cartografias da alma

Cartografias da Alma

Em Comportamento, Consciência por Victor LisboaComentário

O que há em comum entre a Árvore da Vida da Cabala, o Tarot, a Psi­co­lo­gia Ana­lí­tica de Jung, a Psi­ca­ná­lise e a Teo­ria da Mente Bica­me­ral de Julian Jay­nes? Todos são mapas que ten­tam des­cre­ver e arti­cu­lar nossa movi­men­ta­ção em um mesmo con­ti­nente, a mente humana.

Ainda que os pri­mei­ros car­tó­gra­fos con­fun­dis­sem o ter­reno inte­rior da psi­que humana com alguma dimen­são meta­fí­sica, o que faziam sem sus­pei­tar era des­cre­ver aspec­tos de sua pró­pria alma (a pala­vra psi­que — ψυχή — sig­ni­fica alma, fan­tasma), pro­je­tando no mundo lá fora aspec­tos do mundo aqui den­tro gra­ças a uma ima­gi­na­ção que con­ce­bia sefi­rots caba­lís­ti­cos ou arca­nos mai­o­res. Eram essas as pri­mei­ras ten­ta­ti­vas de mape­ar­mos esse ter­reno vasto e des­co­nhe­cido no qual todos vive­mos, cha­mado sub­je­ti­vi­dade.

A metá­fora dos mapas é útil pois nos per­mite com­pre­en­der por­que não há incom­pa­ti­bi­li­dade entre as diver­sas teo­rias psi­co­ló­gi­cas que ten­tam des­cre­ver o fun­ci­o­na­mento de nossa mente às vezes de for­mas tão dis­tin­tas e apa­ren­te­mente con­tra­di­tó­rias. Se enxer­gar­mos a mente humana como um ter­ri­tó­rio tão vasto quanto qual­quer dos cinco con­ti­nen­tes do pla­neta Terra, com­pre­en­de­mos que ela pode ser mape­ada em diver­sas esca­las e com abor­da­gens car­to­grá­fi­cas que des­cre­vam ape­nas um dos vários aspec­tos de sua ampli­dão.

Há mapas que bus­cam repre­sen­tar o relevo geo­grá­fico de um con­ti­nente, enquanto outros ten­tam repro­du­zir a orga­ni­za­ção viá­ria dos cen­tros urba­nos que há nesse mesmo ter­reno. Outros, ainda, des­cre­vem os recur­sos hidro­grá­fi­cos daque­las ter­ras, enquanto há mapas que bus­cam repre­sen­tar as dife­ren­ças cli­má­ti­cas per­ce­bi­das ao longo de sua super­fí­cie. Há ainda mapas com diver­sas esca­las, de forma que alguns per­mi­tem ter uma visão ampla de todo o con­ti­nente, enquanto outros pro­pi­ciam a com­pre­en­são da estru­tura de ruas e ave­ni­das de uma cidade.

Todos esses mapas estão cor­re­tos, mas nenhum deles sozi­nho é total­mente ver­da­deiro. Todos esses mapas são úteis, mas nenhum des­creve com exa­ti­dão os aspec­tos car­to­grá­fi­cos da região que busca repre­sen­tar — pois para ser intei­ra­mente exato, um mapa pre­ci­sa­ria ter a mesma escala do ter­reno que des­creve, e sua uti­li­dade prá­tica dei­xa­ria de exis­tir.

O mesmo ocorre com as diver­sas teo­rias psi­co­ló­gi­cas. Psi­ca­ná­lise, Psi­co­lo­gia Ana­lí­tica, Psi­co­lo­gia Cog­ni­tivo-com­por­ta­men­tal, Ges­tal­te­ra­pia, Psi­co­lo­gia Sis­tê­mica e até mesmo Neu­rop­si­co­lo­gia (o equi­va­lente psí­quico dos mapas geo­ló­gi­cos): todos estão, de certa forma, cor­re­tos, mas nenhum esgota toda a ver­dade. Mais ainda, todos são úteis não ape­sar de suas limi­ta­ções na ten­ta­tiva de des­cre­ver os aspec­tos da mente humana, mas jus­ta­mente por causa des­sas limi­ta­ções, que per­mi­tem sua ope­ra­ci­o­na­li­dade.

