Sócrates foi o filósofo ateniense que inaugurou, na filosofia, a reflexão sobre o homem, a moral e os costumes. Ele personifica no imaginário popular a figura do filósofo falastrão que anda com a cabeça nas nuvens. Apesar de representar a personificação da razão e da virtude, Sócrates foi condenado pelas autoridades atenienses a nomizein, o que significava tanto que Sócrates não observava adequadamente as práticas religiosas da época quanto que não compartilhava das mesmas crenças dos atenienses.

De qualquer forma, o que salta aos olhos é que, de acordo com Xenofonte, um de seus discípulos, as últimas palavras de Sócrates foram: Críton, devemos um galo a Esculápio. Pague-o e não se esqueça.

É natural questionar como um homem sábio, aparentemente livre da amarras de tradições religiosas antigas (apesar de Xenofonte relatar que Sócrates observava vários dos rituais da época) e que estava sendo condenado supostamente por “heresia”, pode ter como seu último pedido justamente que se sacrificasse um animal a uma divindade do panteão da época.

carnaval - Sócrates

Se Sócrates possuía ao mesmo tempo uma inclinação religiosa (ainda que não à maneira ateniense) e uma mente límpida, sábia e racional, é de se esperar que homens ordinários como nós também acabem por cair não só nesse tipo de culto, mas, mais importante, na abdicação mesmo que temporária de uma mente inquisidora e de um espírito ligado à ação, para adentrar em certos comodismos e obscurantismos.

É mais ou menos isso que acaba acontecendo em certas datas festivas.

Natal, Ano Novo e Carnaval: o self-service religioso

Tais datas me incomodam por dois motivos principais: (i) as pessoas se comportam como se estivessem em transe, como se tivessem sido hipnotizadas para agirem como ursinhos carinhosos, ou para viver todos os seus prováveis 70 anos de vida na semana do Carnaval – como se essa data resumisse tudo que alguém pode fazer na vida; (ii) e toda essa compaixão, altruísmo e euforia acabam não passando de superficialidade, de fogo de palha. Ninguém está vivendo esses momentos de forma realmente presente. Esses aspectos acabam revelando uma tendência politeísta que parece tomar conta de todos, ainda que por trás dos panos.

É um desafio para o bom senso viver num Estado laico mas de maioria cristã, e que comemora tantas datas associadas ao cristianismo, monoteísta por excelência, de uma forma que na prática remete à uma festa politeísta.

Para complicar mais as coisas, é como se o monoteísmo já tão ‘politeizado’ dividisse espaço com entidades antigas e contemporâneas – se seguirmos a ideia genial de Neil Gaiman de colocar personagens onipresentes como a TV, corporações, internet e fama como divindades de um panteão contemporâneo que nasceu espontaneamente. Isso porque, além dos banquetes suntuosos e glorificações de um quase personificado novo ano (o que é típico de crenças politeístas antigas), ou de eufóricos ritos dionisíacos no Carnaval, ainda temos as encenações de comerciais e de anúncios por toda programação da TV e internet. Em geral, são simulações sobre como comemorar corretamente essas datas, o que na prática implica em aprendermos a ser superficiais e exibir sorrisos fabricados.

A cada ano que passa, vejo que a vida real é uma tentativa cada vez mais sacal de imitar a euforia com que a televisão retrata a família média. Ou, de outro lado, que cada vez mais as telas tentam imitar de uma forma mais glamourizada o que acontece veridicamente. E isso tudo gera uma baita decepção.

carnaval vômito

Antes que você me ache insensível, aviso que não estou me opondo ao exterior gentil e compassivo que todos exibem, tampouco estou negando a possibilidade de sermos eufóricos algumas vezes e curtir um momento mais carnavalesco. A questão é que quase sempre esse é um padrão de ação temporário e oco, por não corresponder realmente a algo duradouro ou a uma mudança mais profunda. É apenas o instinto de rebanho agindo. E, como tal, é improdutivo e passageiro.

