Vamos partir do princípio de que existe um brasileiro sensato, racional e razoável, desapegado de paixões partidárias e ideológicas. Essa descrição pode parecer, para alguns, o equivalente do unicórnio na vida cotidiana brasileira, ou até mesmo uma máscara da alienação burguesa.

Porém, vamos supor que ele exista, e que seja muito mais frequente do que os pessimistas gostam de estimar. Na verdade, digamos que o brasileiro sensato forme a maioria silenciosa.

Maioria silenciosa, mas intimidada, assustada até, ante a fúria dos apaixonados e fanáticos que vociferam tanto à direita como à esquerda. Esses versos de Yeats poderiam descrever o Brasil: aos melhores falta ânimo, enquanto os piores estão cheios de apaixonada intensidade.

Digamos que esse unicórnio, o brasileiro sensato, pensaria como alguém racional de qualquer país do mundo em que a democracia e a república são conceitos razoavelmente bem assimilados. Esse sujeito logo chegaria a algumas conclusões evidentes sobre a história recente de seu país.

Em primeiro lugar, concluiria que um presidente descoberto em plena negociata do envio de uma mala com uma primeira parcela de quinhentos mil reais, entregue por meio de um suplente de deputado de sua confiança, não pode, decididamente não pode, continuar a ser presidente. Da mesma forma como uma presidente que sentou em sua cadeira presidencial e observou silenciosa, afetando falsa ignorância, um escandaloso sistema de corrupção que sangrava reiteradamente os cofres públicos, não merecia ser presidente nas últimas eleições. Do mesmo modo que um candidato à Presidência que é suspeito de envolvimento com o tráfico de drogas e que é surpreendido falando de encontrar um intermediário que se possa matar no caso de haver problemas, não merecia ter vencido aquelas mesmas eleições de onde surgiram os dois anteriores.

Onde está o brasileiro sensato? Essa não parece ser uma brasileira sensata.

O brasileiro sensato deduz que se tratava de um jogo de cartas marcadas. Que a atual ruína já havia sido anunciada anos atrás. Pois os principais candidatos à Presidência de seu país, e a tropa de político que os acompanhava nas eleições passadas, eram apenas instrumentos de quadrilhas criminosas.

O brasileiro sensato, então, respira fundo e desvia seu olhar da cadeira de Chefe do Executivo, e dá atenção ao Poder Legislativo. Talvez encontre algum alento.

Mas ali, de imediato, constata que a maioria dos deputados e senadores de seu país participam, em menor ou maior grau, de grandes esquemas de corrupção envolvendo grandes empresários. Observa, também, que a corrupção não tinha partido ou ideologia – na verdade, a ideologia era utilizada para manipular e mobilizar parte da população.

Esses esquemas já estavam tão enraizados no governo e na máquina pública que a corrupção havia passado a uma nova fase, em que não se pagava propina em troca de um favor específico. Nessa nova etapa, a propina era entregue com regularidade, ou quase sempre que solicitado, em troca de um compromisso constante de abrir portas e oferecer facilidades ao agente corruptor. Esse novo funcionamento do sistema era tão sofisticado que havia profissionais da intermediação do fluxo constante de propina (os tais “operadores do sistema” como Fernando Baiano), departamentos especializados no organograma empresarial (como o “Departamento de Operações Estruturadas” da Odebrecht) e programas de computadores destinados a manter o controle contábil dos gastos das empresas com corrupção (como o “Sistema Drousys”).

O brasileiro sensato, respirando mais fundo ainda, constata que, na prática, grandes quadrilhas empresariais sangravam o país com a ajuda de deputados e senadores que, por sua vez, também sangravam o país eles próprios, convertendo partidos políticos legítimos em quadrilhas criminosas destinadas a roubar o povo que os elegeu.

Não, aqui não há nenhum brasileiro sensato.

Essas quadrilhas partidárias, na prática pouco diferentes dos grupos de traficantes que disputam entre si o território de uma favela, em cada eleição disputavam entre si o poder, manipulando a opinião pública com retórica ideológica tanto de esquerda como de direita.

Porém, assim como as organizações criminosas que se uniram para formar o PCC, as quadrilhas partidárias que controlam o cenário político nacional aprenderam a se unir para lutar contra o mesmo inimigo em comum: a Justiça.

