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CARTA AO IDIOTA DO IMPEACHMENT

Em Consciência, Política por Victor LisboaComentários

Você, que é con­tra o impe­a­ch­ment por achar que se trata de um golpe arqui­te­tado pelos “coxi­nhas” da direita con­ser­va­dora, evan­gé­lica e mili­ta­rista. Você, que é a favor do impe­a­ch­ment por achar que a der­ro­cada dos “petra­lhas” ins­ta­lará a mora­li­dade na máquina pública. Seria ótimo se a rea­li­dade fosse sim­ples assim, tal como é retra­tada na sua cabeça. Mas não tem como dizer isso de forma mais ele­gante, o fato é que você é um idi­ota, mais exa­ta­mente um tipo qua­li­fi­cado de idi­ota: o Idi­ota do Impe­a­ch­ment.

O pro­blema não é ser con­tra ou a favor do Impe­a­ch­ment, pois isso é um posi­ci­o­na­mento polí­tico legí­timo a todo o cida­dão escla­re­cido e cri­te­ri­oso em seu jul­ga­mento. O pro­blema é ser con­tra ou a favor do Impe­a­ch­ment pelas razões e ins­pi­ra­ções ingê­nuas e pri­má­rias que só um típico Idi­ota do Impe­a­ch­ment, seja con­tra ou a favor, pode ter.

Sem se dar conta, você está sendo ilu­dido em suas boas inten­ções por um grupo de polí­ti­cos e asse­clas de polí­ti­cos que não com­par­ti­lha da mesma visão de mundo que você, mas que mani­pula suas expec­ta­ti­vas com o obje­tivo de alcan­çar ou man­ter a única coisa que lhes importa de ver­dade: o poder. Você, infe­liz­mente, é só mais uma vítima ino­cente de uma era na qual as memes das redes soci­ais pin­tam tudo com cores pri­má­rias, mani­queís­tas, preto no branco, nós con­tra eles, os bons con­tra os maus.

E você, peão idi­ota mani­pu­lado pela retó­rica e pelo mar­ke­ting de bote­quim das redes soci­ais, entra nessa guerra com san­gue­no­zoio con­tra o suposto ini­migo, seja ele os coxi­nhas ou os petra­lhas, com­par­ti­lhando e cur­tindo rotu­la­ções apres­sa­das e ima­gens ape­la­ti­vas. Como resul­tado dessa sua ação incon­se­quente e míope, meu pre­zado, o já super­fi­cial debate polí­tico bra­si­leiro fica ainda mais cari­cato, mais mise­rá­vel e ver­go­nhoso. Antes de cri­ti­car os par­la­men­ta­res que bri­gam com tapas e cabe­ça­das no con­gresso naci­o­nal, olhe para seu pró­prio umbigo e se per­gunte se você tam­bém, ao seu jeito, não está cola­bo­rando para nosso país se tor­nar um enorme circo feito de palha­ços malo­gra­dos pela pró­pria bur­rice.

Porém, meu amigo, a ver­dade é que tudo é bem pior do que as vãs sim­pli­fi­ca­ções do Face­book e papos de bar con­se­guem repre­sen­tar. Nessa his­tó­ria, não há heróis, não há vilões. Em ambos os cená­rios, ocor­rendo ou não ocor­rendo o Impe­a­ch­ment, tanto ven­ce­do­res como der­ro­ta­dos são repre­sen­tan­tes do que há de pior na polí­tica bra­si­leira. Ocorra ou não impe­a­ch­ment, per­ma­neça ou não o PT no poder, o povo bra­si­leiro será o grande per­de­dor, pois fomos colo­ca­dos numa situ­a­ção na qual já per­de­mos, e não há outra alter­na­tiva senão ser­mos gover­na­dos pela mesma classe polí­tica cri­mi­nosa que há déca­das para­sita o Estado bra­si­leiro, este­jam eles na opo­si­ção ou na situ­a­ção, sejam do PSDB, sejam do PT.

Dê um passo para trás, meu amigo Idi­ota do Impe­a­ch­ment, e olhe tudo de uma pers­pec­tiva mais ampla, e subi­ta­mente esse véu de igno­rân­cia sairá de seus olhos:

De um lado, temos uma Pre­si­dente cuja incom­pe­tên­cia admi­nis­tra­tiva e micro­ge­ren­ci­a­mento auto­ri­tá­rio fez o país mer­gu­lhar numa pro­funda crise econô­mica, colo­cando por água abaixo as pou­cas e árduas con­quis­tas soci­ais da popu­la­ção bra­si­leira nos últi­mos anos. Uma Chefe do Exe­cu­tivo cujo par­tido está, como demons­tram as inves­ti­ga­ções das ope­ra­ções Zelo­tes e Lava-Jato, com­pro­va­da­mente mer­gu­lhado num esgoto de cor­rup­ção que envolve pode­ro­sas esta­tais como Petro­brás, Fur­nas e Ele­tro­brás, e gran­des empre­sas como Ode­brecth, Andrade Guti­er­rez e o grupo Caoa — um esgoto cujas águas con­ta­mi­na­das e bili­o­ná­rias cor­re­ram quase como um rio de lama durante seus dois man­da­tos pre­si­den­ci­ais. Uma Pre­si­dente que ocul­tou em 2014 os pri­mei­ros sinais de reces­são para poder ganhar a elei­ção, e que pra­ti­cou um enorme este­li­o­nato elei­to­ral após sua vitó­ria ao ado­tar medi­das con­trá­rias à car­ti­lha ide­o­ló­gica de seus elei­to­res.

Do outro lado, porém, temos um pre­si­dente da Câmara que ame­a­lhou milhões de dóla­res em con­tas na Suiça como resul­tado da cor­rup­ção, e que fez ame­a­ças de morte ao depu­tado fede­ral rela­tor do pro­cesso par­la­men­tar des­ti­nado a apu­rar sua falta de decoro. Uma opo­si­ção cujo prin­ci­pal par­tido foi res­pon­sá­vel por irre­gu­la­ri­da­des e des­vios durante a pri­va­ti­za­ção de gran­des esta­tais no governo FHC, e cujo can­di­dato à Pre­si­dên­cia da Repú­blica tem rela­ções ainda não inves­ti­ga­das com o nar­co­trá­fico inter­na­ci­o­nal. Uma opo­si­ção que conta com o apoio do que há de pior na polí­tica bra­si­leira, como a ban­cada evan­gé­lica e cre­ti­nos fun­da­men­ta­lis­tas como Bol­so­naro.

Não se con­ven­ceu? Bem, basta lem­brar que tanto se ocor­rer como se não ocor­rer o Impe­a­ch­ment, na prá­tica um par­tido sairá sem­pre ven­ce­dor, e terá no con­gresso o poder de deci­dir os rumos da nação, ocu­pando car­gos na máquina pública, inde­pen­den­te­mente de quem esteja usando a faixa pre­si­den­cial: o PMDB.

Então, se toda a polí­tica bra­si­leira está nas mãos de incom­pe­ten­tes, cor­rup­tos e este­li­o­na­tá­rios, não há chance para a demo­cra­cia?” “Está tudo podre e em pro­cesso de decom­po­si­ção moral irre­me­diá­vel?” Eu entendo que essa é a pri­meira per­gunta que vem à sua cabeça, meu amigo Idi­ota do Impe­a­ch­ment, e até des­con­fio que, antes mesmo de ter­mi­nar a sua for­mu­la­ção, uma vozi­nha den­tro de você come­çou a sus­sur­rar, a depen­der de sua incli­na­ção ide­o­ló­gica, algo a favor de uma revo­lu­ção soci­a­lista ou de uma inter­ven­ção mili­tar de direita (é, fazer o que, o seu pen­sa­mento é bem pre­vi­sí­vel).

Ocorre que você, que­rido cré­dulo, tam­bém caiu na arma­di­lha de uma outra sim­pli­fi­ca­ção: aquela que entende a demo­cra­cia exclu­si­va­mente como um pro­cesso de votar em can­di­da­tos a car­gos públi­cos que, uma vez no poder, farão com­po­si­ções polí­ti­cas para imple­men­tar os seus com­pro­mis­sos de cam­pa­nha.

Na ver­dade, demo­cra­cia é muito mais do que isso. Demo­cra­cia tam­bém é um sis­tema de ins­ti­tui­ções inde­pen­den­tes cujo dever fun­da­men­tal é pre­ser­var aquilo que se con­ven­ci­o­nou cha­mar de “Estado Demo­crá­tico de Direito”. E essas duas últi­mas pala­vras, “direito” e “demo­crá­tico”, são, nesse sis­tema, indis­so­ciá­veis: a demo­cra­cia rea­liza-se atra­vés do direito e o direito jus­ti­fica-se pela pre­ser­va­ção da demo­cra­cia, sendo enten­dido por “direito” não ape­nas o con­junto de leis, mas antes e prin­ci­pal­mente o con­junto de prin­cí­pios que ins­pi­ram a noção de um governo legi­ti­mado pela par­ti­ci­pa­ção ativa de todos os cida­dãos.

