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Black Mirror e nossa maior estupidez

Em Comportamento por Victor LisboaComentários

O mundo anda pior? O mundo melho­rou nos últi­mos tem­pos? Segundo esta­tís­ti­cas, jamais esti­ve­mos tão bem. Ainda assim, temos a sen­sa­ção de que algo vai mal. Mas se os núme­ros não men­tem, deve­ría­mos nos cur­var diante deles e dar um jeito de supe­rar essa sen­sa­ção de que tem alguma coisa errada acon­te­cendo? Ou há algo de útil a apren­der quando ouvi­mos nossa voz interna, por mais incóg­nita que seja o dia­leto em que fala?

O futuro des­cor­ti­nado por Black Mir­ror, a série bri­tâ­nica que se popu­la­ri­zou gra­ças à Net­flix, é um mundo mag­ní­fico. Gra­ças a tec­no­lo­gia, o ser humano é capaz de esten­der sua vida cons­ci­ente em rea­li­da­des vir­tu­ais onde tudo é empol­gante e per­feito; criar minús­cu­los robôs que man­têm o equi­lí­brio eco­ló­gico; ampliar a comu­ni­ca­bi­li­dade e inte­ra­ção huma­nas de for­mas sem pre­ce­den­tes; inven­tar meca­nis­mos para regis­tro de cada pre­ci­oso momento de nos­sas vidas. Isso tudo e outras tan­tas mara­vi­lhas.

A soci­e­dade retra­tada por Black Mir­ror pode­ria ser a ante­câ­mara da uto­pia. No seri­ado, a huma­ni­dade pode­ria estar cele­brando, em ante­ci­pa­ção, a pro­xi­mi­dade de uma era em que ven­ce­ría­mos com a tec­no­lo­gia os entra­ves que ator­men­ta­ram nos­sos ante­pas­sa­dos por milê­nios. Fome, doença, velhice, misé­ria, mesmo a mor­ta­li­dade: pela ciên­cia, esta­ría­mos pres­tes a der­ro­tar nos­sos mons­tros.

Porém, não é isso o que ocorre. Em todos os epi­só­dios, os per­so­na­gens estão cer­ca­dos de mila­gres tec­no­ló­gi­cos, mas levam vidas mise­rá­veis.

Por que é assim? É por­que Black Mir­ror na ver­dade não fala de tec­no­lo­gia, mas de algo muito antigo e mesmo assim ainda pouco conhe­cido por nós. Pois a tec­no­lo­gia ape­nas der­rota os mons­tros exter­nos, e há um mons­tro interno que jamais enfren­ta­mos:

A estupidez humana.

ULRICH BECK E A SOCIEDADE DE RISCO

Quando se afirma que as coi­sas andam mal, que a huma­ni­dade nunca foi tão vio­lenta e indi­fe­rente ao sofri­mento alheio, alguém sem­pre argu­menta que a huma­ni­dade sem­pre foi vio­lenta e que tam­bém sem­pre houve misé­ria. No máximo, gra­ças à tec­no­lo­gia de hoje, as tra­gé­dias huma­nas têm maior visi­bi­li­dade e che­gam mais rápido ao nosso conhe­ci­mento.

E, jus­tiça seja feita, essa opi­nião está certa, pois a his­tó­ria humana prova, à saci­e­dade, o quão cruéis ten­de­mos a ser uns com os outros desde nosso pas­sado mais remoto.

Mas isso é ape­nas um lado da equa­ção. A tec­no­lo­gia não tem ape­nas um efeito pas­sivo, de regis­tro e divul­ga­ção. Ela não se limita a aumen­tar a visi­bi­li­dade das des­gra­ças huma­nas. A tec­no­lo­gia, em deter­mi­nado momento, pas­sou não só a faci­li­tar a mani­fes­ta­ção de nosso lado mais vio­lento e estú­pido, como tam­bém a ampli­fi­car os seus efei­tos nefas­tos.

Em 1986, o soció­logo ale­mão Ulrich Beck propôs entrar­mos numa nova etapa da his­tó­ria. Essa nova etapa ele cha­mou de “soci­e­dade de risco”.

