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Cala a boca, você é branco!

Em Política por Alysson AugustoComentários

Vivência e academicismo

Uma coisa que pode­mos per­ce­ber, como um efeito na inter­net, é que se pre­o­cu­par com ques­tões soci­ais e que­rer falar sobre isso não basta. Você pre­cisa levar em con­si­de­ra­ção, a cada momento, qual é o seu lugar no mundo e a par­tir de que posi­ção você está falando.

A ver­dade é que, para mui­tos, seu ponto de vista é intrin­se­ca­mente depen­dente de sua iden­ti­dade. Não basta ter ideias e expressá-las (afi­nal, seu pen­sa­mento “é” puro achismo, caso você não esteja ava­li­ando cons­tan­te­mente sua auto­ri­dade frente ao mundo). Seria pre­ciso não ape­nas se poli­ciar a par­tir de um fil­tro poli­ti­ca­mente cor­reto como, tam­bém, falar “enquanto pes­soa com a carac­te­rís­tica X”.

Mui­tas vezes, ao deba­ter com alguém tere­mos não uma con­versa, mas uma dis­cus­são. As pes­soas se armam diante da opi­nião alheia, e o pri­meiro passo sem­pre é dizer “eu, enquanto pes­soa branca ou negra, cis­gê­nero ou trans­gê­nero ou agê­nero ou hetero ou homo”, suge­rindo desde o prin­cí­pio que é a sua iden­ti­dade que ditará a legi­ti­mi­dade de seu argu­mento (impor­tando menos a ava­li­a­ção de sua fala e mais a cor da sua pele, ori­en­ta­ção sexual, gênero, etc.).

Muito já foi dito sobre o argu­mento do aca­de­mi­cismo neste texto. Con­cordo que há, sim, posi­ci­o­na­men­tos que abu­sam da eru­di­ção para des­clas­si­fi­car outras pes­soas, uti­li­zando da auto­ri­dade de deter­mi­nado autor como se, por ser quem é, sua pala­vra fosse a última e mais impor­tante (nesse caso, trata-se de um argu­mento ad homi­nem reverso, um erro lógico, uma falá­cia).

O fato é que pre­ci­sa­mos nos ques­ti­o­nar por qual motivo o aca­de­mi­cismo deve­ria ser con­si­de­rado um pro­blema mesmo quando empre­gado cor­re­ta­mente. Afi­nal, afir­mar isso é uma falá­cia que mes­cla a iden­ti­dade de deter­mi­nado sujeito/objeto à legi­ti­mi­dade do que foi dito. Com um argu­mento (devi­da­mente) aca­de­mi­cista, des­clas­si­fi­ca­mos ideias alheias sobre os pon­tos de vista tra­ta­dos pela obra ou autor que cita­mos. E, nesse sen­tido, ale­gar “vivên­cia” como um cri­té­rio para dar legi­ti­mi­dade a uma fala pode ser tão ou mais aca­de­mi­cista do que, no sen­tido inverso, ale­gar a neces­si­dade de ler um livro X de deter­mi­nado autor Y, para poder falar sobre qual­quer coisa.

Por mais admi­rá­veis que essas pes­soas com vivên­cia (expe­ri­ên­cias pes­so­ais ante­ri­o­res a par­tir da sua iden­ti­dade de gênero, racial, etc.) pos­sam ser em seu coti­di­ano, há uma sín­drome cole­tiva e des­ca­rada de auto­en­gano. Afi­nal, aque­les que defen­dem a neces­si­dade de vivên­cia para que pos­sa­mos ter legi­ti­mi­dade ao falar­mos de algo são, nota­da­mente, as pes­soas que acu­sam outras de aca­de­mi­cis­tas (quando não há moti­vos para essa acu­sa­ção). E tanto depen­der de uma iden­ti­dade para falar sobre algo (espe­ci­al­mente quando o tema não tem rela­ção direta com expe­ri­ên­cias pes­so­ais) quanto depen­der de conhe­ci­men­tos aca­dê­mi­cos é, em ambos os casos, sim­ples­mente argu­men­tar ape­lando à auto­ri­dade. Assim, antes de acu­sar­mos alguém de aca­de­mi­cista a fim de favo­re­cer a vivên­cia de outra pes­soa, pre­ci­sa­mos pen­sar sobre a coe­rên­cia dessa ati­tude.

