Não importa o quanto tentamos, os cientistas que estudam sobre o cérebro humano e os psicólogos cognitivos jamais encontrarão em cérebros antigos, por exemplo, uma cópia da 5ª Sinfonia de Beethoven – seja uma cópia de cópias de palavras, imagens, regras gramaticais ou quaisquer outros tipos de estímulos ambientais. O cérebro humano não é vazio, claro. Mas ele não contém a maior parte das coisas que as pessoas pensam que ele faz – nem mesmo armazena coisas simples, como “memórias”.

Nosso pensamento de má qualidade sobre o cérebro tem raízes históricas profundas, mas a invenção dos computadores na década de 1940 nos deixou especialmente confusos. Por mais de meio século, psicólogos, linguistas, neurocientistas e outros especialistas em comportamento humano têm vindo a afirmar que o cérebro humano funciona como um computador.

Essa ideia é sem fundamento.

 

O cérebro dos bebês

Imagem ilustrativa de cérebro de bebê. | Seu cérebro não armazena informação

Considere os cérebros dos bebês. Graças à evolução, recém-nascidos humanos, como os bebês de todas as outras espécies de mamíferos, chegam ao mundo preparados para interagir com o mundo de forma eficaz. A visão de um bebê é embaçada, mas ele presta especial atenção aos rostos, e é rapidamente capaz de identificar a sua mãe. Ele prefere o som de vozes que não compõem fala alguma, e pode distinguir um som básico de outro. Somos, sem dúvida, construídos para fazer conexões sociais.

Um recém-nascido saudável também é equipado com mais de uma dúzia de reflexos – reações prontas para certos estímulos que são importantes para a sua sobrevivência. Ele vira a cabeça na direção de algo que toca sua bochecha, e chupa tudo o que entra em sua boca. Ele prende a respiração quando submerso na água. Ele agarra coisas colocadas em suas mãos tão forte que quase pode suportar seu próprio peso. Talvez o mais importante, os recém-nascidos vêm equipados com mecanismos de aprendizagem poderosos que lhes permitem mudar rapidamente para que eles possam interagir de forma cada vez mais eficaz com seu mundo, mesmo se esse mundo é muito diferente do que os seus antepassados distantes enfrentaram.

Sentidos, reflexos e os mecanismos de aprendizagem – é com isso que começamos nossas vidas, e é até o suficiente, se você for pensar sobre isso. Se nós não tivéssemos qualquer desses recursos no momento do nascimento, provavelmente teríamos problemas para sobreviver.

Mas é com isso que nós não nascemos: informação, dados, regras, softwares, conhecimento, representações, algoritmos, programas, modelos, memórias, imagens, processadores, codificadores, decodificadores, símbolos – todos esses elementos estão embutidos nos computadores digitais, que se comportam de uma forma de inteligência diferente da nossa. Nós não apenas não nascemos com essas coisas, nós também não vamos desenvolvê-las – nunca.

Nós não armazenamos as palavras ou as regras gramaticais que nos dizem como manipular certa linguagem. Nós não criamos representações de estímulos visuais, armazenamos informações em nossa memória e depois as transferimos para um dispositivo de memória de longo prazo. Nós não podemos recuperar ou relembrar de informações, imagens ou palavras de registros de memória. Computadores fazem todas essas coisas, mas nossos organismos não.

 

Nosso cérebro não é um programa de computador

Código binário | Seu cérebro não armazena informação

Computadores, literalmente, processam informações – números, letras, palavras, fórmulas, imagens. Primeiro, a informação tem de ser codificada em um formato em que o computador possa ler, o que significa aqueles padrões de uns e zeros (os chamados “bits”) organizados em pequenos pedaços (‘bytes’). No meu computador, cada byte contém 8 bits.

Em um certo padrão desses bits, por exemplo, é representada a letra G, noutro a letra A, noutro a letra T e em outro a letra O. Lado a lado, esses quatro bytes formam a palavra GATO. Mas já uma única imagem – por exemplo, a fotografia de meu gato Henry no meu desktop – é representada por um padrão muito específico de um milhão desses bytes (um ‘megabyte’), rodeado por alguns caracteres especiais que dizem ao computador que é uma imagem, não uma palavra.

