O que há em comum entre a Árvore da Vida da Cabala, o Tarot, a Psicologia Analítica de Jung, a Psicanálise e a Teoria da Mente Bicameral de Julian Jaynes? Todos são mapas que tentam descrever e articular nossa movimentação em um mesmo continente, a mente humana.

Ainda que os primeiros cartógrafos confundissem o terreno interior da psique humana com alguma dimensão metafísica, o que faziam sem suspeitar era descrever aspectos de sua própria alma (a palavra psique – ψυχή – significa alma, fantasma), projetando no mundo lá fora aspectos do mundo aqui dentro graças a uma imaginação que concebia sefirots cabalísticos ou arcanos maiores. Eram essas as primeiras tentativas de mapearmos esse terreno vasto e desconhecido no qual todos vivemos, chamado subjetividade.

A metáfora dos mapas é útil pois nos permite compreender porque não há incompatibilidade entre as diversas teorias psicológicas que tentam descrever o funcionamento de nossa mente às vezes de formas tão distintas e aparentemente contraditórias. Se enxergarmos a mente humana como um território tão vasto quanto qualquer dos cinco continentes do planeta Terra, compreendemos que ela pode ser mapeada em diversas escalas e com abordagens cartográficas que descrevam apenas um dos vários aspectos de sua amplidão.

Há mapas que buscam representar o relevo geográfico de um continente, enquanto outros tentam reproduzir a organização viária dos centros urbanos que há nesse mesmo terreno. Outros, ainda, descrevem os recursos hidrográficos daquelas terras, enquanto há mapas que buscam representar as diferenças climáticas percebidas ao longo de sua superfície. Há ainda mapas com diversas escalas, de forma que alguns permitem ter uma visão ampla de todo o continente, enquanto outros propiciam a compreensão da estrutura de ruas e avenidas de uma cidade.

Todos esses mapas estão corretos, mas nenhum deles sozinho é totalmente verdadeiro. Todos esses mapas são úteis, mas nenhum descreve com exatidão os aspectos cartográficos da região que busca representar – pois para ser inteiramente exato, um mapa precisaria ter a mesma escala do terreno que descreve, e sua utilidade prática deixaria de existir.

O mesmo ocorre com as diversas teorias psicológicas. Psicanálise, Psicologia Analítica, Psicologia Cognitivo-comportamental, Gestalterapia, Psicologia Sistêmica e até mesmo Neuropsicologia (o equivalente psíquico dos mapas geológicos): todos estão, de certa forma, corretos, mas nenhum esgota toda a verdade. Mais ainda, todos são úteis não apesar de suas limitações na tentativa de descrever os aspectos da mente humana, mas justamente por causa dessas limitações, que permitem sua operacionalidade.

Assim, a teoria de Carl Gustav Jung sobre os arquétipos e o inconsciente coletivo, bem como a teoria de Julian Jaynes sobre a Mente Bicameral, assemelham-se aos mapas amplos, que tentam descrever os aspectos mais gerais de um grande continente. Porém, de nada servem se eu quiser saber como faço para ir da minha casa ao supermercado mais próximo, comprar comida. Para isso, preciso de teorias mais rés-do-chão, mais minuciosas em certos detalhes, como a Psicanálise, que mapeia a dinâmica da libido humana desde a infância. Se o indivíduo passou por vivências problemáticas em seus primeiros anos de vida, de nada adianta analisar as placas tectônicas da psique humana que correlacionam nosso ego com estruturas de um suposto inconsciente coletivo e com os dois hemisférios cerebrais: precisamos é descobrir o trajeto que nos levará, por amplas avenidas mas também por algumas ruas sujas e escuras, até a fonte de alimento mais próxima.

Da mesma forma, não há muito sentido em atacar uma teoria psicológica refutando que ela não dá conta de descrever outros aspectos da psique humana. O critério de validade de uma teoria psicológica é mais de utilidade e eficiência enquanto referencial descritivo para caminharmos de um ponto a outro desse continente do que de perfeita fidedignidade na representação de todo e qualquer detalhe ou aspecto desse vasto continente.

