Fiquei um bom tempo pensando nas reações à publicação no Estadão da carta do assassino/terrorista que chacinou a ex-esposa, o filho e a família dela em Campinas.

(Antes que venha alguém me xingar porque estou falando da reação e não da chacina: o que eu poderia falar sobre o ato em si? Que é horrível, grotesco, inaceitável, misógino, terrorista etc? Gosto de imaginar que isso já é óbvio, mas talvez eu esteja sendo ingênuo. Meu comentário mais pessoal é: me parece evidente que uma pessoa que mata uma galera e deixa um manifesto com pontos políticos se justificando pode ser chamada de terrorista, mas não o vi sendo nomeado assim.)

Muita gente — inclusive gente de quem eu gosto, e que eu considero inteligente — ficou bem contra a divulgação, quase sempre seguindo um raciocínio que identifica irresponsabilidade no ato, pois pode estimular/validar outros assassinos em potencial que estejam por aí. A ideia é que a carta é “perigosa”, de certo modo, e que entrar em contato com ela pode ser tóxico, pode influenciar pessoas rumo ao mal, rumo à violência.

A influência poderia vir de maneiras diferentes: ou empurrando alguém rumo a ideias mais radicais, isso é, “manipulando”, ou então dando uma sensação de validação mainstream aos caras que já acreditam nisso.

Acho meio ingênuo pensar que é a publicação de algo assim que vai levar as pessoas “adiante” — a internet é literalmente cheia de redutos de ressentimento e violência, e quem tiver interesse nisso sempre vai ter onde encontrar, seja no 4chan ou no PCB. A grande maioria, porém, fica só na conversa/discussão, e não acho que vai ser o aparecimento de uma carta em um jornal que vai mudar essas pessoas.

Acreditar que o contato com um material escrito “impactante” vai levar as pessoas à violência, além de ser uma postura bastante mesquinha quanto ao ser humano (a gente é tão fácil assim de manipular? pessoas são máquinas de reprodução de estímulos e incentivos sim, mas suspeito que bem mais complexas do que isso), é o tipo de ideia complicada que sempre sustentou tentativas de proibir literatura subversiva, videogames violentos, etc. É um discurso perigoso pra se aderir.

Fiquei preocupado, porém, porque eu sinto que essa tentativa de esconder a merda pra debaixo do pano é parte de uma tendência maior. O cara já matou essas pessoas todas — a tragédia aconteceu. Tentar entender o que se passou na cabeça dele, trazer esse assunto à tona, discutir em público a sério o que gera esse tipo de merda — tudo isso me parece mais produtivo do que intuir que seria melhor esconder o que ele pensava, porque “o povo não está pronto para ouvir”.

Nos últimos meses, tenho percebido diversas outras atitudes que parecem bater com essa reação. Amigos e conhecidos aos montes afirmam que os portais de notícia e jornais deveriam extinguir as caixas de comentários, “pois só servem pra que malucos e reaças falem merda”. Pós-eleição do Trump, começou uma campanha forte contra “falsas notícias”, exigindo que o facebook e outras redes sociais censurem aquilo que seja mentiroso, boato ou duvidoso, “para não espalhar inverdades” (quem vai decidir o que é mentira? pois é.). E por aí vai.

Essa reação à carta é só mais uma etapa dessa trajetória — que me parece muito complicada. A postura sincera expressa aí é: “a gente até sabe lidar com esses conhecimentos perigosos e espaços de debate e informações dúbias, mas o povo? Ah, o povo não está pronto pra isso. Fazemos isso pelo bem deles.” A ideia é de que se der autonomia demais, vão fazer merda, escolher o caminho errado, se deixar levar pelo mal, etc.

(Tem milhares de exemplos. A gritaria contra a reforma educacional que tornava filosofia e sociologia optativas, por exemplo? Medo de que “o povo” escolha errado e não queira estudar conhecimentos tão importantes. A oposição de centros acadêmicos à existência de empresas junior porque assim os alunos não vão mais querer fazer curso de extensão estudando Paulo Freire? Idem.)

A expressão máxima desse raciocínio é a reação grotesca do que sobrou do petismo a Junho de 2013. Identificando naquelas manifestações o começo do fim para Dilma, existe uma intelligentsia que ainda hoje suspira desejando que ninguém tivesse saído para a rua, que todos tivessem ficado em casa. “Se eles não percebessem que estão insatisfeitos, estaria tudo bem”.

A postura recente em relação a toda e qualquer manifestação que não seja dominada por alguma burocracia clássica é herdeira disso: não sabemos no que isso pode dar, então é perigoso — melhor é que fiquem em silêncio.

Eu entendo que role um medo e um desconforto lendo esse tipo de violência grotesca no jornal. Mas me parece que é mais saudável tratar disso abertamente, com todos os perigos e meandros disso, do que só esconder e fingir que não existe (ou reservar as discussões apenas para os iluminados, para a Academia, para quem “está preparado” para isso).

Esse medo esterilizante de comunicação que temos cultivado só leva ao isolamento frágil.

E agir a partir desse medo não resolve nada, é só tentar tapar o sol com a peneira. Apagar caixa de comentário ou exigir que censurem notícias “falsas” não elimina esses problemas, só demonstra que temos força pra silenciar o que nos incomoda, mas não disposição pra debater isso a sério.

No máximo, vai servir pra fazer com que essa galera se sinta ainda mais perseguida e oprimida, se o establishment começar a tentar acabar com a chance de que eles participem de diálogo ou exponham suas visões. E esse ressentimento é uma merda… Pensar nisso de verdade envolve muito mais do que botar a culpa no facebook ou no algoritmo e na “burrice” dos outros. Envolve se engajar, levar a sério o pensamento do outro, por mais assustador que seja.

Estimular o debate, a discussão e o pensamento é perigoso, sim. Quando é feito de maneira sincera, a gente realmente não sabe no que vai dar. Mas isso é bom — pode gerar monstros, mas pode gerar insights, novidade, reflexão.

Tudo que é perigoso abre caminhos múltiplos. A gente precisa ter coragem pra abraçar a contaminação, o assustador, e um pouco menos de medo de que qualquer contato com o diferente vai ser letal. Impureza é bom, pura mesmo só a morte.

E, enfim, acho que é melhor fazer isso às claras do que banir tudo que é divergente e estranho pras profundezas, e aí depois levar um susto quando esse pessoal excluído do debate constrói as suas próprias redes à parte e elege um Trump da vida.


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Guilherme Assis
Tem 25 anos, trabalha com audiovisual e sempre se disse de esquerda. A definição mudou, mas ele continua o mesmo - sempre na oposição.