E, nesse aspecto, se no âmbito da polí­tica sere­mos todos per­de­do­res, não impor­tando qual grupo saia vito­ri­oso do Impe­a­ch­ment, não impor­tando se Dilma cai ou não cai, o que está ocor­rendo no âmbito de outras ins­ti­tui­ções demo­crá­ti­cas é algo sem pre­ce­den­tes e mos­tra que no final pode haver uma grande vitó­ria do Estado Demo­crá­tico de Direito: o Poder Judi­ciá­rio e o Minis­té­rio Público (que tam­bém não são san­tos, que tam­bém pos­suem focos de abu­sos e cor­rup­ção, mas não no nível de metás­tase do Poder Exe­cu­tivo e Legis­la­tivo) estão, pela pri­meira vez, atu­ando segundo o estrito rigor da lei, e como con­sequên­cia esta­mos tes­te­mu­nhando sena­do­res, ban­quei­ros e gran­des emprei­tei­ros indo parar atrás das gra­des.

É natu­ral que os gru­pos anti­gi­dos pela ação des­sas ins­ti­tui­ções ten­tem ven­der a ideia de que elas estão sendo ide­o­lo­gi­ca­mente sele­ti­vas nas apu­ra­ções. Você, meu amigo, está intei­ra­mente livre para con­ti­nuar um Idi­ota do Impe­a­ch­ment e acre­di­tar que toda a Polí­cia Fede­ral, o Minis­té­rio Público e o Poder Judi­ciá­rio estão ide­o­lo­gi­ca­mente apa­re­lha­dos com esse ou aquele grupo polí­tico. A sim­pli­fi­ca­ção cari­cata da rea­li­dade é sem­pre sedu­to­ra­mente mais fácil de assi­mi­lar.

Porém, o fato é que os mús­cu­los de outras ins­ti­tui­ções demo­crá­ti­cas estão sendo pela pri­meira vez exer­ci­ta­dos no país, e como con­sequên­cia disso nem mesmo as mais altas auto­ri­da­des da Repú­blica e pode­ro­sos empre­sá­rios estão sendo pou­pa­dos de amar­gar um bom tempo atrás das gra­des. O deses­pero é tanto, diante da efi­ci­ên­cia e agi­li­dade des­sas ins­ti­tui­ções demo­crá­ti­cas, que um Sena­dor da Repú­blica ten­tou com­prar o silên­cio de um dos inves­ti­ga­dos com mesada de 50 mil reais e fuga em jati­nho supersô­nico para a Europa, tudo patro­ci­nado por um grande ban­queiro: o resul­tado é que o sena­dor e o ban­queiro aca­ba­ram na cadeia.

Essas ins­ti­tui­ções com­põem um deli­cado mas sofis­ti­cado sis­tema exis­tente em toda a demo­cra­cia bem suce­dida, mas que até hoje no Bra­sil tinha sua mus­cu­la­tura atro­fi­ada. É um sis­tema essen­ci­al­mente jurí­dico que imple­menta os prin­cí­pios e regras de uma Cons­ti­tui­ção que, mal­grado todos os ata­ques rei­te­ra­dos, ainda é voca­ci­o­nada à demo­cra­cia.

O pro­blema da estu­pi­dez do Idi­ota do Impe­a­ch­ment é que ela des­via o foco do fun­da­men­tal. Mais impor­tante, no momento, do que o Impe­a­ch­ment em si, é a busca emer­gen­cial da esta­bi­li­dade econô­mica, sob pena de a crise atual lan­çar nas ruas milha­res de desem­pre­ga­dos, e devol­ver à classe mais baixa milha­res de famí­lias que esta­vam com­pondo aquilo que pas­sa­mos a cha­mar de “nova classe média”. Mais impor­tante, para o futuro, é estar­mos vigi­lan­tes para as ten­ta­ti­vas que o Poder Legis­la­tivo e o Exe­cu­tivo farão de tolher a auto­no­mia das ins­ti­tui­ções demo­crá­ti­cas que estão, neste momento, mor­dendo os seus cal­ca­nha­res e ame­a­çando punir efe­ti­va­mente toda a cor­rup­ção.

Enquanto você briga no Face­book ou no Twit­ter defen­dendo aque­les que estão lhe mani­pu­lando, Idi­ota do Impe­a­ch­ment, o país vai à ban­car­rota, inde­pen­den­te­mente de quem está ocu­pando a Pre­si­dên­cia. Mas a mudança depende mais de você do que daquele pes­soal em Bra­sí­lia. Você pode aban­do­nar agora mesmo essa fan­ta­sia de palhaço que tem orgu­lho de osten­tar em público, e pode pas­sar a usar as ves­ti­men­tas da cida­da­nia escla­re­cida e crí­tica, ainda que seja para defen­der esse ou aquele posi­ci­o­na­mento, mas sem se ilu­dir sobre a ver­da­deira qua­li­dade (ou falta de qua­li­dade) dos gru­pos polí­ti­cos que estão de ambos os lados dessa con­tenda.


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Victor Lisboa
Editor do site Ano Zero.

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