Vivência e academicismo

Uma coisa que podemos perceber, como um efeito na internet, é que se preocupar com questões sociais e querer falar sobre isso não basta. Você precisa levar em consideração, a cada momento, qual é o seu lugar no mundo e a partir de que posição você está falando.

A verdade é que, para muitos, seu ponto de vista é intrinsecamente dependente de sua identidade. Não basta ter ideias e expressá-las (afinal, seu pensamento “é” puro achismo, caso você não esteja avaliando constantemente sua autoridade frente ao mundo). Seria preciso não apenas se policiar a partir de um filtro politicamente correto como, também, falar “enquanto pessoa com a característica X“.

Muitas vezes, ao debater com alguém teremos não uma conversa, mas uma discussão. As pessoas se armam diante da opinião alheia, e o primeiro passo sempre é dizer “eu, enquanto pessoa branca ou negra, cisgênero ou transgênero ou agênero ou hetero ou homo”, sugerindo desde o princípio que é a sua identidade que ditará a legitimidade de seu argumento (importando menos a avaliação de sua fala e mais a cor da sua pele, orientação sexual, gênero, etc.).

Muito já foi dito sobre o argumento do academicismo neste texto. Concordo que há, sim, posicionamentos que abusam da erudição para desclassificar outras pessoas, utilizando da autoridade de determinado autor como se, por ser quem é, sua palavra fosse a última e mais importante (nesse caso, trata-se de um argumento ad hominem reverso, um erro lógico, uma falácia).

O fato é que precisamos nos questionar por qual motivo o academicismo deveria ser considerado um problema mesmo quando empregado corretamente. Afinal, afirmar isso é uma falácia que mescla a identidade de determinado sujeito/objeto à legitimidade do que foi dito. Com um argumento (devidamente) academicista, desclassificamos ideias alheias sobre os pontos de vista tratados pela obra ou autor que citamos. E, nesse sentido, alegar “vivência” como um critério para dar legitimidade a uma fala pode ser tão ou mais academicista do que, no sentido inverso, alegar a necessidade de ler um livro X de determinado autor Y, para poder falar sobre qualquer coisa.

Por mais admiráveis que essas pessoas com vivência (experiências pessoais anteriores a partir da sua identidade de gênero, racial, etc.) possam ser em seu cotidiano, há uma síndrome coletiva e descarada de autoengano. Afinal, aqueles que defendem a necessidade de vivência para que possamos ter legitimidade ao falarmos de algo são, notadamente, as pessoas que acusam outras de academicistas (quando não há motivos para essa acusação). E tanto depender de uma identidade para falar sobre algo (especialmente quando o tema não tem relação direta com experiências pessoais) quanto depender de conhecimentos acadêmicos é, em ambos os casos, simplesmente argumentar apelando à autoridade. Assim, antes de acusarmos alguém de academicista a fim de favorecer a vivência de outra pessoa, precisamos pensar sobre a coerência dessa atitude.

Sim, são muito boas as intenções daqueles que se utilizam de chavões típicos de movimentos sociais. Afinal, preocupar-se (de verdade) com problemas sociais é no mínimo louvável. Mas a partir do momento em que se trata o discurso intelectual como um recurso no fundo desvinculado da lógica e da racionalidade, e sim vinculado à origem pessoal de quem o utiliza, caímos na ideia de que a subjetividade do indivíduo é superior à objetividade do que se busca expressar pela razão. E o melhor, claro, é um equilíbrio entre o subjetivo e o objetivo.

 

O problema de ser branco no Brasil

Recentemente, em um debate, fui acusado de “branco”, razão pela qual deveria ficar calado e não falar sobre racismo por não possuir vivência. Sim, fui acusado. Afinal, ser branco, para algumas pessoas, não é algo bom. Na verdade, é algo considerado até mesmo perigoso, ofensivo e opressivo. Enfim, ser branco é algo que, para alguns, simplesmente não é aconselhável – como se pudéssemos optar por sermos ou não brancos.

Mas por que isso? Digo, por que “ser branco” é entendido como uma definição que carrega uma bagagem de vivências privilegiadas e “naturalmente” opressoras? Por que a sua epiderme pode ser a determinadora de quem você é e o que você representa durante um simples debate na internet? Não seria isso o mais puro e bruto dos racismos?

branco opressor culpa inteira
Quando nos tornamos prisioneiros de nossas identidades, o que vale é a “desconstrução” em detrimento da construção de novos caminhos.

Com toda certeza, se você atirar no Google essas questões, achará inúmeras respostas. Respostas, naturalmente, das pessoas que defendem tais ideias. A mais comum, de longe, é a que associa a sua personalidade à personalidade dos europeus colonizadores dos séculos passados. Afinal, como dizem, há na cultura de nossa sociedade fortes raízes pavimentadas por esse povo opressor, que inferiorizava tanto os povos indígenas (incrivelmente esquecidos) quanto o povo negro (que era majoritariamente composto por nagôs, sendo então que boa parte das pessoas negras no Brasil têm ancestralidade africana ocidental, e não sul-africana).

Portanto eu, como homem branco cisgênero e heterossexual, um ser completamente opressor que deve se desconstruir para ser uma pessoa decente na sociedade (fazendo de minhas características um eterno peso no ombro enquanto viver), devo atentar para cada detalhe de minha identidade antes de fazer quaisquer afirmações sobre quaisquer temas que envolvam movimentos sociais – ao menos, é o que dita a moralidade dessas pessoas.

A verdade é que, em relação à escravidão no Brasil, entendo a necessidade da valorização do negro na sociedade (embora a ideia de “reparação histórica” me cause dúvidas). Mas não é partindo de uma breve e não-aprofundada análise sobre alguém que você acabou de conhecer que se pode concluir especificamente que essa pessoa, do alto de sua brancura, nunca refletiu com profundidade sobre o racismo no Brasil. A bem da verdade, não há até mesmo decência em partir da cor da pele de alguém para dividir o mundo entre “nós negros x eles brancos”, e muito menos em supor ser correto segregar as pessoas tão somente em virtude de uma característica física inata. Isso é, de longe, o mais puro dos preconceitos raciais – o qual está atrelado a um conjunto de raciocínios que buscam fazer do negro uma eterna vítima, sendo o branco, portanto, seu carrasco para todo o sempre (qualquer semelhança com lógicas adotadas por outros movimentos sociais não é mera coincidência).

