“(…) primeiro, os padrões de boa evidência, da crença justificada,
do conhecimento confiável etc. estejam vinculados à
cultura ou à comunidades; e, segundo, que a investigação é,
inevitavelmente, disfarçadamente política. A primeira dessas é
desalentadoramente cética em sua tendência, e a segunda é
completamente assustadora: se todas as investigações fossem
realmente políticas, não haveria qualquer diferença entre
conhecimento e pesquisa advocatícia, entre
a investigação e o jogo da retórica.”

~ Susan Haack

Sempre pensei na universidade como um local para se pensar livremente, para discutir sobre todo tipo de ideias, inclusive as mais polêmicas. Entretanto, pelo menos de acordo com o que tenho vivido ultimamente como universitário – e pelo que leio por aí -, só me resta pensar que sou um dos poucos que ainda compartilha dessa visão, pois muitos veem a universidade apenas como uma fábrica de militantes políticos, como um templo onde se aprende o socialmente correto.

É claro que há um preço a pagar pela liberdade intelectual. É como na democracia, em que a liberdade implica em, muitas vezes, termos de ouvir e aguentar ideias bizarras e conservadoras. Quando todos são livres, todos tem de aturar a liberdade do outro em algum momento, o que nem sempre é agradável.

Entretanto, ser livre intelectualmente não é sair por aí falando o que se quer. Por exemplo, não posso passar a defender que o elo perdido entre cavalos e hipopótamos é o unicórnio rosáceo, só porque desejo que assim seja. A liberdade pressupõe virtudes extintas como bom senso, honestidade intelectual, apoio em argumentos cuidadosamente construídos e em evidências.

Em suma, não se deve substituir o raciocínio crítico e ponderado, além do poder da evidência, por ideologia pura e simples.

Citarei um breve comentário familiar e duas tretas emblemáticas e recentes ocorridas em ambientes universitários, e explicarei como ilustram fabulosamente a ausência dessas virtudes intelectuais.

A investigação científica nos diz como DEVEMOS agir? Isso é política ou investigação?

Ágora - praça pública grega onde as pessoas circulavam e onde debates filosóficos eram travados publicamente. Bons tempos de busca honesta pelo conhecimento.
Ágora – praça pública grega onde as pessoas circulavam e onde debates filosóficos eram travados publicamente. Bons tempos de busca honesta pelo conhecimento.

 Uma vez estava em casa assistindo a um documentário sobre emoções, e um famoso psicólogo especialista em expressões faciais e emoções, começou a falar. Era Paul Ekman, cuja pesquisa ficou popularizada pela série Lie To Me.

O entrevistador perguntou o que era melhor, dar vazão à raiva ou não ceder aos impulsos, não dar vazão a essa emoção. Quando minha mãe ouviu isso, imediatamente disse: “ah, é claro que não devemos deixar a raiva tomar conta, não é? Não é o certo!”.

Minha mãe estava certa com relação à moral. É claro que não é bom se deixar influenciar pela raiva e, digamos, sair chutando móveis e xingando os outros. Não é socialmente desejável também. Mas a investigação científica não questiona nem responde a isso do ponto de vista ético. Como uma investigação criminal, o objetivo é achar a verdade, não a resposta moralmente correta.

Por acaso, Ekman mostrou estudos que concluíam que não se deixar levar por essa emoção muitas vezes negativa não era mesmo a melhor opção, pois a cada vez que cedemos aos seus ditames, nos tornamos ainda mais fracos para contorná-la. Mas, se as pesquisas acabassem encontrando a resposta contrária, isso deveria ser relatado também, pois a pesquisa não é uma questão de certo e errado. Um cientista pode até se posicionar eticamente sobre algum estudo, sobre se ele deve ser reportado ou não, sobre até mesmo se sua metodologia é ética, mas isso não tem a ver com a estrutura do método científico em si.

 

O caso da USP: a briga é sobre política ou sobre fatos?