Algumas pessoas invocam o poder desses rituais como uma tentativa de usar sua ancestralidade como sinônimo de eficácia, uma forma de mostrar que existe razão de ser para esses velhos costumes. A história humana sempre foi recheada de ritos que serviam para o cotidiano e para o transcendental. Somos herdeiros disso, e um bom exemplo são as festas de formatura e a missa.

Mas a grande questão, novamente, é o entendimento da natureza externa do ritual, é o esquecimento de que se faz algo para que haja modificação interior, para que o entendimento sobre a própria vida e nosso lugar nela seja alterado. Não existe mérito em repetir inconscientemente um mesmo hábito só para sermos iguais aos outros.

Existem outras formas bem mais divertidas de se passar esses períodos festivos, principalmente se você não curte muito essas comemorações e não consegue encarnar o espírito dessas épocas. E isso não implica em ser contrário aos valores que geralmente os foliões natalinos, por exemplo, defendem, é apenas uma questão de não aderir a uma modinha passageira e superficial.

Ursinhos carinhosos inconscientes

Comportar-se como um ursinho carinhoso é subitamente achar que o mundo é uma maravilha, que as pessoas são especiais e únicas, que a diversidade é o máximo. O problema é que, ao contrário dos indivíduos realmente empenhados numa transformação pessoal, os ursinhos só se dão conta desses valores no fim de ano. Assim, logo que janeiro começa, sua configuração default retorna, tornando-os novamente individualistas, inconscientes e ranzinzas, pessoas movidas à baladas, álcool e viagens.

É certo que se importar um pouco ou muito com o próximo é maravilhoso, e estamos precisando disso. Mas é um tanto hipócrita reservar uma data especial para isso, ignorando que essa vibe hippie está vinculada apenas a uma data. Isso condiciona os sentimentos humanos, que deveriam ser treinados diariamente nas relações interpessoais (e até internamente, em relação a nós mesmos), a uma lógica mercadológica, que é ótima para trocar produtos e mercadorias, mas não para trocar experiências humanas. É como se de agora em diante fosse normal tratar bem as mães só no Dia das Mães.

O grande risco desse tipo de ritual social é que acabamos nos contentando em parecer mais caridosos e bondosos, enquanto ao longo desse processo de exteriorização perdemos a habilidade de perceber se realmente estamos nos modificando profundamente.

carnaval The Purge
Cena do filme The Purge

Isso é satirizado por uma recente distopia chamada The Purge, um filme em que as pessoas passam o ano inteiro sendo pacíficas, mas em uma data específica saem pelas ruas cometendo atrocidades sem serem punidas pela lei. Na sociedade retratada no filme, existem datas certas para exibirmos certas emoções e sentimentos. Na vida real, no fim de ano, é parecido, mas a estrutura se inverte: as pessoas passam o ano com um altruísmo baixo ou médio, mas em dezembro explodem numa compaixão estilo bodisatva – o que provavelmente é auto-ilusão, apenas euforia externamente guiada.

Comemorar o que mesmo?

Tivemos um ano especialmente trágico (não que algum ano tenha sido inequivocamente bom), com atentados terroristas, jornalistas sendo escalpelados pelo Estado Islâmico e rios destruídos por detritos tóxicos como consequência da irresponsabilidade empresarial governamental. Sem falar de um país que está à beira de um colapso político e econômico. Mesmo assim, temos que entrar no clima da Ivete Sangalo anunciando sem parar o Natal nos supermercados Guanabara ou dançar ao som de “já é Natal na Leader Magazine!” desde o início do segundo semestre:

Pensando prospectivamente, podemos imaginar também o que vamos comemorar no Carnaval de 2016. Por que há poucos anos os brasileiros estavam interessados em boicotar a Copa, o que mostra que as pessoas estavam repensando sua vida para além da mera diversão e entretenimento, mas agora parece que voltamos ao estado padrão de apatia-pão-e-circo?

