bom debate intelectual

As virtudes esquecidas de um bom debate intelectual

Em Comportamento, Consciência, Sociedade por Felipe NovaesComentários

(…) pri­meiro, os padrões de boa evi­dên­cia, da crença jus­ti­fi­cada,
do conhe­ci­mento con­fiá­vel etc. este­jam vin­cu­la­dos à
cul­tura ou à comu­ni­da­des; e, segundo, que a inves­ti­ga­ção é,
ine­vi­ta­vel­mente, dis­far­ça­da­mente polí­tica. A pri­meira des­sas é
desa­len­ta­do­ra­mente cética em sua ten­dên­cia, e a segunda é
com­ple­ta­mente assus­ta­dora: se todas as inves­ti­ga­ções fos­sem
real­mente polí­ti­cas, não have­ria qual­quer dife­rença entre
conhe­ci­mento e pes­quisa advo­ca­tí­cia, entre
a inves­ti­ga­ção e o jogo da retó­rica.”

~ Susan Haack

Sem­pre pen­sei na uni­ver­si­dade como um local para se pen­sar livre­mente, para dis­cu­tir sobre todo tipo de ideias, inclu­sive as mais polê­mi­cas. Entre­tanto, pelo menos de acordo com o que tenho vivido ulti­ma­mente como uni­ver­si­tá­rio — e pelo que leio por aí -, só me resta pen­sar que sou um dos pou­cos que ainda com­par­ti­lha dessa visão, pois mui­tos veem a uni­ver­si­dade ape­nas como uma fábrica de mili­tan­tes polí­ti­cos, como um tem­plo onde se aprende o soci­al­mente cor­reto.

É claro que há um preço a pagar pela liber­dade inte­lec­tual. É como na demo­cra­cia, em que a liber­dade implica em, mui­tas vezes, ter­mos de ouvir e aguen­tar ideias bizar­ras e con­ser­va­do­ras. Quando todos são livres, todos tem de atu­rar a liber­dade do outro em algum momento, o que nem sem­pre é agra­dá­vel.

Entre­tanto, ser livre inte­lec­tu­al­mente não é sair por aí falando o que se quer. Por exem­plo, não posso pas­sar a defen­der que o elo per­dido entre cava­los e hipo­pó­ta­mos é o uni­cór­nio rosá­ceo, só por­que desejo que assim seja. A liber­dade pres­su­põe vir­tu­des extin­tas como bom senso, hones­ti­dade inte­lec­tual, apoio em argu­men­tos cui­da­do­sa­mente cons­truí­dos e em evi­dên­cias.

Em suma, não se deve subs­ti­tuir o raci­o­cí­nio crí­tico e pon­de­rado, além do poder da evi­dên­cia, por ide­o­lo­gia pura e sim­ples.

Cita­rei um breve comen­tá­rio fami­liar e duas tre­tas emble­má­ti­cas e recen­tes ocor­ri­das em ambi­en­tes uni­ver­si­tá­rios, e expli­ca­rei como ilus­tram fabu­lo­sa­mente a ausên­cia des­sas vir­tu­des inte­lec­tu­ais.

A inves­ti­ga­ção cien­tí­fica nos diz como DEVEMOS agir? Isso é polí­tica ou inves­ti­ga­ção?

Ágora - praça pública grega onde as pessoas circulavam e onde debates filosóficos eram travados publicamente. Bons tempos de busca honesta pelo conhecimento.

Ágora — praça pública grega onde as pes­soas cir­cu­la­vam e onde deba­tes filo­só­fi­cos eram tra­va­dos publi­ca­mente. Bons tem­pos de busca honesta pelo conhe­ci­mento.

 Uma vez estava em casa assis­tindo a um docu­men­tá­rio sobre emo­ções, e um famoso psi­có­logo espe­ci­a­lista em expres­sões faci­ais e emo­ções, come­çou a falar. Era Paul Ekman, cuja pes­quisa ficou popu­la­ri­zada pela série Lie To Me.

O entre­vis­ta­dor per­gun­tou o que era melhor, dar vazão à raiva ou não ceder aos impul­sos, não dar vazão a essa emo­ção. Quando minha mãe ouviu isso, ime­di­a­ta­mente disse: “ah, é claro que não deve­mos dei­xar a raiva tomar conta, não é? Não é o certo!”.

