O que você sabe sobre o cérebro está errado

Em Ciência, Comportamento, Consciência, Sociedade por Felipe NovaesComentários

Sem­pre achei muito inte­res­san­tes as pes­qui­sas sobre o cére­bro. A ideia de que um amon­to­ado de célu­las que tro­cam sinais elé­tri­cos e quí­mi­cos seja capaz de gerar, de algum modo, atri­bu­tos apa­ren­te­mente abs­tra­tos (inten­ci­o­na­li­dade, em bom voca­bu­lá­rio téc­nico em filo­so­fia da mente) é des­con­cer­tante.

Mui­tas pes­soas ficam curi­o­sas a res­peito desse órgão, mas intui­ti­va­mente atri­buem a ele somente as ati­vi­da­des moto­ras do corpo, e não coi­sas como a cons­ci­ên­cia, o pen­sa­mento, o enten­di­mento e nos­sas cren­ças. Isso se deve à nossa for­ma­ção cul­tu­ral judaico-cristã, que dá mor­dis­ca­das em Pla­tão, que foi quem come­çou com essa his­tó­ria de que exis­ti­ria um mundo abs­trato sepa­rado do físico – e que exis­ti­ria tam­bém um “eu” sepa­rado do físico, ideia que vai se trans­mu­tar no con­ceito de espí­rito mais tarde, a par­tir do Cris­ti­a­nismo. Por­tanto, soa no mínimo estra­nho pen­sar pela pri­meira que o que somos, em suma, tem a ver com nossa cons­ti­tui­ção e fun­ci­o­na­mento mate­rial em inte­ra­ção com o mundo (o resul­tado do fun­ci­o­na­mento de algo físico, é físico tam­bém?).

Tam­bém deve­mos muito a Des­car­tes, filó­sofo que, na Era Moderna, escre­veu que a mente era uma subs­tân­cia não-física, enquanto o corpo era físico (a res cogi­tans e res extensa). Ambos seriam dis­tin­tos, obvi­a­mente, para sem­pre sepa­ra­dos mas em cons­tante inte­ra­ção gra­ças à glân­dula pineal (nin­guém defende esse argu­mento mais hoje em dia, a não ser uns pro­fes­so­res irres­pon­sá­veis que ensi­nam, numa mis­tura des­ca­bida de neu­ro­ci­ên­cia e eso­te­rismo barato, que cris­tais na glân­dula pineal teriam algo a ver com algum acesso ao sobre­na­tu­ral).

Auto­a­juda não é psi­co­lo­gia para lei­gos

Ali­ado a essas bases sócio-cul­tu­rais, temos os hábi­tos insu­fi­ci­en­tes, qua­li­ta­tiva e quan­ti­ta­ti­va­mente, de lei­tura dos bra­si­lei­ros, que, quando leem, são ver­sa­dos em roman­ces de banca e livros de auto­a­juda, mas quase nunca em lite­ra­tura real­mente rele­vante.

Não adi­anta me dizer que o impor­tante é ler, inde­pen­dente do que seja, ou que estou sendo inte­lec­tu­al­mente eli­tista. Pra mim, um sujeito que leu 500 livros gené­ri­cos de 50 Tons de Cinza tem o mérito pare­cido com o de um cara que malha há 5 anos e con­ti­nua pegando 5 kg no bíceps. Nenhum dos dois terá cres­ci­mento algum, nem mus­cu­lar nem inte­lec­tual. (não tem pro­blema algum ler entre­te­ni­mento, o pro­blema é o excesso disso, é quando essa é a única opção)

Digital Life Design (DLD) Conference

Dee­pak Cho­pra, um dos Papas da auto-ajuda, que adora trans­for­mar dile­mas psi­co­ló­gi­cos em ingê­nuas teo­rias quân­ti­cas, per­ver­tendo de uma só vez física, neu­ro­ci­ên­cia e psi­co­lo­gia.

A lite­ra­tura de auto­a­juda, por­tanto, é pre­ju­di­cial por­que ela não informa nada ao lei­tor, só comu­nica o que ele já sabe, não pas­sando de senso comum e wish­ful thin­king. Para pio­rar, ainda cria a ilu­são do conhe­ci­mento. Digo isso pen­sando nas pes­soas que, quando falo que sou for­mado em psi­co­lo­gia, come­çam a lis­tar os livros de auto­a­juda que já leram, como se isso tivesse real­mente a ver com o que estu­dei na facul­dade.