Esse tipo de abordagem midiática mostra bem o papel da televisão – se não na criação, ao menos no reforço de certas síndromes de fim de ano. Pelas propagandas, percebemos que sempre temos que estar eufóricos, sorridentes, de bom humor, tendo papos superficiais sobre amenidades.

Além dessas lições de boa convivência (que no fundo estão só retratando a banalidade da vida cotidiana da massa), existe o inquietante hábito de mostrar o desejo e a mentalização de coisas boas como atitude suficiente e de grande importância. Se isso já é ignorar algo fundamental que é o poder de medidas práticas como modificadoras da realidade, é melhor nem começar a dizer que a essas pessoas também não é ensinada a maturidade fundamental de compreender que, por mais que tentemos, o futuro nunca estará inteiramente em nossas mãos – sempre resta uma brecha para o imprevisível, e temos que estar cientes disso.

Essa tentativa fútil de controlar o destino se manifesta de várias maneiras ao longo do ano. Quando um fiel vai à igreja e ora para que Deus realize seus desejos, ou quando fiéis de religiões afro-brasileiras realizam oferendas em troca de certos ‘favores’ divinos, nada mais desejam do que esse controle sobre sua imprevisível vida, ignorando que, de longe, o melhor guia que podemos ter é nosso poder de agir equilibradamente, amparados pela razão e pela sabedoria. A verdade é que isso reflete justamente nossa sensação de impotência perante o futuro, que se alterna com a sensação de que somos protegidos por algum trato com o sobrenatural.

Deseje um pouco menos, faça um pouco mais

Pensando um pouco mais friamente, sem se deixar levar pela empolgação (que é boa de se sentir mas raramente é sábia e realista), o melhor mesmo seria se focar em fazer, não simplesmente em pensar em algo que se queira. Esse é um conselho que homens sábios como Aristóteles, discípulo de Sócrates, nos deixaram, mas que todos os homens em todas as épocas tiveram dificuldade em cumprir.

Ah, e já que estamos sendo um tanto frios e privilegiando na prática, seria bom cortar de uma vez por todas o ranço do pensamento positivo como sendo algo relevante – a não ser que o que se queira mesmo seja um consolo psicológico bem temporário.

Também não é preciso pensar em termos de substância, como se o Natal, Ano Novo e Carnaval fossem entidades físicas, como se essas datas fossem dotadas de uma espécie de corporeidade e personalidade. O que chamamos de 2015 ou 2016 são apenas convenções criadas pelo ser humano para organizar o que acontece num tempo específico.

As pessoas tratam o Ano Novo como uma entidade dotada de vontade própria, de um humor rascante que depende de ser agradado o máximo possível a partir do fim do segundo semestre. Caso contrário, o temível e poderoso Ano Novo devorará a todos com sua enorme bocarra, como Cronos devorou seus filhos. O 1º de janeiro não é uma entidade de algum panteão divino esperando por sacrifícios e oferendas. O novo ano é um recomeço no papel, mas a vida continua fluindo.

Desse modo, tente encarar esse novo ciclo como ele é, ou seja, uma convenção social, uma ficção, que na prática pode servir para um real recomeço. Mas crie suas metas e trabalhe duro para concretizá-las, sempre lembrando que aquilo você faz é que realmente traz as transformações. Para isso, basta sermos um pouco mais pragmáticos com o cumprimento de nossas metas, perder um pouco o temor reverencial que temos pelo novo calendário e deixar de ter a família ideal da TV como a meta para as nossas vidas.

escrito por:

Felipe Novaes

Já quis ser paleontólogo, biólogo, astrônomo, filósofo e neurocientista, mas parece ter se encontrado na psicologia evolucionista. Nas horas vagas lê compulsivamente, escreve textos sobre a vida, o universo e tudo mais, e arruma um tempinho para o Positrônico Podcast. Contudo, durante todo o tempo procura se aprimorar na sabedoria e nas artes jedis do aikido.


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