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Natal, Ano Novo e Carnaval: rituais vazios de nossa época?

Em Comportamento, Consciência, Religião, Sociedade por Felipe NovaesComentário

Sócra­tes foi o filó­sofo ate­ni­ense que inau­gu­rou, na filo­so­fia, a refle­xão sobre o homem, a moral e os cos­tu­mes. Ele per­so­ni­fica no ima­gi­ná­rio popu­lar a figura do filó­sofo falas­trão que anda com a cabeça nas nuvens. Ape­sar de repre­sen­tar a per­so­ni­fi­ca­ção da razão e da vir­tude, Sócra­tes foi con­de­nado pelas auto­ri­da­des ate­ni­en­ses a nomi­zein, o que sig­ni­fi­cava tanto que Sócra­tes não obser­vava ade­qua­da­mente as prá­ti­cas reli­gi­o­sas da época quanto que não com­par­ti­lhava das mes­mas cren­ças dos ate­ni­en­ses.

De qual­quer forma, o que salta aos olhos é que, de acordo com Xeno­fonte, um de seus dis­cí­pu­los, as últi­mas pala­vras de Sócra­tes foram: Crí­ton, deve­mos um galo a Escu­lá­pio. Pague-o e não se esqueça.

É natu­ral ques­ti­o­nar como um homem sábio, apa­ren­te­mente livre da amar­ras de tra­di­ções reli­gi­o­sas anti­gas (ape­sar de Xeno­fonte rela­tar que Sócra­tes obser­vava vários dos ritu­ais da época) e que estava sendo con­de­nado supos­ta­mente por “here­sia”, pode ter como seu último pedido jus­ta­mente que se sacri­fi­casse um ani­mal a uma divin­dade do pan­teão da época.

carnaval - Sócrates

Se Sócra­tes pos­suía ao mesmo tempo uma incli­na­ção reli­gi­osa (ainda que não à maneira ate­ni­ense) e uma mente lím­pida, sábia e raci­o­nal, é de se espe­rar que homens ordi­ná­rios como nós tam­bém aca­bem por cair não só nesse tipo de culto, mas, mais impor­tante, na abdi­ca­ção mesmo que tem­po­rá­ria de uma mente inqui­si­dora e de um espí­rito ligado à ação, para aden­trar em cer­tos como­dis­mos e obs­cu­ran­tis­mos.

É mais ou menos isso que acaba acon­te­cendo em cer­tas datas fes­ti­vas.

Natal, Ano Novo e Carnaval: o self-service religioso

Tais datas me inco­mo­dam por dois moti­vos prin­ci­pais: (i) as pes­soas se com­por­tam como se esti­ves­sem em transe, como se tives­sem sido hip­no­ti­za­das para agi­rem como ursi­nhos cari­nho­sos, ou para viver todos os seus pro­vá­veis 70 anos de vida na semana do Car­na­val — como se essa data resu­misse tudo que alguém pode fazer na vida; (ii) e toda essa com­pai­xão, altruísmo e eufo­ria aca­bam não pas­sando de super­fi­ci­a­li­dade, de fogo de palha. Nin­guém está vivendo esses momen­tos de forma real­mente pre­sente. Esses aspec­tos aca­bam reve­lando uma ten­dên­cia poli­teísta que parece tomar conta de todos, ainda que por trás dos panos.

É um desa­fio para o bom senso viver num Estado laico mas de mai­o­ria cristã, e que come­mora tan­tas datas asso­ci­a­das ao cris­ti­a­nismo, mono­teísta por exce­lên­cia, de uma forma que na prá­tica remete à uma festa poli­teísta.

