“As coisas que você possui, acabam possuindo você.”

~Tyler Durden


Passei muito do meu tempo como leitor me dedicando a livros de divulgação científica e de filosofia. Cresci intelectualmente com eles, aprendi a raciocinar e a argumentar, aprendi a pensar criticamente sobre o que faz ideias e teorias serem válidas (mesmo que provisoriamente). Mas durante esse tempo talvez tenha ignorado a preciosidade das histórias de ficção, como narrativas fictícias que mostram de maneira clara e excitante o funcionamento do mundo real.

George Orwell parece ser um escritor modelo em apresentar histórias inteligentes, profundas, mas ao mesmo tempo com linguagem acessível. E foi por esse plano de fundo que entendi A Revolução dos Bichos.

A obra ajuda não só a entender as críticas de Orwell ao stalinismo (liberais chiam nesse ponto, pois gostam de desprezar as diferenças entre os projetos comunistas, pois é mais fácil criticar um pretenso único comunismo do que ter que criticar cada uma de suas tonalidades ideológicas), mas também fazem captar algo muito profundo que diz respeito à psicologia da nossa espécie, algo que parece estar presente em todas as épocas, apesar da roupagem distinta que pode assumir.

Denunciando o stalinismo

WAR & CONFLICT BOOK ERA: WORLD WAR II/PERSONALITIES
Quem é homem? Quem é porco?

O escritor inglês, um comunista trotkista convicto, participou de guerras e se expôs publicamente a favor do regime comunista, mas sua escolha política não embaçou sua capacidade crítica, tendo sido sua obra proibida em diversos países por conta da sutileza e força de sua denúncia do mito e da distopia stalinista que a URSS tinha se tornado.

O mais bizarro disso tudo é que na própria Inglaterra a obra de Orwell foi boicotada, pois a partir da Segunda Guerra Mundial até o fim da Guerra Fria (termo cunhado por Orwell!), o bloco socialista e capitalista passariam a viver uma relação de amor e ódio que poderia ser abalada a qualquer momento.

A crítica histórica e ideológica clara explica parte do rebuliço que A Revolução dos Bichos causou, mas não acho que dê conta de todo o caso. Além de falar sobre um grupo de pessoas e um momento muito específico da História, a obra também faz alusão – mesmo involuntariamente – a comportamentos humanos antigos e arraigados. Isso porque a própria utopia comunista no século XX esbarrava frontalmente nesse aspecto fundamental: o desejo de status (que também é título de um livro muito interessante do filósofo Alain de Botton).

Para perceber a presença desse elemento, entretanto, é preciso pensar na estrutura basal dessa história, bem como em alguns exemplos específicos que acontecem durante suas páginas.

O livro conta a história dos animais de uma fazenda (porcos, vacas, galinhas, gansos, cavalos, cães, ovelhas e até um corvo), que resolvem se rebelar contra o dono e expulsá-lo do lugar. Os animais deveriam ser os novos donos e gestores, e assim acontece.

O líder intelectual do grupo, que incita a todos para a tal revolução, era um porco chamado Major. O suíno morre e outro assume seu lugar, dando continuidade ao projeto da independência animal. Mas, como já vimos várias vezes na história, quem assume a missão de espalhar uma mensagem não pode evitar (ou faz de propósito mesmo) que a mensagem seja contaminada pelas suas próprias perspectivas. A liderança é trocada mais uma vez e um déspota napoleônico toma o poder. A manipulação era tamanha que novas regras eram criadas a todo momento, mas os bichos eram convencidos de que tais regras novas, na verdade, sempre existiram, eles é que não haviam reparado.

O exemplo mais recente que se tem disso é o governo da Irmandade Muçulmana no Egito poucos anos atrás. A Irmandade inflava a Constituição com novos artigos quando era conveniente, e fingia que eles sempre estiveram lá.

Assim, o que antes era uma comunidade de trabalho coletivo funcionando sob o lema da igualdade entre os bichos, começa aos poucos a apresentar incoerências, algumas que vão emergindo naturalmente, e outras à força mesmo.

versão suína
Quem é homem? Quem é porco? (versão suína de Orwell)

A própria hierarquia já criada é algo que promete ir afastando a almejada igualdade. Os porcos, a classe intelectual, passa pouco a pouco a trabalhar menos e justificar seu ócio com trabalhos burocráticos e intelectuais que ninguém vê e que os outros animais, por sua inferioridade intelectual, não conseguiriam compreender – segundo os próprios porcos.

