Capa do artigo "A bondade inerente ao homem", de Rodolfo Dall'Agno. Na imagem, Rousseau colorizado.

A bondade inerente ao homem

Em Comportamento, Consciência, Filosofia por Rodolfo Dall'AgnoComentários

As filo­so­fias, ide­o­lo­gias e teo­rias atu­ais a res­peito da essên­cia e natu­reza humana, devido a inú­me­ros fato­res que vão desde uma rea­ção ao Roman­tismo até a influ­en­cia das ideias darwi­nis­tas, em geral defen­dem a posi­ção de que o homem é pura­mente ins­tin­tivo ou até “mau” em essên­cia.

Entre­tanto, há tam­bém na his­tó­ria moderna ideias que ado­tam o extremo oposto disso, em que a natu­reza humana é tida como boa de maneira dema­si­ada ino­cente, a exem­plo do bom sel­va­gem de Rous­seau.

De maneira super­fi­cial e até injusta, mas útil para uma pri­meira visu­a­li­za­ção, pode­-se dizer que a posi­ção dos povos da Anti­gui­dade sobre o assunto é um ponto medi­ano entre esses dois extre­mos. Colo­cada de maneira prag­má­tica e crua, era mais ou menos assim: por natu­reza o homem é bom, entre­tanto, por natu­reza o homem tam­bém é livre para não ser quem ele é, logo é livre para não ser bom. Desta forma, surge o mal, que é jus­ta­mente ir con­tra nossa essên­cia, e não ir de encon­tro a ela.

Aristóteles no Louvre | bondade humanaAris­tó­te­les, em Ética a Nicô­maco, entende que a per­fei­ção de cada coisa está em cum­prir bem a sua fun­ção. Um flau­tista é um bom flau­tista quando toca bem seu ins­tru­mento, um moto­rista é um bom moto­rista quando dirige bem, um olho é um bom olho quando enxerga bem, etc. E assim como todas as coi­sas, Aris­tó­te­les pre­sume que o homem tam­bém tenha a sua fun­ção. O homem que cum­pre bem essa fun­ção, logo, é um bom homem.

Bus­cando a ati­vi­dade que é pró­pria do ser humano, Aris­tó­te­les des­car­tou a vida, pois esta é comum tam­bém às plan­tas e aos ani­mais, e excluiu tam­bém os pra­ze­res e as per­cep­ções dos sen­ti­dos, que é a feli­ci­dade pró­pria dos ani­mais. Res­tou o ele­mento raci­o­nal e as vir­tu­des — essas sim são exclu­si­vas dos seres huma­nos.

O filó­sofo argu­menta que cada coisa se rea­liza a par­tir daquilo que lhe cabe. Desse modo, assim como um toca­dor de flauta se rea­liza como toca­dor de flauta quando cum­pre bem a sua fun­ção, tam­bém o homem que desen­volve suas vir­tu­des e obe­dece o seu prin­cí­pio raci­o­nal e cons­ci­ente, se rea­liza como homem.

O que ocorre é que, ao con­trá­rio das plan­tas e dos ani­mais, o homem pos­sui o livre-arbí­trio, ou seja, a capa­ci­dade de não ser aquilo que é. Entre­tanto, é natu­ral e espe­rado que todas as coi­sas quei­ram se rea­li­zar e ser feli­zes; mas se ser feliz e rea­li­zado é cum­prir bem a sua fun­ção, por que dia­bos o ser humano não a cum­pre e esco­lhe o sofri­mento de ser o que não é? Está aí um bom argu­mento para acre­di­tar que todo esse raci­o­cí­nio é inco­e­rente, e por­tanto a natu­reza do homem é má ou per­versa.

Pla­tão res­ponde a esse pro­blema da seguinte forma: temos tanto poder, liber­dade e pos­si­bi­li­da­des de ser­mos quem não somos, que aca­ba­mos esque­cendo quem real­mente somos, a ponto de ficar­mos pre­sos em tal liber­dade, para­do­xal­mente. É nesse sen­tido que Pla­tão fala que o maior mal é o esque­ci­mento, e que conhe­ci­mento é lem­brar. É claro, se esque­ce­mos quem somos, cor­re­mos o grande risco de agir em desa­cordo com nós mes­mos, e por­tanto, de sofrer; como um pato que insiste em agir como um cão, esque­cendo-se com­ple­ta­mente que na ver­dade é um pato. O quão mais feliz e rea­li­zado seria o pato se lem­brasse e agisse como um pato! E mais ainda, se agisse como um bom pato, diria Aris­tó­te­les.

A Índia védica, e pos­te­ri­or­mente o Budismo, utilizava-­se dos con­cei­tos de dharmakarma para expli­car a mesma ideia, ou pelo menos de maneira bas­tante aná­loga. O dharma é a lei, o modelo de algo, o vir­-a-­ser per­feito que ins­pira algo a aprimorar­-se. O karma é o que empurra a essa lei, cor­ri­gindo o que dela escapa.