Movimentos sociais não buscam igualdade

Mas é interessante apontar que, na verdade, movimentos sociais não buscam igualdade. O que buscam (corretamente) é equidade. E é bom saber que não se quer igualdade, afinal. Pois a partir do momento em que a diversidade humana é tão extensa a ponto de não haver igualdade de tratamento nem mesmo entre gêmeos univitelinos, pedir por isso seria um tanto ousado e irracional.

Equidade, por outro lado, seria equiparar situações na medida do possível (como teóricos do direito diriam, “tratar os desiguais desigualmente à medida de suas desigualdades”), o que é mais justo. Porém esperar por equidade sem levar em consideração que equidade não se trata de nivelar sempre por cima é agir por mera conveniência. Afinal, muitas vezes, para se equiparar a um indivíduo branco supostamente privilegiado, você precisaria, por coerência, levar em consideração as realizações de tal pessoa, antes de alegar que ela só chegou onde está por ser branca.

 

Ok, admito, eu sou um branco opressor

Já disse anteriormente que para muita gente mais importa quem está falando do que aquilo está sendo falado. Portanto, se você é uma dessas pessoas, vamos refletir um pouco sobre minha identidade neste mundo cão.

Você provavelmente acredita que sou um branco privilegiado e que minha visão sempre partirá desse ponto de vista. Mas, sabe, tenho lá minhas dúvidas. Talvez hoje as pessoas me vejam como branco, mas em boa parte da minha vida, quer você acredite ou não, fui entendido como sarará. Meu cabelo curto e pele morena (escura se eu fosse à praia) fazia com que as pessoas me rotulassem como moreno (no sentido de pele mais escura) ou sarará mesmo. Quando criança, eu era o típico “maloqueiro pé rapado”, a julgar a frequência com que eu estava na rua junto com outras pessoas de cor equivalente à minha ou mais escuras, dedicando meu tempo com travessuras de criança.

Independente do meu histórico e “vivência” enquanto pessoa que conhece o que é ser enquadrado por policiais ao visitar um shopping (como dizem mesmo? eu era sempre enquadrado nas “características suspeitas”), a verdade é que meu posicionamento frente a isso já até fez com que me rotulassem de “negro da casa“. Hoje em dia, incrivelmente, sou considerado branco, independente do meu cabelo ser cacheado e seco, independente de eu saber o que é estar num ônibus que é parado pela PM e ser um dos poucos que foi revistado frente a todo mundo.

Quando alguém me limita à “minha raça” (rótulo infeliz, a julgar que o que existem são etnias), como se eu tivesse mesmo um histórico de branco de classe média alta que nunca precisou passar por escolas públicas (hoje em dia leciono em uma), que nunca pôde pagar uma escola particular (fui bolsista integral em todas… obrigado por buscar o melhor pra mim, mãe) e hoje é ProUnista na melhor universidade particular do sul do país, é no mínimo desonestidade intelectual e, mais que isso, apego aos rótulos como se os meus argumentos e a minha racionalidade não interessassem.

Por isso concluo que, por mais branco que possam dizer que sou, sei do que o movimento negro está falando. Vou além e digo que sei o que é ter uma infância em comunidade negra, com família negra, com pai branco e ausente, tendo conhecido a realidade da classe média na época em que Lula ainda estava fazendo suas reformas – agradecendo a experiência com bolsa família, aliás, e eternamente grato pelo ProUni.

Mas não basta eu ter experiência e já ter sido considerado negro até por militantes que me acusaram de “negro da casa”, eu até hoje enfrento reflexos de uma infância pobre desejosa de ter o que os outros tinham. Até hoje tenho receio de manter contato com pessoas mais abastadas financeira e socialmente, pessoas mais cultas e letradas, pois minha experiência de vida sempre foi com pessoas que apreciam músicas populares atuais, apegadas às marcas midiáticas, fãs de todo tipo de programa televisivo e vítimas da ideia de que só o dinheiro salva (pessoas que a vida toda buscaram dinheiro, dada sua necessidade de ascensão e, principalmente, desejosas de ostentar ao invés de buscar conhecer). Pessoas, no geral, das mesmas origens que as minhas, de baixa camada social – e, coincidentemente ou não, majoritariamente negras. E quando vejo que alguém, numa conversa no Facebook, se baseia na minha foto de perfil para dizer quem sou e o que posso falar a respeito de algo que talvez eu tenha mais vivência do que me acusam ter, eu só tendo a sentir uma tremenda tristeza.

Afinal o que parece importar antes do argumento é o julgamento, é o rótulo, o pré-conceito. O que importa não é avaliar e repensar os motivos que te levam a apontar o dedo, o que importa é buscar ter razão como se todo tipo de tática fosse válida, principalmente quando a tática é desmerecer a experiência de vida do outro, criando falsas dicotomias para legitimar ou não a fala de alguém. E sempre tomando em consideração a conveniência do que se quer ouvir.

A verdade é que, se ser branco é não cometer as gafes que vêm sendo cometidas por esse irracionalismo tendencioso, então eu sou branco.

Isso mesmo, e branco com orgulho. Pois nada mais pode ser pior ao indivíduo do que se rebaixar de todas as formas possíveis para ter alguma voz na sociedade. Nada pode ser tão mesquinho em relação à honestidade humana quanto se utilizar da cor de sua pele como um escudo moral, um determinante de credibilidade, um argumento apegado a uma suposta autoridade subjetiva que ignora a objetividade que um assunto tão importante precisa ter.