Para com­pli­car mais as coi­sas, é como se o mono­teísmo já tão ‘poli­tei­zado’ divi­disse espaço com enti­da­des anti­gas e con­tem­po­râ­neas — se seguir­mos a ideia genial de Neil Gai­man de colo­car per­so­na­gens oni­pre­sen­tes como a TV, cor­po­ra­ções, inter­net e fama como divin­da­des de um pan­teão con­tem­po­râ­neo que nas­ceu espon­ta­ne­a­mente. Isso por­que, além dos ban­que­tes sun­tu­o­sos e glo­ri­fi­ca­ções de um quase per­so­ni­fi­cado novo ano (o que é típico de cren­ças poli­teís­tas anti­gas), ou de eufó­ri­cos ritos dio­ni­sía­cos no Car­na­val, ainda temos as ence­na­ções de comer­ci­ais e de anún­cios por toda pro­gra­ma­ção da TV e inter­net. Em geral, são simu­la­ções sobre como come­mo­rar cor­re­ta­mente essas datas, o que na prá­tica implica em apren­der­mos a ser super­fi­ci­ais e exi­bir sor­ri­sos fabri­ca­dos.

A cada ano que passa, vejo que a vida real é uma ten­ta­tiva cada vez mais sacal de imi­tar a eufo­ria com que a tele­vi­são retrata a famí­lia média. Ou, de outro lado, que cada vez mais as telas ten­tam imi­tar de uma forma mais gla­mou­ri­zada o que acon­tece veri­di­ca­mente. E isso tudo gera uma baita decep­ção.

carnaval vômito

Antes que você me ache insen­sí­vel, aviso que não estou me opondo ao exte­rior gen­til e com­pas­sivo que todos exi­bem, tam­pouco estou negando a pos­si­bi­li­dade de ser­mos eufó­ri­cos algu­mas vezes e cur­tir um momento mais car­na­va­lesco. A ques­tão é que quase sem­pre esse é um padrão de ação tem­po­rá­rio e oco, por não cor­res­pon­der real­mente a algo dura­douro ou a uma mudança mais pro­funda. É ape­nas o ins­tinto de reba­nho agindo. E, como tal, é impro­du­tivo e pas­sa­geiro.

Algu­mas pes­soas invo­cam o poder des­ses ritu­ais como uma ten­ta­tiva de usar sua ances­tra­li­dade como sinô­nimo de efi­cá­cia, uma forma de mos­trar que existe razão de ser para esses velhos cos­tu­mes. A his­tó­ria humana sem­pre foi reche­ada de ritos que ser­viam para o coti­di­ano e para o trans­cen­den­tal. Somos her­dei­ros disso, e um bom exem­plo são as fes­tas de for­ma­tura e a missa.

Mas a grande ques­tão, nova­mente, é o enten­di­mento da natu­reza externa do ritual, é o esque­ci­mento de que se faz algo para que haja modi­fi­ca­ção inte­rior, para que o enten­di­mento sobre a pró­pria vida e nosso lugar nela seja alte­rado. Não existe mérito em repe­tir incons­ci­en­te­mente um mesmo hábito só para ser­mos iguais aos outros.

Exis­tem outras for­mas bem mais diver­ti­das de se pas­sar esses perío­dos fes­ti­vos, prin­ci­pal­mente se você não curte muito essas come­mo­ra­ções e não con­se­gue encar­nar o espí­rito des­sas épo­cas. E isso não implica em ser con­trá­rio aos valo­res que geral­mente os foliões nata­li­nos, por exem­plo, defen­dem, é ape­nas uma ques­tão de não ade­rir a uma modi­nha pas­sa­geira e super­fi­cial.

Ursinhos carinhosos inconscientes

Com­por­tar-se como um ursi­nho cari­nhoso é subi­ta­mente achar que o mundo é uma mara­vi­lha, que as pes­soas são espe­ci­ais e úni­cas, que a diver­si­dade é o máximo. O pro­blema é que, ao con­trá­rio dos indi­ví­duos real­mente empe­nha­dos numa trans­for­ma­ção pes­soal, os ursi­nhos só se dão conta des­ses valo­res no fim de ano. Assim, logo que janeiro começa, sua con­fi­gu­ra­ção default retorna, tor­nando-os nova­mente indi­vi­du­a­lis­tas, incons­ci­en­tes e ran­zin­zas, pes­soas movi­das à bala­das, álcool e via­gens.

