O mundo das produções culturais em geral usa como matéria prima a vida cotidiana. O sofrimento e sua superação são os temas mais usados, assim como o modo como entendemos esse sofrimento. 

Esse jogo constitui um fluxo em que realidade e ficção moldam uma a outra, ficando pouco claro quem veio primeiro, o ovo ou a galinha, embora saibamos que tudo se trata de uma via de mão dupla. É assim que nascem personagens que tanto nos influenciam. 

O entendimento sobre o que é o sofrimento e como lidar com ele, em suma, a filosofia de vida das pessoas, está intimamente ligada ao zeitgeist (termo que se refere às características do tempo e do local onde se vive; o espírito da época). Observando a linha do tempo de filmes dos anos 70 para cá podemos traçar essa mudança de padrões. 

 

©ÊLONDON FEATURES/HA "THE GOOD THE BAD,AND THE UGLY" CLINT EASWOOD

Se antigamente predominava o jeitão Clint Eastwood, com cara de mau e um pé sempre pronto para chutar o traseiro dos problemas, hoje temos um grupo mais misto, com homens que escolhem uma abordagem diferenciada (mais discursivos, mais empáticos). Essa mistura indica que estamos numa época de transição, ou que encontramos um meio termo para agir.

Não estou presumindo que homens nos anos 80/70 eram brutamontes incultos e burros. Sim, eles podiam ser inteligentes, mas o estilo era muito mais pragmático. Soluções eram vistas muito mais como ação do que como mudança de perspectiva sobre a realidade circundante. Quando via um problema o machão setentista/oitentista pensava no que poderia fazer para derrotar as adversidades; as gerações posteriores, entretanto, passaram a ter um olhar mais interno, se perguntando sobre como podiam mudar a perspectiva sobre o problema. Esse jeito de agir (o primeiro citado) moldou o cinema de ação e ao mesmo tempo esses homens foram moldados por ele. 

Esse padrão aparece em diversos personagens, como Rambo, Rocky, John McClane e outros. 

Imagine um desses sujeitos discutindo direito de minorias, filosofia, ou discutindo relacionamento com a esposa. Sairiam falando que são todos uns frescos tagarelas. É o protótipo do macho que acha que tudo é simples e que quem reclama de algo não está exigindo um direito ou querendo uma negociação, mas sendo fresco e fracote. Na prática a coisa poderia não ser tão estereotipada quanto os filmes mostravam, claro, mas essa era a imagem passada. 

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Isso é o que um brucutu dos anos 80 faz com os problemas. Aguenta seus golpes, mas no final manda-os para a lona.

 

Por determinado ângulo é admirável um cara sisudo, com aquela marra de badass, capaz de proteger a si e aos que estão ao redor, sem medo de desafios nem do perigo. Isso deve fazer a cabeça de mulheres, que por mais independentes que sejam hoje, são atraídas por homens com recursos e meios capazes de protegê-las. 

Para esses caras, problemas são comidos no café da manhã, simples assim. 

Se restar algo pendente, uma boa dose de birita no bar com os amigos e falar bastante mal do chefe e do político da vez resolve as coisas. 

Essas características estão sumindo – para o bem ou para o mal, e isso tem a ver com o espírito de nossa época, que vem mudando desde o fim da Guerra Fria. 

 

A influência dos tempos de guerra sobre o cinema e sobre a personalidade

 

O afastamento progressivo dos tempos de guerra, que precisam, de fato, de homens belicosos e durões, nos deu uma amolecida. Isso é natural, já que as gerações hoje nascem em meio à relativa paz. Não temos mais um grande medo a compartilhar mundialmente, como a guerra. 

Num nível individual, pode ser que esse estilo esteja falhando como um solucionador de problemas. Ao invés de resolver pepinos, as pessoas acabam achando que é melhor reprimi-los. Talvez isso explique o motivo pelo qual, em homens, a agressividade possa ser um sintoma de depressão. 

 

O maniqueísmo está sendo deixado de lado

 

Vivemos também numa realidade muito mais complexa. Em tempos de Guerra Fria, um clima de dualismo rondava as esferas da moralidade e da política. Era o bem e o mal, o preto e o branco. 

Atualmente, num cenário internacional bem mais pacífico, demoramos mais para extrair um padrão moral (certo ou errado) da realidade. Vemos uma enorme gama de cores intermediárias, não apenas o preto e o branco. 

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Se os próprios americanos começam a querer eliminar seu maior símbolo do “bem” contra o “mal”, é porque eles não sabem mais tão claramente o que é bom e o que é mau.

Esse, inclusive, é um dos dilemas do Capitão América, tanto nos quadrinhos quanto nos filmes. Ele, um soldado da Segunda Guerra Mundial, foi parar numa época totalmente diferente, cujo zeitgeist refuta toda a sua filosofia de vida. 

A partir dos anos 90 passa a diminuir os personagens e as histórias maniqueístas e vem os enredos mais mistos. 

Nossas melhores produções hoje combinam essa confusão na bússola moral, antes apontada somente para o norte. Histórias que nos permitem questionar o que é a virtude e o que é o vício, quem está certo e quem está errado, são as que mais instigam. 

O estilo dos personagens mais atuais indica que estamos repensando a filosofia de vida do macho dos anos 80. A chegada dos brucutus-coração-mole, essa espécie que acaba de ser descoberta, combina elementos um tanto contraditórios entre si, mas cuja combinação resulta numa liga fortíssima quando entrelaçados adequadamente. 

Duas boas referências desse novo universo masculino é o Rocky Balboa do sexto filme da série Rocky e Rust Cohle, da série True Detective. Os dois mantém uma postura badass, mas o primeiro parece sábio, reflexivo e com disposição para os desafios que virão, enquanto o outro é mais pessimista e desorientado. Ambos estão muito mais articulados e falastrões do que o típico brucutu. Sobre Rocky, basta assistir a esse discurso inspirador para entender o que estou falando. 

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Muitos outros filmes e séries poderiam compor um infográfico recheado de personagens e histórias que ajudam a contar o rumo da filosofia pessoal das pessoas desde a Guerra Fria até hoje. A sétima arte ajuda muito bem a traçar essa jornada na medida em que é espelho e ourives do mundo. A julgar por esse critério, então, diria que o novo modo de viver e se relacionar com o mundo é estar disposto a ser  prático, rápido e objetivo como uma katana, mas ao mesmo tempo, analítico, disposto ao diálogo e à reflexão, adicionar uma dose de sensibilidade. De fato, creio que um indivíduo que aprendeu a conciliar essa multiplicidade de traços está preparado para a maioria dos dilemas da vida.

escrito por:

Felipe Novaes

Já quis ser paleontólogo, biólogo, astrônomo, filósofo e neurocientista, mas parece ter se encontrado na psicologia evolucionista. Nas horas vagas lê compulsivamente, escreve textos sobre a vida, o universo e tudo mais, e arruma um tempinho para o Positrônico Podcast. Contudo, durante todo o tempo procura se aprimorar na sabedoria e nas artes jedis do aikido.


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