Enquanto ser negro for, para alguns grupos sectários, sinônimo de vítima perpétua e ser militante for sinônimo de defender esse status como uma forma de conseguir tudo à base da vitimização, ser branco não será apenas uma característica qualquer (como deveríamos considerar, se quiséssemos superar preconceitos raciais), mas um alívio íntimo diante de uma sociedade em que indivíduos massageiam seus egos a partir do que chamam de problematização.


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As virtudes esquecidas de um bom debate intelectual

É graduando em Filosofia pela PUCRS, professor de ensino médio e faz vídeos para o Youtube (conheça aqui). E, não menos importante, editor do melhor site da internet, o Ano Zero. Mas o necessário a saber mesmo é de seu amor declarado por churros.
  • Anna Carolina Basseto

    Absolutamente perfeito – da primeira à última linha!

  • Obrigado por nos citar (o Colunas Tortas), também amamos churros 🙂

    • Ultimamente tenho admirado bastante o site de vocês, espero que possamos ser úteis um ao outro 🙂 E, quem sabe, dividir um churro xD

  • Geh Rocha Freitas

    Porra, muito bom cara. Meus parabéns.

    • Agradeço a leitura! 😀

      • Geh Rocha Freitas

        Foi um prazer.

  • Leonardo Zarpellon

    Acho lamentável que qualquer um sofra preconceito ou seja desmerecido por alguma característica que seja, antes que suas ideias e intenções sejam devidamente apresentadas.

    Por ser negro, por ser branco, por ser mulher, por ser homem, por ser cis, porser trans, por ser deficiente, por ter educação, por não ter educação, por ser de periferia, por não ser de periferia…

    Todo mundo merece ser ouvido se tiver algo que preste para falar. O preconceito cria uma barreira e impede o diálogo, e sem diálogo não tem entendimento, não tem acordo, não tem harmonia. Quando mais fechadinho um grupo ficar, só mantendo “os seus” por perto, mais alienado será o movimento.

    • Rebeca Souza

      Realmente o povo sofrer por ser branco, hétero e cis eles morrem por ser assim, sofrem preconceito por ser hétero e branco affs.

      • Ivy & Maeve

        Você até por aqui, Rebeca Souza? Caramba, quanta dedicação ao deboche.

  • Rebeca Souza

    Realmente o negro se vitimizar muito na sociedade, realmente toda a minha vida ser tratado como inferior, o seu cabelo sendo feio e ruim, quanto mais escura sua pele mais olhares de desconfiança, realmente é muito vitimismo, ai vem as pessoas da sabedora da verdade brancas definir o que é ou não é racismo, acha que é frescura, o negro mal ser ver na mídia, médicos, advogados, quantos negros e quantos brancos tem, mas e daí é melhor nos calar, ai vem um cara mestiço/pardo que ascendeu na vida querer impor seus desejos não filho, você não vai definir as pautas e nem querer nos calar, podem agradar os brancos bom pra ti.

  • João Renato

    Ui! um branco hétero se sentido “oprimido”

    os negros, os transgeneros, os homo0ssexuais são oprimidos à séculos, e só à pouco tempo estão conseguindo sair da casca que o homem branco cis e hetero os colocaram.

    não se vitimise branco, você não sobre preconceito por seu tom de pele (como os negros ainda sofrem), não sofre preconceito por ser hetero (como os homossexuais sofrem), nem sofre preconceito por ser Cis (como os transexuais, e travestis sofrem); então a falácia é sua, ao achar que os que são constantemente discriminados não podem reclamar da discriminação.

    a pessoa branca está começando agora a se sentir e de forma mínima, esses grupos marginalizados pela sociedade sentem há séculos, e só agora que está amenizando (vê, se por exemplo, a porcentagem de negros e brancos nas classes A e B é equivalente à porcentagem de negros e brancos nas classes D e E).

    • Daniel

      Assim como todo mundo que hoje critica Israel pela questão palestina é anti-semita, afinal, os judeus sempre foram muito perseguidos desde sempre, “são oprimidos à séculos, e só à pouco tempo estão conseguindo sair da casca que o homem branco cis e hetero os colocaram.”

      • Geh Rocha Freitas

        Daniel, essa empatia cobrada na marra é muito seletiva. Há um gritante duplo padrão na maneira como esse pessoal analisa a realidade.

  • Edouard Larusso

    Muito bom texto. Esses movimentos não estão nem aí para justiça, na verdade o que querem é PODER!! E para adquirir poder, é necessário criar uma clientela para representar. Por isso que os mestiços são tão problemáticos para esses movimentos, afinal de contas eles não são nem brancos nem negros, sendo assim não são confiáveis como VOTO CERTO.
    .
    Parte da luta contra o racismo é lutar contra a ideia de RAÇA. Aquele que insiste com a ideia de raça na verdade tem GRANDE interesse no RACISMO.

    • Sempre que sou lembrado dos mestiços nessas discussões me lembro de um trecho da música “Sêmen”, do grupo pernambucano Mestre Ambrosio.

      Tantos povos se cruzam nessa terra
      Que o mais puro padrão é o mestiço
      Deixe o mundo rodar que dá é nisso
      A roleta dos genes nunca erra
      Nasce tanto galego em pé-de-serra
      E por isso eu jamais estranharei
      Sertanejo com olhos de nissei
      Cantador com suingue caribenho
      Como posso saber de onde venho
      Se a semente profunda eu não toquei?

      Como posso pensar ser brasileiro
      Enxergar minha própria diferença
      Se olhando ao redor vejo a imensa
      Semelhança ligando o mundo inteiro
      Como posso saber quem vem primeiro
      Se o começo eu jamais alcançarei
      Tantos povos no mundo e eu não sei
      Qual a força que move o meu engenho
      Como posso saber de onde venho
      Se a semente profunda eu não toquei?

      Se soubéssemos apreciar, de fato, música popular brasileira, talvez pudéssemos encontrar as filosofias que há nelas, e usá-las para a busca de uma sociedade menos dividida entre preconceitos e etnias.