Assim, a teo­ria de Carl Gus­tav Jung sobre os arqué­ti­pos e o incons­ci­ente cole­tivo, bem como a teo­ria de Julian Jay­nes sobre a Mente Bica­me­ral, asse­me­lham-se aos mapas amplos, que ten­tam des­cre­ver os aspec­tos mais gerais de um grande con­ti­nente. Porém, de nada ser­vem se eu qui­ser saber como faço para ir da minha casa ao super­mer­cado mais pró­ximo, com­prar comida. Para isso, pre­ciso de teo­rias mais rés-do-chão, mais minu­ci­o­sas em cer­tos deta­lhes, como a Psi­ca­ná­lise, que mapeia a dinâ­mica da libido humana desde a infân­cia. Se o indi­ví­duo pas­sou por vivên­cias pro­ble­má­ti­cas em seus pri­mei­ros anos de vida, de nada adi­anta ana­li­sar as pla­cas tectô­ni­cas da psi­que humana que cor­re­la­ci­o­nam nosso ego com estru­tu­ras de um suposto incons­ci­ente cole­tivo e com os dois hemis­fé­rios cere­brais: pre­ci­sa­mos é des­co­brir o tra­jeto que nos levará, por amplas ave­ni­das mas tam­bém por algu­mas ruas sujas e escu­ras, até a fonte de ali­mento mais pró­xima.

Da mesma forma, não há muito sen­tido em ata­car uma teo­ria psi­co­ló­gica refu­tando que ela não dá conta de des­cre­ver outros aspec­tos da psi­que humana. O cri­té­rio de vali­dade de uma teo­ria psi­co­ló­gica é mais de uti­li­dade e efi­ci­ên­cia enquanto refe­ren­cial des­cri­tivo para cami­nhar­mos de um ponto a outro desse con­ti­nente do que de per­feita fide­dig­ni­dade na repre­sen­ta­ção de todo e qual­quer deta­lhe ou aspecto desse vasto con­ti­nente.

Por outro lado, não deve­mos menos­pre­zar o valor dos mais anti­gos mapas feito pelos pri­mei­ros car­tó­gra­fos dessa enorme África sel­va­gem, repleta de ani­mais pito­res­cos, que é a mente humana. O estudo da Cabala e do Tarot, se rea­li­zado sem a arro­gân­cia do homem moderno, pode reve­lar que nos­sos ante­pas­sa­dos tive­ram fan­tás­ti­cos insights sobre aspec­tos impor­tan­tes do con­ti­nente psí­quico. Eles foram os pri­mei­ros a ver, tal­vez, gran­des for­ma­ções rocho­sas e outras impor­tan­tes estru­tu­ras geo­grá­fi­cas para os quais nin­guém havia antes dado nome ou des­cri­ção. Ten­ta­ram, assim, repre­sentá-las com a lin­gua­gem sim­bó­lica que pos­suíam. Que grande cor­di­lheira de nossa mente o Mago do Tarot pode estar ten­tando repre­sen­tar? Que gigan­tesco mar interno o sefi­rot Binah da Cabala pode sim­bo­li­zar? Da mesma forma, esses mapas anti­gos não são incom­pa­tí­veis, pois tal­vez bus­quem des­cre­ver aspec­tos dis­tin­tos de um mesmo con­ti­nente.


E tal­vez seja arro­gante de nossa parte supor que as ima­gens vivas e sim­bó­li­cas uti­li­za­das pelos pri­mei­ros car­tó­gra­fos em seus mapas decorra da sua igno­rân­cia e falta do ins­tru­men­tal teó­rico do homem moderno. Tal­vez, mais desa­vi­sa­dos que nós, e ao mesmo mais livres dos pre­con­cei­tos de nossa mente raci­o­nal e raci­o­na­li­zante, eles tenham ido mais além e se apro­fun­dado muito mais nessa enorme África, pas­sando por flo­res­tas pro­fun­das que ainda repre­sen­tam bar­reira para nossa mente inte­lec­tu­a­li­zada.