Sim, são muito boas as inten­ções daque­les que se uti­li­zam de cha­vões típi­cos de movi­men­tos soci­ais. Afi­nal, pre­o­cu­par-se (de ver­dade) com pro­ble­mas soci­ais é no mínimo lou­vá­vel. Mas a par­tir do momento em que se trata o dis­curso inte­lec­tual como um recurso no fundo des­vin­cu­lado da lógica e da raci­o­na­li­dade, e sim vin­cu­lado à ori­gem pes­soal de quem o uti­liza, caí­mos na ideia de que a sub­je­ti­vi­dade do indi­ví­duo é supe­rior à obje­ti­vi­dade do que se busca expres­sar pela razão. E o melhor, claro, é um equi­lí­brio entre o sub­je­tivo e o obje­tivo.

 

O problema de ser branco no Brasil

Recen­te­mente, em um debate, fui acu­sado de “branco”, razão pela qual deve­ria ficar calado e não falar sobre racismo por não pos­suir vivên­cia. Sim, fui acu­sado. Afi­nal, ser branco, para algu­mas pes­soas, não é algo bom. Na ver­dade, é algo con­si­de­rado até mesmo peri­goso, ofen­sivo e opres­sivo. Enfim, ser branco é algo que, para alguns, sim­ples­mente não é acon­se­lhá­vel — como se pudés­se­mos optar por ser­mos ou não bran­cos.

Mas por que isso? Digo, por que “ser branco” é enten­dido como uma defi­ni­ção que car­rega uma baga­gem de vivên­cias pri­vi­le­gi­a­das e “natu­ral­mente” opres­so­ras? Por que a sua epi­derme pode ser a deter­mi­na­dora de quem você é e o que você repre­senta durante um sim­ples debate na inter­net? Não seria isso o mais puro e bruto dos racis­mos?

branco opressor culpa inteira

Quando nos tor­na­mos pri­si­o­nei­ros de nos­sas iden­ti­da­des, o que vale é a “des­cons­tru­ção” em detri­mento da cons­tru­ção de novos cami­nhos.

Com toda cer­teza, se você ati­rar no Goo­gle essas ques­tões, achará inú­me­ras res­pos­tas. Res­pos­tas, natu­ral­mente, das pes­soas que defen­dem tais ideias. A mais comum, de longe, é a que asso­cia a sua per­so­na­li­dade à per­so­na­li­dade dos euro­peus colo­ni­za­do­res dos sécu­los pas­sa­dos. Afi­nal, como dizem, há na cul­tura de nossa soci­e­dade for­tes raí­zes pavi­men­ta­das por esse povo opres­sor, que infe­ri­o­ri­zava tanto os povos indí­ge­nas (incri­vel­mente esque­ci­dos) quanto o povo negro (que era majo­ri­ta­ri­a­mente com­posto por nagôs, sendo então que boa parte das pes­soas negras no Bra­sil têm ances­tra­li­dade afri­cana oci­den­tal, e não sul-afri­cana).

Por­tanto eu, como homem branco cis­gê­nero e hete­ros­se­xual, um ser com­ple­ta­mente opres­sor que deve se des­cons­truir para ser uma pes­soa decente na soci­e­dade (fazendo de minhas carac­te­rís­ti­cas um eterno peso no ombro enquanto viver), devo aten­tar para cada deta­lhe de minha iden­ti­dade antes de fazer quais­quer afir­ma­ções sobre quais­quer temas que envol­vam movi­men­tos soci­ais — ao menos, é o que dita a mora­li­dade des­sas pes­soas.

A ver­dade é que, em rela­ção à escra­vi­dão no Bra­sil, entendo a neces­si­dade da valo­ri­za­ção do negro na soci­e­dade (embora a ideia de “repa­ra­ção his­tó­rica” me cause dúvi­das). Mas não é par­tindo de uma breve e não-apro­fun­dada aná­lise sobre alguém que você aca­bou de conhe­cer que se pode con­cluir espe­ci­fi­ca­mente que essa pes­soa, do alto de sua bran­cura, nunca refle­tiu com pro­fun­di­dade sobre o racismo no Bra­sil. A bem da ver­dade, não há até mesmo decên­cia em par­tir da cor da pele de alguém para divi­dir o mundo entre “nós negros x eles bran­cos”, e muito menos em supor ser cor­reto segre­gar as pes­soas tão somente em vir­tude de uma carac­te­rís­tica física inata. Isso é, de longe, o mais puro dos pre­con­cei­tos raci­ais — o qual está atre­lado a um con­junto de raci­o­cí­nios que bus­cam fazer do negro uma eterna vítima, sendo o branco, por­tanto, seu car­rasco para todo o sem­pre (qual­quer seme­lhança com lógi­cas ado­ta­das por outros movi­men­tos soci­ais não é mera coin­ci­dên­cia).