  • Ilbirs

    Vamos chamar aqueles que veem as pessoas enquanto raças de desumanizadores:

    1) Desumanizadores porque resumem as pessoas a uma única de muitas características;

    2) Desumanizadores porque atribuem a pessoas uma característica que é típica de animais;

    3) Desumanizadores porque querem que as pessoas se assumam uma característica que não é delas, mas de animais, e tal qual animais querem ver essas pessoas como o rebanho que conduzem para onde querem e do qual se utilizam tal qual fariam com bois, cavalos e outros animais;

    4) Desumanizadores porque atribuem a pessoas uma característica que é típica de animais e demanda a presença de muito mais variáveis do que cor de pele, formato de rosto e proporções corpóreas. Para haver raça seria necessário haver um temperamento mais ou menos padronizado entre os indivíduos a ela pertencentes, um determinado grau de inteligência, um determinado conjunto genético mais ou menos inalterado, um fluxo genético que excluísse indivíduos que não tivessem um determinado conjunto de genes. E isso, como sabemos, não se aplica a seres humanos.

    Pode haver quem desumaniza as pessoas dividindo-as em raças sem que haja maldade nisso e estamos falando de uma maioria de pessoas. Essas o fazem porque sempre ouviram a história de raças, mas não maltratam alguém por causa dessa característica inexistente em seres humanos, mas que querem que acreditemos que exista. Sabem que gente boa ou gente ruim existe dos mais diversos tipos e sabem também que as pessoas são muito mais do que aquela única característica que alguns querem que vejamos das muitas que elas têm. O problema mesmo é quem desumaniza as pessoas dividindo-as em raças de maneira consciente e intencionada. São os que querem ver brigas, ver um olhando para o outro com desconfiança com base na cor e na aparência e que necessitam dessa briga porque lucram com ela. Aliás, ganham a vida com ela e inclusive sugam dinheiro do contribuinte com ela. E esses, como sabemos, são maus caráteres e psicopatas independente da cor de pele, aparência ou ancestralidade que tenham. Porém, um psicopata não consegue agir sozinho e precisa arregimentar seu exército de histéricos para que façam sempre o serviço sujo sem que ele precise pôr o rosto muito a tapa. Os histéricos não notam que só recebem algumas migalhas para continuarem propagando as besteiras criadas pelos psicopatas, como essa de que alguém não pode falar nada a respeito de um assunto se não o viveu, como se um oncologista precisasse ter sofrido de câncer para poder tratar direito os tantos tumores que afligem as tantas pessoas que vemos por aí.
    Portanto, vamos sempre lembrar que somos Homo sapiens, uma espécie que, apesar de a África ser o lugar onde mais variação genética exista, tem um grau geral de variação genética bem ínfimo e insuficiente para que se criem raças, sendo as características externas como pele e sua cor, formato de rosto, tipo de cabelo e outras apenas e tão somente variações mínimas e insuficientes para a caracterização de um tipo de divisão que necessita de muitos outros caracteres para que de fato exista.

    • Perfeito o seu comentário, Ilbiris. Obrigado por compartilhar conosco!

  • Silvia Venturi

    Parabéns, Alysson, pelas palavras. Ao lê-las parecia que eram minhas (desconsiderando o fato de você escrever muito melhor do que eu…). Ontem entrei numa discussão em um grupo no facebook e fui duramente criticada, e minhas palavras não foram consideradas, e disseram que eu devia guardar as minhas opiniões para mim, porque eu sou branca e tenho cabelo liso, e nunca saberei o que é ser chamada de “cabelo de bombril”, e que isso é infinitamente pior do que ser chamada de “manga chupada” por causa do cabelo escorrido…
    Não há argumento que as convença de estão exagerando, e que as mostre que ao dizer isso eu não estou sendo uma racista opressora…

    • Obrigado, Silvia, por tua leitura!

      Compreendo tua preocupação quanto a ser silenciada antes mesmo de testarem as validades dos teus argumentos, eu particularmente passei por inúmeras situações como essa antes de resolver escrever o artigo acima. A verdade é que, numa tentativa desesperada de lutarem contra o racismo, algumas pessoas estão tornando-se racistas, algo que é totalmente contraditório quanto ao próprio movimento.

      A verdade é que, quando o assunto é ofensa, não existe “pior” ou “melhor”. O que existem são subjetividades e sentimentos postos em jogo. E é evidente que, para fazerem uma comparação tão absurda e desnecessária sobre tua realidade (o que bombril tem a ver com manga?), estão apelando a um sentimentalismo barato e digno de contestação. O melhor que você pode fazer, creio eu, é fortalecer seu conhecimento sobre os motivos que levam tais pessoas a te rebaixarem pela cor da tua pele. Busque entender para poder refutar, e estará agindo da maneira mais nobre, da maneira mais virtuosa de forma que tais pessoas, se continuarem sendo o que são, nunca serão dignas da voz que têm na sociedade.