Computadores, literalmente, podem mover esses padrões de lugar para lugar em diferentes áreas de armazenamento físico gravadas em componentes eletrônicos. Às vezes, eles também copiam os padrões (Ctrl + C) e, às vezes, eles os modificam de várias maneiras – por exemplo, quando estamos corrigindo erros em um artigo ou quando estamos tratando uma fotografia.

As regras que os computadores seguem para mover, copiar e operar essas matrizes de dados também são armazenados dentro deles mesmos. Juntos, um conjunto de regras é chamado de um “programa” ou um “algoritmo”. Um grupo de algoritmos que trabalham juntos para fazer algo é chamado de “aplicação” – o que a maioria das pessoas hoje chamamos de um ‘app’.

Perdoe-me por esta introdução à computação, mas eu preciso ser claro: os computadores realmente operam em representações simbólicas do mundo. Eles realmente armazenam dados e os recuperam. Eles realmente processam. Eles têm memórias físicas. Eles são guiados em tudo o que fazem, sem excepção, por algoritmos.

Os seres humanos, por outro lado, não – nunca fizeram isso, e nunca farão. Diante dessa realidade, por que tantos cientistas falam de nossa vida mental como se fôssemos computadores?

 

Breve história das metáforas

O homem veio do barro | Seu cérebro não armazena informação

Eventualmente, introduzida pela Bíblia, os seres humanos foram formados a partir de argila ou terra, que um Deus inteligente, em seguida, fundiu com o espírito. Esse espírito seria a “explicação” de nossa inteligência – gramaticalmente, pelo menos.

A invenção da engenharia hidráulica, no século III A.C, levou à popularidade da ideia de que a inteligência humana era composta por um modelo hidráulico, difundindo a noção de que existia um fluxo de diferentes fluidos do corpo – os “humores” -, responsáveis por nosso funcionamento físico e mental. A metáfora hidráulica persistiu por mais de 1.600 anos, moldando as práticas médicas durante todo o tempo.

Em torno de 1500, máquinas alimentadas por molas e engrenagens tinham sido inventadas, acabando por inspirar os principais pensadores como René Descartes para afirmar que os seres humanos são máquinas complexas. Em 1600, o filósofo inglês Thomas Hobbes sugeriu que, ao pensarmos, surgiam pequenos movimentos mecânicos no cérebro. Por volta de 1700, descobertas sobre eletricidade e química levaram ao surgimento de novas teorias da inteligência humana. Em meados de 1800, inspirado por recentes avanços nas comunicações, o físico alemão Hermann von Helmholtz comparou o cérebro humano a um telégrafo.

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Cada metáfora utilizada para explicação do cérebro humana reflete as invenções da época em que foi gerada. Previsivelmente, a apenas alguns anos após o avanço da tecnologia informática na década de 1940, foi dito que o cérebro funcionava como um computador, como se o hardware físico fosse desempenhado pelo próprio cérebro e que os nossos pensamentos serviam de software. O evento marcante que está “em uso” agora é amplamente chamado de “ciência cognitiva“, principalmente após a publicação do livro Linguagem, Psicologia e Comunicação (1951) pelo psicólogo George A. Miller. Miller propôs que o mundo mental poderia ser estudado com rigor usando conceitos da teoria da informação, computação e linguística.

Esse tipo de pensamento foi levado ao ápice no curto livro The Computer and the Brain (1958), em que o matemático John von Neumann afirmou categoricamente que a função do sistema nervoso humano se compara a uma “interface digital”. Embora o autor tenha reconhecido que era escasso o conhecimento do papel do cérebro em relação ao raciocínio humano e à memória, ele desenhou paralelos entre os componentes das máquinas de computação da época e os componentes do cérebro humano.