Movimentos sociais não buscam igualdade

Mas é inte­res­sante apon­tar que, na ver­dade, movi­men­tos soci­ais não bus­cam igual­dade. O que bus­cam (cor­re­ta­mente) é equi­dade. E é bom saber que não se quer igual­dade, afi­nal. Pois a par­tir do momento em que a diver­si­dade humana é tão extensa a ponto de não haver igual­dade de tra­ta­mento nem mesmo entre gêmeos uni­vi­te­li­nos, pedir por isso seria um tanto ousado e irra­ci­o­nal.

Equi­dade, por outro lado, seria equi­pa­rar situ­a­ções na medida do pos­sí­vel (como teó­ri­cos do direito diriam, “tra­tar os desi­guais desi­gual­mente à medida de suas desi­gual­da­des”), o que é mais justo. Porém espe­rar por equi­dade sem levar em con­si­de­ra­ção que equi­dade não se trata de nive­lar sem­pre por cima é agir por mera con­ve­ni­ên­cia. Afi­nal, mui­tas vezes, para se equi­pa­rar a um indi­ví­duo branco supos­ta­mente pri­vi­le­gi­ado, você pre­ci­sa­ria, por coe­rên­cia, levar em con­si­de­ra­ção as rea­li­za­ções de tal pes­soa, antes de ale­gar que ela só che­gou onde está por ser branca.

 

Ok, admito, eu sou um branco opressor

Já disse ante­ri­or­mente que para muita gente mais importa quem está falando do que aquilo está sendo falado. Por­tanto, se você é uma des­sas pes­soas, vamos refle­tir um pouco sobre minha iden­ti­dade neste mundo cão.

Você pro­va­vel­mente acre­dita que sou um branco pri­vi­le­gi­ado e que minha visão sem­pre par­tirá desse ponto de vista. Mas, sabe, tenho lá minhas dúvi­das. Tal­vez hoje as pes­soas me vejam como branco, mas em boa parte da minha vida, quer você acre­dite ou não, fui enten­dido como sarará. Meu cabelo curto e pele morena (escura se eu fosse à praia) fazia com que as pes­soas me rotu­las­sem como moreno (no sen­tido de pele mais escura) ou sarará mesmo. Quando cri­ança, eu era o típico “malo­queiro pé rapado”, a jul­gar a frequên­cia com que eu estava na rua junto com outras pes­soas de cor equi­va­lente à minha ou mais escu­ras, dedi­cando meu tempo com tra­ves­su­ras de cri­ança.

Inde­pen­dente do meu his­tó­rico e “vivên­cia” enquanto pes­soa que conhece o que é ser enqua­drado por poli­ci­ais ao visi­tar um shop­ping (como dizem mesmo? eu era sem­pre enqua­drado nas “carac­te­rís­ti­cas sus­pei­tas”), a ver­dade é que meu posi­ci­o­na­mento frente a isso já até fez com que me rotu­las­sem de “negro da casa”. Hoje em dia, incri­vel­mente, sou con­si­de­rado branco, inde­pen­dente do meu cabelo ser cache­ado e seco, inde­pen­dente de eu saber o que é estar num ôni­bus que é parado pela PM e ser um dos pou­cos que foi revis­tado frente a todo mundo.

Quando alguém me limita à “minha raça” (rótulo infe­liz, a jul­gar que o que exis­tem são etnias), como se eu tivesse mesmo um his­tó­rico de branco de classe média alta que nunca pre­ci­sou pas­sar por esco­las públi­cas (hoje em dia leci­ono em uma), que nunca pôde pagar uma escola par­ti­cu­lar (fui bol­sista inte­gral em todas… obri­gado por bus­car o melhor pra mim, mãe) e hoje é ProU­nista na melhor uni­ver­si­dade par­ti­cu­lar do sul do país, é no mínimo deso­nes­ti­dade inte­lec­tual e, mais que isso, apego aos rótu­los como se os meus argu­men­tos e a minha raci­o­na­li­dade não inte­res­sas­sem.