James Watson, ganhador de um Nobel, hoje condenado ao ostracismo acadêmico por contas de acusações de racismo. Não sei se houve direito a defesa.
James Watson, ganhador de um Nobel, hoje condenado ao ostracismo acadêmico por contas de acusações de racismo. Não sei se houve direito a defesa.

 Recentemente, na USP, um professor britânico, que ministra aulas sobre a língua inglesa utilizada em publicações científicas, usou em sala um artigo bem polêmico para fazer seus alunos exercitarem o idioma.

Era um texto de James Watson, o co-descobridor da molécula dupla hélice de DNA, que falava sobre uma possível diferença genética entre as etnias. Essas diferenças, segundo o cientista, poderiam implicar em diferentes graus de inteligência. Vale destacar que, ao que as notícias sobre o caso indicam, o tal artigo era especulativo, isto é, Watson não se baseava em evidências empíricas. Um trecho do resumo do artigo, publicado no Medical Hyphotesis:

“The preponderance of evidence demonstrates that in intelligence, brain size, and other life-history variables, East Asians average a higher IQ and larger brain than Europeans who average a higher IQ and larger brain than Africans. Further, these group differences are 50–80% heritable.”

A hipótese parece se basear em dados (e sobre isso não vou me pronunciar, já que não tive a oportunidade de ler todo o artigo para saber que análises e evidências usaram) para mostrar superioridade de QI dos orientais frente aos caucasianos, e destes em relação aos africanos. É polêmico, de fato, e pode-se questionar como separaram a influência do ambiente da influência genética sobre o QI dessas populações, assim como o motivo pelo qual o professor usou logo esse artigo para discutir meramente o inglês instrumental. Deve-se, de fato, apurar até que ponto o professor estava somente falando de uma tese polêmica ou praticando racismo. Se a ideia da disciplina sempre foi a discussão do idioma aplicado à ciência, de qualquer forma, então não haveria obrigatoriedade de levar para sala de aula esse ou aquele tema.

Talvez o docente tenha usado um texto polêmico exatamente para estimular a discussão. A favor dessa ideia, tenho o exemplo dos tediosos temas de clássicas apostilas de cursos de inglês, que não são lá muito instigantes: viagens, comida, cores, roupas, hábitos etc; quem diabos se sente motivado a dissertar e dar opinião sobre esses temas? Assuntos polêmicos e potencialmente ofensivos geralmente tem esse poder de despertar a vontade de argumentar,  ou simplesmente de esbanjar raiva e indignação – o que também não garante discussão de qualidade nem necessariamente é uma estratégia inteligente por parte do moderador de uma discussão.

Alunos negros, assim, poderiam se sentir ofendidos com o professor ou com Watson, afinal, era um artigo que, querendo ou não, desqualificava a inteligência dos afrodescendentes com base em mera especulação (não acredito que haja mesmo essa diferença de QI, mas o fato é que mesmo se existisse, as pessoas chiariam, pois o que está em jogo aí não é uma verdade, mas o entendimento político desses resultados – e é pertinente dizer que algumas pessoas não entendem a diferença entre investigação científica e defesa advocatícia).

Assim, pode ser que não houvesse um plano vilanesco por trás dessas aulas, mas de fato foi um gesto polêmico do professor. O que ele fez foi tão ofensivo e desatento quanto um cara contando piadas sobre sogras bem num jantar com a família da namorada.

 

A diferença entre reportar um resultado e fazer uma defesa política

curvadosino
Outro evento ocorreu no anonimato da universidade onde estudo. Um professor levou dados sobre um livro bem polêmico, The Bell Curve, que reportava diferenças no quociente de inteligência (QI) entre representantes de várias etnias. A publicação trata-se também de uma série de capítulos falando sobre as prováveis influências hereditárias e ambientais no QI, assim como o impacto da inteligência em diversos aspectos, como personalidade, profissão, posição socio-econômica, criminalidade etc.