O que quero dizer é que tal­vez exis­tam regiões nesse con­ti­nente em que, a cada passo dado para frente, as “pro­pri­e­da­des mag­né­ti­cas” de cer­tas for­ma­ções tectô­ni­cas da mente natu­ral­mente exerça um efeito ate­nu­a­dor e até mesmo anu­la­dor de nosso dis­cer­ni­mento raci­o­nal, de modo que só pode­mos nos apro­xi­mar de alguns aspec­tos impor­tan­tes do seu relevo geo­grá­fico se acei­ta­mos o fato de que lá che­ga­re­mos des­pro­vi­dos da lin­gua­gem raci­o­nal. Res­ta­ria-nos, diante de uma gigan­tesca mon­ta­nha psí­quica situ­ada no cen­tro desse con­ti­nente, ape­nas os recur­sos pic­tó­ri­cos e sim­bó­li­cos de um artista.

E pode­mos ape­nas supor a forma como nos­sos ante­pas­sa­dos atin­giam essas regiões mais pro­fun­das, que des­co­nhe­ce­mos. A res­posta, quem sabe, está no fato de que ape­nas recen­te­mente foi reto­mada a linha de pes­quisa cien­tí­fica que con­si­dera ser útil ana­li­sar as expe­ri­ên­cias deri­va­das de subs­tân­cias alu­ci­nó­ge­nas uti­li­za­das por nos­sos ances­trais, como o DMT. Esse cami­nho, após um flo­res­cer pro­mis­sor no iní­cio da década de 1960, foi rapi­da­mente vedado por con­si­de­ra­ções pre­con­cei­tu­o­sas e con­ser­va­dora.

Por outro lado, saindo dos car­tó­gra­fos ances­trais e indo para o que há de mais moderno, não seria a inter­net a for­ma­ção de uma cons­ci­ên­cia cole­tiva e, como tal, a pri­meira exten­são cri­ada pelo homem na psi­que humana que vai para além dos limi­tes das men­tes indi­vi­du­ais? E, nesse caso, quais são os pon­tos de con­tato e de con­ti­nui­dade entre o ter­reno interno e o ter­reno da inter­net? As gran­des ten­dên­cias das redes soci­ais, os memes que se vira­li­zam, as hash­tags que se tor­nam popu­la­res, tudo isso não seria tal­vez a repre­sen­ta­ção final de gran­des fenô­me­nos cli­má­ti­cos que têm ori­gem nas regiões mais pro­fun­das do con­ti­nente psí­quico?

Nesse ponto há um bocado de espe­cu­la­ção. Mas o que importa é que tal­vez seja che­gada a hora de for­mu­lar­mos uma “meta-dis­ci­plina”, uma ati­vi­dade emi­nen­te­mente prá­tica, que se encar­re­gue de orga­ni­zar, cata­lo­gar e clas­si­fi­car todos os mapas já cri­a­dos para des­cre­ver a psi­que humana, esta­be­le­cendo cor­re­la­ções e para­le­lis­mos entre anti­gos mapas e novos mapas. Esses car­tó­gra­fos moder­nos, sem a pre­ten­são de criar um sis­tema fechado ou de pro­por ver­da­des abso­lu­tas, pode­riam ten­tar com­por, atra­vés do enca­de­a­mento ou da sobre­po­si­ção de diver­sos mapas (da Psi­ca­ná­lise à Cabala, da Psi­co­lo­gia Jun­gui­ana à Mente Bica­me­ral), um cená­rio frag­men­tado mas ver­da­deiro, lacu­noso mas útil, a res­peito da mente humana, que nos per­mi­tisse com­pre­en­der um pouco mais esse ter­reno em que todos nós vive­mos, a fim de que cada um possa cir­cu­lar por estra­das segu­ras e, quem sabe, um dia encon­trar den­tro de si, numa cami­nhada, outro ser humano, para então des­co­brir­mos como criar as pri­mei­ras vilas e cida­des nessa inco­men­su­rá­vel África.


Victor Lisboa
Editor do site Ano Zero.

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