Vivência e academicismo

Uma coisa que podemos perceber, como um efeito na internet, é que se preocupar com questões sociais e querer falar sobre isso não basta. Você precisa levar em consideração, a cada momento, qual é o seu lugar no mundo e a partir de que posição você está falando.

A verdade é que, para muitos, seu ponto de vista é intrinsecamente dependente de sua identidade. Não basta ter ideias e expressá-las (afinal, seu pensamento “é” puro achismo, caso você não esteja avaliando constantemente sua autoridade frente ao mundo). Seria preciso não apenas se policiar a partir de um filtro politicamente correto como, também, falar “enquanto pessoa com a característica X“.

Muitas vezes, ao debater com alguém teremos não uma conversa, mas uma discussão. As pessoas se armam diante da opinião alheia, e o primeiro passo sempre é dizer “eu, enquanto pessoa branca ou negra, cisgênero ou transgênero ou agênero ou hetero ou homo”, sugerindo desde o princípio que é a sua identidade que ditará a legitimidade de seu argumento (importando menos a avaliação de sua fala e mais a cor da sua pele, orientação sexual, gênero, etc.).

Muito já foi dito sobre o argumento do academicismo neste texto. Concordo que há, sim, posicionamentos que abusam da erudição para desclassificar outras pessoas, utilizando da autoridade de determinado autor como se, por ser quem é, sua palavra fosse a última e mais importante (nesse caso, trata-se de um argumento ad hominem reverso, um erro lógico, uma falácia).

O fato é que precisamos nos questionar por qual motivo o academicismo deveria ser considerado um problema mesmo quando empregado corretamente. Afinal, afirmar isso é uma falácia que mescla a identidade de determinado sujeito/objeto à legitimidade do que foi dito. Com um argumento (devidamente) academicista, desclassificamos ideias alheias sobre os pontos de vista tratados pela obra ou autor que citamos. E, nesse sentido, alegar “vivência” como um critério para dar legitimidade a uma fala pode ser tão ou mais academicista do que, no sentido inverso, alegar a necessidade de ler um livro X de determinado autor Y, para poder falar sobre qualquer coisa.

Por mais admiráveis que essas pessoas com vivência (experiências pessoais anteriores a partir da sua identidade de gênero, racial, etc.) possam ser em seu cotidiano, há uma síndrome coletiva e descarada de autoengano. Afinal, aqueles que defendem a necessidade de vivência para que possamos ter legitimidade ao falarmos de algo são, notadamente, as pessoas que acusam outras de academicistas (quando não há motivos para essa acusação). E tanto depender de uma identidade para falar sobre algo (especialmente quando o tema não tem relação direta com experiências pessoais) quanto depender de conhecimentos acadêmicos é, em ambos os casos, simplesmente argumentar apelando à autoridade. Assim, antes de acusarmos alguém de academicista a fim de favorecer a vivência de outra pessoa, precisamos pensar sobre a coerência dessa atitude.

Sim, são muito boas as intenções daqueles que se utilizam de chavões típicos de movimentos sociais. Afinal, preocupar-se (de verdade) com problemas sociais é no mínimo louvável. Mas a partir do momento em que se trata o discurso intelectual como um recurso no fundo desvinculado da lógica e da racionalidade, e sim vinculado à origem pessoal de quem o utiliza, caímos na ideia de que a subjetividade do indivíduo é superior à objetividade do que se busca expressar pela razão. E o melhor, claro, é um equilíbrio entre o subjetivo e o objetivo.

 

O problema de ser branco no Brasil

Recentemente, em um debate, fui acusado de “branco”, razão pela qual deveria ficar calado e não falar sobre racismo por não possuir vivência. Sim, fui acusado. Afinal, ser branco, para algumas pessoas, não é algo bom. Na verdade, é algo considerado até mesmo perigoso, ofensivo e opressivo. Enfim, ser branco é algo que, para alguns, simplesmente não é aconselhável – como se pudéssemos optar por sermos ou não brancos.

Mas por que isso? Digo, por que “ser branco” é entendido como uma definição que carrega uma bagagem de vivências privilegiadas e “naturalmente” opressoras? Por que a sua epiderme pode ser a determinadora de quem você é e o que você representa durante um simples debate na internet? Não seria isso o mais puro e bruto dos racismos?

branco opressor culpa inteira
Quando nos tornamos prisioneiros de nossas identidades, o que vale é a “desconstrução” em detrimento da construção de novos caminhos.