Por isso con­cluo que, por mais branco que pos­sam dizer que sou, sei do que o movi­mento negro está falando. Vou além e digo que sei o que é ter uma infân­cia em comu­ni­dade negra, com famí­lia negra, com pai branco e ausente, tendo conhe­cido a rea­li­dade da classe média na época em que Lula ainda estava fazendo suas refor­mas — agra­de­cendo a expe­ri­ên­cia com bolsa famí­lia, aliás, e eter­na­mente grato pelo ProUni.

Mas não basta eu ter expe­ri­ên­cia e já ter sido con­si­de­rado negro até por mili­tan­tes que me acu­sa­ram de “negro da casa”, eu até hoje enfrento refle­xos de uma infân­cia pobre dese­josa de ter o que os outros tinham. Até hoje tenho receio de man­ter con­tato com pes­soas mais abas­ta­das finan­ceira e soci­al­mente, pes­soas mais cul­tas e letra­das, pois minha expe­ri­ên­cia de vida sem­pre foi com pes­soas que apre­ciam músi­cas popu­la­res atu­ais, ape­ga­das às mar­cas midiá­ti­cas, fãs de todo tipo de pro­grama tele­vi­sivo e víti­mas da ideia de que só o dinheiro salva (pes­soas que a vida toda bus­ca­ram dinheiro, dada sua neces­si­dade de ascen­são e, prin­ci­pal­mente, dese­jo­sas de osten­tar ao invés de bus­car conhe­cer). Pes­soas, no geral, das mes­mas ori­gens que as minhas, de baixa camada social — e, coin­ci­den­te­mente ou não, majo­ri­ta­ri­a­mente negras. E quando vejo que alguém, numa con­versa no Face­book, se baseia na minha foto de per­fil para dizer quem sou e o que posso falar a res­peito de algo que tal­vez eu tenha mais vivên­cia do que me acu­sam ter, eu só tendo a sen­tir uma tre­menda tris­teza.

Afi­nal o que parece impor­tar antes do argu­mento é o jul­ga­mento, é o rótulo, o pré-con­ceito. O que importa não é ava­liar e repen­sar os moti­vos que te levam a apon­tar o dedo, o que importa é bus­car ter razão como se todo tipo de tática fosse válida, prin­ci­pal­mente quando a tática é des­me­re­cer a expe­ri­ên­cia de vida do outro, cri­ando fal­sas dico­to­mias para legi­ti­mar ou não a fala de alguém. E sem­pre tomando em con­si­de­ra­ção a con­ve­ni­ên­cia do que se quer ouvir.

A ver­dade é que, se ser branco é não come­ter as gafes que vêm sendo come­ti­das por esse irra­ci­o­na­lismo ten­den­ci­oso, então eu sou branco.

Isso mesmo, e branco com orgu­lho. Pois nada mais pode ser pior ao indi­ví­duo do que se rebai­xar de todas as for­mas pos­sí­veis para ter alguma voz na soci­e­dade. Nada pode ser tão mes­qui­nho em rela­ção à hones­ti­dade humana quanto se uti­li­zar da cor de sua pele como um escudo moral, um deter­mi­nante de cre­di­bi­li­dade, um argu­mento ape­gado a uma suposta auto­ri­dade sub­je­tiva que ignora a obje­ti­vi­dade que um assunto tão impor­tante pre­cisa ter.

Enquanto ser negro for, para alguns gru­pos sec­tá­rios, sinô­nimo de vítima per­pé­tua e ser mili­tante for sinô­nimo de defen­der esse sta­tus como uma forma de con­se­guir tudo à base da viti­mi­za­ção, ser branco não será ape­nas uma carac­te­rís­tica qual­quer (como deve­ría­mos con­si­de­rar, se qui­sés­se­mos supe­rar pre­con­cei­tos raci­ais), mas um alí­vio íntimo diante de uma soci­e­dade em que indi­ví­duos mas­sa­geiam seus egos a par­tir do que cha­mam de pro­ble­ma­ti­za­ção.


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É graduando em Filosofia pela PUCRS, professor de ensino médio e faz vídeos para o Youtube (conheça aqui). E, não menos importante, editor do melhor site da internet, o Ano Zero. Mas o necessário a saber mesmo é de seu amor declarado por churros.

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