Brucutus e mocinhos num mundo além do preto e do branco

Em Consciência, Sociedade por Felipe NovaesComentário

O mundo das pro­du­ções cul­tu­rais em geral usa como maté­ria prima a vida coti­di­ana. O sofri­mento e sua supe­ra­ção são os temas mais usa­dos, assim como o modo como enten­de­mos esse sofri­mento. 

Esse jogo cons­ti­tui um fluxo em que rea­li­dade e fic­ção mol­dam uma a outra, ficando pouco claro quem veio pri­meiro, o ovo ou a gali­nha, embora sai­ba­mos que tudo se trata de uma via de mão dupla. É assim que nas­cem per­so­na­gens que tanto nos influ­en­ciam. 

O enten­di­mento sobre o que é o sofri­mento e como lidar com ele, em suma, a filo­so­fia de vida das pes­soas, está inti­ma­mente ligada ao zeit­geist (termo que se refere às carac­te­rís­ti­cas do tempo e do local onde se vive; o espí­rito da época). Obser­vando a linha do tempo de fil­mes dos anos 70 para cá pode­mos tra­çar essa mudança de padrões. 

 

©ÊLONDON FEATURES/HA "THE GOOD THE BAD,AND THE UGLY" CLINT EASWOOD

Se anti­ga­mente pre­do­mi­nava o jei­tão Clint Eastwood, com cara de mau e um pé sem­pre pronto para chu­tar o tra­seiro dos pro­ble­mas, hoje temos um grupo mais misto, com homens que esco­lhem uma abor­da­gem dife­ren­ci­ada (mais dis­cur­si­vos, mais empá­ti­cos). Essa mis­tura indica que esta­mos numa época de tran­si­ção, ou que encon­tra­mos um meio termo para agir.

Não estou pre­su­mindo que homens nos anos 80/70 eram bru­ta­mon­tes incul­tos e bur­ros. Sim, eles podiam ser inte­li­gen­tes, mas o estilo era muito mais prag­má­tico. Solu­ções eram vis­tas muito mais como ação do que como mudança de pers­pec­tiva sobre a rea­li­dade cir­cun­dante. Quando via um pro­blema o machão setentista/oitentista pen­sava no que pode­ria fazer para der­ro­tar as adver­si­da­des; as gera­ções pos­te­ri­o­res, entre­tanto, pas­sa­ram a ter um olhar mais interno, se per­gun­tando sobre como podiam mudar a pers­pec­tiva sobre o pro­blema. Esse jeito de agir (o pri­meiro citado) mol­dou o cinema de ação e ao mesmo tempo esses homens foram mol­da­dos por ele. 

Esse padrão apa­rece em diver­sos per­so­na­gens, como Rambo, Rocky, John McClane e outros. 

Ima­gine um des­ses sujei­tos dis­cu­tindo direito de mino­rias, filo­so­fia, ou dis­cu­tindo rela­ci­o­na­mento com a esposa. Sai­riam falando que são todos uns fres­cos taga­re­las. É o pro­tó­tipo do macho que acha que tudo é sim­ples e que quem reclama de algo não está exi­gindo um direito ou que­rendo uma nego­ci­a­ção, mas sendo fresco e fra­cote. Na prá­tica a coisa pode­ria não ser tão este­re­o­ti­pada quanto os fil­mes mos­tra­vam, claro, mas essa era a ima­gem pas­sada. 

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Isso é o que um bru­cutu dos anos 80 faz com os pro­ble­mas. Aguenta seus gol­pes, mas no final manda-os para a lona.

 

Por deter­mi­nado ângulo é admi­rá­vel um cara sisudo, com aquela marra de badass, capaz de pro­te­ger a si e aos que estão ao redor, sem medo de desa­fios nem do perigo. Isso deve fazer a cabeça de mulhe­res, que por mais inde­pen­den­tes que sejam hoje, são atraí­das por homens com recur­sos e meios capa­zes de pro­tegê-las. 

Para esses caras, pro­ble­mas são comi­dos no café da manhã, sim­ples assim. 

Se res­tar algo pen­dente, uma boa dose de birita no bar com os ami­gos e falar bas­tante mal do chefe e do polí­tico da vez resolve as coi­sas. 

Essas carac­te­rís­ti­cas estão sumindo — para o bem ou para o mal, e isso tem a ver com o espí­rito de nossa época, que vem mudando desde o fim da Guerra Fria. 

 

A influência dos tempos de guerra sobre o cinema e sobre a personalidade

 

O afas­ta­mento pro­gres­sivo dos tem­pos de guerra, que pre­ci­sam, de fato, de homens beli­co­sos e durões, nos deu uma amo­le­cida. Isso é natu­ral, já que as gera­ções hoje nas­cem em meio à rela­tiva paz. Não temos mais um grande medo a com­par­ti­lhar mun­di­al­mente, como a guerra. 

