Caso Geddel-Calero: Calero, Geddel, Temer, Padilha - As névoas que recobrem a sujeira do Palácio

As névoas que recobrem a sujeira do Palácio

Em Consciência, Política por Marco Aurélio NogueiraComentário

Há coi­sas nebu­lo­sas, coi­sas intri­gan­tes e coi­sas escan­da­lo­sas no caso Ged­del-Calero.

O escân­dalo é fácil de ser loca­li­zado.

Um minis­tro pro­cura acha­car outro para resol­ver um pro­blema pes­soal, numa absurda ten­ta­tiva de coa­ção do pri­vado sobre o público. Quer dar uma car­tei­rada e sair na boa. Nada mais antir­re­pu­bli­cano. Crime grave, ainda mais por­que come­tido no cen­tro ner­voso da Pre­si­dên­cia, de modo infan­til e pre­sun­çoso, indi­fe­rente ao bom-senso, como se qui­sesse pro­vo­car um ven­da­val de detri­tos e sujeira. O ex-minis­tro Ged­del fez, lite­ral­mente, uma por­cada, ou uma por­ca­ria.

Em rea­ção, o minis­tro-vítima sai pelo Palá­cio gra­vando con­ver­sas com seus pares e com o pró­prio Pre­si­dente. Falar em des­le­al­dade, no caso, é cabí­vel, ainda que tenha se tra­tado de uma mano­bra de auto­pro­te­ção. Mas não é ati­tude razoá­vel em um cargo como o de minis­tro de uma Repú­blica na qual as coi­sas públi­cas devem ser tra­ta­das publi­ca­mente. Temer falou em indig­ni­dade. Tem certa razão. Pode nem ser tanto, mas choca.

O nebu­loso tem a ver com a ati­tude de Calero. Por quê? Não só gra­vou como fez ques­tão de divul­gar para o mundo que o fez. Ganhou uma pro­je­ção que jamais teve ou teria, ves­tindo o cômodo figu­rino do herói, do per­se­guido, do ínte­gro. Calero não só quis ser honesto, mas pare­cer sê-lo. Com qual fina­li­dade?

Como há sem­pre um dia após o outro, a ope­ra­ção parece ter sido dese­nhada para orga­ni­zar o pró­ximo passo ou outra jogada de efeito mais à frente. Quem sabe uma can­di­da­tura? Um livro de memó­rias? Um filme?

[adro­tate banner=“6”]

Nin­guém sabe. Mas dá para ver que Calero não ati­rou a esmo e seu alvo não era exclu­si­va­mente Ged­del. Na mira, estava tam­bém Eli­seu Padi­lha, minis­tro muito mais pode­roso, além evi­den­te­mente do pró­prio pre­si­dente. Estava, por­tanto, o núcleo duro do Governo Temer.

Não se tra­tou de um ata­que gra­tuito ou da ação de um lobo soli­tá­rio, por mais que se deva dar ao ex-minis­tro o direito de se pro­te­ger do lama­çal que escorre em Bra­sí­lia e den­tro do Palá­cio. Ele mesmo disse que foi “acon­se­lhado por ami­gos da Polí­cia Fede­ral”. Deve ter ouvido muita gente antes de agir, o que sugere uma ação arti­cu­lada.

O intri­gante está aí. Calero gra­vou con­ver­sas estra­té­gi­cas e explo­si­vas, o que faz com que seja ine­vi­tá­vel a per­gunta sobre suas moti­va­ções e sobre as con­sequên­cias de seu ato. Os petar­dos do ex-minis­tro podem ter sido qual­quer coisa, mas não foram ingê­nuos nem ale­a­tó­rios, e muito menos para defen­der a pró­pria pele.

Até aí, maté­ria para um bom folhe­tim de sus­pense. A ques­tão de base — o trá­fico de influên­cia —, porém, per­siste, a assus­tar até os mais vetus­tos fan­tas­mas do Palá­cio.

Ela mos­tra uma das difi­cul­da­des prin­ci­pais do Governo Temer, tal­vez sua maior fra­gi­li­dade: a esco­lha de cola­bo­ra­do­res. Seu défi­cit nessa área é bru­tal. Ou os esco­lhi­dos têm o rabo preso, ou são ina­de­qua­dos, ou são fra­cos de dar dó. Sal­vam-se pou­cos: Mei­rel­les, Jung­mann, Serra, Roberto Freire, Flá­via Pio­ve­san — dá pra con­tar nos dedos.

Com uma equipe de pou­cos que podem fazer a dife­rença, Temer tem de enfren­tar um mar revolto e tur­bu­lento, em cujas praias repou­sam uma eco­no­mia estag­nada, milhões de desem­pre­ga­dos e uma soci­e­dade alvo­ro­çada. É difí­cil vis­lum­brar como con­se­guirá fazer a tra­ves­sia.

A cha­mada classe polí­tica, que deve­ria mos­trar raci­o­na­li­dade supe­rior e capa­ci­dade de inter­pre­tar os sinais do tempo, não o ajuda e ame­aça, a todo momento, des­troçá-lo de uma só vez ou comê-lo pelas bor­das. O pró­prio pre­si­dente, figura de proa dessa classe, parece per­dido, sem saber que cami­nho seguir ou que tom dar ao coro dos insa­ciá­veis.

