Somos tofos camaleões: uma fábula sobre a mutabilidade das ideias

Somos todos camaleões – Uma fábula sobre a mutabilidade das ideias

Em Consciência, Filosofia por Natalia MarquesComentário

Era uma vez Sofia, uma menina curi­osa com seus sete anos com­ple­tos. Sofia, tal­vez por todo o sig­ni­fi­cado que seu nome car­re­gava ou ape­nas pela curi­o­si­dade de sua tenra idade, tinha como seu lugar pre­fe­rido o jar­dim da pequena casa que vivia com os pais. Casa essa pequena no tama­nho, mas que era um lar repleto de amor e de um con­forto sim­ples.

Ali pas­sava os seus dias, aju­dava a mãe a plan­tar flo­res e revol­ver os can­tei­ros. Sofia ado­rava sen­tir a terra úmida em suas mãos e ima­gi­nava o porquê daquela terra ser tão fér­til e de todas as semen­tes vin­ga­rem, enquanto no jar­dim da casa da esquina, habi­tada por uma senhora bem dife­rente de sua mãe, as úni­cas plan­tas que ousa­vam viver eram algu­mas ervas dani­nhas.

Durante as tar­des de pri­ma­vera, o jar­dim de Sofia ficava lindo e, sob os olhos da pequena menina, tor­nava-se esplên­dido. Cada deta­lhe era obser­vado por ela. As cores das flo­res, que em dife­ren­tes nuan­ces for­ma­vam degra­dês natu­rais tão belos. A luz do sol, que pas­sava pelos peque­nos vãos entre as folhas das árvo­res, e agra­ci­ava sua vista com aquela ilu­mi­na­ção que somente o Sol era capaz de fazer. Par­tí­cu­las sol­tas no ar, entre tons vibran­tes de dou­rado, pai­ra­vam leves e bri­lhan­tes por todo o jar­dim naquela tarde.

Sofia se man­ti­nha atenta e mara­vi­lhada a tudo o que acon­te­cia por ali, quando viu que algo dife­rente acon­te­ceu…

O tronco de uma das árvo­res se mexeu.

No fundo, ela sabia que aquilo era impos­sí­vel, mas sabia tam­bém que os seus olhos não esta­vam enga­na­dos.


Imó­vel, ficou de olhos aber­tos e com a aten­ção redo­brada. Uma pequena parte daquela fron­dosa árvore se mexeu mais uma vez. Intri­gada, Sofia se levan­tou e foi em dire­ção daquele pequeno pedaço de tronco, e, ao se apro­xi­mar, ele ficou qui­eto nova­mente. Como deve­ria ser.

Olhando de perto, Sofia repa­rou em uma pequena sali­ên­cia no tronco. Tra­tava-se de um cama­leão, um pequeno lagarto que ela nunca tinha visto ou ouvido falar.

- Por que você é da cor da árvore? Assim nin­guém poderá te ver!

camaleões

Sem obter res­posta, Sofia decide per­gun­tar à sua mãe o porquê daquele ani­mal não ter cores tão vívi­das e não ter sua beleza em evi­dên­cia como os demais que cos­tu­mava ver. Estava se virando, quando ouviu:

- Eu não sou da cor da árvore.

Naquele ins­tante, Sofia arre­ga­lou os seus olhos gran­des. Ela teve medo. E o cama­leão per­deu o seu. Vaga­ro­sa­mente, ele foi mudando sua cor para um tom de verde que a menina nunca tinha visto. O medo deu lugar a sua curi­o­si­dade, e, mais uma vez, Sofia se encan­tou com tudo aquilo.

- Como você faz isso? – per­gun­tou a menina curi­osa.

- Não é nada demais, você tam­bém con­se­gue. – con­ti­nuou o cama­leão.

- Não dá! Só con­sigo mudar a cor do cabelo, mas a minha mãe diz que sou muito nova para isso.

Rindo, o cama­leão expli­cou:

- Não é disso que estou falando.

- Então o que é? Diga, diga!

- É que em cada pequeno lugar que estou e em cada situ­a­ção que vivo, eu aprendo a ser uma nova cor, uma nova tex­tura… E depois que aprendo, ela passa a fazer parte de mim. Per­cebe como sou um con­junto de todas as cores que já vivi?

- Nossa! – disse Sofia espan­tada.

- É lindo, não? Poder mudar, poder car­re­gar as expe­ri­ên­cias que vivi. Medos, receios, cora­gem, ale­grias, os luga­res que estive, os outros seres que encon­trei… Tudo no meu pequeno pen­sa­mento de cama­leão! Dizem que vocês huma­nos con­se­guem até mais…

- Como? Eu ainda não con­sigo ter a cor daquela rosa ama­rela que tanto gosto. – res­pon­deu a menina um tanto frus­trada.

- Você pode mais!

Sofia con­ti­nu­ava sem enten­der o que aquele ani­mal que­ria lhe dizer. Era impos­sí­vel tor­nar-se ama­rela, ou ainda… laranja. Ou quem sabe mais… ver­me­lha.

- Vou te expli­car, Sofia. Eu ape­nas sou capaz de mudar de cor, você é capaz de mudar inteira. Mudar seu pen­sa­mento e suas ati­tu­des, ou seja, o que você é! Pode deci­dir mudar quando qui­ser, quan­tas vezes qui­ser. E para isso, basta bus­car e conhe­cer o que é novo para você. Um novo conhe­ci­mento, um novo lugar. Novos seres, novos pon­tos de vista. Isso é divino, Sofia!

A menina ficou muda. Seus olhos se fecha­ram por alguns ins­tan­tes, como se esti­vesse sen­tindo aque­las pala­vras e assi­mi­lando tudo o que o cama­leão aca­bava de ensi­nar-lhe.

Sofia sabia que aquilo já se tra­tava do NOVO, e sen­tia que real­mente pode­ria ser o que qui­sesse e quando qui­sesse.

- Quero conhe­cer mais coi­sas novas! – disse exta­si­ada com aquilo que seria o maior de seus conhe­ci­men­tos.

- Vá em frente, Sofia. Man­te­nha sem­pre os olhos aber­tos, inclu­sive aque­les que estão aí den­tro de você. Sinta, reflita e com­pre­enda tudo o que puder.

Sofia já estava se des­pe­dindo quando, mais uma vez, sua curi­o­si­dade sur­giu. Então per­gun­tou:

- Cama­leão, como você sabia que meu nome era Sofia? Eu não te falei.

- Não pode­ria ser dife­rente… Você é curi­osa demais, menina, curi­osa demais.


Compartilhe