Minha mãe estava certa com rela­ção à moral. É claro que não é bom se dei­xar influ­en­ciar pela raiva e, diga­mos, sair chu­tando móveis e xin­gando os outros. Não é soci­al­mente dese­já­vel tam­bém. Mas a inves­ti­ga­ção cien­tí­fica não ques­ti­ona nem res­ponde a isso do ponto de vista ético. Como uma inves­ti­ga­ção cri­mi­nal, o obje­tivo é achar a ver­dade, não a res­posta moral­mente cor­reta.

Por acaso, Ekman mos­trou estu­dos que con­cluíam que não se dei­xar levar por essa emo­ção mui­tas vezes nega­tiva não era mesmo a melhor opção, pois a cada vez que cede­mos aos seus dita­mes, nos tor­na­mos ainda mais fra­cos para con­torná-la. Mas, se as pes­qui­sas aca­bas­sem encon­trando a res­posta con­trá­ria, isso deve­ria ser rela­tado tam­bém, pois a pes­quisa não é uma ques­tão de certo e errado. Um cien­tista pode até se posi­ci­o­nar eti­ca­mente sobre algum estudo, sobre se ele deve ser repor­tado ou não, sobre até mesmo se sua meto­do­lo­gia é ética, mas isso não tem a ver com a estru­tura do método cien­tí­fico em si.

 

O caso da USP: a briga é sobre política ou sobre fatos?

James Watson, ganhador de um Nobel, hoje condenado ao ostracismo acadêmico por contas de acusações de racismo. Não sei se houve direito a defesa.

James Wat­son, ganha­dor de um Nobel, hoje con­de­nado ao ostra­cismo aca­dê­mico por con­tas de acu­sa­ções de racismo. Não sei se houve direito a defesa.

 Recen­te­mente, na USP, um pro­fes­sor bri­tâ­nico, que minis­tra aulas sobre a lín­gua inglesa uti­li­zada em publi­ca­ções cien­tí­fi­cas, usou em sala um artigo bem polê­mico para fazer seus alu­nos exer­ci­ta­rem o idi­oma.

Era um texto de James Wat­son, o co-des­co­bri­dor da molé­cula dupla hélice de DNA, que falava sobre uma pos­sí­vel dife­rença gené­tica entre as etnias. Essas dife­ren­ças, segundo o cien­tista, pode­riam impli­car em dife­ren­tes graus de inte­li­gên­cia. Vale des­ta­car que, ao que as notí­cias sobre o caso indi­cam, o tal artigo era espe­cu­la­tivo, isto é, Wat­son não se base­ava em evi­dên­cias empí­ri­cas. Um tre­cho do resumo do artigo, publi­cado no Medi­cal Hypho­te­sis:

The pre­pon­de­rance of evi­dence demons­tra­tes that in intel­li­gence, brain size, and other life-his­tory vari­a­bles, East Asi­ans ave­rage a higher IQ and lar­ger brain than Euro­pe­ans who ave­rage a higher IQ and lar­ger brain than Afri­cans. Further, these group dif­fe­ren­ces are 50–80% heri­ta­ble.”

A hipó­tese parece se basear em dados (e sobre isso não vou me pro­nun­ciar, já que não tive a opor­tu­ni­dade de ler todo o artigo para saber que aná­li­ses e evi­dên­cias usa­ram) para mos­trar supe­ri­o­ri­dade de QI dos ori­en­tais frente aos cau­ca­si­a­nos, e des­tes em rela­ção aos afri­ca­nos. É polê­mico, de fato, e pode-se ques­ti­o­nar como sepa­ra­ram a influên­cia do ambi­ente da influên­cia gené­tica sobre o QI des­sas popu­la­ções, assim como o motivo pelo qual o pro­fes­sor usou logo esse artigo para dis­cu­tir mera­mente o inglês ins­tru­men­tal. Deve-se, de fato, apu­rar até que ponto o pro­fes­sor estava somente falando de uma tese polê­mica ou pra­ti­cando racismo. Se a ideia da dis­ci­plina sem­pre foi a dis­cus­são do idi­oma apli­cado à ciên­cia, de qual­quer forma, então não have­ria obri­ga­to­ri­e­dade de levar para sala de aula esse ou aquele tema.