"Ainda não temos solução para esses problemas, mas a consciência de que estamos em um mundo ameaçado está cada vez mais presente em situações cotidianas." - Ulrich BeckEsta­ria ocor­rendo, segundo Beck, uma rup­tura tão grande entre a soci­e­dade indus­trial do século XX quanto foi a rup­tura com a soci­e­dade feu­dal. A par­tir de nossa era, as ino­va­ções téc­ni­cas fariam com que os ris­cos a que esta­mos sujei­tos tomas­sem pro­por­ções cada vez mai­o­res, até o ponto em que as ins­ti­tui­ções soci­ais não pode­riam mais nos pro­te­ger ade­qua­da­mente.

Isso era resul­tado daquilo que Beck cha­mava de refle­xi­vi­dade: a moder­ni­za­ção cri­ada para tor­nar nos­sas vidas mais con­for­tá­veis mul­ti­plica e amplia, por outro lado, as for­mas de sofrer­mos. Um dos mais elo­quen­tes exem­plos seria o desas­tre de Cher­nobyl, em que a incom­pe­tên­cia humana, inclu­sive polí­tica, defla­grou uma tra­gé­dia humana e eco­ló­gica sem pre­ce­den­tes.

 

A BANALIDADE DA ESTUPIDEZ HUMANA

Porém, essa refle­xi­vi­dade da tec­no­lo­gia não aumenta ape­nas os ris­cos de aci­den­tes monu­men­tais. Ela tam­bém cria novas for­mas de cau­sar­mos mal uns aos outros e amplia o impacto de nos­sas mais tra­di­ci­o­nais for­mas de vio­lên­cia.

Há certo con­senso de que, em ter­mos his­tó­ri­cos e geo­po­lí­ti­cos, o século em que vive­mos come­çou com o ata­que de 11 de Setem­bro ao World Trade Cen­ter. E não se trata ape­nas de uma iden­ti­fi­ca­ção sim­bó­lica sobre o ter­ror e o fun­da­men­ta­lismo. Aquele ata­que desen­ca­deou a sequên­cia de fatos (inva­são do Ira­que, nas­ci­mento do ISIS, aten­ta­dos de fun­da­men­ta­lis­tas, ações ter­ro­ris­tas de “lobos soli­tá­rios”, crise na Síria, ondas migra­tó­rias na Europa, atri­tos entre a Rús­sia e a OTAN,…) que carac­te­ri­zam nossa era.

Em Black Mirror, utilizamos a tecnologia para nos separar e não unir.

Em Black Mir­ror, uti­li­za­mos a tec­no­lo­gia para nos sepa­rar e não unir. Alguma seme­lhança com nos­sas redes soci­ais?

E foi o aten­tado de 11 de Setem­bro que demons­trou o poder da tec­no­lo­gia para faci­li­tar e ampli­fi­car o ter­ror. Os ter­ro­ris­tas con­se­gui­ram orga­ni­zar-se e comu­ni­car-se com os men­to­res do aten­tado com faci­li­dade. Gra­ças à auto­ma­ti­za­ção das cabi­nes de con­trole e aos simu­la­do­res de voo, nunca foi tão fácil para um leigo tomar bre­ves lições e já ser capaz de con­du­zir um avião comer­cial na dire­ção de um alvo. Osama bin Laden podia, após o ata­que, ime­di­a­ta­mente falar ao mundo todo den­tro de uma caverna oculta em uma região inex­pug­ná­vel no Ori­ente Médio. Atu­al­mente, a ação de lobos soli­tá­rios e a divul­ga­ção de ideias extre­mis­tas é incri­vel­mente faci­li­tada pela tec­no­lo­gia.

Não se trata de ser neo­lu­dista e ver a tec­no­lo­gia como ori­gem de todos os males. De forma alguma: a tec­no­lo­gia é tão neu­tra como uma faca, que pode cor­tar um pão ou cor­tar um pes­coço. Ela é uma fer­ra­menta que pode ser útil ou ter­rí­vel, pois tudo depende da mão de quem a maneja. Esse é o ponto aqui.

