Marina Teixeira é uma economista com cinco anos de experiência em inovação na América Latina. No início deste ano, ela fundou a Aporé, um projeto cujo propósito é criar vidas com mais significado por meio de novas formas de ensinar, aprender e experimentar, facilitando a busca de propósitos, talentos e sonhos de cada indivíduo.

Marina lançou o projeto com um seminário voltado para o autodesenvolvimento. Nele, os participantes aprenderiam a empreender suas próprias vidas. O preço? Ao final da experiência, cada um escolheria quanto pagar.

Caso se interessasse por participar do seminário, de que forma você decidiria quanto pagar por ele? Essa é uma pergunta complexa, pois coloca na mão do consumidor a decisão relativa ao investimento financeiro.

E, arrisco dizer, nós não estamos acostumados a tomar decisões no que diz respeito ao nosso dinheiro.

Falo isso com muita tranquilidade porque sou um abobado econômico: não entendo de taxas de juros, acho empreendedorismo um bicho de vinte e sete cabeças e essa história de abrir empresa e contatar clientes me faz passar noites em claro.

Mas eu também sou sonhador e decidi que teria meu próprio curso para escritores. Quando tomei essa decisão, ela veio junto com uma série de princípios e valores que me direcionaram a tornar meu curso o mais inclusivo possível. Então decidi que, no Ninho de Escritores, o participante escolheria quanto pagar por mês.

Tudo bem, estou mentindo. Inicialmente, estipulei o preço em R$300 por mês por pessoa, um valor abaixo da média dos cursos para escritores em São Paulo, mas ainda assim um investimento alto – é possível cursar algumas faculdades por um valor inferior a este. E, comparativamente, ao final de quatro anos o Ninho de Escritores não oferece um diploma.

Quando parei para analisar, me dei conta de que eu estava propondo uma coisa, mas vendendo outra. No papel, a ideia era a de acolhimento. No bolso, não. Para muita gente, trezentos reais mensais é um preço impagável.

Foi quando decidi mudar o jogo e trabalhar com a contribuição aberta. Como base, informo a todos os participantes que a contribuição ideal é de R$300. Contudo, não vivemos no mundo ideal, portanto cada um paga como pode. E quem não pode muito, oferece o que tem: divulgação, conhecimentos, desenhos etc. Quem pode mais, contribui para o acolhimento de quem pode menos.

Collaboration-Tools-for-Business-and-Crisis-Management

E isso funciona?

Há alguns exemplos sugerindo que o modelo do “pague quanto quiser” funciona. O CD In Rainbows, do Radiohead, lançado em 2007, foi feito desta maneira. O trabalho da cantora Amanda Palmer segue a mesma lógica.

No Brasil, dois lugares fantásticos: o Curto Café, no Rio de Janeiro, e a Laboriosa 89, em São Paulo. Uma loja de cafés e uma casa colaborativa, aberta, sem curadoria ou hierarquia. Além de cada um contribuir financeiramente como desejar, os custos de existência de ambos os espaços são demonstrados publicamente. É possível também acompanhar quanto dinheiro já foi arrecadado e quanto falta para cumprir as contas de cada mês.

Estes são exemplos positivos que sinalizam o alvorecer de uma cultura de relação com o dinheiro e com as trocas que é diferente da que vigora hoje. Contudo, não é um sistema perfeito. Para entender os seus problemas, porém, cabe refletir sobre as ideias por trás da prática do “pague quanto quiser”.
O que há por trás disso?

Por trás dessas iniciativas existe uma insatisfação com o modelo econômico vigente, em que poucas pessoas detêm muito mais recursos que os demais e, portanto, tornam escasso o acesso a certos bens e serviços.

Além disso, se um almoço custa R$10 aqui ou R$25 ali, a nossa experiência de fato (sabor, saciedade, conforto etc.) não importa na composição do preço. A única coisa que importa é a decisão de quem está oferecendo o produto ou serviço.

Ao convidar o cliente para fazer parte do processo de decisão de preço, devolve-se a autonomia para decidir quanto vale a experiência que ele está vivendo. Esse é um processo decisório subjetivo que não pode ser mensurado a partir de médias: cada um vive as experiências ao seu próprio modo.

Mais do que apenas autonomia (que já é grande coisa!), o “pague quanto pode” é um gesto de confiança, pois convida o cliente a fazer parte das decisões que tornam um negócio viável ou inviável. Trata-se de uma entrega que possibilita um tipo de encontro que vai além da transação comercial.

522070_626808197332532_1641839009_n

Mas não é arriscado?

A segunda pessoa a se inscrever no Ninho de Escritores ofereceu R$10 por mês. Aquilo me doeu. Xinguei, gritei, esperneei, pensei em desistir do Ninho, tudo isso para lembrar que quem fez o convite fui eu. Alguém pagar R$10 é tão legítimo quanto alguém pagar mais do que os R$300 que sugeri. (Nota: nenhuma possível participante do Ninho de Escritores foi agredida, mesmo verbalmente, durante a produção deste parágrafo – na pior das hipóteses, rolou uma orelha quente.)