Impulsionado por avanços posteriores, tanto na informática e pesquisas sobre o cérebro humano, um esforço multidisciplinar ambicioso para compreender a inteligência humana se desenvolveu gradualmente, firmemente enraizada na ideia de que os seres humanos são como computadores – processadores de informação. Esse esforço agora envolve milhares de pesquisadores, consome bilhões de dólares em financiamento, e tem gerado uma vasta literatura que consiste em ambos os artigos técnicos e mainstream e livros.

O livro de Ray Kurzweil, “Como criar uma Mente: Os segredos do pensamento humano” (2013), exemplifica esta perspectiva, especulando sobre os “algoritmos” do cérebro, de como o cérebro ‘processa dados’ e até mesmo como ele se assemelha superficialmente a circuitos integrados em sua estrutura.

A metáfora de processamento de informação da inteligência humana (o chamado PI) agora domina o pensamento humano, e mesmo o pensamento popular. Não há praticamente forma alguma de discurso sobre o comportamento da inteligência humana que prossegue sem empregar essa metáfora, assim como nenhuma forma de discurso sobre o comportamento da inteligência humana poderia proceder em determinadas épocas e culturas, sem fazer referência a um espírito ou divindade. A validade da metáfora PI no mundo de hoje é geralmente aceita sem questionamento.

Mas a metáfora PI é, afinal, apenas uma outra metáfora – uma história que contamos para dar sentido a algo que realmente não entendemos. E como todas as metáforas que o precederam, ela certamente vai ser posta de lado em algum momento – seja substituída por outra metáfora ou, no final, substituída pelo conhecimento real.

 

O problema do processamento de informações

Cérebro processador | O cérebro não processa informações

Pouco mais de um ano atrás, em uma visita a um dos mais prestigiados institutos de pesquisa do mundo, eu lancei um desafio aos pesquisadores de lá, para que explicassem sobre o comportamento humano sem referência a qualquer aspecto da metáfora PI.
Eles não conseguiam prová-lo, e quando eu educadamente levantei a mesma questão em um e-mail, meses depois, eles ainda não tinham coisa alguma a oferecer.

Eles viram o problema. Eles não descartaram o desafio como trivial. Mas eles não podiam oferecer uma alternativa. Em outras palavras, a metáfora de PI é “pegajosa”. Ela dificulta o nosso pensamento com a linguagem e ideias que são tão poderosas que temos dificuldade em pensar em torno delas.

A falácia da metáfora do PI é fácil de colocar em cheque. Ela se baseia em num defeito silogístico – duas afirmações razoáveis e uma conclusão defeituosa.

  1. Afirmação razoável: todos os computadores são capazes de se comportar de forma inteligente.
  2. Afirmação razoável: todos os computadores são processadores de informação.
  3. Conclusão defeituosa: todas as entidades que são capazes de se comportar de forma inteligente são processadores de informação.

Deixando de lado a linguagem formal, a ideia de que os seres humanos devem ser processadores de informação apenas porque os computadores são processadores de informação é simplesmente sem fundamento, e quando, algum dia, a metáfora PI for finalmente abandonada, ela provavelmente será vista pelos historiadores da mesma forma que nós agora vemos as metáforas hidráulicas e mecânicas – como algo bobo.

Se a metáfora PI é tão boba, por que entrou tanto em “moda”? O que nos impede de deixá-la de lado? Existe uma maneira de compreender a inteligência humana sem se apoiar em uma ideia frágil? Qual o preço que pagamos por nos inclinarmos tão fortemente sobre esse pilar por tanto tempo? Que legado estamos deixando às gerações futuras? A metáfora PI, afinal de contas, tem guiado a escrita e o pensamento de um grande número de pesquisadores em vários campos ao longo das décadas. A que custo?

Em um exercício em sala de aula que realizei muitas vezes ao longo dos anos, eu começo recrutando um aluno, para que ele desenhe uma imagem detalhada de uma nota de um dólar – “da forma mais detalhada possível”, eu digo – no quadro negro na frente da sala.

