre as áreas frontais do cérebro (responsáveis pelo controle do comportamento, tomada de decisão, análise criteriosa, modulação emocional) e as límbicas (relacionadas à emoção).

Ou seja, é fisicamente verificável a modificação psicológica que alguns tipos de psicoterapia promovem. E o mesmo é notado em estudos sobre meditadores de longa data, tanto é que uma vertente laica da meditação (o mindfulness) vem sendo usado como tratamento de transtornos de humor e de ansiedade.

Como Eric Kandel indica em seu artigo, estamos testemunhando uma espécie de assimilação recíproca entre neurociência, psicologia e filosofia da mente, e isso é muito positivo. Assim, antigas picuinhas poderão ser superadas em prol de um trabalho conjunto para desvendar o funcionamento daquilo que antes era envolto em mistério.

Aliado a esse esclarecimento técnico, espero que antigos mitos ainda propagados pela população leiga, e volta e meia no próprio ambiente acadêmico, possam ser desfeitos, e que pensamentos mais condizentes com o conhecimento atual possam ser utilizados mais confortavelmente.

escrito por:

Felipe Novaes

Já quis ser paleontólogo, biólogo, astrônomo, filósofo e neurocientista, mas parece ter se encontrado na psicologia evolucionista. Nas horas vagas lê compulsivamente, escreve textos sobre a vida, o universo e tudo mais, e arruma um tempinho para o Positrônico Podcast. Contudo, durante todo o tempo procura se aprimorar na sabedoria e nas artes jedis do aikido.


JUNTE-SE À NOSSA NEWSLETTER
Junte-se a outros 2.000 visitantes que recebem nossa newsletter e garanta, semanalmente, artigos sobre ciência, filosofia, comportamento e sociedade diretamente em seu e-mail!
Nós odiamos spam. Seu e-mail não será vendido ou compartilhado com mais ninguém.