O risco existe, como o exemplo sugere. Ainda pensando no Ninho de Escritores, cada turma é composta por até oito pessoas. Se todos decidirem pagar R$10 mensais, o valor é insuficiente para cobrir o material, o espaço e o tempo investidos para realizar os encontros. Bem ou mal, a única fonte de sustento do Ninho, atualmente, são os participantes (e é um serviço, portanto, tenho a expectativa de retorno financeiro).

No caso de um restaurante, esse cálculo fica mais complicado. Cada prato oferecido tem um custo específico de produção – sem contar os salários dos funcionários, o aluguel do espaço etc.

O Curto Café resolve esse problema expondo ao público suas finanças. Sabemos que um cafezinho custa R$0,50 para ser produzido, mas também enxergamos todas as outras transações financeiras necessárias para que aquele café seja vendido naquele espaço e momento específicos. O mesmo vale para a Laboriosa 89, cujos custos de manutenção ficam expostos a todos os visitantes.

Vivemos em uma sociedade que preza as relações de ganha-perde, ou seja, o tipo de troca em que um precisa perder para que o outro possa ganhar. Nessa lógica, eu vendo tão caro quanto posso, independente do valor que os compradores estão recebendo. Ou, no caso do “pague quanto puder”, eu pago o mínimo possível em busca de aproveitar ao máximo aquela experiência, ignorando que outras pessoas deixarão de se beneficiar se aquele sistema morrer.

Nas relações ganha-perde, o individualismo mata a comunidade. Afinal, eu ter acesso é mais importante do que outras pessoas também terem. (Sobre isso, vale a pena ler o texto sobre as culturas da escassez e da abundância.)

Quando proponho um “pague quanto puder”, o faço com a intenção de iniciar uma relação de ganha-ganha. Eu recebo um valor que o participante do Ninho considere justo e possível e o participante vivencia uma experiência que só existe porque o Ninho de Escritores foi criado. Sem a sustentação financeira, não há experiência literária criativa; sem uma experiência literária criativa de qualidade, não há sustentação financeira. Com os dois, todos ganhamos.

O mesmo vale para o Curto Café e para a Laboriosa 89: são espaços de convivência, autonomia e confiança. Se o sistema, que é formado por seus participantes (tanto os que oferecem quanto os que utilizam os serviços), não cuidar de si mesmo, ele acaba.

Uma proposta de ganha-ganha só funciona quando os envolvidos compreendem que a sustentação do sistema vem antes da atenção aos desejos individuais. Sem a menor dúvida, alguém na mentalidade ganha-perde sempre causará um ônus a uma comunidade que opere baseada no ganha-ganha. (Descobri isso comprando histórias na rua, como relato aqui.)

Quanto vale uma boa experiência?

Hoje, tenho a confiança de oferecer meus serviços pelo preço que as pessoas acharem justo e possível. Divulgo, por meio de newsletter gratuita enviada duas vezes por semana, dicas e conteúdos que são trabalhados nos encontros do Ninho, e converso com as pessoas que respondem a essas mensagens.

O que estou ganhando com isso? Algum dinheiro – certamente, nada que vá me colocar na lista dos 500 mais ricos do mundo – e, especialmente, experiência. Criar o Ninho de Escritores é, sem a menor dúvida, a coisa mais louca e fantástica que já fiz na vida.

Não porque é um negócio e estou empreendendo pela primeira vez. Também por isso, mas em especial porque é um negócio transparente que se baseia em acolher e ganhar junto com as pessoas. É um projeto que aposta na autonomia, na confiança e na transparência.

E, acima de tudo, é uma prova de que as pessoas investem financeiramente naquilo que faz sentido para elas. O desafio é abrir a porta e deixá-las entrar para fazer parte do seu empreendimento e, quiçá, da sua vida.

Se eu espero que as pessoas modifiquem a maneira de se relacionar umas com as outras, preciso abrir espaço para que isso aconteça. Eu faço isso por meio do Ninho de Escritores.

Tenho muito interesse em continuar conversando sobre este tema. Deixa um comentário e vamos trocar ideias?

escrito por:

Tales Gubes

Tales é uma raposa entre seres humanos. Escreve sobre escrever, sexualidade, educação e empreendedorismo. Criou o Ninho de Escritores para unir e ajudar outras criaturas que também curtem transformar experiências em palavras.


JUNTE-SE À NOSSA NEWSLETTER
Junte-se a outros 2.000 visitantes que recebem nossa newsletter e garanta, semanalmente, artigos sobre ciência, filosofia, comportamento e sociedade diretamente em seu e-mail!
Nós odiamos spam. Seu e-mail não será vendido ou compartilhado com mais ninguém.