Quando fala­mos de psi­co­lo­gia e de neu­ro­ci­ên­cia, a situ­a­ção tam­bém pre­o­cupa, pois tais tipos de livros pre­ten­dem sim­pli­fi­car assun­tos que não tem nada de sim­ples e que depen­dem de certo back­ground teó­rico para se enten­der pro­fun­da­mente. É nesse bojo que nas­cem os livros rela­ci­o­nando ‘tro­cen­tas’ leis do sucesso ao fun­ci­o­na­mento cere­bral, ou pro­me­tendo aos lei­to­res táti­cas para melhor con­tro­lar seus cére­bros (?), para usar mais esse ou aquele hemis­fé­rio, espe­ci­a­li­zado nisso ou naquilo.

Foi pen­sando em todo esse cená­rio caó­tico que decidi lis­tar ins­ti­gan­tes e sur­pre­en­den­tes com­pre­en­sões e evi­dên­cias moder­nas sobre o cére­bro, visando des­fa­zer pos­sí­veis mitos difun­di­dos. Para me emba­sar, usei um recém-publi­cado artigo de um pro­e­mi­nente neu­ro­ci­en­tista, Eric Kan­del, espe­ci­a­lista em memó­ria,  o The New Sci­ence of Mind and the Future of Kno­wledge.

Consciousness: um problema filosófico ou científico?

O termo foi posto em inglês por­que em por­tu­guês existe uma sor­ra­teira arma­di­lha. Temos a mesma pala­vra – cons­ci­ên­cia – para nos refe­rir à capa­ci­dade de estar ciente de alguma coisa (awa­re­ness) e para a expe­ri­ên­cia qua­li­ta­tiva (cons­ci­ous­ness) de sen­tir algo como a dor, o pra­zer, o tato etc.

O pro­blema mais antigo com o qual os filó­so­fos se defron­tam é o da cons­ci­ous­ness, espe­ci­fi­ca­mente sobre se a expe­ri­ên­cia de sen­tir algo pode ser redu­zida a algo físico, como par­tes cere­brais sendo ati­va­das.

A mai­o­ria dos cien­tis­tas parece par­tir do pres­su­posto de que isso é uma pos­si­bi­li­dade. Assim, ao con­trá­rio das defi­ni­ções filo­só­fi­cas, que são con­cei­tu­ais, eles bus­cam defi­ni­ções ope­ra­ci­o­nais, que podem ser tes­ta­das empi­ri­ca­mente. Mas hoje ainda temos deba­tes sobre isso em ambos os rei­nos aca­dê­mi­cos, tanto no empí­rico quanto no filo­só­fico.

Muito do que as obras mais populares atribuem ao cérebro não passa de crendice, assim como a existência de marcianos.

Muito do que as obras mais popu­la­res atri­buem ao cére­bro não passa de cren­dice, assim como a exis­tên­cia de mar­ci­a­nos.

No lado empí­rico, enten­dia-se que a cons­ci­ên­cia tinha a ver com o pro­ces­sa­mento dos inputs sen­so­ri­ais. Desse modo, dani­fi­cando essas vias que levam impul­sos ner­vo­sos de órgãos sen­so­ri­ais ao cére­bro, apa­ga­ría­mos a cons­ci­ên­cia. Expe­ri­men­tos fei­tos mos­tra­ram que não era bem por aí, pois ani­mais afe­ta­dos nes­sas áreas per­ma­ne­ciam acor­da­dos e cons­ci­en­tes.

Por outro lado, esti­mu­lar certa região cere­bral nos cachor­ros os fazia entrar em coma. E quando esti­mu­lada a mesma região nova­mente, eles des­per­ta­vam. Esse foi o iní­cio das pri­mei­ras defi­ni­ções ope­ra­ci­o­nais para cons­ci­ous­ness.

Pos­te­ri­or­mente outros pes­qui­sa­do­res ampli­a­ram-na, fazendo com que o fenô­meno virasse a jun­ção entre aten­ção e awa­re­ness. Ou seja, quando uma pes­soa está ciente de alguma coisa e pres­tando aten­ção, se pode­ria dizer que ela está cons­ci­ente qua­li­ta­ti­va­mente, no sen­tido cons­ci­ous­ness.