      • Silvia Venturi

        Pois é, Alysson.
        Obrigada por responder e dar a sua opinião.
        Concordo plenamente com o que você diz, mas na verdade, eu realmente não me senti “oprimida” pelas palavras daquelas pessoas. O que eu penso é que há uma vitimização e um equívoco aí. Posso estar errada a respeito ou até mesmo estar sendo arrogante em pensar que sei o que se passa na mente delas, mas acredito que isso tudo seja uma turbulência inicial de um processo de mudança.
        Lembro de ter lido, há muitos anos, sobre a teoria da curvatura da vara, do Paulo Freire. O pouco que entendi daquilo me pareceu uma grande descoberta pessoal e é isso que eu penso estar acontecendo agora. As pessoas não tinham coragem de se manifestar até há pouco tempo. Agora estão começando a ter coragem, mas a reação inicial é um tanto desajeitada. Como tudo é muito novo, metem os pés pelas mãos, exageram, acham que qualquer palavra que contradiga as suas novas “certezas” é opressora e que ninguém pode ter sofrido o quanto elas sofrem ou sofreram. E também há pessoas do outro lado do cabo-de-força que resistem em abrir mão de qualquer conceito estabelecido, o que não é o meu caso nem o seu, pelo que vejo. Mas há os dois extremos.
        Acho que esse mau jeito todo é natural, mas nem por isso penso que devo aceitar sem questionar. Penso que assim como faz parte do processo as pessoas exagerarem na autodefesa, faz parte tentarmos colocar os pontos de vista coerentemente e mostrar a elas que nem todo “branco” é um inimigo em potencial.
        De qualquer forma, mesmo me irritando com algumas reações que considero descabidas, vejo esse processo todo como algo normal e produtivo. Penso que estamos numa fase de ajuste de sintonias. Por um lado pessoas que foram criadas no lado “de cá” do sistema opressor muitas vezes não sabem como lidar com a mudança de pontos de vista que até então eram considerados naturais, e soltam coisas como certas declarações que escutamos sobre “antigamente os negros não se ofendiam com esses tipos de piadas”, e por outro lado pessoas que foram criadas ouvindo caladas todo tipo de ofensa sem reagir e agora entraram em estado de alerta considerando qualquer argumento que não apoie 100% seus extremismos como uma provocação irônica.
        É a turbulência inicial. Creio que aos poucos os de cá verão podem mudar alguns hábitos que eram cristalizados e também começarão a relevar alguns exageros dos de lá, e os de lá perceberão que não precisam se armar tanto para ganharem respeito. E assim a vara vai chegando ao ponto central.
        As coisas jamais mudarão de um extremo ao equilíbrio num passe de mágica sem passar pelo outro extremo.
        Essa turbulência, de certa forma, me empolga. É uma prova de mudanças acontecendo. Mas se não fizermos a nossa parte, questionando, discutindo, puxando a vara para o centro, não ajudaremos o equilíbrio a se estabelecer.
        Abraços

        • É bom saber que não se deixa atingir tão facilmente, afinal ter essa capacidade em relação às adversidades da vida é um exemplo em tempos tão sensíveis frente ao confrontamento de ideias.

          Quanto a essa “teoria da curvatura da vara”, eu não conhecia. Recentemente vi o youtuber Pirula falar sobre uma tal “teoria da mola”, a qual dizia, basicamente e se me lembro bem, que pessoas que não sofrem opressão estão constantemente, na perspectiva de uma mola, “em repouso”, estáveis e confortáveis. Porém as pessoas que sofrem com as desigualdades estão, atualmente, num estado de pressão, em que sua mola é apertada. Mas essa pressão, naturalmente, desencadeou uma reação, que seria a impulsão da mola para a frente (o que seria uma analogia a uma tomada de atitudes que confrontasse o senso-comum estabelecido), e após essa impulsão a mola, também naturalmente, voltaria a um novo ponto de repouso – que seria, portanto, uma nova moralidade num novo senso-comum.

          Também essa sua teoria da curvatura da vara me lembra a teoria da ferradura, já citada em um artigo aqui no AZ (“Os valentões da justiça social”, linkado ao final do meu artigo acima), em que a ideia é que pessoas de espectros políticos opostos estariam se aproximando comportamentalmente (e talvez ideologicamente) à medida em que passam a ser radicais/extremistas.

          De resto, eu espero que você tenha razão, e que toda essa tragédia que estamos vivenciando atualmente não passe de uma fase de transição para algo mais evoluído e melhor para nossas sociedades.

          • Silvia Venturi

            É. Eu também espero. Digamos que essa é a minha forma de ver as coisas de um jeito mais bonito…

  • Cara, texto muito bom! Seu melhor, acho!

    • Geh Rocha Freitas

      Também acho que é o melhor.

      • Que bom isso, Geh! Prometo me empenhar para fazer de cada escrita minha uma ascensão a algo mais evoluído e consistente. Fique ligado aqui no AZ! 😀

    • Valeu, Felipe! Eu não esperava, de jeito algum, escrever “o melhor” texto, até mesmo porque só escrevi sobre esse assunto por ser algo recorrente durante minhas visitas a ambientes deste nicho na internet. Algumas coisas que andei lendo/ouvindo me levaram a uma súbita vontade de reclamar do que anda me incomodando, e posso te garantir que isso que você leu é apenas parte de uma reclamação maior que pretendo fazer aqui no AZ.

  • Carlos André

    Apesar de eu sentir que algumas coisas ficaram subjetivas (e de também – pensar – entender o foco do texto), gostei dos argumentos, vale a reflexão.

    Mas, por favor, Alysson, me tire uma dúvida. Ter essa visão em relação aos “dedos apontados”, te faz ver a luta pelas causas e a (natural) revolta cotidiana como “vitimismo”? (mesmo diante de fatos como, por exemplo, a menor remuneração de mulheres e negros no mercado de trabalho, ou mesmo a não-admissão de pessoas trans por conta de sua aparência). Isso não ficou muito claro para mim.

    Gostei do texto a nível de reflexão em relação aos dedos apontados.

    • Opa, Carlos, tudo bem? Espero que sim!

      Então, no artigo tomei o cuidado de não usar, em momento algum, o termo “vitimismo”. Por quê? Bem, porque sei o quão desnecessário seria utilizá-lo, e o quão agressivo poderia soar. Também entendo que o termo pode gerar uma polêmica infantil pois vai de encontro à noção de que todos os direitos buscados já foram conquistados e que, portanto, pessoas que lutam por tais causas na internet só estão criando alarde.

      A verdade é que não há alarde, pois não há falta de necessidade em lutar por mais conquistas que digam respeito à igualdade de direitos e de tratamento, seja no campo legal ou ético/moral.

      Porém eu poderia muito bem ter utilizado o termo. Na verdade, talvez tivesse sido algo necessário, que deixei escapar. O fato é que eu faria questão de explicar minha noção quanto ao que entendo como vitimismo, e vou aqui tentar falar brevemente sobre o que ando percebendo quanto à aplicação dessa palavra.

