Esses áudios que estão sendo vazados são muito legais porque eles permitem que todo mundo fique feliz, que todo mundo sinta que a sua ‘narrativa‘ era verdade.

Acha que Dilma caiu porque a classe política queria se salvar? Tem lá o Jucá falando isso.

Acha que Lula ministro era obviamente uma tentativa de salvar essa mesma classe política? Tem lá o Jucá falando isso.

Acha que o Aécio é obviamente corrupto, que o esquema dele (em Furnas?) é notório? Tem lá o Jucá falando isso.

Acha que a Dilma tentou interferir na Lava Jato falando com ministros do Supremo? Tem lá o Renan falando isso.

Acha que Temer seria uma opção conciliadora pra tentar salvar todo mundo? Tem todo mundo falando isso.

Acha que o PSDB é corrupto? Tem lá o Sergio Machado falando isso.

Acha que a Dilma conspira com a mídia golpista (!!)? Tem lá o Renan falando isso.

Só acho que a gente devia perceber a tendência aí: se você já pensou alguma coisa ruim de algum político na vida, é possível que esse pensamento seja referendado pelos vazamentos. Eu não duvido nada que amanhã descubram que a Dilma bate em criança, que o Temer faz sacrifício humano, sei lá. Por outro lado, literalmente todas as narrativas “positivas” foram negadas.

Lula queria assumir ministério pra salvar o Brasil? Não, era pra salvar a classe política – inclusive cogitaram ele ser ministro do Temer!

Dilma caiu porque é honesta? Não, ela tentou influir na Lava Jato por meio de Cardozo, Delcídio, Mercadante, falou com Lewandowski, falou até com um dos Marinho pra tentar conseguir uma cobertura midiática mais “light”. Dilma caiu porque NÃO conseguiu barrar a Lava Jato.

O impeachment foi contra a corrupção? Não, foi uma tentativa (falha, desesperada, fracassada) de salvar os corruptos – pode até só ter se tornado uma possibilidade por conta dos protestos de quem era contra a corrupção, mas a articulação era no sentido contrário.

Aécio é uma alternativa limpa? Não, “todo mundo conhece o esquema do Aécio“.

E por aí vai. Acho que a gente poderia tentar tirar conclusões mais sóbrias, mesmo cínicas desse tipo de coisa. Conclusões que todo mundo que não endossa a atitude de torcida-organizada já conhecia ou apóia:

– Políticos são movidos por auto-interesse. Não existe “bondade”, “pelo povo”, “pelo Brasil”, etc. Alguns têm convicções diferentes dos outros, muitos podem querer melhorar as coisas, mas eles só vão agir/endossar uma proposta – por melhor que ela seja – se isso os beneficiar.

– Não tem ninguém limpo. Não tem “diferente”, não tem o partido da pureza (insira aqui o da sua escolha). A maior preocupação do sistema político é consigo mesmo: as suas atitudes mais drásticas (impeachment, Lula na casa civil) foram no sentido de autopreservação. Esperar messianismo ou ruptura de uma estrutura desenhada para se autoperpetuar é maluquice.

– A democracia “representa a sociedade”? Olha, sei não. A democracia coloca lá quem foi votado, mas a casta política se organiza em torno de si mesma. Isso é verdadeiro em inúmeros aspectos – Brasília ser uma cidadela no meio do nada, isolada do resto do país, ensimesmada, é só o exemplo mais escancarado. Talvez o maior efeito (negativo) da democracia seja legitimar as atitudes desse grupo de gangsters oficiais que trabalha basicamente por si e para si – o fetiche dos “milhões de votos” trabalha rumo à paralisia, rumo à defesa de tudo que rolar, independente do que seja.

A minha posição tenta ser a do niilismo ativo: citando Clément Rosset, “sejamos felizes, tudo vai mal”. Ou mesmo Mao Tsé-Tung: “Tudo sob os céus está no mais profundo caos; a situação é excelente.” Podemos aproveitar esse desnudamento pornográfico do sistema político pra pensar, imaginar algo novo: é isso que defendemos? Essa estrutura ‘democrática’ nos favorece em alguma instância? Ou valeria a pena desejar algo diferente – seja o que for?

O principal é perceber que não há garantias – os profetas do inevitável, que dizem que um caos desses “fatalmente vai gerar uma revolução/uma ditadura/uma mudança apocalíptica/etc” são covardes, ignoram que a história só parece óbvia em retrospecto. Nada está escrito – e pode ser que tudo isso só resulte em uma intensificação de mais do mesmo, que a gente não aprenda nada e só reforce o amor pelos políticos “do nosso lado” e ignore o ridículo todo em volta.

Mas pode também não ser – acho que a maior consequência positiva de tudo isso é que reaprendemos a nos surpreender. As revelações surgem e corriqueiramente vemos algo inesperado, estranho. A complacência do “fim da história” petista morreu – o futuro foi descancelado. É assustador, com certeza – a segurança de que “tudo vai continuar igual” era confortadora. Mas é também intensamente vivo: qualquer coisa pode acontecer, e esse qualquer coisa (potencialmente horroroso, potencialmente legal) é a gente (espero!) que pode/deve/quer construir.

Torço pela nossa imaginação pra buscar saídas desse labirinto e ferramentas pra construir algo mais interessante. Se não der, não deu, paciência, pelo menos a gente tentou.


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escrito por:

Guilherme Assis

Tem 25 anos, trabalha com audiovisual e sempre se disse de esquerda. A definição mudou, mas ele continua o mesmo – sempre na oposição.


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