Alguns expe­ri­men­tos, de certa forma, refor­çam essa con­cep­ção frag­men­tada em vários outros cons­tru­tos, pois alguns estu­dos suge­rem que esse estado não está rela­ci­o­nado à ati­va­ção única de certa região cere­bral, mas de várias.

Além disso, alguns filó­so­fos já vem ten­tando ela­bo­rar defi­ni­ções mais empi­ri­ca­mente tes­tá­veis, como é o caso do filó­sofo ame­ri­cano Daniel Den­nett, crí­tico fer­re­nho dos argu­men­tos que visam esta­be­le­cer um sta­tus onto­ló­gico e irre­du­tí­vel da cons­ci­ên­cia, con­cor­dando com os Chur­ch­land (com os quais já con­cor­dei bem mais do que hoje), que defen­dem a tese de que a cons­ci­ên­cia qua­li­ta­tiva é uma ilu­são mera­mente con­cei­tual.

Se você ficou muito con­fuso, esses dois vídeos podem aju­dar. Eles são cur­tos e inte­res­san­tes, mas é pos­sí­vel per­ce­ber a dife­rente abor­da­gem com que os dois filó­so­fos tra­tam o pro­blema da cons­ci­ên­cia:

https://www.ted.com/talks/dan_dennett_on_our_consciousness?language=pt-br

http://www.ted.com/talks/david_chalmers_how_do_you_explain_consciousness?language=pt-br

O inconsciente

Falar de cons­ci­ên­cia, em qual­quer sen­tido que se queira, acaba sus­ci­tando pen­sa­men­tos sobre sua con­tra-parte, o incons­ci­ente.

Ape­sar de apa­ren­te­mente sim­ples, para falar de incons­ci­ente é pre­ciso se posi­ci­o­nar bem no tempo e no espaço, pois o termo já teve dife­ren­tes sig­ni­fi­ca­dos. Hoje não é o mesmo que era há quase dois sécu­los nas mãos de Freud, e mui­tos pes­qui­sa­do­res de renome atu­ais con­fun­dem as coi­sas, como o pró­prio Kan­del, além das publi­ca­ções dire­ci­o­na­das ao público leigo da Super Inte­res­sante.

Eric Kandel in his New York Office

Eric Kan­del

É bom com­pre­en­der que a ideia de incons­ci­ente não foi cri­ada por Freud. O psi­ca­na­lista deu ‘ape­nas’ tons muito pes­so­ais ao incons­ci­ente, fazendo-o algu­mas vezes pare­cer um outro eu den­tro da estru­tura cons­ci­ente do psi­quismo, e  cri­ando uma ela­bo­rada teo­ria sobre seu fun­ci­o­na­mento – o que foi uma novi­dade para a época, de fato.

A popu­la­ri­dade que o cons­truto ganhou com a psi­ca­ná­lise foi a prin­ci­pal influên­cia nas moder­nas teo­rias cog­ni­ti­vis­tas sobre o pro­ces­sa­mento de infor­ma­ção cons­ci­ente e incons­ci­ente do cére­bro, que influ­en­cia a tomada de deci­são, o jul­ga­mento esté­tico e até nos­sas supos­tas con­clu­sões mais raci­o­nais. Mas, des­ta­ca­da­mente, o incons­ci­ente do qual mais se fala hoje em âmbito cien­tí­fico é o de tom mais com­pu­ta­ci­o­nal e cog­ni­tivo.

É uma ques­tão ape­nas de pro­ces­sa­mento de infor­ma­ção, carac­te­rís­tica mar­cante do para­digma com­pu­ta­ci­o­nal usado como emba­sa­mento da mai­o­ria das teo­rias cog­ni­ti­vis­tas hoje usa­das.

Nesse modelo, a mente seria uma espé­cie de soft­ware rodado pelo cére­bro, o hard­ware.

Essa con­cep­ção marca o desuso das teo­rias psi­co­ló­gi­cas de ar freu­di­ano, inse­ri­das den­tro de um pano­rama maior cha­mado de psi­co­lo­gia dinâ­mica. A ver­dade é que muito pouca gente espe­ci­a­li­zada as usa hoje, e isso deve à difi­cul­dade ope­ra­ci­o­nal des­sas teo­rias se com­pa­ra­das com as cog­ni­ti­vis­tas; em pala­vras mais leves, as teo­rias do psi­quismo dinâ­mico são difí­ceis de tes­tar em expe­ri­men­tos, são bar­ro­cas demais, o que as der­ruba num limbo que pode facil­mente bei­rar à pseu­do­ci­ên­cia.