Um gráfico retirado do livro, e comentado em sala de aula, mostrava que os QIs aumentavam ao longo de décadas, provavelmente devido a uma série de fatores ambientais (Efeito Flynn), mas mesmo com esse aumento, o dos negros continuava menor.

Houve uma longa polêmica, e a indignação era tanta que alguns não ouviram direito a explicação para esses dados. O docente chegou a explicar que as bizarras diferenças de QI apontadas foram atribuídas ao nível sócio-educacional de negros e brancos nos EUA. A maioria dos negros tem menor acesso à educação, e isso gera um menor desenvolvimento de QI ao longo da vida e das gerações – é um fator a menos para a ação do Efeito Flynn. Mas o objetivo era demonstrar que o ambiente é importante para o desenvolvimento da inteligência, e que, portanto, o governo tem um papel central nisso enquanto criador de políticas públicas que proteja os cidadãos. Falar sobre QI não é meramente dizer quem nasce mais ou menos inteligente, isso é uma baita falácia; há os fatores hereditários, mas elementos como nutrição, estímulos disponíveis no lar, índices de violência, estímulos intelectuais na infância e outros elementos, tem um papel importantíssimo a desempenhar e pode transformar totalmente os caminhos sugeridos pelas predisposições biológicas. Biologia não é destino, de forma alguma.

De alguma forma, várias pessoas saíram ofendidas dessa aula, e posteriormente transmitiram sua indignação para alunos que não assistiram a essa aula. Como todo telefone sem fio, o acontecido já foi editado e o que antes eram dados de um livro de 1994 já se transformou num empreendimento patrocinado pelo próprio Hitler, na década de 90 (?), feito por americanos (?).

Contudo, não podemos negar o óbvio dessa situação: por mais polêmica que ela seja, tivemos pessoas se sentindo ofendidas em sala de aula, e isso deve ser analisado.

 

Uma pessoa pode estar errada sobre estar sofrendo?

"Theon está certo em sofrer? Sua dor é mesmo verdadeira?". Você tem coragem de contestar isso? Esse questionamento é mesmo coerente?
“Theon está certo em sofrer? Sua dor é mesmo verdadeira?”. Você tem coragem de contestar isso? Esse questionamento é mesmo coerente?

Se alguém se fere com algo, não viramos as costas e entendemos que seus motivos são fúteis, nós acolhemos esse sentimento, afinal, ele é legítimo enquanto tal. Não faz sentido dizer que uma pessoa está errada ou está certa sobre o que ela está sentindo. A sensação subjetiva do sentimento, enquanto elemento de primeira pessoa, é transparente à análise. O sujeito em questão sabe sobre si melhor do que os que estão ao redor. Em princípio, se uma pessoa diz estar ofendida, ela realmente está.

Apenas uma ressalva cabe, e é nesse ponto que acredito que a discussão deva entrar: ok, a pessoa está sofrendo, em sua subjetividade ela teve motivos legítimos para isso; mas o que fez com que ela encarasse determinado evento como digno de suscitar dor? Quais seus motivos para ter se ofendido?

Quando questionada, a maioria se restringe a dizer que se uma pessoa se sentiu ofendida com algo, é porque teve motivos para isso, ponto. E essa defesa tende a se tornar ainda mais intransigente quando é o sofrimento de alguma minoria social que está em questão. Em geral, essas pessoas já são oprimidas pelo próprio modus operandi da sociedade, então é considerado reforço da opressão negar que essa pessoa tenha motivos legítimos para se ofender. O que dizem é que ela tem que estar certa, ponto.

Da forma como penso, se uma pessoa se sente ofendida, uma exposição clara e meticulosa do que ela está sentindo e do que ocasionou isso faz parte dos passos necessários para que tais motivações não voltem a ocorrer – ou, se ocorrerem novamente, que se tenha um bom portfólio de argumentos para dizer “bom, eu avisei, você está errado por tais motivos e está reincidindo no erro, portanto, tais medidas são cabíveis”.

