As filosofias, ideologias e teorias atuais a respeito da essência e natureza humana, devido a inúmeros fatores que vão desde uma reação ao Romantismo até a influencia das ideias darwinistas, em geral defendem a posição de que o homem é puramente instintivo ou até “mau” em essência.

Entretanto, há também na história moderna ideias que adotam o extremo oposto disso, em que a natureza humana é tida como boa de maneira demasiada inocente, a exemplo do bom selvagem de Rousseau.

De maneira superficial e até injusta, mas útil para uma primeira visualização, pode­-se dizer que a posição dos povos da Antiguidade sobre o assunto é um ponto mediano entre esses dois extremos. Colocada de maneira pragmática e crua, era mais ou menos assim: por natureza o homem é bom, entretanto, por natureza o homem também é livre para não ser quem ele é, logo é livre para não ser bom. Desta forma, surge o mal, que é justamente ir contra nossa essência, e não ir de encontro a ela.

Aristóteles no Louvre | bondade humanaAristóteles, em Ética a Nicômaco, entende que a perfeição de cada coisa está em cumprir bem a sua função. Um flautista é um bom flautista quando toca bem seu instrumento, um motorista é um bom motorista quando dirige bem, um olho é um bom olho quando enxerga bem, etc. E assim como todas as coisas, Aristóteles presume que o homem também tenha a sua função. O homem que cumpre bem essa função, logo, é um bom homem.

Buscando a atividade que é própria do ser humano, Aristóteles descartou a vida, pois esta é comum também às plantas e aos animais, e excluiu também os prazeres e as percepções dos sentidos, que é a felicidade própria dos animais. Restou o elemento racional e as virtudes – essas sim são exclusivas dos seres humanos.

O filósofo argumenta que cada coisa se realiza a partir daquilo que lhe cabe. Desse modo, assim como um tocador de flauta se realiza como tocador de flauta quando cumpre bem a sua função, também o homem que desenvolve suas virtudes e obedece o seu princípio racional e consciente, se realiza como homem.

O que ocorre é que, ao contrário das plantas e dos animais, o homem possui o livre-arbítrio, ou seja, a capacidade de não ser aquilo que é. Entretanto, é natural e esperado que todas as coisas queiram se realizar e ser felizes; mas se ser feliz e realizado é cumprir bem a sua função, por que diabos o ser humano não a cumpre e escolhe o sofrimento de ser o que não é? Está aí um bom argumento para acreditar que todo esse raciocínio é incoerente, e portanto a natureza do homem é má ou perversa.

Platão responde a esse problema da seguinte forma: temos tanto poder, liberdade e possibilidades de sermos quem não somos, que acabamos esquecendo quem realmente somos, a ponto de ficarmos presos em tal liberdade, paradoxalmente. É nesse sentido que Platão fala que o maior mal é o esquecimento, e que conhecimento é lembrar. É claro, se esquecemos quem somos, corremos o grande risco de agir em desacordo com nós mesmos, e portanto, de sofrer; como um pato que insiste em agir como um cão, esquecendo-se completamente que na verdade é um pato. O quão mais feliz e realizado seria o pato se lembrasse e agisse como um pato! E mais ainda, se agisse como um bom pato, diria Aristóteles.

A Índia védica, e posteriormente o Budismo, utilizava-­se dos conceitos de dharmakarma para explicar a mesma ideia, ou pelo menos de maneira bastante análoga. O dharma é a lei, o modelo de algo, o vir­-a-­ser perfeito que inspira algo a aprimorar­-se. O karma é o que empurra a essa lei, corrigindo o que dela escapa.

Vamos pegar o exemplo do pato novamente. O dharma do pato é ser um pato. Acaso ele teime em ser um cachorro, evidentemente sofrerá as conseqüências do karma, ou seja, vai sofrer, até que finalmente aprenda e aceite que ele é um pato, e passe a viver e portar-­se como um. O interessante é que na verdade o pato sempre quis ser pato, pois quem não quer ser feliz e realizado? O problema é achar que isso pode ocorrer sendo como os cães, quando o pato esqueceu-se de quem realmente era.

Pato Donald | bondade humana

Porém, nenhum pato tentará ser como os cães. Eles não têm essa possibilidade. Nós temos. Será essa liberdade, vulgo livre-­arbítrio, uma maldição ou uma bênção? Realmente acabamos sofrendo por isso, mas não existe também a prestigiosa possibilidade de lembrar quem somos e agir como tal? E então é que uma verdadeira glória poderá ser sentida, pois aí agiremos por convicção e consciência, e não por uma imposição da natureza.

Mas devo voltar ao tema do texto e colocar os pés mais no chão. Toda essa argumentação é suficiente para explicar e justificar todas as barbaridades e maldades que temos contato todos os dias por meio da mídia? É fácil ser levado pela emoção e presumir que somos todos medonhos e perversos; e é infelizmente fácil desistir do ser humano e perder a esperança.

O fato é que é possível olhar para as injustiças do cotidiano e tirar uma dessas duas conclusões:

  1. O ser humano é perverso e por isso há tanta injustiça e maldade; ou
  2. Estamos em tão desacordo e tão esquecidos de nossa essência virtuosa, racional e bondosa, que conseguimos sofrer e realizar as coisas mais impróprias e incoerentes para seres humanos.

Creio que muitas vezes é mais fácil tirar a conclusão numero 1. A número 2 exige no mínimo um questionamento de todos os ideais e norteadores da sociedade moderna, que muitas vezes estão extremamente arraigadas em nossa identidade. Valores como o individualismo, a igualdade, e principalmente o materialismo, além de outros cujo simples questionamento já é um tabu, como a democracia, devem ser postos em cheque quando escolhemos pela conclusão número 2. Corre­-se o grande risco de ficar sem chão, sem algo para substituí­-los.

Assim, cria-se teorias psicológicas, econômicas, científicas e políticas que, com honrosas exceções, não estão a serviço da verdade. Sinceramente, muitas me parecem simplesmente defesas elucubrativas travestidas com intelectualismo, procurando justificar nossas mazelas e fazer prevalecer os valores materialistas, os quais estão tão arraigados que, para nós, é extremamente dolorido desapegar. Somos patos muito teimosos.

Os grandes desafios e problemas dos homens foram e sempre serão os mesmos, seja na Antiguidade, seja hoje, seja daqui a dez mil anos. Como relacionar-­se consigo, com os outros e com Deus? Como lidar com as emoções, paixões e apegos? Como ser justo? Como amar? Como lidar com o egoísmo? Como ser feliz? Como viver? Não será tudo isso o essencial que, se soubéssemos (ou lembrássemos?), poderíamos ser felizes? Levando isso tudo em conta, não me parece interessar tanto se temos internet ou se somos nômades vivendo em cavernas.

Em meio a tantas inovações, novidades tecnológicas e estímulos, ainda creio que o caminho para a realização, apesar de não estar muito na moda, ­continua sendo o mesmo proposto pelos filósofos e sábios da Antiguidade: ser bom, justo, moral, ético, belo, nobre, virtuoso e sábio. Em outras palavras, ser humano.


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escrito por:

Rodolfo Dall'Agno

Músico, mas graduando para ser psicólogo nas horas vagas. Tenta ao máximo ser escravo dos deuses, ou seja, livre.


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