É certo que se impor­tar um pouco ou muito com o pró­ximo é mara­vi­lhoso, e esta­mos pre­ci­sando disso. Mas é um tanto hipó­crita reser­var uma data espe­cial para isso, igno­rando que essa vibe hip­pie está vin­cu­lada ape­nas a uma data. Isso con­di­ci­ona os sen­ti­men­tos huma­nos, que deve­riam ser trei­na­dos dia­ri­a­mente nas rela­ções inter­pes­so­ais (e até inter­na­mente, em rela­ção a nós mes­mos), a uma lógica mer­ca­do­ló­gica, que é ótima para tro­car pro­du­tos e mer­ca­do­rias, mas não para tro­car expe­ri­ên­cias huma­nas. É como se de agora em diante fosse nor­mal tra­tar bem as mães só no Dia das Mães.

O grande risco desse tipo de ritual social é que aca­ba­mos nos con­ten­tando em pare­cer mais cari­do­sos e bon­do­sos, enquanto ao longo desse pro­cesso de exte­ri­o­ri­za­ção per­de­mos a habi­li­dade de per­ce­ber se real­mente esta­mos nos modi­fi­cando pro­fun­da­mente.

carnaval The Purge

Cena do filme The Purge

Isso é sati­ri­zado por uma recente dis­to­pia cha­mada The Purge, um filme em que as pes­soas pas­sam o ano inteiro sendo pací­fi­cas, mas em uma data espe­cí­fica saem pelas ruas come­tendo atro­ci­da­des sem serem puni­das pela lei. Na soci­e­dade retra­tada no filme, exis­tem datas cer­tas para exi­bir­mos cer­tas emo­ções e sen­ti­men­tos. Na vida real, no fim de ano, é pare­cido, mas a estru­tura se inverte: as pes­soas pas­sam o ano com um altruísmo baixo ou médio, mas em dezem­bro explo­dem numa com­pai­xão estilo bodi­satva — o que pro­va­vel­mente é auto-ilu­são, ape­nas eufo­ria exter­na­mente gui­ada.

Comemorar o que mesmo?

Tive­mos um ano espe­ci­al­mente trá­gico (não que algum ano tenha sido ine­qui­vo­ca­mente bom), com aten­ta­dos ter­ro­ris­tas, jor­na­lis­tas sendo escal­pe­la­dos pelo Estado Islâ­mico e rios des­truí­dos por detri­tos tóxi­cos como con­sequên­cia da irres­pon­sa­bi­li­dade empre­sa­rial gover­na­men­tal. Sem falar de um país que está à beira de um colapso polí­tico e econô­mico. Mesmo assim, temos que entrar no clima da Ivete San­galo anun­ci­ando sem parar o Natal nos super­mer­ca­dos Gua­na­bara ou dan­çar ao som de “já é Natal na Lea­der Maga­zine!” desde o iní­cio do segundo semes­tre:

Pen­sando pros­pec­ti­va­mente, pode­mos ima­gi­nar tam­bém o que vamos come­mo­rar no Car­na­val de 2016. Por que há pou­cos anos os bra­si­lei­ros esta­vam inte­res­sa­dos em boi­co­tar a Copa, o que mos­tra que as pes­soas esta­vam repen­sando sua vida para além da mera diver­são e entre­te­ni­mento, mas agora parece que vol­ta­mos ao estado padrão de apa­tia-pão-e-circo?

Esse tipo de abor­da­gem midiá­tica mos­tra bem o papel da tele­vi­são — se não na cri­a­ção, ao menos no reforço de cer­tas sín­dro­mes de fim de ano. Pelas pro­pa­gan­das, per­ce­be­mos que sem­pre temos que estar eufó­ri­cos, sor­ri­den­tes, de bom humor, tendo papos super­fi­ci­ais sobre ame­ni­da­des.

Além des­sas lições de boa con­vi­vên­cia (que no fundo estão só retra­tando a bana­li­dade da vida coti­di­ana da massa), existe o inqui­e­tante hábito de mos­trar o desejo e a men­ta­li­za­ção de coi­sas boas como ati­tude sufi­ci­ente e de grande impor­tân­cia. Se isso já é igno­rar algo fun­da­men­tal que é o poder de medi­das prá­ti­cas como modi­fi­ca­do­ras da rea­li­dade, é melhor nem come­çar a dizer que a essas pes­soas tam­bém não é ensi­nada a matu­ri­dade fun­da­men­tal de com­pre­en­der que, por mais que ten­te­mos, o futuro nunca estará intei­ra­mente em nos­sas mãos — sem­pre resta uma bre­cha para o impre­vi­sí­vel, e temos que estar cien­tes disso.