      Embora seja perceptível uma ascensão da mentalidade pós-moderna na realidade brasileira, é também notável um cada vez maior alvoroço quanto a algumas atitudes irracionalistas, uma indignação cada vez mais evidente e, penso eu, coerente. Pessoas e realidades estão sendo questionadas à medida em que pessoas e realidades estão sendo validadas sem grandes reflexões para cada caso. O que quero dizer é que há um “jogo da conveniência”, no qual (como demonstro me preocupar no artigo) a identidade fala mais alto do que a própria argumentação. E nisso formamos guetos, os quais dividem a humanidade a partir de características totalmente subjetivas e acaba por não saber mais unificá-la a partir das objetividades que conquistamos com as ciências objetivas – no caso do artigo, estamos formando guetos raciais e ideológicos.

      Junto a esses guetos, sejam eles sexuais, raciais ou de gênero – ou seja lá o que for -, há medidas necessariamente adotadas, táticas comportamentais e argumentativas que buscam defender visões pré-estabelecidas (as quais permitem a existência dos guetos), engessando nas pessoas a noção de que estão certas e que, se por um acaso sentirem que não estão, haverá outras táticas possíveis de serem adotadas para que tenham a certeza de que estarão certas.

      Uma dessas táticas, ao meu ver, é o vitimismo. Mas o que quero dizer ao falar “vitimismo”. Ao meu ver, o vitimismo é um comportamento adotado em forma de argumentação, mas que não se preocupa com a lógica própria de um argumento coerente e lógico.

      O vitimismo se apropria de alguns dados e estatísticas, conforme a conveniência, para validar sentimental e cientificamente (num cientificismo estranho e conveniente, que diz que “se a ciência disse, então tá dito”, mas que descarta a ciência quando ela confronta suas crenças – o que é semelhante ao que acontece com a religião) os seus preceitos ideológicos, apelando para um populismo no qual o clamor popular terá o poder de definir a “verdade” sobre o que é dito. Da mesma forma, o vitimista é aquele que se faz mártir para criar razões artificiais que validem suas especulações sobre a realidade.

      Em resumo: o vitimismo dos movimentos sociais usa e abusa de informações convenientes, com retóricas treinadas, para fazer mais pessoas aderirem às causas sem oferecerem a elas a virtude cética, que as faça questionar aos movimentos e a si mesmas. Para citar exemplos, podemos lembrar de algumas atitudes do meio vegano abolicionista (e desesperado), que divide o mundo entre “carnistas x pessoas de boa índole/veganas”, sendo estas últimas aquelas que se preocupam “para além do próprio umbigo especista”. Casos tristes e expoentes, que acabam por naufragar a causa aos olhos dos leigos, são os de Dado Dolabella, por exemplo, que, não contente em gritar aos quatro cantos da internet que pessoas que comem carne são cruéis, ainda acusa feministas não-veganas, chamando-as de “mulheristas” (pois, como ele diz, feminista de verdade se preocupa com todas as fêmeas do mundo, e não só com as da espécie humana).

      O que quero dizer é que vitimismo é sinônimo de apelo à ignorância, ao sentimentalismo barato e populista e, pior, à ciência não-questionada, com posturas não céticas e, incrivelmente, a-científicas.

      Para deixar claro, então, e te responder após tudo isso: não, não acho que todos aqueles que lutam contra opressões e problemas sociais sejam alarmistas/vitimistas. O que acho é que estamos, tristemente, dando cada vez mais voz àqueles que são de fato vitimistas, e que não se diferenciam em nada, em sua demagogia, daqueles políticos que tanto criticamos e que queremos extinguir de nossa sociedade.

      Agora, se há um dualismo realmente real que está dividindo nossa sociedade, e para o qual devemos atentar se queremos salvar nossa democracia, é o dualismo “politicamente correto a todo custo x liberdade de expressão consciente”, porque já deixamos de nos preocupar com a ignorância do brasileiro mediano, e passamos a nos preocupar com a falsa sabedoria do brasileiro que julga conhecer a realidade – e a quer reparar a todo custo.

  • Bell Waltzi

    Hoje o mundo está muito chato. Alguns militantes de movimentos sociais querem impor sua vontade a todo custo. Se não concordo com as cotas raciais sou racista, se não concordo com a homossexualidade, sou homofóbico, se não gosto de mulheres que fumam ou bebem, sou machista. Hoje temos que concordar com tudo para podermos ser aceitos, mas graças a Deus, eu sempre serei eu mesmo e não quero fazer parte de uma sociedade que quer que todos sejam iguais.

  • Orlando Araujo

    Compartilho de muitas das suas ponderações, Alysson. Um dos principais problemas que temos enfrentado recentemente é a tentativa de respostas extremas simples para problemas extremamente complexos. A natureza é assim, Deus quis assim, a realidade é assim e outros argumentos tentando refutar a necessidade de compensações e direitos sociais, por um lado. No extremo oposto, visões que criam mecanismos de proteção desproporcionais. Em ambos os lados, a existência de barricadas de várias naturezas, fissurando o tecido social em grupos antagônicos. Não acredito em respostas finais, mas na persecução da justiça e da verdade, o que parece bastante utópico. Veja que a sua exposição de argumentos foi em vários momentos norteada pelas suas próprias vivências, o que reforça a importância da conscientização de cada um nesse processo, seja como essa posição seja rotulada. Além disso, o uso de pronomes indefinidos como alguns e muitos, tão comuns na discussão desse tema, mostra como ainda temos pouca informação sobre o fenômeno estudado e, talvez por isso, dependemos tanto de argumentos de fundamento vivencial.

  • Letícia Regina

    Allyson, muito obrigada por esse texto. Me deu um alívio ao ver que ainda é possível ter discussões saudáveis.

  • Luana Souza

    A verdade mesmo, realmente a verdade que ninguém gosta de falar, é que aqueles que realmente são os verdadeiros excluídos socialmente são as pessoas que possuem algum tipo de deficiência, doenças congênitas, problemas mentais graves. Esses são realmente aqueles que convivem com a dor que carregam em seus copos, e muitas vezes isso é para a vida toda. Lembrando que esse tipo de coisa acomete todo tipo de classe social, cor, ou gênero.