Quando o aluno termina, eu acoberto o desenho com uma folha de papel, tiro uma nota de um dólar da minha carteira e entrego para o aluno, pedindo para ele a desenhar novamente, agora utilizando a minha nota como referência. Quando ele termina, eu retiro a folha que estava tapando o primeiro desenho, e os comentários da classe sobre as diferenças dos dois desenhos começa.

Se você nunca viu uma demonstração como essa, ou porque você pode ter dificuldade em imaginar o resultado, saiba que pedi a Jinny Hyun, uma das estagiárias do instituto onde conduzi minha pesquisa, para fazer os dois desenhos. Aqui está seu desenho “da memória” (note a metáfora):

Seu cérebro não armazena informação

E aqui está o desenho posteriormente feito com uma nota de um dólar presente:

Seu cérebro não armazena informação

Jinny foi surpreendida pelo resultado, assim como você provavelmente está, mas isso é algo típico. Como você pode ver, o desenho feito na ausência da nota de dólar é horrível em comparação com o desenho feito a partir do uso de uma referência, apesar de Jinny ter visto uma nota de um dólar milhares de vezes antes.

Qual é o problema? Nós não temos um exemplar de nota de dólar ‘armazenado’ em um “registro de memória” em nossos cérebros? Não podemos simplesmente “recuperá-la” em nosso estoque de memórias e usá-la para fazer o nosso desenho?

Não. Nem mil anos de neurociência vão localizar uma representação de uma nota de um dólar guardada dentro do cérebro humano, pela simples razão de que ela não está lá para ser encontrada.

A ideia de que as memórias são armazenadas em neurônios individuais é um absurdo: como e onde está a memória armazenada em uma célula humana?

 

O problema da memória

Memória humana | Seu cérebro não armazena informação

Os estudos sobre o cérebro nos dizem que, de fato, as áreas múltiplas e por vezes grandes do cérebro são frequentemente envolvidas em até mesmo tarefas de memória mais mundanas. Quando as emoções fortes estão envolvidas, milhões de neurônios podem se tornar mais ativos.

Em um estudo da Universidade de Toronto, com sobreviventes de um acidente de avião, o neuropsicólogo Brian Levine, junto a outros, descobriram que, ao recordar do acidente que sofreram, os passageiros tinham atividades cerebrais intensificadas, principalmente no aumento da atividade neural na amígdala, assim como o lobo temporal medial, anterior e posterior da linha média, e no córtex visual.

Essa ideia, defendida por vários cientistas, é que as memórias específicas de alguma forma estão armazenadas em neurônios individuais. Um absurdo. Essa afirmação apenas empurra o problema da memória para um nível ainda mais desafiador: como e onde, afinal, é a memória armazenada na célula?

Então, o que está ocorrendo quando Jinny desenhou a nota de um dólar na ausência da referência? Se Jinny nunca tinha visto uma nota de um dólar antes, seu primeiro desenho provavelmente nem existiria. Como ela já viu notas de um dólar antes, sua percepção cerebral foi alterada de alguma forma. Especificamente, seu cérebro foi alterado de uma forma que lhe permitiu visualizar uma nota de dólar – isto é, re-experimentar vendo uma nota de dólar, pelo menos até certo ponto.

A diferença entre os dois diagramas nos ensina que a visualização de algo (ou seja, vendo algo na sua ausência) é muito menos precisa do que ver algo na sua presença. É por isso que somos muito melhores em reconhecer algo do que relembrar. Quando relembramos alguma coisa, temos que tentar reviver uma experiência; mas quando reconhecemos alguma coisa, devemos apenas estar conscientes do fato de que tivemos essa experiência perceptual antes.

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Talvez você se oponha à minha resposta à demonstração. Jinny já viu notas de um dólar antes, mas talvez ela não tivesse feito um esforço deliberado para ‘memorizar’ os detalhes. Se ela tivesse feito isso, você pode argumentar, ela provavelmente poderia ter desenhado algo próximo à segunda imagem, sem a referência estar presente. Mesmo nesse caso, no entanto, nenhuma imagem da nota de um dólar foi “armazenada” no cérebro de Jinny. Ela simplesmente se tornaria mais bem preparada para desenhar a nota com precisão, assim como, na prática, um pianista se torna mais hábil em tocar um concerto sem precisar de uma cópia da partitura.