Tal­vez o docente tenha usado um texto polê­mico exa­ta­mente para esti­mu­lar a dis­cus­são. A favor dessa ideia, tenho o exem­plo dos tedi­o­sos temas de clás­si­cas apos­ti­las de cur­sos de inglês, que não são lá muito ins­ti­gan­tes: via­gens, comida, cores, rou­pas, hábi­tos etc; quem dia­bos se sente moti­vado a dis­ser­tar e dar opi­nião sobre esses temas? Assun­tos polê­mi­cos e poten­ci­al­mente ofen­si­vos geral­mente tem esse poder de des­per­tar a von­tade de argu­men­tar,  ou sim­ples­mente de esban­jar raiva e indig­na­ção — o que tam­bém não garante dis­cus­são de qua­li­dade nem neces­sa­ri­a­mente é uma estra­té­gia inte­li­gente por parte do mode­ra­dor de uma dis­cus­são.

Alu­nos negros, assim, pode­riam se sen­tir ofen­di­dos com o pro­fes­sor ou com Wat­son, afi­nal, era um artigo que, que­rendo ou não, des­qua­li­fi­cava a inte­li­gên­cia dos afro­des­cen­den­tes com base em mera espe­cu­la­ção (não acre­dito que haja mesmo essa dife­rença de QI, mas o fato é que mesmo se exis­tisse, as pes­soas chi­a­riam, pois o que está em jogo aí não é uma ver­dade, mas o enten­di­mento polí­tico des­ses resul­ta­dos — e é per­ti­nente dizer que algu­mas pes­soas não enten­dem a dife­rença entre inves­ti­ga­ção cien­tí­fica e defesa advo­ca­tí­cia).

Assim, pode ser que não hou­vesse um plano vila­nesco por trás des­sas aulas, mas de fato foi um gesto polê­mico do pro­fes­sor. O que ele fez foi tão ofen­sivo e desa­tento quanto um cara con­tando pia­das sobre sogras bem num jan­tar com a famí­lia da namo­rada.

 

A diferença entre reportar um resultado e fazer uma defesa política

curvadosino
Outro evento ocor­reu no ano­ni­mato da uni­ver­si­dade onde estudo. Um pro­fes­sor levou dados sobre um livro bem polê­mico, The Bell Curve, que repor­tava dife­ren­ças no quo­ci­ente de inte­li­gên­cia (QI) entre repre­sen­tan­tes de várias etnias. A publi­ca­ção trata-se tam­bém de uma série de capí­tu­los falando sobre as pro­vá­veis influên­cias here­di­tá­rias e ambi­en­tais no QI, assim como o impacto da inte­li­gên­cia em diver­sos aspec­tos, como per­so­na­li­dade, pro­fis­são, posi­ção socio-econô­mica, cri­mi­na­li­dade etc.

Um grá­fico reti­rado do livro, e comen­tado em sala de aula, mos­trava que os QIs aumen­ta­vam ao longo de déca­das, pro­va­vel­mente devido a uma série de fato­res ambi­en­tais (Efeito Flynn), mas mesmo com esse aumento, o dos negros con­ti­nu­ava menor.

Houve uma longa polê­mica, e a indig­na­ção era tanta que alguns não ouvi­ram direito a expli­ca­ção para esses dados. O docente che­gou a expli­car que as bizar­ras dife­ren­ças de QI apon­ta­das foram atri­buí­das ao nível sócio-edu­ca­ci­o­nal de negros e bran­cos nos EUA. A mai­o­ria dos negros tem menor acesso à edu­ca­ção, e isso gera um menor desen­vol­vi­mento de QI ao longo da vida e das gera­ções — é um fator a menos para a ação do Efeito Flynn. Mas o obje­tivo era demons­trar que o ambi­ente é impor­tante para o desen­vol­vi­mento da inte­li­gên­cia, e que, por­tanto, o governo tem um papel cen­tral nisso enquanto cri­a­dor de polí­ti­cas públi­cas que pro­teja os cida­dãos. Falar sobre QI não é mera­mente dizer quem nasce mais ou menos inte­li­gente, isso é uma baita falá­cia; há os fato­res here­di­tá­rios, mas ele­men­tos como nutri­ção, estí­mu­los dis­po­ní­veis no lar, índi­ces de vio­lên­cia, estí­mu­los inte­lec­tu­ais na infân­cia e outros ele­men­tos, tem um papel impor­tan­tís­simo a desem­pe­nhar e pode trans­for­mar total­mente os cami­nhos suge­ri­dos pelas pre­dis­po­si­ções bio­ló­gi­cas. Bio­lo­gia não é des­tino, de forma alguma.