A diferença entre as espécies animais e suas capacidades físicas começou a representar um entrave aos preceitos igualitaristas da revolução. É claro que um burro ou um cavalo teria mais condições de trabalhar duro do que uma galinha ou um ganso. E essa é uma das excelentes metáforas que George Orwell usa para falar das diferenças entre os seres humanos. Podemos alegar uma suposta igualdade pelo fato de sermos entes de uma única espécie, mas individualmente há diferenças que viram limitações ou vantagens em relação acerto tipo de tarefa. Há pessoas melhores em atividades intelectuais do que em atividades físicas e vice-versa; há outros que se desempenham bem em ambas.

O modo como o sistema tem de lidar com essas diferenças é aproveitá-las em favor dos indivíduos, colocando-os em diferentes funções de acordo com seus talentos. Outro caminho é suprimir essas diferenças ou simplesmente fingir que elas não existem, deixando todos dividirem todas as tarefas igualmente e ponto final.

Isso não é uma defesa do liberalismo, até porque acredito que no comunismo possa haver ambas as alternativas. O que estou dizendo é que obviamente existem diferenças individuais e não podemos ignorar essa questão.

No caso da fazenda dos animais, as diferenças foram solapadas, mas a autoeleita elite intelectual suína começou a acumular cada vez mais privilégios para si mesma, do mesmo modo que nobres fizeram na Idade Média, ou que grandes empresários acabam fazendo no mundo capitalista produzido pelas revoluções burguesas – e como Stalin e seus súditos fizeram na URSS também.

Ou seja, tanto Stalin quanto sua versão suína criaram as condições perfeitas para que uma elite extremista e corrupta ascendesse ao poder – com direito a uma milícia armada protegendo o regime, eliminando ameaças e reescrevendo a história convenientemente.

Mas, como já foi dito, para além de mostrar essa roupagem própria do século XX, o gênio inglês deu margem para que pensemos para a estrutura humana subjacente a toda essa desigualdade que parece nos puxar como o horizonte de eventos de um buraco negro.

As raízes da desigualdade

Logo no início da trama, uma égua muito vaidosa é repreendida por questionar se poderia continuar usando suas fitinhas de cabelo após a revolução. É dito que fitinhas no cabelo eram coisa de humanos, marcas da exploração e deviam ser extintas, pois animais andam sem adereços, e em 4 patas.

Isso tem profundas raízes na nossa realidade, pois em geral a esquerda tem em mente sempre essas distinções entre o que seriam marcas de um mundo burguês e o que seriam os sinais legítimos de um mundo feito para os populares.

O mundo capitalista fomenta mais a ideia de indivíduo do que de coletividades, pois o indivíduo é o que interessa ao sistema. O motor que estimula o consumo é basicamente a noção de que somos seres separados dos outros, e como tais, precisamos nos distinguir materialmente deles. Daí nasce a moda, o “consumo, logo, existo”.

Em outras palavras, o status é importante no capitalismo, e quanto mais capacidade de consumo, maior o status. Por isso esse desejo precisa ser estimulado diariamente através de propagandas e conversas com nossos próprios pares no trabalho, na faculdade, em casa.

Está tudo internalizado. Naturalizamos a virtude e o poder embutidos na capacidade de consumir e ostentar riqueza.

Isso é o que está no fundamento do desejo da égua por fitinhas no cabelo. Ela queria ser diferente, queria ostentar.

Mas será possível execrar de nossas almas esse desejo? Nem o socialismo conseguiu isso, com toda a sua filosofia voltada à anulação desse tipo de desejo capitalístico e individualista. E isso faz todo sentido, pois indícios mostram que ao longo da história esse desejo sempre existiu, mas com roupagens diferentes, adaptado às possibilidades de cada tempo.

Alain de Botton, em Desejo de Status, traça esse caminho do status ao longo da história ocidental. Passamos pelo glamour dos cavaleiros medievais, dos clérigos, pelos cavalheiros ingleses, com sua afetação e habilidades na dança e nas gentilezas, e pela mudança drástica que a Revolução Francesa causou no modo como se entendia o status e a posição do homem na sociedade, bem como suas ambições.

Na Idade Média, a relação entre status e posição social era diferente. Certamente um nobre tinha mais status que um camponês, mas como não existia chance de um servo ascender à nobreza, não existia o sentimento de inveja no sentido de “droga, um dia quero ter o que esse cara tem”. Restava às pessoas simplesmente se conformarem com essa hierarquia rígida e estar dentro dela da melhor maneira possível.

Revolução Francesa
A Revolução Francesa – fim da sociedade de privilégios da Idade Média e início de um desejo por status irrefreável. O céu é o limite.