E então o brasileiro sensato olha, já meio em desespero, para a Justiça. Ali tampouco encontra muito alento, pois observa alguns ministros do Supremo Tribunal Federal começarem a aumentar o tom de voz, gesticulado teatralmente (e com certo histerismo) contra denúncias, operações policiais, delações criminosas e prisões determinadas por juízes de primeiro grau. E algo cheira podre quando o Presidente da República e políticos acusados de graves crimes fazem reunião secreta com tais ministros na véspera do dia em que é escolhido o nome da pessoa que substituirá justo quem os acusa.

É quando o brasileiro sensato perde a sensatez. É neste momento em que ele pode decidir montar, em praça pública, as guilhotinas.

Afinal, é sensato dizer que uma república iniciada por militares, e não civis, já não começava muito bem, precisando de alguns ajustes para legitimar-se como espaço para a democracia. Mas alguns ajustes nunca foram feitos, e outros até se aprofundarem ao ponto de colocarem o país na CTI, padecendo dessa metástase que é a corrupção.

Parece sensato dizer que, às vezes, uma república precisa nascer de forma mais violenta, no “estilo francês”, por assim dizer. Nem todo o país tem a sorte de ter encontrando todas as condições necessárias para que a república nascesse sem cortar muitas cabeças, no estilo norte-americano.

Sendo assim, conclui o brasileiro sensato, é chegada a hora de refundar a república no Brasil. E refundar não com proclamações oficiais em praça pública, cheias de pompa e disciplina militar, tampouco com uma carta de intenções tão cheia de nobres intenções como a de Thomas Jefferson. Talvez seja preciso refundar com sangue, com cabeças rolando.

República à moda francesa.

“Vamos montar as guilhotinas em praça pública, vamos enfileirar todos esses ladrões, vamos cortar todas as cabeças de deputados, senadores e presidentes”. Diria o brasileiro sensato. “Nos primeiros dias da nova democracia, a votação será para decidirmos a ordem, quem terá a cabeça cortada em primeiro lugar. A seguir, elegemos alguns de nós para governar o país em nosso nome, mas já preparando a guilhotina se houver qualquer vacilo.

O que incomoda na insensatez do brasileiro sensato é que mesmo nela há método. E ainda por cima podemos compreender suas razões. Ele conclui, com razão, que a República em que vive foi sequestrada por grandes quadrilhas criminosas, algumas travestidas de empresários, outras de políticos. Ele conclui, com razão, que essa república já foi tão abusada e explorada que na prática ele próprio tem sido objeto de abuso. Portanto, o mais razoável, o mais racional, é refundar a República no sangue de seus estupradores.

O problema, e o que faz esse raciocínio insensato, é que sempre precisamos responder a seguinte pergunta: quem será o carrasco?

Sempre que escolhemos o caminho da violência, é preciso encarregar alguém de praticar a violência. O homem sensato seria incapaz de cometer qualquer ato de brutalidade – ele é sensato, a final. Portanto, é natural que encarregue alguém de fazer o trabalho sujo em seu nome. E nessas horas aqueles que surgem, que se revelam em meio a multidão para fazer o serviço são sempre os piores. E nunca é inteligente, sensato, colocar o poder de exercer a violência em nome do Estado nas mãos dos piores entre nós. No final, pode-se estar escolhendo aquele que terá a última palavra sobre quem deve subir no cadafalso, qual cabeça que merece ser cortada.

Corremos o risco de eleger o nosso próprio carrasco.

O brasileiro sensato precisa despertar antes que esse pesadelo se concretize. O dia em que o cidadão sensato começa a montar em praça pública a guilhotina é um dia de desgraça para qualquer sociedade.

Felizmente, no nosso caso, há ainda uma última esperança. E ela não tarda mais do que alguns meses.

O brasileiro sensato talvez não exista. Talvez seja um unicórnio. Mas se o brasileiro sensato existir, e compor uma maioria silenciosa, então ele tem pouco mais de um ano para salvar o país.

O destino do Brasil não precisa ser ou o abuso reiterado por quadrilhas de criminosos ou o reino do terror em que mandam os carrascos. Há, ainda, um ano para que o brasileiro sensato reúna-se com todo os outros brasileiros sensatos e decida uma fórmula justa, apartidária, democrática e republicana para, pela eleição, afastar todos os corruptos do poder. Nas próximas eleições, talvez nem todos os brasileiros sensatos concordem em quem votar, mas podem chegar a um bom acordo sobre e quem jamais votar.