De alguma forma, várias pes­soas saí­ram ofen­di­das dessa aula, e pos­te­ri­or­mente trans­mi­ti­ram sua indig­na­ção para alu­nos que não assis­ti­ram a essa aula. Como todo tele­fone sem fio, o acon­te­cido já foi edi­tado e o que antes eram dados de um livro de 1994 já se trans­for­mou num empre­en­di­mento patro­ci­nado pelo pró­prio Hitler, na década de 90 (?), feito por ame­ri­ca­nos (?).

Con­tudo, não pode­mos negar o óbvio dessa situ­a­ção: por mais polê­mica que ela seja, tive­mos pes­soas se sen­tindo ofen­di­das em sala de aula, e isso deve ser ana­li­sado.

 

Uma pessoa pode estar errada sobre estar sofrendo?

"Theon está certo em sofrer? Sua dor é mesmo verdadeira?". Você tem coragem de contestar isso? Esse questionamento é mesmo coerente?

Theon está certo em sofrer? Sua dor é mesmo ver­da­deira?”. Você tem cora­gem de con­tes­tar isso? Esse ques­ti­o­na­mento é mesmo coe­rente?

Se alguém se fere com algo, não vira­mos as cos­tas e enten­de­mos que seus moti­vos são fúteis, nós aco­lhe­mos esse sen­ti­mento, afi­nal, ele é legí­timo enquanto tal. Não faz sen­tido dizer que uma pes­soa está errada ou está certa sobre o que ela está sen­tindo. A sen­sa­ção sub­je­tiva do sen­ti­mento, enquanto ele­mento de pri­meira pes­soa, é trans­pa­rente à aná­lise. O sujeito em ques­tão sabe sobre si melhor do que os que estão ao redor. Em prin­cí­pio, se uma pes­soa diz estar ofen­dida, ela real­mente está.

Ape­nas uma res­salva cabe, e é nesse ponto que acre­dito que a dis­cus­são deva entrar: ok, a pes­soa está sofrendo, em sua sub­je­ti­vi­dade ela teve moti­vos legí­ti­mos para isso; mas o que fez com que ela enca­rasse deter­mi­nado evento como digno de sus­ci­tar dor? Quais seus moti­vos para ter se ofen­dido?

Quando ques­ti­o­nada, a mai­o­ria se res­tringe a dizer que se uma pes­soa se sen­tiu ofen­dida com algo, é por­que teve moti­vos para isso, ponto. E essa defesa tende a se tor­nar ainda mais intran­si­gente quando é o sofri­mento de alguma mino­ria social que está em ques­tão. Em geral, essas pes­soas já são opri­mi­das pelo pró­prio modus ope­randi da soci­e­dade, então é con­si­de­rado reforço da opres­são negar que essa pes­soa tenha moti­vos legí­ti­mos para se ofen­der. O que dizem é que ela tem que estar certa, ponto.

Da forma como penso, se uma pes­soa se sente ofen­dida, uma expo­si­ção clara e meti­cu­losa do que ela está sen­tindo e do que oca­si­o­nou isso faz parte dos pas­sos neces­sá­rios para que tais moti­va­ções não vol­tem a ocor­rer — ou, se ocor­re­rem nova­mente, que se tenha um bom port­fó­lio de argu­men­tos para dizer “bom, eu avi­sei, você está errado por tais moti­vos e está rein­ci­dindo no erro, por­tanto, tais medi­das são cabí­veis”.

O que deve ser colo­cado em ques­tão, por­tanto, não é se há ou não sofri­mento, mas os moti­vos que leva­ram a esse sen­ti­mento. Pode ser que a ofensa tenha sido pro­du­zida por causa de uma inter­pre­ta­ção errada do que foi dito, e o escla­re­ci­mento disso pode­ria encer­rar um pro­blema com­plexo e des­gas­tante para todos os envol­vi­dos. Nesse segundo caso aca­dê­mico que cito, penso que há moti­vos mais que sufi­ci­en­tes para que acu­sa­ções de racismo sejam con­si­de­ra­das fru­tos de algum enten­di­mento detur­pado do que foi apre­sen­tado.

 

Na dúvida, escolha a “calma luz solar da mente”

Susan Haack, a filósofa que nos aconselha a usar a racionalidade e a coerência como a receita para uma boa e honesta investigação," a calma luz solar da mente".

Susan Haack, a filó­sofa que nos acon­se­lha a usar a raci­o­na­li­dade e a coe­rên­cia como a receita para uma boa e honesta inves­ti­ga­ção,” a calma luz solar da mente”.