A partir desse exercício simples, podemos começar a construir a estrutura de uma teoria sem metáfora do comportamento humano inteligente – aquele em que o cérebro não está completamente vazio, mas é pelo menos vazia da bagagem da metáfora PI.

À medida que passamos por diversas experiências, nosso cérebro muda. Das experiências que mudam nossa percepção, é possível as separar em três tipos:

  1. A observação do que está acontecendo ao nosso redor (outras pessoas se comportando, sons de música, instruções dirigidas a nós, palavras em páginas de livros, imagens em telas);
  2. Exposição ao emparelhamento de estímulos irrelevantes (tais como sirenes) e estímulos importantes (tais como a aparência dos carros da polícia); e
  3. A punição ou recompensa por se comportar de determinadas maneiras.

Nosso cérebro muda se mudarmos as maneiras com que somos consistentes com essas experiências – se podemos recitar um poema ou cantar uma canção, se somos capazes de seguir as instruções que são dadas, se reagimos aos estímulos sem importância mais do que reagimos aos estímulos importantes, se nos abstemos de nos comportar de maneiras em que somos punidos, se nos comportarmos mais frequentemente de maneiras em que somos recompensados.

Contudo, ninguém tem a menor ideia de como o cérebro muda depois que aprendemos a cantar uma canção ou recitar um poema. Mas uma coisa é certa, a música nem o poema foi “armazenada” nele. O cérebro simplesmente mudou de forma ordenada que agora nos permite cantar a canção ou recitar o poema sob certas condições. Quando é hora de executar certa tarefa, nem a música nem o poema é em qualquer sentido “recuperada” de qualquer lugar do cérebro. Nós simplesmente cantamos ou recitamos, sem usar o meio da “recuperação”.

Alguns anos atrás, eu pedi ao neurocientista Eric Kandel, da Universidade de Columbia – vencedor de um Prêmio Nobel, que identificou algumas das mudanças químicas que ocorrem nas sinapses neuronais de um Aplysia (um caracol marinho) depois que ele aprende alguma coisa – que me respondesse sobre quanto tempo ele achava que iria levar para nós entendermos como funciona a memória humana. Ele respondeu rapidamente: “Cem anos.” Eu não cheguei a perguntar a ele se a metáfora PI estava caindo do campo da neurociência, mas alguns neurocientistas estão infelizmente começando a pensar o impensável – que a metáfora não é indispensável.

 

A superação das metáforas

Seu cérebro numa metáfora |

Alguns cientistas cognitivos – notadamente Anthony Chemero da Universidade de Cincinnati, o autor de Radical Embodied Cognitive Science (2009) – agora completamente rejeitam a visão que compara o cérebro humano com o funcionamento de um computador – essa visão de que damos sentido ao mundo por meio da realização de cálculos sobre as representações mentais, assim como computadores. Contudo, Chemero e outros descrevem outra maneira de compreender o comportamento inteligente – como uma interação direta entre os organismos e o mundo ao seu redor.

Meu exemplo favorito da dramática diferença entre a metáfora PI e o nosso cérebro envolve duas formas diferentes de explicar como um jogador de beisebol consegue pegar uma bola – perfeitamente explicadas por Michael McBeath, e seus colegas em um artigo de 1995 da Science.

No caso de aplicar a perspectiva PI nesse exemplo, o jogador é obrigado a formular uma estimativa de várias condições iniciais de voo da bola – a força do impacto, de ângulo da trajetória, esse tipo de coisa -, em seguida criar e analisar o modelo da trajetória do qual a bola irá provavelmente mover-se, utilizando esse modelo para se orientar e ajustar movimentos motores continuamente no tempo, a fim de interceptar a bola.

