Era uma vez Sofia, uma menina curiosa com seus sete anos completos. Sofia, talvez por todo o significado que seu nome carregava ou apenas pela curiosidade de sua tenra idade, tinha como seu lugar preferido o jardim da pequena casa que vivia com os pais. Casa essa pequena no tamanho, mas que era um lar repleto de amor e de um conforto simples.

Ali passava os seus dias, ajudava a mãe a plantar flores e revolver os canteiros. Sofia adorava sentir a terra úmida em suas mãos e imaginava o porquê daquela terra ser tão fértil e de todas as sementes vingarem, enquanto no jardim da casa da esquina, habitada por uma senhora bem diferente de sua mãe, as únicas plantas que ousavam viver eram algumas ervas daninhas.

Durante as tardes de primavera, o jardim de Sofia ficava lindo e, sob os olhos da pequena menina, tornava-se esplêndido. Cada detalhe era observado por ela. As cores das flores, que em diferentes nuances formavam degradês naturais tão belos. A luz do sol, que passava pelos pequenos vãos entre as folhas das árvores, e agraciava sua vista com aquela iluminação que somente o Sol era capaz de fazer. Partículas soltas no ar, entre tons vibrantes de dourado, pairavam leves e brilhantes por todo o jardim naquela tarde.

Sofia se mantinha atenta e maravilhada a tudo o que acontecia por ali, quando viu que algo diferente aconteceu…

O tronco de uma das árvores se mexeu.

No fundo, ela sabia que aquilo era impossível, mas sabia também que os seus olhos não estavam enganados.


Imóvel, ficou de olhos abertos e com a atenção redobrada. Uma pequena parte daquela frondosa árvore se mexeu mais uma vez. Intrigada, Sofia se levantou e foi em direção daquele pequeno pedaço de tronco, e, ao se aproximar, ele ficou quieto novamente. Como deveria ser.

Olhando de perto, Sofia reparou em uma pequena saliência no tronco. Tratava-se de um camaleão, um pequeno lagarto que ela nunca tinha visto ou ouvido falar.

– Por que você é da cor da árvore? Assim ninguém poderá te ver!

camaleões

Sem obter resposta, Sofia decide perguntar à sua mãe o porquê daquele animal não ter cores tão vívidas e não ter sua beleza em evidência como os demais que costumava ver. Estava se virando, quando ouviu:

– Eu não sou da cor da árvore.

Naquele instante, Sofia arregalou os seus olhos grandes. Ela teve medo. E o camaleão perdeu o seu. Vagarosamente, ele foi mudando sua cor para um tom de verde que a menina nunca tinha visto. O medo deu lugar a sua curiosidade, e, mais uma vez, Sofia se encantou com tudo aquilo.

– Como você faz isso? – perguntou a menina curiosa.

– Não é nada demais, você também consegue. – continuou o camaleão.

– Não dá! Só consigo mudar a cor do cabelo, mas a minha mãe diz que sou muito nova para isso.

Rindo, o camaleão explicou:

– Não é disso que estou falando.

– Então o que é? Diga, diga!

– É que em cada pequeno lugar que estou e em cada situação que vivo, eu aprendo a ser uma nova cor, uma nova textura… E depois que aprendo, ela passa a fazer parte de mim. Percebe como sou um conjunto de todas as cores que já vivi?

– Nossa! – disse Sofia espantada.

– É lindo, não? Poder mudar, poder carregar as experiências que vivi. Medos, receios, coragem, alegrias, os lugares que estive, os outros seres que encontrei… Tudo no meu pequeno pensamento de camaleão! Dizem que vocês humanos conseguem até mais…

– Como? Eu ainda não consigo ter a cor daquela rosa amarela que tanto gosto. – respondeu a menina um tanto frustrada.

– Você pode mais!

Sofia continuava sem entender o que aquele animal queria lhe dizer. Era impossível tornar-se amarela, ou ainda… laranja. Ou quem sabe mais… vermelha.

– Vou te explicar, Sofia. Eu apenas sou capaz de mudar de cor, você é capaz de mudar inteira. Mudar seu pensamento e suas atitudes, ou seja, o que você é! Pode decidir mudar quando quiser, quantas vezes quiser. E para isso, basta buscar e conhecer o que é novo para você. Um novo conhecimento, um novo lugar. Novos seres, novos pontos de vista. Isso é divino, Sofia!

A menina ficou muda. Seus olhos se fecharam por alguns instantes, como se estivesse sentindo aquelas palavras e assimilando tudo o que o camaleão acabava de ensinar-lhe.

Sofia sabia que aquilo já se tratava do NOVO, e sentia que realmente poderia ser o que quisesse e quando quisesse.

– Quero conhecer mais coisas novas! – disse extasiada com aquilo que seria o maior de seus conhecimentos.

– Vá em frente, Sofia. Mantenha sempre os olhos abertos, inclusive aqueles que estão aí dentro de você. Sinta, reflita e compreenda tudo o que puder.

Sofia já estava se despedindo quando, mais uma vez, sua curiosidade surgiu. Então perguntou:

– Camaleão, como você sabia que meu nome era Sofia? Eu não te falei.

– Não poderia ser diferente… Você é curiosa demais, menina, curiosa demais.


escrito por:

Natalia Marques

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