O que Black Mir­ror faz é evi­den­ciar que mesmo sob as melho­res con­di­ções mate­ri­ais, mesmo na pros­pe­ri­dade e diante de mila­gres tec­no­ló­gi­cos, o ser humano pros­se­gue tor­nando a sua vida e a vida dos outros um inferno. A soci­e­dade de risco em que vive­mos tem o mesmo efeito da série e deixa claro algo que sem­pre nos esca­pou enquanto espé­cie: a exten­são e pro­fun­di­dade da estu­pi­dez humana.

Han­nah Arendt afir­mava que o mal era banal entre os seres huma­nos — a ponto de nós o pra­ti­car­mos sem nem ao menos per­ce­ber. Mas nessa falta de per­cep­ção não há ape­nas cegueira ide­o­ló­gica ou fra­queza moral: há tam­bém a sim­ples e pura falta de inte­li­gên­cia.

 

A CONSCIÊNCIA DA INCONSCIÊNCIA

Um exem­plo pode ilus­trar com eloquên­cia. Em 1938, a huma­ni­dade des­co­briu a fis­são nuclear. Menos de uma década depois, em 1945, já havía­mos deto­nado a pri­meira bomba atô­mica. E bas­tou ape­nas algu­mas pou­cas déca­das para que tivés­se­mos fabri­cado um arse­nal nuclear capaz de des­truir este pla­neta, o único pla­neta conhe­cido capaz de abri­gar a vida, meia dúzia de vezes pelo menos. E, como se isso não bas­tasse, apon­ta­mos todas essas armas uns para os outros devido a uma dis­puta ide­o­ló­gica entre blo­cos econô­mi­cos.

Creio que antes, para o obser­va­dor mais atento e frio da his­tó­ria humana, um fato já fosse evi­dente. Mas com a cor­rida nuclear do século XX, esse fato foi final­mente escar­rado na nossa cara:

A huma­ni­dade não era só pro­pensa à mal­dade, tam­bém incri­vel­mente estú­pida, burra mesmo.

E sequer pre­ci­sa­mos lem­brar da cor­rida nuclear. Toda a his­tó­ria do século pas­sado e as notí­cias do momento pre­sente dei­xam claro que uti­li­za­mos uma tec­no­lo­gia capaz de resol­ver nos­sos prin­ci­pais pro­ble­mas e redu­zir a dor humana para, ao con­trá­rio, aumen­tar a dor e criar for­mas de des­truir­mos não só nossa civi­li­za­ção, como tam­bém a vida de toda a Terra.

Ao longo de muito tempo, nós obser­va­mos os ani­mais ao nosso redor e con­cluí­mos que, como inven­ta­mos a roda e fazía­mos fogo, éra­mos uma espé­cie incri­vel­mente inte­li­gente. Afi­nal, nosso único cri­té­rio de com­pa­ra­ção eram qua­drú­pe­des que gru­nhiam.

Lacie | Black Mirror

Em Black Mir­ror, uti­li­za­mos a tec­no­lo­gia para criar mais pri­sões, e não nos liber­tar. Alguma seme­lhança com as bolhas e cai­xas de res­so­nân­cia do Face­book?

Nós nos tínha­mos em alta conta, e por milê­nios pros­se­gui­mos assim, fas­ci­na­dos por nossa des­treza em cons­truir cas­te­los e atra­ves­sar oce­a­nos. Mas quando a tec­no­lo­gia se desen­vol­veu a ponto de inter­fe­rir de forma deci­siva em nossa vida, dando-nos poder para poten­ci­a­li­zar o resul­tado de nos­sas ati­tu­des, ficou claro que somos um ani­mal um bocado estú­pido. Sim, apren­de­mos alguns tru­ques, temos alguma inven­ti­vi­dade, mas somos não só inca­pa­zes de des­mon­tar as arma­di­lhas e pri­sões que cri­a­mos para nós mes­mos, como uti­li­za­mos boa parte da nossa inven­ti­vi­dade para apri­mo­rar essas arma­di­lhas e pri­sões.

Pense nos prin­ci­pais pro­ble­mas huma­nos deste momento: misé­ria, guer­ras, ter­ro­rismo, geno­cí­dios, fuga de refu­gi­a­dos, polui­ção, hos­ti­li­da­des polí­ti­cas, cri­ses econô­mi­cas. Todos esses pro­ble­mas, que fazem mui­tos de nós sofre­rem e até mesmo per­de­rem suas vidas, não têm uma causa externa ao ser humano. Todos foram cri­a­dos por nós, e ainda exis­tem por não ter­mos inte­li­gên­cia sufi­ci­ente para esca­par das cila­das que nós pró­prios cons­truí­mos.