Isso de fato ocorreria em nosso cérebro, se funcionássemos como computadores, mas McBeath e seus colegas fizeram uma conta simples para negar essa teoria: para pegar a bola, um jogador humano simplesmente precisa se manter em movimento da mesma forma que a bola está, através de um relacionamento visual constante, junto com o ambiente ao seu redor (tecnicamente, em uma “trajetória óptica linear”). Isso pode parecer complicado, mas é incrivelmente simples, completamente livre de processos computacionais, representações e algoritmos.

Dois professores de psicologia minada na Leeds University Beckett no Reino Unido – Andrew Wilson e Sabrina Golonka – incluem o exemplo de beisebol entre muitos outros. Eles têm escrito artigos há anos sobre o que eles chamam de “uma abordagem mais coerente, naturalizada ao estudo científico do comportamento humano… em desacordo com a abordagem da neurociência cognitiva dominante”. Isso está longe de um movimento, no entanto; as ciências cognitivas convencionais continuam a chafurdar acriticamente sobre a metáfora PI, e alguns dos pensadores mais influentes do mundo fazem grandes previsões sobre o futuro da humanidade que depende da validade dessa metáfora.

Uma previsão – feita pelo futurista Kurzweil, o físico Stephen Hawking e o neurocientista Randal Koene, entre outros – é que, como a consciência humana é supostamente como um software de computador, em breve será possível baixar a mente humana para um computador, em circuitos imensamente poderosos, aumentando nossa intelectualidade e, muito possivelmente, nos tornando imortais.

Esse conceito levou o enredo do filme distópico Transcendence (2014), estrelado por Johnny Depp como o cientista Kurzweil, cuja mente foi levada para a internet – resultando algo desastroso para a humanidade. A personagem GLaDOS, da série de jogos Portal, segue o mesmo princípio – uma consciência humana que foi transferida para uma maquina e imortalizada.

portal
“GLaDOS, a antagonista da série de jogos Portal, – uma consciência humana que foi transferida por uma máquina, tornando-se onipotente.”

Felizmente, devido ao fato da metáfora PI não ser ligeiramente válida, nós nunca teremos de nos preocupar com uma mente humana ser capaz de trafegar na internet ou no ciberespaço, e nunca iremos alcançar a imortalidade por meio de “transferência de consciência”. Isso não é só por causa da ausência de um software “consciência” no cérebro; há um problema mais profundo aqui – vamos chamá-lo o problema singularidade – que é tanto inspirador e deprimente.

Não existem “bancos de memória” ou “representações” de estímulos no cérebro, tudo o que é necessário para  funcionarmos no mundo causa que o cérebro mude de uma forma ordenada, como resultado dessas experiências. Então, não há razão para acreditar que duas ou mais pessoas são alteradas da mesma forma pela mesma experiência. Se você e eu assistirmos ao mesmo concerto, as mudanças que ocorrerão no meu cérebro quando eu escutar a quinta sinfonia de Beethoven serão completamente diferentes das mudanças que ocorreram em seu cérebro. Essas mudanças, quaisquer que sejam, são construídas sobre a única estrutura neural já existente em cada um de nós, assim como cada estrutura foi desenvolvida ao longo de uma vida inteira devido às experiências únicas que cada um de nós passamos.

É por isso que, como Sir Frederic Bartlett demostra em seu livro Remembering (1932), duas pessoas não vão repetir uma história que escutaram juntas da mesma maneira e, inclusive, ao longo do tempo suas recitações da história vão divergir cada vez mais. Nenhuma ‘cópia’ da história é feita em seus cérebros; em vez disso, cada indivíduo, ao ouvir a história, faz algumas mudanças até certo ponto – o suficiente para que quando perguntado novamente sobre a história mais tarde (em alguns casos, dias, meses ou mesmo anos após a ouvir) ele possa tentar relembrar a experiência auditiva da história até certo ponto, embora não muito bem (veja o primeiro desenho da nota de dólar, por exemplo).