Com toda certeza, se você atirar no Google essas questões, achará inúmeras respostas. Respostas, naturalmente, das pessoas que defendem tais ideias. A mais comum, de longe, é a que associa a sua personalidade à personalidade dos europeus colonizadores dos séculos passados. Afinal, como dizem, há na cultura de nossa sociedade fortes raízes pavimentadas por esse povo opressor, que inferiorizava tanto os povos indígenas (incrivelmente esquecidos) quanto o povo negro (que era majoritariamente composto por nagôs, sendo então que boa parte das pessoas negras no Brasil têm ancestralidade africana ocidental, e não sul-africana).

Portanto eu, como homem branco cisgênero e heterossexual, um ser completamente opressor que deve se desconstruir para ser uma pessoa decente na sociedade (fazendo de minhas características um eterno peso no ombro enquanto viver), devo atentar para cada detalhe de minha identidade antes de fazer quaisquer afirmações sobre quaisquer temas que envolvam movimentos sociais – ao menos, é o que dita a moralidade dessas pessoas.

A verdade é que, em relação à escravidão no Brasil, entendo a necessidade da valorização do negro na sociedade (embora a ideia de “reparação histórica” me cause dúvidas). Mas não é partindo de uma breve e não-aprofundada análise sobre alguém que você acabou de conhecer que se pode concluir especificamente que essa pessoa, do alto de sua brancura, nunca refletiu com profundidade sobre o racismo no Brasil. A bem da verdade, não há até mesmo decência em partir da cor da pele de alguém para dividir o mundo entre “nós negros x eles brancos”, e muito menos em supor ser correto segregar as pessoas tão somente em virtude de uma característica física inata. Isso é, de longe, o mais puro dos preconceitos raciais – o qual está atrelado a um conjunto de raciocínios que buscam fazer do negro uma eterna vítima, sendo o branco, portanto, seu carrasco para todo o sempre (qualquer semelhança com lógicas adotadas por outros movimentos sociais não é mera coincidência).

Movimentos sociais não buscam igualdade

Mas é interessante apontar que, na verdade, movimentos sociais não buscam igualdade. O que buscam (corretamente) é equidade. E é bom saber que não se quer igualdade, afinal. Pois a partir do momento em que a diversidade humana é tão extensa a ponto de não haver igualdade de tratamento nem mesmo entre gêmeos univitelinos, pedir por isso seria um tanto ousado e irracional.

Equidade, por outro lado, seria equiparar situações na medida do possível (como teóricos do direito diriam, “tratar os desiguais desigualmente à medida de suas desigualdades”), o que é mais justo. Porém esperar por equidade sem levar em consideração que equidade não se trata de nivelar sempre por cima é agir por mera conveniência. Afinal, muitas vezes, para se equiparar a um indivíduo branco supostamente privilegiado, você precisaria, por coerência, levar em consideração as realizações de tal pessoa, antes de alegar que ela só chegou onde está por ser branca.

 

Ok, admito, eu sou um branco opressor

Já disse anteriormente que para muita gente mais importa quem está falando do que aquilo está sendo falado. Portanto, se você é uma dessas pessoas, vamos refletir um pouco sobre minha identidade neste mundo cão.

Você provavelmente acredita que sou um branco privilegiado e que minha visão sempre partirá desse ponto de vista. Mas, sabe, tenho lá minhas dúvidas. Talvez hoje as pessoas me vejam como branco, mas em boa parte da minha vida, quer você acredite ou não, fui entendido como sarará. Meu cabelo curto e pele morena (escura se eu fosse à praia) fazia com que as pessoas me rotulassem como moreno (no sentido de pele mais escura) ou sarará mesmo. Quando criança, eu era o típico “maloqueiro pé rapado”, a julgar a frequência com que eu estava na rua junto com outras pessoas de cor equivalente à minha ou mais escuras, dedicando meu tempo com travessuras de criança.