Com o fim da sociedade de privilégios e ascensão dos burgueses, o desejo de status encontrou terra fértil para se proliferar. A riqueza, assim pensavam os liberais, estava disponível para cada um desde que trabalhasse. Portanto, o miserável era miserável por preguiça, por falta de retidão moral para enriquecer; o rico, portanto, era mais virtuoso do que o pobre. Esse tipo de posição emergiu juntamente com uma nova concepção cristã: os individualistas protestantes passaram a entender que o sucesso financeiro estava atrelado verdadeiramente à virtude. Um homem rico era um homem abençoado por Deus.

Como herdeiros dessas remodelações da realidade, queremos status como nunca, pois a riqueza é (ao menos teoricamente) disponível a todos. Isso gera uma sede imensa pelo poder, bem como uma possibilidade bem alta de frustração – pois a responsabilidade pelo fracasso num mundo capitalista é só do indivíduo; ele não tem uma casta ou estamentos sociais duros para culpar (daí a importância de críticas à nossa realidade social, pois mostra os mitos teóricos nos quais caímos diariamente).

Essa faísca de desejo pelo consumo individualizante que aparece algumas vezes em A Revolução dos Bichos parece estar ligada também ao chamado consumo conspícuo, que talvez possa ser pensado também como uma nova forma de pensar na obtenção de status.

Esse conceito se refere ao cerne do consumo, que não é a funcionalidade, mas a ostentação. As pessoas ostentam o que consomem, o que possuem, e isso não se restringe ao capitalismo, não se limita à nossa época.

pavao-cauda-dourada
Assim como um pavão ostenta sua causa altamente custosa, um sujeito de alto status ostenta roupas, adereços e carros altamente custosos como forma de propagandear seus recursos fartos.

Olhando para culturas de caçadores-coletores, notamos que existem vestimentas distintas para cada posição social. As mais elevadas geralmente ostentam adereços cada vez mais pecuniários (no sentido que Thortein Verben dá a essa expressão), como se fossem pavões. É como se implicitamente a seguinte mensagem estivesse sendo transmitida: “olha, eu sou tão poderoso que posso andar por aí ostentando esse chapéu enorme ou essa cauda super incômoda, e mesmo assim posso me proteger e oferecer ainda mais recursos do que os que eu desperdiço”. É o que se passaria na cabeça de um pavão, se ele pensasse como um humano.

Quem defendeu esse modelo pela primeira vez foi o polímata superdotado Thorstein Veblen,e  desde então uma série de pesquisas científicas parecem confirmar empiricamente a tese do economista e sociólogo. Segundo ele, o status estaria diretamente ligado a essa capacidade de ostentar coisas funcionalmente inúteis. E quanto maior o status, quanto maior a ostentação, mais ocioso seria tal sujeito ou camada social.

Essa é o cerne da sua obra seminal, A Teoria da Classe Ociosa. Assim, a classe mais ostentadora seria sempre aquela que menos produz, mas a que mais utiliza os recursos produzidos pelas classes mais baixas, na base do processo produtivo. Mas todas buscariam a ostentação de um modo ou de outro.

Isso é basicamente o que acontece com os porcos, na alegoria de Orwell. Eles estão no topo da hierarquia na granja, sendo assim, se esquivam de todas as maneiras do trabalho, enquanto usufruem livre e exageradamente do que os outros animais produzem. Isso é basicamente o que acontece no capitalismo e foi o que aconteceu nas tentativas de estabelecer o comunismo – e é o que o autor mostra acontecendo em sua história.

A história contada pelo autor britânico tem um alto componente de crítica à realidade de sua época – e que de certa forma está bem viva ainda hoje – e também sobre elementos mais profundos que propositalmente ou não, acabam sendo suscitados dependendo do olhar com que lemos seu livro.

A questão da ostentação, do consumo e do status nunca foi tão viva, e se Orwell não nos dá uma solução para isso, cumpre bem seu maior objetivo que é denunciar essa realidade que está presente tanto na supressão e coerção estalinistas quanto na suposta liberdade do mundo capitalista.

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escrito por:

Felipe Novaes

Já quis ser paleontólogo, biólogo, astrônomo, filósofo e neurocientista, mas parece ter se encontrado na psicologia evolucionista. Nas horas vagas lê compulsivamente, escreve textos sobre a vida, o universo e tudo mais, e arruma um tempinho para o Positrônico Podcast. Contudo, durante todo o tempo procura se aprimorar na sabedoria e nas artes jedis do aikido.