 

Nós somos organismos, não computadores

Nós somos organismos, não computadores |

Isso é inspirador, suponho, pois significa que cada um de nós é verdadeiramente único, não só na nossa composição genética mas até mesmo na maneira como nosso cérebro muda ao longo do tempo. Contudo é tão deprimente, porque torna a tarefa do neurocientista assustadora. Para qualquer experiência ocorrida com algum ser humano, a mudança ordenada em seu cérebro poderia envolver milhares de neurônios, ou até mesmo o cérebro inteiro.

Pior ainda, mesmo se tivéssemos a capacidade de registrar o momento instantâneo de todos os 86 trilhões de neurônios do cérebro e, em seguida, simular o estado daqueles neurônios em um computador, essa corrente de neurônios não significaria nada fora do cérebro. Essa é talvez a forma mais notória em que a metáfora PI tem distorcido nosso pensamento sobre o funcionamento humano.

Apenas os computadores armazenam cópias exatas de dados – cópias que podem persistir inalteradas durante longos períodos de tempo, mesmo que sua fonte de alimentação tenha sido desligada – o nosso cérebro mantém nosso intelecto apenas enquanto ele permanece vivo. Há um interruptor onoff. Ou seja, ou o cérebro se mantém funcionando, ou nós desaparecemos.

Além do mais, como o neurobiólogo Steven Rose apontou em The Future of the Brain (2005), um instante do estado atual do cérebro não pode ser analisado e interpretado, a menos que soubéssemos a história de vida inteira do proprietário do cérebro – talvez até o contexto social em que ele ou ela foi criado(a).

Pense o quão complicado isso é. Para entender até mesmo as noções básicas de como o cérebro reproduz o intelecto humano, precisaríamos saber não apenas o estado atual de todos os 86 trilhões de neurônios e suas 100 trilhões de conexões, não apenas as intensidades variáveis com as quais eles estão ligados, e não apenas os estados de mais de 1.000 proteínas existentes em cada ponto de conexão, mas de como a atividade momento-a-momento do cérebro contribui para a integridade do sistema.

Adicione a isso a singularidade de cada cérebro, causada em parte por conta da singularidade da história de vida de cada pessoa – tudo isso somado faz com que a previsão de Kandel comece a soar muito otimista (Em um recente artigo de opinião no The New York Times, o neurocientista Kenneth Miller sugeriu que levará “séculos” apenas para descobrir sobre conectividade neuronal básica).

Enquanto isso, grandes quantidades de dinheiro estão sendo levantadas para a pesquisa do cérebro, com base em casos de ideias erradas e promessas que não possam ser mantidas. O exemplo mais flagrante de neurociência que deu errado foi documentado recentemente em um relatório na revista Scientific American, que diz respeito ao Projeto Cérebro Humano (Human Brain Project) que custou 13 bilhões de dólares (mais de 40 bilhões de reais), lançado pela União Europeia em 2013.

Convencido pelo carismático Henry Markram, ele disse que seria possível criar uma simulação do cérebro humano inteiro em um supercomputador até o ano de 2023, criando um modelo que buscaria revolucionar o tratamento da doença de Alzheimer e outras doenças. Funcionários da UE financiaram seu projeto praticamente sem restrições. Em menos de dois anos o projeto se transformou em um “acidente”, e Markram pediu para renunciar.

Nós somos organismos, não computadores. Supere isso. Vamos continuar com o negócio de tentar entender a nós mesmos, mas sem sermos sobrecarregados com bagagem intelectual desnecessária. A metáfora IP existe já por meio século, produzindo poucos resultados positivos, se é que existe algum, ao longo de todo esse caminho.

Chegou a hora de apertar DELETE nessa teoria.

Tradução: Rodrigo Zottis & Alysson Augusto


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escrito por:

Robert Epstein

Robert Epstein é um psicólogo e pesquisador sênior do Instituto Americano para Pesquisa Comportamental e Tecnologia na Califórnia. Ele é autor de 15 livros, bem como ex-editor-chefe da Psychology Today.


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