Independente do meu histórico e “vivência” enquanto pessoa que conhece o que é ser enquadrado por policiais ao visitar um shopping (como dizem mesmo? eu era sempre enquadrado nas “características suspeitas”), a verdade é que meu posicionamento frente a isso já até fez com que me rotulassem de “negro da casa“. Hoje em dia, incrivelmente, sou considerado branco, independente do meu cabelo ser cacheado e seco, independente de eu saber o que é estar num ônibus que é parado pela PM e ser um dos poucos que foi revistado frente a todo mundo.

Quando alguém me limita à “minha raça” (rótulo infeliz, a julgar que o que existem são etnias), como se eu tivesse mesmo um histórico de branco de classe média alta que nunca precisou passar por escolas públicas (hoje em dia leciono em uma), que nunca pôde pagar uma escola particular (fui bolsista integral em todas… obrigado por buscar o melhor pra mim, mãe) e hoje é ProUnista na melhor universidade particular do sul do país, é no mínimo desonestidade intelectual e, mais que isso, apego aos rótulos como se os meus argumentos e a minha racionalidade não interessassem.

Por isso concluo que, por mais branco que possam dizer que sou, sei do que o movimento negro está falando. Vou além e digo que sei o que é ter uma infância em comunidade negra, com família negra, com pai branco e ausente, tendo conhecido a realidade da classe média na época em que Lula ainda estava fazendo suas reformas – agradecendo a experiência com bolsa família, aliás, e eternamente grato pelo ProUni.

Mas não basta eu ter experiência e já ter sido considerado negro até por militantes que me acusaram de “negro da casa”, eu até hoje enfrento reflexos de uma infância pobre desejosa de ter o que os outros tinham. Até hoje tenho receio de manter contato com pessoas mais abastadas financeira e socialmente, pessoas mais cultas e letradas, pois minha experiência de vida sempre foi com pessoas que apreciam músicas populares atuais, apegadas às marcas midiáticas, fãs de todo tipo de programa televisivo e vítimas da ideia de que só o dinheiro salva (pessoas que a vida toda buscaram dinheiro, dada sua necessidade de ascensão e, principalmente, desejosas de ostentar ao invés de buscar conhecer). Pessoas, no geral, das mesmas origens que as minhas, de baixa camada social – e, coincidentemente ou não, majoritariamente negras. E quando vejo que alguém, numa conversa no Facebook, se baseia na minha foto de perfil para dizer quem sou e o que posso falar a respeito de algo que talvez eu tenha mais vivência do que me acusam ter, eu só tendo a sentir uma tremenda tristeza.

Afinal o que parece importar antes do argumento é o julgamento, é o rótulo, o pré-conceito. O que importa não é avaliar e repensar os motivos que te levam a apontar o dedo, o que importa é buscar ter razão como se todo tipo de tática fosse válida, principalmente quando a tática é desmerecer a experiência de vida do outro, criando falsas dicotomias para legitimar ou não a fala de alguém. E sempre tomando em consideração a conveniência do que se quer ouvir.

A verdade é que, se ser branco é não cometer as gafes que vêm sendo cometidas por esse irracionalismo tendencioso, então eu sou branco.

Isso mesmo, e branco com orgulho. Pois nada mais pode ser pior ao indivíduo do que se rebaixar de todas as formas possíveis para ter alguma voz na sociedade. Nada pode ser tão mesquinho em relação à honestidade humana quanto se utilizar da cor de sua pele como um escudo moral, um determinante de credibilidade, um argumento apegado a uma suposta autoridade subjetiva que ignora a objetividade que um assunto tão importante precisa ter.

Enquanto ser negro for, para alguns grupos sectários, sinônimo de vítima perpétua e ser militante for sinônimo de defender esse status como uma forma de conseguir tudo à base da vitimização, ser branco não será apenas uma característica qualquer (como deveríamos considerar, se quiséssemos superar preconceitos raciais), mas um alívio íntimo diante de uma sociedade em que indivíduos massageiam seus egos a partir do que chamam de problematização.


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escrito por:

Alysson Augusto

Escritor que não compactua com o rótulo. Graduando em Filosofia pela PUCRS. Professor de ensino médio. E, não menos importante, editor do melhor site da internet, o Ano Zero. Mas o necessário a saber mesmo é de seu amor declarado por churros.


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