Não seria mais razoá­vel o pre­si­dente come­çar de novo, enquanto há tempo? Reor­ga­ni­zar o governo, recheá-lo de bons téc­ni­cos e de polí­ti­cos con­sis­ten­tes, tra­çar metas gene­ro­sas e empres­tar qua­li­dade à comu­ni­ca­ção pública, para ten­tar se ligar melhor à soci­e­dade? Difí­cil, mas não impos­sí­vel, até por­que não depende exclu­si­va­mente dele. Onde estão os que o apoi­a­ram em nome dos inte­res­ses gerais da nação e não de olho no pró­prio umbigo?

Aí, o cida­dão olha deses­pe­ra­da­mente para fora do governo, para além dele. Pro­cura for­ças soci­ais com voca­ção refor­ma­dora e espí­rito demo­crá­tico. Não acha. Pro­cura lide­ran­ças que con­si­gam con­ju­gar todos os tem­pos ver­bais. Não acha. Pro­cura gente que queira deba­ter com sere­ni­dade, estu­dar o país e o mundo, dis­se­mi­nar cul­tura polí­tica demo­crá­tica e senso de res­pon­sa­bi­li­dade. Não acha, ou acha pou­cos, quase sem­pre caça­dos pelos mili­tan­tes da intran­si­gên­cia.

Dirige-se então às opo­si­ções e se depara com um elenco conhe­cido: dema­go­gos de pron­ti­dão, gente que se mexe sem sair do lugar, líde­res his­tri­ô­ni­cos que se dão ares de pro­vi­den­ci­ais, que pro­me­tem pas­sar o país a limpo e esque­cem o quanto de sujeira eles pró­prios pro­du­zi­ram, que cir­cu­lam, falam e ges­ti­cu­lam como se fos­sem os sal­va­do­res da pátria e trou­xes­sem o futuro nas mãos, valendo-se dos mes­mos expe­di­en­tes e da mesma retó­rica sur­rada de sem­pre, que pro­me­tem par­tir do zero e mos­trar como se governa, tal como heróis da moder­ni­dade per­dida.

É uma opo­si­ção tem­pe­rada com desejo de vin­gança e res­sen­ti­mento, que tra­ba­lha para devol­ver a Temer o impe­a­ch­ment que ele pro­ta­go­ni­zou. Pode ser que venha a acon­te­cer, mas, se assim for, o barco con­ti­nu­ará o mesmo, o mar per­ma­ne­cerá revolto e as praias não sai­rão do lugar. Ao menos no curto prazo.

Os défi­cits são enor­mes. Falta con­vic­ção social de que a repre­sen­ta­ção demo­crá­tica é um valor. Fal­tam par­ti­dos com mus­cu­la­tura para agre­gar gru­pos e pes­soas em torno de pro­gra­mas fac­tí­veis de reforma. Fal­tam bons sis­te­mas edu­ca­ci­o­nais, regu­la­ção demo­crá­tica dos meios de comu­ni­ca­ção e redu­ção da publi­ci­dade mani­pu­la­dora para que se dis­se­mine capa­ci­dade crí­tica entre os cida­dãos. É um vazio cívico que tem sido pre­en­chido por for­mas light ou hard de auto­ri­ta­rismo e por pos­tu­la­ções pró­xi­mas da bar­bá­rie, da into­le­rân­cia e da gros­se­ria pre­con­cei­tu­osa.

Está difí­cil. Nunca é fácil.

Sem­pre há um excesso de pó e fumaça na vida real, a saturá-la e enco­bri-la. A rea­li­dade é uma com­bi­na­ção marota de ver­dade e ilu­são, essên­cia e apa­rên­cia. Há uma “pseu­do­con­cre­ti­ci­dade” emba­çando a con­cre­ti­ci­dade. Enxer­ga­mos sem­pre pai­sa­gens na neblina, o que nos impede de des­ve­lar aquilo que surge. Nem tudo é o que parece.

Lutar e bri­gar há que. Mas a bata­lha mais impor­tante é a da com­pre­en­são: a crí­tica do real. Mais impor­tante por­que mais difí­cil e por­que hoje se faz em campo aberto, sujeito a mui­tas inter­ve­ni­ên­cias, nar­ra­ti­vas, res­sig­ni­fi­ca­ções e exa­ge­ros. Quando se con­se­gue lim­par o qua­dro, a pai­sa­gem já vol­tou a mudar.

Tal­vez por isso tanta gente opte por gri­tar, pro­tes­tar, adver­tir, ame­a­çar, resis­tir, denun­ciar. Busca-se assim um lugar ao sol, em nome da sen­sa­ção de que se está pondo algo em movi­mento.

O ver­da­deiro movi­mento, porém, passa ao largo, silen­ci­oso, imper­cep­tí­vel.

Não há um antes e um depois, tipo pri­meiro a razão depois a luta. Lutar às cegas é se can­di­da­tar à der­rota. Lutar é com­pre­en­der e com­pre­en­der é lutar. A rea­li­dade é uma só, ver­dade e apa­rên­cia, e os que que­rem com­pre­endê-la pre­ci­sam tratá-la como um todo. A ver­dade nasce daí, com todos os senões, limi­tes e con­tra­di­ções.


Contribua com a continuidade de Ano Zero, clique aqui.

Leia mais arti­gos de Marco Auré­lio Nogueira aqui.

Marco Aurélio Nogueira
Duvidar sempre. Desistir jamais. Cientista político por profissão e por paixão. A política liberta, mas também pode ser uma prisão. Democrata e gramsciano por convicção, socialista por derivação. Corintiano de raiz. Atualmente, coordena o Núcleo de Estudos e Análises Internacionais-NEAI da UNESP. Seu livro mais recente é As Ruas e a Democracia. Ensaios sobre o Brasil contemporâneo (Contraponto/FAP, 2013).

Compartilhe