 

A HISTÓRIA DA ESTUPIDEZ HUMANA

Pre­ci­sa­mos admi­tir que a his­tó­ria humana é a his­tó­ria da estu­pi­dez”, disse Stephen Haw­king numa pales­tra em Cam­bridge em 2016, quando ele tra­tou do ter­rí­vel ou empol­gante futuro da inte­li­gên­cia arti­fi­cial.

É que a tec­no­lo­gia deixa evi­dente a estu­pi­dez humana por outro cami­nho, dis­tinta da soci­e­dade de risco. Como já disse, até agora a huma­ni­dade só podia com­pa­rar-se com qua­drú­pe­des, e por isso tinha em alta conta sua pouca inte­li­gên­cia. Agora, come­ça­mos a ante­ver o sur­gi­mento de máqui­nas capa­zes de desen­vol­ver uma inte­li­gên­cia até mesmo supe­rior à nossa (isso antes era objeto de piada, agora é assunto sério e deba­tido entre cien­tis­tas e espe­ci­a­lis­tas), e só a con­cep­ção de que isso pode real­mente ocor­rer cria um con­traste em que nossa desas­trosa estu­pi­dez fica por fim evi­dente.

"Precisamos admitir que a nossa história é a história da estupidez humana." - Stephen HawkingA huma­ni­dade sem­pre enfren­tou gra­ves e trá­gi­cos desa­fios, e quase sem­pre ten­tou resolvê-los bus­cando algum cul­pado, algum ini­migo. Nunca nos ocor­reu que nossa falta de inte­li­gên­cia era o prin­ci­pal entrave para resol­ver­mos esses desa­fios. Pior ainda, nunca nos ocor­reu que nossa estu­pi­dez é, ao menos em parte, a ori­gem da mai­o­ria de nos­sos males, e que poderá ser a causa de nossa auto­des­trui­ção.

Neste momento em que reco­nhe­ce­mos que a nossa estu­pi­dez é um dos nos­sos mai­o­res (ao lado da bana­li­dade do Mal iden­ti­fi­cada por Han­nah Arendt) mons­tros inter­nos, deve­ría­mos decla­rar guerra a ela. E, reco­nhe­cendo isso, Haw­king cogita se a tec­no­lo­gia da inte­li­gên­cia arti­fi­cial pode­ria nos aju­dar nesse com­bate. Mas como gato escal­dado, ele tam­bém teme que ela possa, como mui­tas tec­no­lo­gias, ape­nas apro­fun­dar o sofri­mento humano.

A res­posta é banal­mente sim­ples: se ire­mos uti­li­zar as tec­no­lo­gias futu­ras para criar a uto­pia ou a dis­to­pia depende de não ser­mos estú­pi­dos agora. Pre­ci­sa­mos ini­ciar essa bata­lha uti­li­zando as fer­ra­men­tas que temos agora à nossa dis­po­si­ção, para ampliar nossa cons­ci­ên­cia e luci­dez.

E nem todas essas fer­ra­men­tas são tec­no­ló­gi­cas: mui­tas delas, como a medi­ta­ção, esti­ve­ram à dis­po­si­ção por sécu­los. E mesmo as tec­no­ló­gi­cas depen­dem de nossa deter­mi­na­ção e bom senso: atu­al­mente, a inter­net e as redes soci­ais pare­cem ser­vir para nos sepa­rar e apro­fun­dar hos­ti­li­da­des, e isso pre­cisa mudar. Pre­ci­sa­mos nutrir e for­ta­le­cer a mus­cu­la­tura de espa­ços como o Ano Zero, cri­ando um efeito mul­ti­pli­ca­dor para que o diá­logo cons­tru­tivo e a luci­dez come­cem a pre­do­mi­nar na inter­net. Afi­nal, a inter­net pode ser o berço da cons­ci­ên­cia cole­tiva — mas isso é outra his­tó­ria.

Victor Lisboa
Editor do site Ano Zero.

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