    Se você observar a mídia, vai perceber que ela sempre sustenta a imagem de pessoas bonitas e saudáveis, seja homo, hétero, negra ou branca, ou até mesmo trans. A verdade é que todos tem espaço e uma representação quando você tem determinadas características que são relevante socialmente. Quem trabalha com assistência social sabe muito bem, cada tipo de situação degradante que você encontra por ai, seres humanos em estados inimagináveis e a triste percepção de saber que eles não tem como se organizarem ou reivindicar por algo.

    Conheço uma criança que tem epidermólise bolhosa, uma doença horrível que afeta a pele, criando feridas e bolhas, e as vezes deixando o corpo da pessoa em carne viva. Obviamente ele é branco. Será que realmente alguém teria a coragem de dizer que esse menino é um “privilegiado branco”, quando a própria cor da sua pele é que a causa da sua enfermidade ( A doença não afeta pessoas negras).

    Eu não estou querendo desmerecer a luta de negros, trans, gays, e etc, até por que eu faço parte de um desses grupos, mas as vezes vejo que aqueles que realmente deveriam ganhar mais notoriedade socialmente são essas pessoas. Eu por exemplo sou branca, e até demais, o que é muito ruim por que minha pele é frágil e se irrita com muita facilidade ficando vermelha e coçando com o menor toque, e as vezes se formando um monte de bolinhas vermelhas.Tudo isso por que quando era pequena tive problemas com plaquetas e minha resistência ficou baixa. Eu até já sofri preconceito com isso. Na verdade eu queria ser morena mesmo, por que pessoas com a pele mais escura tem mais melanina na derme e isso impede doenças mais facilmente. Além disso vivemos no brasil, um pais tropical com muito sol, e para mim isso é horrível pois me queimo com facilidade, e por causa disso eu sempre fui privada de muitas atividades físicas.Se você for observar vai perceber que a “cor” ideal no brasil, principalmente para as mulheres, nunca foi a pele clara, e sim morena e bronzeada.

    As vezes quando vejo vários desses protestos que fala de opressão, vejo tanta gente bonita, saudável, gritando e acusando os brancos, héteros, ou seja o que for de opressão é nessa hora que eu me lembro do menino com epidermólise, em casa com metade do corpo enfaixado e que mal pode sair de para brincar. Não sei exatamente o que sintetizar disso tudo, mas sinto que alguma coisa está muito errada…

    • Lucca Santo

      Deve ser um sofrimento horrível ser branca né, melhoras.

      • Luana Souza

        Horrível mesmo, principalmente quando você fica 30 minutos direto no sol. rs

  • O que um observador atento e isento poderia depreender dessas discussões, muitas inócuas, é que as “entidades” que se depauperam em defesa de suas “personas” (C. G. Jung), digo, ideias, esbanjam energia, erudição (quando possui) e eloquência nas projeções (Freud), para atacar no outro aquilo que em verdade está em si, gratificar sua vaidade (Flávio Gikovate) sedenta por platéia e aplausos, e desviar o foco da real questão, valendo-se de uma versão transgênica da estratégia de pão-e-circo, travestida numa espécie de Big Brother da Internet, na qual fala-se muito mas diz-se nada, atraindo a massiva atenção dos curiosos que se deliciam com a “lavação de roupa” virtual, curiosos estes que se quer sabem o que se está falando, mas sabem que há um “barraco descendo morro abaixo” e é isso que afinal interessa: ver o circo pegar fogo e o palhaço morrer queimado.
    Ironias à parte, penso que qualquer discussão séria de grandes problemas que envolvem muitas pessoas, como é o caso da discussão em questão, passa inevitavelmente pelo exame íntimo e honesto das pequeninas e quase invisíveis atitudes cotidianas de cada um, sendo esse exame necessário no exato momento em que essas atitudes brotam do ego de cada um.
    A propósito de todo esse meu blá-blá-blá, acredito que o autor esteja logicamente correto em suas ponderações.

  • Caio

    Muito bom, parabéns pela originalidade de ideias, está cada vez mais difícil encontrar ideias independentes, as pessoas estão tornando as questões sociais verdadeiros tabus.

  • Uma tal de Brenda ;)

    “Branca azeda”, “boi lambeu”, “metida, patricinha”, “não fui com a sua cara no começo, pois você é branca, mas até que você é legal”, “essa daí toma banho de talco”, “anêmica”. Se é com meninos, “essa eu pegava pois é branquinha”, “nunca vi uma branca de bunda grande”. E as meninas ”não-brancas”, na melhor das hipóteses, dizem que eu deveria me sentir realizada por ter tantos guris aos meus pés (senão eu sou uma “ameaça a elas por ser branca”). Realizada pelo o que, mesmo? Ter um monte de garoto fútil, agressivo e mal educado querendo me usar e jogar fora? Sou rica pois sou branca? Se não fosse as bolsas, estudaria em público novamente. Sei que não é a questão principal do post, pois puxei mais para um lado feminino, não abrangi “um todo”, mas eu precisava desabafar mesmo que anonimamente, pois as pessoas até acham engraçado quando eu reclamo. E, bem, volta e meia escuto “Você não tem direito de falar, pois você é branca e privilegiada.” Legal, fera. Meu pai é mal pago, minha mãe não tem estudo, ambos passaram fome e fazem de tudo para que eu não passe pelo o mesmo. Cada vez que olho para minha comida e minhas poucas coisas “boas”, dá até um gosto de sal na boca, pois eu sei como conseguir aquilo foi suado (e não foi parcelado apenas em 5 vezes). Ainda não trabalho, mas como adolescente, acredito que deveria, sim, expor minha opinião. E também acredito na teoria do “só estuda quem quer”. Pois enquanto eu vejo muita gente passando dias e dias se vitimizando e protestando na internet dizendo que não é suficiente beneficiado, estou com essa mesma internet estudando e procurando coisas novas. Já falei demais, e acho que nem deveria ter falado, mas se não for por aqui, não vai ser por lugar nenhum, senão serei “racista”.
    E no final, acredito que para sair dessa realidade, o jeito é estudar e me esforçar muito, pois eu sou a dona do meu futuro.