A biologia e o ambiente

Todo esse tema parece ser filo­só­fico e psi­co­ló­gico demais, e a essas áreas não cos­tu­ma­mos atri­buir nada de físico no sen­tido mais pal­pá­vel do termo. Prova disso é a expres­são coti­di­ana “isso é psi­co­ló­gico”, quando alguém resolve brin­car com a ideia de que o calor ou a dor são psi­co­ló­gi­cos, como se coi­sas psi­co­ló­gi­cas não fos­sem nem físi­cas nem reais.

(Assista aqui uma pales­tra de Ste­ven Pin­ker, psi­có­logo que argu­menta vee­men­te­mente con­tra a ideia da tábula rasa, defen­dendo a inte­ra­ção entre ina­tismo e apren­di­zado)

Esse pres­su­posto tam­bém fica evi­dente quando as pes­soas ten­tam for­çar uma sepa­ra­ção real entre bio­lo­gia e ambi­ente ou bio­lo­gia e cul­tura, como se uma coisa excluísse a outra.

A lin­gua­gem em si já é um exem­plo de como essa cisão é ultra­pas­sada. É con­senso que o Homo sapi­ens tem uma pre­dis­po­si­ção a apren­der a lin­gua­gem. Temos áreas do cére­bro espe­ci­a­li­za­das na fala e no enten­di­mento da lín­gua, por exem­plo, e desde muito cedo as cri­an­ças já bal­bu­ciam facil­mente os rudi­men­tos de uma lin­gua­gem. Entre­tanto, sem edu­ca­ção, sem esti­mu­la­ção da cul­tura e do ambi­ente pró­ximo, obvi­a­mente a cri­ança pode pas­sar toda a vida sem apren­der a falar, ler e escre­ver.

Estu­dos mos­tram que até mesmo mos­cas tem um fun­ci­o­na­mento bem dinâ­mico entre o que tra­zem de pro­gra­ma­ção gené­tica e o que apren­dem. Mos­cas que pas­sam seu estado de pupa iso­la­das de outras mos­cas viram adul­tas pro­nun­ci­a­da­mente mais agres­si­vas do que as outras, cri­a­das em grupo.

Defi­ni­ti­va­mente, existe uma linha tênue entre o que é inato e o que é apren­dido, por isso alguns auto­res aca­bam uti­li­zando uma outra forma de falar sobre essa rela­ção dia­lé­tica. Fran­cisco Varela, um bió­logo chi­leno que tra­vou um diá­logo muito pro­du­tivo com o budismo, pre­fe­ria pen­sar nos orga­nis­mos como sis­te­mas dinâ­mi­cos que eram modi­fi­ca­dos e que modi­fi­ca­vam o ambi­ente, numa rela­ção inse­pa­rá­vel.

É um modelo que vem ins­pi­rando pes­qui­sa­do­res da cha­mada embo­died cog­ni­tion, que pre­fe­rem pen­sar a mente humana fora dos cons­tru­tos de inputs e out­puts do modelo com­pu­ta­ci­o­nal tra­di­ci­o­nal. De certo modo, ape­sar de não invo­car for­ças vita­lis­tas do além, essa abor­da­gem entende que os pro­ces­sos cons­ci­en­tes não podem ser redu­zi­dos ao fun­ci­o­na­mento de algo orgâ­nico espe­cí­fico, por­que é fruto de toda a inte­ra­ção orga­nismo-meio.

Tendo esses fatos em vista, não é mais pos­sí­vel enca­rar o apren­di­zado, a cul­tura ou as dife­ren­ças indi­vi­du­ais como uma espé­cie de prova de que a bio­lo­gia não tem a ver com nossa psi­co­lo­gia. Tudo bem, tal­vez tenha­mos que enten­der o pro­cesso de forma mais dinâ­mica, mas sem excluir o bio­ló­gico.

O que sur­pre­ende é que as ciên­cias huma­nas ado­tam uma visão obs­cu­ran­tista de nega­ção da bio­lo­gia, mas ao mesmo tempo não sabem o que colo­car em seu lugar.

Psicanálise ou Psicoterapia?