Essa ten­ta­tiva fútil de con­tro­lar o des­tino se mani­festa de várias manei­ras ao longo do ano. Quando um fiel vai à igreja e ora para que Deus rea­lize seus dese­jos, ou quando fiéis de reli­giões afro-bra­si­lei­ras rea­li­zam ofe­ren­das em troca de cer­tos ‘favo­res’ divi­nos, nada mais dese­jam do que esse con­trole sobre sua impre­vi­sí­vel vida, igno­rando que, de longe, o melhor guia que pode­mos ter é nosso poder de agir equi­li­bra­da­mente, ampa­ra­dos pela razão e pela sabe­do­ria. A ver­dade é que isso reflete jus­ta­mente nossa sen­sa­ção de impo­tên­cia perante o futuro, que se alterna com a sen­sa­ção de que somos pro­te­gi­dos por algum trato com o sobre­na­tu­ral.

Deseje um pouco menos, faça um pouco mais

Pen­sando um pouco mais fri­a­mente, sem se dei­xar levar pela empol­ga­ção (que é boa de se sen­tir mas rara­mente é sábia e rea­lista), o melhor mesmo seria se focar em fazer, não sim­ples­mente em pen­sar em algo que se queira. Esse é um con­se­lho que homens sábios como Aris­tó­te­les, dis­cí­pulo de Sócra­tes, nos dei­xa­ram, mas que todos os homens em todas as épo­cas tive­ram difi­cul­dade em cum­prir.

Ah, e já que esta­mos sendo um tanto frios e pri­vi­le­gi­ando na prá­tica, seria bom cor­tar de uma vez por todas o ranço do pen­sa­mento posi­tivo como sendo algo rele­vante — a não ser que o que se queira mesmo seja um con­solo psi­co­ló­gico bem tem­po­rá­rio.

Tam­bém não é pre­ciso pen­sar em ter­mos de subs­tân­cia, como se o Natal, Ano Novo e Car­na­val fos­sem enti­da­des físi­cas, como se essas datas fos­sem dota­das de uma espé­cie de cor­po­rei­dade e per­so­na­li­dade. O que cha­ma­mos de 2015 ou 2016 são ape­nas con­ven­ções cri­a­das pelo ser humano para orga­ni­zar o que acon­tece num tempo espe­cí­fico.

As pes­soas tra­tam o Ano Novo como uma enti­dade dotada de von­tade pró­pria, de um humor ras­cante que depende de ser agra­dado o máximo pos­sí­vel a par­tir do fim do segundo semes­tre. Caso con­trá­rio, o temí­vel e pode­roso Ano Novo devo­rará a todos com sua enorme bocarra, como Cro­nos devo­rou seus filhos. O 1º de janeiro não é uma enti­dade de algum pan­teão divino espe­rando por sacri­fí­cios e ofe­ren­das. O novo ano é um reco­meço no papel, mas a vida con­ti­nua fluindo.

Desse modo, tente enca­rar esse novo ciclo como ele é, ou seja, uma con­ven­ção social, uma fic­ção, que na prá­tica pode ser­vir para um real reco­meço. Mas crie suas metas e tra­ba­lhe duro para con­cre­tizá-las, sem­pre lem­brando que aquilo você faz é que real­mente traz as trans­for­ma­ções. Para isso, basta ser­mos um pouco mais prag­má­ti­cos com o cum­pri­mento de nos­sas metas, per­der um pouco o temor reve­ren­cial que temos pelo novo calen­dá­rio e dei­xar de ter a famí­lia ideal da TV como a meta para as nos­sas vidas.

Felipe Novaes
Já quis ser paleontólogo, biólogo, astrônomo, filósofo e neurocientista, mas parece ter se encontrado na psicologia evolucionista. Nas horas vagas lê compulsivamente, escreve textos sobre a vida, o universo e tudo mais, e arruma um tempinho para o Positrônico Podcast. Contudo, durante todo o tempo procura se aprimorar na sabedoria e nas artes jedis do aikido.

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