Num nível indi­vi­dual, pode ser que esse estilo esteja falhando como um solu­ci­o­na­dor de pro­ble­mas. Ao invés de resol­ver pepi­nos, as pes­soas aca­bam achando que é melhor reprimi-los. Tal­vez isso expli­que o motivo pelo qual, em homens, a agres­si­vi­dade possa ser um sin­toma de depres­são. 

 

O maniqueísmo está sendo deixado de lado

 

Vive­mos tam­bém numa rea­li­dade muito mais com­plexa. Em tem­pos de Guerra Fria, um clima de dua­lismo ron­dava as esfe­ras da mora­li­dade e da polí­tica. Era o bem e o mal, o preto e o branco. 

Atu­al­mente, num cená­rio inter­na­ci­o­nal bem mais pací­fico, demo­ra­mos mais para extrair um padrão moral (certo ou errado) da rea­li­dade. Vemos uma enorme gama de cores inter­me­diá­rias, não ape­nas o preto e o branco. 

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Se os pró­prios ame­ri­ca­nos come­çam a que­rer eli­mi­nar seu maior sím­bolo do “bem” con­tra o “mal”, é por­que eles não sabem mais tão cla­ra­mente o que é bom e o que é mau.

Esse, inclu­sive, é um dos dile­mas do Capi­tão Amé­rica, tanto nos qua­dri­nhos quanto nos fil­mes. Ele, um sol­dado da Segunda Guerra Mun­dial, foi parar numa época total­mente dife­rente, cujo zeit­geist refuta toda a sua filo­so­fia de vida. 

A par­tir dos anos 90 passa a dimi­nuir os per­so­na­gens e as his­tó­rias mani­queís­tas e vem os enre­dos mais mis­tos. 

Nos­sas melho­res pro­du­ções hoje com­bi­nam essa con­fu­são na bús­sola moral, antes apon­tada somente para o norte. His­tó­rias que nos per­mi­tem ques­ti­o­nar o que é a vir­tude e o que é o vício, quem está certo e quem está errado, são as que mais ins­ti­gam. 

O estilo dos per­so­na­gens mais atu­ais indica que esta­mos repen­sando a filo­so­fia de vida do macho dos anos 80. A che­gada dos bru­cu­tus-cora­ção-mole, essa espé­cie que acaba de ser des­co­berta, com­bina ele­men­tos um tanto con­tra­di­tó­rios entre si, mas cuja com­bi­na­ção resulta numa liga for­tís­sima quando entre­la­ça­dos ade­qua­da­mente. 

Duas boas refe­rên­cias desse novo uni­verso mas­cu­lino é o Rocky Bal­boa do sexto filme da série Rocky e Rust Cohle, da série True Detec­tive. Os dois man­tém uma pos­tura badass, mas o pri­meiro parece sábio, refle­xivo e com dis­po­si­ção para os desa­fios que virão, enquanto o outro é mais pes­si­mista e deso­ri­en­tado. Ambos estão muito mais arti­cu­la­dos e falas­trões do que o típico bru­cutu. Sobre Rocky, basta assis­tir a esse dis­curso ins­pi­ra­dor para enten­der o que estou falando. 

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Mui­tos outros fil­mes e séries pode­riam com­por um info­grá­fico reche­ado de per­so­na­gens e his­tó­rias que aju­dam a con­tar o rumo da filo­so­fia pes­soal das pes­soas desde a Guerra Fria até hoje. A sétima arte ajuda muito bem a tra­çar essa jor­nada na medida em que é espe­lho e ouri­ves do mundo. A jul­gar por esse cri­té­rio, então, diria que o novo modo de viver e se rela­ci­o­nar com o mundo é estar dis­posto a ser  prá­tico, rápido e obje­tivo como uma katana, mas ao mesmo tempo, ana­lí­tico, dis­posto ao diá­logo e à refle­xão, adi­ci­o­nar uma dose de sen­si­bi­li­dade. De fato, creio que um indi­ví­duo que apren­deu a con­ci­liar essa mul­ti­pli­ci­dade de tra­ços está pre­pa­rado para a mai­o­ria dos dile­mas da vida. 

Felipe Novaes
Já quis ser paleontólogo, biólogo, astrônomo, filósofo e neurocientista, mas parece ter se encontrado na psicologia evolucionista. Nas horas vagas lê compulsivamente, escreve textos sobre a vida, o universo e tudo mais, e arruma um tempinho para o Positrônico Podcast. Contudo, durante todo o tempo procura se aprimorar na sabedoria e nas artes jedis do aikido.

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