    • Uma tal de Brenda ;)

      Quer saber? Não fez nem 10 minutos, já excluo meu comentário. Pois hoje tudo é ofensa, as pessoas estão fracas pelo o medo irracional de perder alguns privilégios ou puro orgulho. Opa, ofendi alguém.

    • Vinicius Alves

      Gostei do seu comentário, já passei muito por isso, e sinceramente nem ligo, porém também sinto raiva quando pessoas que passam pelo mesmo que passei se vitimizam. Hoje agradeço a Deus por não ter ganho tudo de graça, pois assim cada conquista tem um doce sabor de vitória. Continue lutando pelos seus sonhos Brenda, e não ligue para os que ofenderem.

  • anna

    Alysson, bom dia,
    tenho lido alguns de seus textos e esse me desapontou bastante (não que a minha opinião e percepção tenha privilégios em detrimento da sua, mas enquanto leitora me sinti no compromisso de expor). Gostaria de salientar que seu texto parece um relato legítimo porém superficial e de ego ferido. A sua análise sobre comportamento e vivência nos movimentos (especificamente no movimento negro) me faz entender, obvio que sem profundidade, o porque de seu lugar de branco foi enfatizado – aparentemente de forma pejorativa.
    Não nego as dificuldades que são oriundas da aproximação desses debates, principalmente quando se trata de sujeitos que não se assemelham fenotipicamente com o grupo em questão, mas acho um tanto arriscado a quase acusação de racismo reverso (que apesar de você não ter citado esse termo, é sobre isso que se assemelha seu discurso) principalmente por alguém que demonstra em sua narrativa uma compreensão teórica dessa dinâmica sóciohistórica. Acredito que seja no mínimo perverso acusar sujeitos que tem sua identidade individual e coletiva demarcada por estereótipos negativos, desumanização e violação de direitos, como mesquinhos ou pessoas que “utilizam sua a cor de sua pele como um escudo moral, um determinante de credibilidade…”. Não quero com isso fazer parecer que no movimento a perfeição está intrínseca, muito pelo contrário – são sujeitos e, por essência, estão (estamos) em aprendizado – o que envolve erros e acertos.
    Acho lamentável que você utilize termos como raça, negro, orgulho, branco e vítima, da forma como as utilizou. E, gostaria de pedir um pouco de cuidado nessa articulação, um pouco de cuidado ao falar dos outros. Não dá para generalizar a sua leitura de mundo e utilizá-la como mote para construção de alienações sobre algo, principalmente sobre um assunto tão emblemático como esse (considerando a exibição do seu texto nesse canal de informações).
    Caso você realmente considera o desejo de superar preconceitos raciais, revisite suas análises, interpretações, sentimentos e teorias. Principalmente quando o termo vitima está aliado a algo pejorativo e quando a realidade dos negros brasileiros está complemente dissociada dos aspectos qualitativos e positivos que se faz possível relacionar. Os sofrimentos decorrente da cor da pele é real e atravessa as trajetórias de vida das pessoas. Você pode garantir essa informação desde uma pesquisa superficial fazendo uma breve analise dos resultados encontrados, das imagens que surgem, até uma busca mais avançada sobre teorias, pesquisas quali e/ou quanti envolvendo: escolaridade, mortalidade infantil, violencia obstétrica, violencia policia, homicídios, encarceramento, acesso ao ensino superior, afetividade, saúde do trabalho, transtorno mental….

    Sugiro que como demonstração de compromisso e responsabilidade com a transmissão de informações sobre algo, você busque escutar mais os discursos desses sujeitos, não de forma analítica e combativa. Compreender privilégios e aceitar esse local, também é uma atitude importante para a percepção mais realística da conjuntura e possível compromisso com o tema e propulsão de mudanças. De último, sugiro a leitura da Isildinha Baptista Nogueira, do Munanga e, em específico, um livro intitulado “Psicologia Social do Racismo – Estudos Sobre Branquitude e Branqueamento no Brasil” da Maria Aparecida Silva Bento.

  • Lucca Santo

    Realmente o negro se vitimizar muito na sociedade, realmente toda a minha vida ser tratado como inferior, o seu cabelo sendo feio e ruim, quanto mais escura sua pele mais olhares de desconfiança, realmente é muito vitimismo, ai vem as pessoas da sabedora da verdade brancas definir o que é ou não é racismo, acha que é frescura, o negro mal ser ver na mídia, médicos, advogados, quantos negros e quantos brancos tem, mas e daí é melhor nos calar, ai vem um cara mestiço/pardo que ascendeu na vida querer impor seus desejos não filho, você não vai definir as pautas e nem querer nos calar, podem agradar os brancos bom pra ti. RT

  • Elisangela Machado

    Caro Alysson, confesso que meu rompante ao ler a primeira parte de seu texto foi de menospreza-lo, mesmo assim continuei a ler, em vários argumentos e experiências relatadas fui me identificando com você. É óbvio que não concordo com alguns argumentos, mas isso é natural! E conto à você. Imagine eu, mulher, negra, vim da periferia e estudei em escolas públicas, fui considerada não apta a atuar junto a comunidades negras por ter o currículo semelhante ao de um branco e por nunca ter pertencido aos movimentos de combate ao racismo. Durma com mais este equívoco daqueles que deveriam somar forças para transcender à desigualdade socioeconômica.

  • Cultura, sabes o que é?
    No Ocidente é eurocêntrica e tudo que não é assim será tratado como secundário e/ou inferior (desde 1500, acho).

    Ou se define que a diversidade de pensamentos (não eurocêntrico) deve ser menosprezada OU se assume a necessidade de colocar outras perspectivas da História/Sociologia/Antropologia neste balaio.

    Do contrário é mais do mesmo: eurocentrismo no topo e falsa democracia racial/étnica.

    https://www.youtube.com/watch?v=Fc7sxAySoOE