Vamos pegar o exem­plo do pato nova­mente. O dharma do pato é ser um pato. Acaso ele teime em ser um cachorro, evi­den­te­mente sofrerá as con­seqüên­cias do karma, ou seja, vai sofrer, até que final­mente aprenda e aceite que ele é um pato, e passe a viver e portar-­se como um. O inte­res­sante é que na ver­dade o pato sem­pre quis ser pato, pois quem não quer ser feliz e rea­li­zado? O pro­blema é achar que isso pode ocor­rer sendo como os cães, quando o pato esque­ceu-se de quem real­mente era.

Pato Donald | bondade humana

Porém, nenhum pato ten­tará ser como os cães. Eles não têm essa pos­si­bi­li­dade. Nós temos. Será essa liber­dade, vulgo livre-­arbítrio, uma mal­di­ção ou uma bên­ção? Real­mente aca­ba­mos sofrendo por isso, mas não existe tam­bém a pres­ti­gi­osa pos­si­bi­li­dade de lem­brar quem somos e agir como tal? E então é que uma ver­da­deira gló­ria poderá ser sen­tida, pois aí agi­re­mos por con­vic­ção e cons­ci­ên­cia, e não por uma impo­si­ção da natu­reza.

Mas devo vol­tar ao tema do texto e colo­car os pés mais no chão. Toda essa argu­men­ta­ção é sufi­ci­ente para expli­car e jus­ti­fi­car todas as bar­ba­ri­da­des e mal­da­des que temos con­tato todos os dias por meio da mídia? É fácil ser levado pela emo­ção e pre­su­mir que somos todos medo­nhos e per­ver­sos; e é infe­liz­mente fácil desis­tir do ser humano e per­der a espe­rança.

O fato é que é pos­sí­vel olhar para as injus­ti­ças do coti­di­ano e tirar uma des­sas duas con­clu­sões:

  1. O ser humano é per­verso e por isso há tanta injus­tiça e mal­dade; ou
  2. Esta­mos em tão desa­cordo e tão esque­ci­dos de nossa essên­cia vir­tu­osa, raci­o­nal e bon­dosa, que con­se­gui­mos sofrer e rea­li­zar as coi­sas mais impró­prias e inco­e­ren­tes para seres huma­nos.

Creio que mui­tas vezes é mais fácil tirar a con­clu­são numero 1. A número 2 exige no mínimo um ques­ti­o­na­mento de todos os ide­ais e nor­te­a­do­res da soci­e­dade moderna, que mui­tas vezes estão extre­ma­mente arrai­ga­das em nossa iden­ti­dade. Valo­res como o indi­vi­du­a­lismo, a igual­dade, e prin­ci­pal­mente o mate­ri­a­lismo, além de outros cujo sim­ples ques­ti­o­na­mento já é um tabu, como a demo­cra­cia, devem ser pos­tos em che­que quando esco­lhe­mos pela con­clu­são número 2. Corre­-se o grande risco de ficar sem chão, sem algo para substituí­-los.

Assim, cria-se teo­rias psi­co­ló­gi­cas, econô­mi­cas, cien­tí­fi­cas e polí­ti­cas que, com hon­ro­sas exce­ções, não estão a ser­viço da ver­dade. Sin­ce­ra­mente, mui­tas me pare­cem sim­ples­mente defe­sas elu­cu­bra­ti­vas tra­ves­ti­das com inte­lec­tu­a­lismo, pro­cu­rando jus­ti­fi­car nos­sas maze­las e fazer pre­va­le­cer os valo­res mate­ri­a­lis­tas, os quais estão tão arrai­ga­dos que, para nós, é extre­ma­mente dolo­rido desa­pe­gar. Somos patos muito tei­mo­sos.

Os gran­des desa­fios e pro­ble­mas dos homens foram e sem­pre serão os mes­mos, seja na Anti­gui­dade, seja hoje, seja daqui a dez mil anos. Como relacionar-­se con­sigo, com os outros e com Deus? Como lidar com as emo­ções, pai­xões e ape­gos? Como ser justo? Como amar? Como lidar com o egoísmo? Como ser feliz? Como viver? Não será tudo isso o essen­cial que, se sou­bés­se­mos (ou lem­brás­se­mos?), pode­ría­mos ser feli­zes? Levando isso tudo em conta, não me parece inte­res­sar tanto se temos inter­net ou se somos nôma­des vivendo em caver­nas.

Em meio a tan­tas ino­va­ções, novi­da­des tec­no­ló­gi­cas e estí­mu­los, ainda creio que o cami­nho para a rea­li­za­ção, ape­sar de não estar muito na moda, ­con­ti­nua sendo o mesmo pro­posto pelos filó­so­fos e sábios da Anti­gui­dade: ser bom, justo, moral, ético, belo, nobre, vir­tu­oso e sábio. Em outras pala­vras, ser humano.


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Rodolfo Dall'Agno
Psicologia de formação, mas música e filosofia de coração. Participante do programa Empresa Viva. Buscador de essências.

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