O que deve ser colocado em questão, portanto, não é se há ou não sofrimento, mas os motivos que levaram a esse sentimento. Pode ser que a ofensa tenha sido produzida por causa de uma interpretação errada do que foi dito, e o esclarecimento disso poderia encerrar um problema complexo e desgastante para todos os envolvidos. Nesse segundo caso acadêmico que cito, penso que há motivos mais que suficientes para que acusações de racismo sejam consideradas frutos de algum entendimento deturpado do que foi apresentado.

 

Na dúvida, escolha a “calma luz solar da mente”

Susan Haack, a filósofa que nos aconselha a usar a racionalidade e a coerência como a receita para uma boa e honesta investigação," a calma luz solar da mente".
Susan Haack, a filósofa que nos aconselha a usar a racionalidade e a coerência como a receita para uma boa e honesta investigação,” a calma luz solar da mente”.

O objetivo desse texto é explicitar as virtudes que estão ausentes no meio acadêmico, e para isso citei alguns exemplos que demonstram na prática o que é isso.

Professores e alunos devem ser, acima de tudo, comprometidos com uma faculdade básica de todo ambiente universitário: a arte de pensar clara e honestamente. Se um carpinteiro deve ser capaz de manusear bem a madeira, um intelectual deve ser capaz de manipular bem as ideias, pensar com qualidade – seja ele um cientista, um filósofo ou um erudito literário.

Isso significa que a preocupação básica deve ser não ideológica ou política, mas filosófica, nesse sentido mencionado, de argumentar cuidadosamente e de encontrar evidências para fundamentar o que se alega. Se não existir clareza no pensamento, a atividade intelectual não poderá ser feita com qualidade; sem esses elementos, não só defesas políticas não poderão ser feitas adequadamente, como tampouco será possível distinguir um debate político de um debate científico ou filosófico, por exemplo.

Nesse sentido, ideologias conservadoras e liberais cometem esses tropeções cada uma em seu próprio nicho, dificultando a militância política e, mais ainda, o debate. O problema chega ao ponto de argumentos de autoridade – falácias – serem incentivados e vistos como argumentos legítimos.

Um dos problemas talvez seja a politização desses pontos cruciais: o valor da evidência e da razão. Há uma frente acadêmica que os deslegitima como sendo valores criados por homens brancos, portanto, mulheres negras, por exemplo, devem se basear em uma outra realidade, outra forma de defesa de seus pontos, nem que essas tais novas formas sejam o sentimento e as palavras de ordem – o que não é muito diferente dos estereótipos mais clássicos sobre as mulheres, de que elas são emocionais e que dificilmente são capazes de pensar racionalmente. Ou seja, para se combater um suposto preconceito, se confirma outro, mesmo sem perceber.

Presumo que, portanto, um debate regido pela “calma luz solar da mente”, da razão, seja mais bem proveitoso teoricamente e na prática, em termos de militância por determinada causa. Fazer o contrário é nada mais do que reproduzir os tempos de caça às bruxas ou de caça aos comunistas, nos EUA, em que cada pequena “prova” ambígua era uma evidência incontestável de bruxaria ou de comunismo.

Nesses e em outros episódios fica claro que há séria confusão na vida intelectual das universidades. É uma ótima estratégia que a universidade seja um dos palcos para o desenvolvimento e amadurecimento de militantes sociais, afinal, é lá que o devido aprimoramento vai possibilitar que esses movimentos tenham argumentos mais coerentes e sólidos para solapar o preconceito e a discriminação.


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escrito por:

Felipe Novaes

Já quis ser paleontólogo, biólogo, astrônomo, filósofo e neurocientista, mas parece ter se encontrado na psicologia evolucionista. Nas horas vagas lê compulsivamente, escreve textos sobre a vida, o universo e tudo mais, e arruma um tempinho para o Positrônico Podcast. Contudo, durante todo o tempo procura se aprimorar na sabedoria e nas artes jedis do aikido.


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