O obje­tivo desse texto é expli­ci­tar as vir­tu­des que estão ausen­tes no meio aca­dê­mico, e para isso citei alguns exem­plos que demons­tram na prá­tica o que é isso.

Pro­fes­so­res e alu­nos devem ser, acima de tudo, com­pro­me­ti­dos com uma facul­dade básica de todo ambi­ente uni­ver­si­tá­rio: a arte de pen­sar clara e hones­ta­mente. Se um car­pin­teiro deve ser capaz de manu­sear bem a madeira, um inte­lec­tual deve ser capaz de mani­pu­lar bem as ideias, pen­sar com qua­li­dade — seja ele um cien­tista, um filó­sofo ou um eru­dito lite­rá­rio.

Isso sig­ni­fica que a pre­o­cu­pa­ção básica deve ser não ide­o­ló­gica ou polí­tica, mas filo­só­fica, nesse sen­tido men­ci­o­nado, de argu­men­tar cui­da­do­sa­mente e de encon­trar evi­dên­cias para fun­da­men­tar o que se alega. Se não exis­tir cla­reza no pen­sa­mento, a ati­vi­dade inte­lec­tual não poderá ser feita com qua­li­dade; sem esses ele­men­tos, não só defe­sas polí­ti­cas não pode­rão ser fei­tas ade­qua­da­mente, como tam­pouco será pos­sí­vel dis­tin­guir um debate polí­tico de um debate cien­tí­fico ou filo­só­fico, por exem­plo.

Nesse sen­tido, ide­o­lo­gias con­ser­va­do­ras e libe­rais come­tem esses tro­pe­ções cada uma em seu pró­prio nicho, difi­cul­tando a mili­tân­cia polí­tica e, mais ainda, o debate. O pro­blema chega ao ponto de argu­men­tos de auto­ri­dade — falá­cias — serem incen­ti­va­dos e vis­tos como argu­men­tos legí­ti­mos.

Um dos pro­ble­mas tal­vez seja a poli­ti­za­ção des­ses pon­tos cru­ci­ais: o valor da evi­dên­cia e da razão. Há uma frente aca­dê­mica que os des­le­gi­tima como sendo valo­res cri­a­dos por homens bran­cos, por­tanto, mulhe­res negras, por exem­plo, devem se basear em uma outra rea­li­dade, outra forma de defesa de seus pon­tos, nem que essas tais novas for­mas sejam o sen­ti­mento e as pala­vras de ordem — o que não é muito dife­rente dos este­reó­ti­pos mais clás­si­cos sobre as mulhe­res, de que elas são emo­ci­o­nais e que difi­cil­mente são capa­zes de pen­sar raci­o­nal­mente. Ou seja, para se com­ba­ter um suposto pre­con­ceito, se con­firma outro, mesmo sem per­ce­ber.

Pre­sumo que, por­tanto, um debate regido pela “calma luz solar da mente”, da razão, seja mais bem pro­vei­toso teo­ri­ca­mente e na prá­tica, em ter­mos de mili­tân­cia por deter­mi­nada causa. Fazer o con­trá­rio é nada mais do que repro­du­zir os tem­pos de caça às bru­xas ou de caça aos comu­nis­tas, nos EUA, em que cada pequena “prova” ambí­gua era uma evi­dên­cia incon­tes­tá­vel de bru­xa­ria ou de comu­nismo.

Nes­ses e em outros epi­só­dios fica claro que há séria con­fu­são na vida inte­lec­tual das uni­ver­si­da­des. É uma ótima estra­té­gia que a uni­ver­si­dade seja um dos pal­cos para o desen­vol­vi­mento e ama­du­re­ci­mento de mili­tan­tes soci­ais, afi­nal, é lá que o devido apri­mo­ra­mento vai pos­si­bi­li­tar que esses movi­men­tos tenham argu­men­tos mais coe­ren­tes e sóli­dos para sola­par o pre­con­ceito e a dis­cri­mi­na­ção.


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Felipe Novaes
Já quis ser paleontólogo, biólogo, astrônomo, filósofo e neurocientista, mas parece ter se encontrado na psicologia evolucionista. Nas horas vagas lê compulsivamente, escreve textos sobre a vida, o universo e tudo mais, e arruma um tempinho para o Positrônico Podcast. Contudo, durante todo o tempo procura se aprimorar na sabedoria e nas artes jedis do aikido.

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