Tal­vez eu tenha ido muito além do que o público leigo possa que­rer pen­sar sobre a psi­co­lo­gia, mas cer­ta­mente uma coisa sobre a qual todos se inte­res­sam é a tera­pia – pro­va­vel­mente por ser algo mais prag­má­tico, apa­ren­te­mente.

Uma das pri­mei­ras coi­sas que devo avi­sar é que psi­ca­ná­lise é psi­ca­ná­lise. O que sig­ni­fica isso? Que é con­tro­verso ainda dizer que a psi­ca­ná­lise é algo total­mente externo à psi­co­lo­gia ou que ela é um ramo den­tro da psi­co­lo­gia; e algo que for­nece maior peso à pri­meira opção é a pos­si­bi­li­dade de se tor­nar um psi­ca­na­lista mesmo sem ter cur­sado psi­co­lo­gia. Por­tanto, Freud não era psi­có­logo, e estu­dar psi­co­lo­gia é tudo, menos fazer um curso inteiro sobre o neu­ro­lo­gista.

O tratamento da parte física e o da parte…não-física (?)

Além disso, tem aquela crença difun­dida de que os medi­ca­men­tos psi­quiá­tri­cos tra­tam a parte física do trans­torno, e a psi­co­te­ra­pia trata a parte não-física (de pro­ble­mas tam­bém con­si­de­ra­dos não-físi­cos).

monk neuroscience

Inter­câm­bio de ideias inte­res­sante, entre mon­ges budis­tas e cien­tis­tas, que mos­tra as modi­fi­ca­ções cere­brais do treino medi­ta­tivo

Na medida em que vimos que é impos­sí­vel reti­rar a bio­lo­gia dos pro­ces­sos que apa­ren­te­mente não são físi­cos (apren­di­zado, cul­tura, indi­vi­du­a­li­dade etc), não é pos­sí­vel tam­bém tra­tar a psi­co­te­ra­pia como uma espé­cie de tera­pia ecto­plas­má­tica (essa é a única pala­vra que encon­tro para me refe­rir a algo que não é físico).

Estu­dos mos­tram que tra­ta­men­tos de trans­tor­nos como a depres­são, via tera­pia cog­ni­tiva-com­por­ta­men­tal, aumen­tam as cone­xões entre as áreas fron­tais do cére­bro (res­pon­sá­veis pelo con­trole do com­por­ta­mento, tomada de deci­são, aná­lise cri­te­ri­osa, modu­la­ção emo­ci­o­nal) e as lím­bi­cas (rela­ci­o­na­das à emo­ção).

Ou seja, é fisi­ca­mente veri­fi­cá­vel a modi­fi­ca­ção psi­co­ló­gica que alguns tipos de psi­co­te­ra­pia pro­mo­vem. E o mesmo é notado em estu­dos sobre medi­ta­do­res de longa data, tanto é que uma ver­tente laica da medi­ta­ção (o mind­ful­ness) vem sendo usado como tra­ta­mento de trans­tor­nos de humor e de ansi­e­dade.

Como Eric Kan­del indica em seu artigo, esta­mos tes­te­mu­nhando uma espé­cie de assi­mi­la­ção recí­proca entre neu­ro­ci­ên­cia, psi­co­lo­gia e filo­so­fia da mente, e isso é muito posi­tivo. Assim, anti­gas picui­nhas pode­rão ser supe­ra­das em prol de um tra­ba­lho con­junto para des­ven­dar o fun­ci­o­na­mento daquilo que antes era envolto em mis­té­rio.

Ali­ado a esse escla­re­ci­mento téc­nico, espero que anti­gos mitos ainda pro­pa­ga­dos pela popu­la­ção leiga, e volta e meia no pró­prio ambi­ente aca­dê­mico, pos­sam ser des­fei­tos, e que pen­sa­men­tos mais con­di­zen­tes com o conhe­ci­mento atual pos­sam ser uti­li­za­dos mais con­for­ta­vel­mente.

Felipe Novaes
Já quis ser paleontólogo, biólogo, astrônomo, filósofo e neurocientista, mas parece ter se encontrado na psicologia evolucionista. Nas horas vagas lê compulsivamente, escreve textos sobre a vida, o universo e tudo mais, e arruma um tempinho para o Positrônico Podcast. Contudo, durante todo o tempo procura se aprimorar na sabedoria e nas artes jedis do aikido.

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