Por outro lado, não devemos menosprezar o valor dos mais antigos mapas feito pelos primeiros cartógrafos dessa enorme África selvagem, repleta de animais pitorescos, que é a mente humana. O estudo da Cabala e do Tarot, se realizado sem a arrogância do homem moderno, pode revelar que nossos antepassados tiveram fantásticos insights sobre aspectos importantes do continente psíquico. Eles foram os primeiros a ver, talvez, grandes formações rochosas e outras importantes estruturas geográficas para os quais ninguém havia antes dado nome ou descrição. Tentaram, assim, representá-las com a linguagem simbólica que possuíam. Que grande cordilheira de nossa mente o Mago do Tarot pode estar tentando representar? Que gigantesco mar interno o sefirot Binah da Cabala pode simbolizar? Da mesma forma, esses mapas antigos não são incompatíveis, pois talvez busquem descrever aspectos distintos de um mesmo continente.


E talvez seja arrogante de nossa parte supor que as imagens vivas e simbólicas utilizadas pelos primeiros cartógrafos em seus mapas decorra da sua ignorância e falta do instrumental teórico do homem moderno. Talvez, mais desavisados que nós, e ao mesmo mais livres dos preconceitos de nossa mente racional e racionalizante, eles tenham ido mais além e se aprofundado muito mais nessa enorme África, passando por florestas profundas que ainda representam barreira para nossa mente intelectualizada.

O que quero dizer é que talvez existam regiões nesse continente em que, a cada passo dado para frente, as “propriedades magnéticas” de certas formações tectônicas da mente naturalmente exerça um efeito atenuador e até mesmo anulador de nosso discernimento racional, de modo que só podemos nos aproximar de alguns aspectos importantes do seu relevo geográfico se aceitamos o fato de que lá chegaremos desprovidos da linguagem racional. Restaria-nos, diante de uma gigantesca montanha psíquica situada no centro desse continente, apenas os recursos pictóricos e simbólicos de um artista.

E podemos apenas supor a forma como nossos antepassados atingiam essas regiões mais profundas, que desconhecemos. A resposta, quem sabe, está no fato de que apenas recentemente foi retomada a linha de pesquisa científica que considera ser útil analisar as experiências derivadas de substâncias alucinógenas utilizadas por nossos ancestrais, como o DMT. Esse caminho, após um florescer promissor no início da década de 1960, foi rapidamente vedado por considerações preconceituosas e conservadora.

Por outro lado, saindo dos cartógrafos ancestrais e indo para o que há de mais moderno, não seria a internet a formação de uma consciência coletiva e, como tal, a primeira extensão criada pelo homem na psique humana que vai para além dos limites das mentes individuais? E, nesse caso, quais são os pontos de contato e de continuidade entre o terreno interno e o terreno da internet? As grandes tendências das redes sociais, os memes que se viralizam, as hashtags que se tornam populares, tudo isso não seria talvez a representação final de grandes fenômenos climáticos que têm origem nas regiões mais profundas do continente psíquico?

Nesse ponto há um bocado de especulação. Mas o que importa é que talvez seja chegada a hora de formularmos uma “meta-disciplina”, uma atividade eminentemente prática, que se encarregue de organizar, catalogar e classificar todos os mapas já criados para descrever a psique humana, estabelecendo correlações e paralelismos entre antigos mapas e novos mapas. Esses cartógrafos modernos, sem a pretensão de criar um sistema fechado ou de propor verdades absolutas, poderiam tentar compor, através do encadeamento ou da sobreposição de diversos mapas (da Psicanálise à Cabala, da Psicologia Junguiana à Mente Bicameral), um cenário fragmentado mas verdadeiro, lacunoso mas útil, a respeito da mente humana, que nos permitisse compreender um pouco mais esse terreno em que todos nós vivemos, a fim de que cada um possa circular por estradas seguras e, quem sabe, um dia encontrar dentro de si, numa caminhada, outro ser humano, para então descobrirmos como criar as primeiras vilas e cidades nessa incomensurável África.


escrito por:

Victor Lisboa