  • Lucas Lima Marques

    “brasileiro sensato reúna-se com todo os outros brasileiros sensatos ”

    olha, eu vou ser pessimista em relação a isso (mesmo que no fundo eu não queira acreditar nisto). mas isso, assim como a proposta do Ano Zero, é uma utopia. acredito que a reunião dos sensatos não teria o mesmo tamanho da reunião dos cretinos fundamentais, é muito desproporcional. que chance teriam os sensatos?

    • Anthony Coldebella

      Os sensatos, diferentemente dos apaixonados, estão acomodados. Nos falta senso coletivo, falta organização, e isso é estrutural do nosso país. Os sensatos têm sim chances, porém, depende de todo um contexto a ser mudado, começando pela consciência individual – e nisso, o Ano Zero vem sendo um dos carros chefes, ao menos para mim.

      • Lucas Lima Marques

        Anthony, tudo bom?

        o que mudou depois que você começou a acompanhar o AZ?

        • Anthony Coldebella

          Tudo ótimo, e você?

          Tem pouco tempo que eu acompanho, na verdade, mas o principal ponto que eu vejo que houve uma evolução pessoal no sentido de “compreender” a complexidade de tudo. A gente sempre é ensinado na escola com um viés de simplificação, talvez por questões didáticas, e acompanhar as discussões que eles trazem me instiga a descobrir sempre mais. Esse tipo de discurso parece até clichê, mas é a verdade ahahah. E você? Tem muito tempo que acompanha?

          • Lucas Lima Marques

            comecei a acompanhar recentemente, ainda estou descobrindo o site e outros escritores além do Victor.

        • Cássio Alexandre

          A pergunta também pode servir a mim? hehe

          Eu acompanho o Ano Zero há um tempo considerável e posso falar que algo que mudou em mim após leitura dos conteúdos do site é o fato de analisar uma dada situação sob diversas perspectivas. Se antes eu tinha um lado, hoje eu já tendo a ser mais ‘desconfiado’ e a tentar ver a situação em diversos pontos de vista, porque na verdade não existe bons e maus nesse mundo, que é a forma que aprendemos a enxergar durante a vida.

  • Ligeiro

    Não sei se alguém aqui já leu os quadrinhos (ou viu a série) chamada “Death Note”, onde um jovem encontra um caderno onde colocando o nome do alvo, este alvo é assassinado.

    A história, como várias distopias por aí (até hoje me devo à leitura de “Crime e Castigo”), faz um exercício similar de comparação de “carrasco” e “sociedade”, onde o jovem se julga um “deus julgador contra crimes”, e no final é tratado como um assassino em série, sendo que até a própria sociedade em partes apoiava as atitudes do tal “deus”. E este tal “deus” nada mais era que um garoto com exímia inteligência, mas que no fundo tinha um ego ainda não provocado desde então – só quando começou a usar o caderno e praticar as mortes, tal como um carrasco “cortando cabeças”, sua vaidade acabou lhe superando.

    A dita “falta de sensatez” proposta aqui tem um problema – parte do princípio que quem lê e apoia a matéria tem um conceito exato sobre sensatez, sendo que muitas vezes a origem daquele que tira uma foto com policiais, ou vira um carro e bota fogo em algo para chamar a atenção, dá um outro ponto de equilíbrio para a sensatez; sendo para cada lado o ponto de equilíbrio baseado em suas relações sociais e aprendizagem. De um lado, a pessoa que para o outro “nasceu em um berço de ouro”, com ensino de maior conteúdo, roda social com regulações e preconceitos. Do outro lado, a pessoa que para o outro “nasceu em um lugar qualquer”, sem tanto ensino (ou não deu atenção para este), roda social não tão regulada mas com visão de algoz, etc…

    O equilíbrio necessário ainda não se tem neste país pois além da falta de uma educação – esta necessária para ensinar as pessoas os limites do conhecimento e das relações sociais –
    dedicada a ajustar a esta balança, precisamos de partir do princípio que as pessoas veem muitas vezes alguém que aparenta inteligência com alguma ressalva. E no final, talvez por falar algo que as pessoas não querem escutar, é levado na guilhotina no lugar daquele que tinha dinheiro no bolso e ofereceu ao carrasco para fugir da lâmina. Ou era amigo do carrasco e o segundo deixou o amigo fugir pela amizade (com o risco de ter a cabeça cortada no lugar do amigo).

  • Aluiz Henrique Marques Linhare

    Brasileiros sensatos deveriam conversar mais entre si. Propor dar um fim na discussão do que deu errado e construir o planejamento do que será o país depois dessa bancarrota. Eu sou sensato e não acredito em carrascos e nem em unicórnios.