Romero Jucá e Michel Temer | os áudios vazados provam que você tem razão.

Os áudios vazados provam: você tinha razão

Em Consciência, Política por Guilherme AssisComentários

Esses áudios que estão sendo vaza­dos são muito legais por­que eles per­mi­tem que todo mundo fique feliz, que todo mundo sinta que a sua ‘nar­ra­tiva’ era ver­dade.

Acha que Dilma caiu por­que a classe polí­tica que­ria se sal­var? Tem lá o Jucá falando isso.

Acha que Lula minis­tro era obvi­a­mente uma ten­ta­tiva de sal­var essa mesma classe polí­tica? Tem lá o Jucá falando isso.

Acha que o Aécio é obvi­a­mente cor­rupto, que o esquema dele (em Fur­nas?) é notó­rio? Tem lá o Jucá falando isso.

Acha que a Dilma ten­tou inter­fe­rir na Lava Jato falando com minis­tros do Supremo? Tem lá o Renan falando isso.

Acha que Temer seria uma opção con­ci­li­a­dora pra ten­tar sal­var todo mundo? Tem todo mundo falando isso.

Acha que o PSDB é cor­rupto? Tem lá o Ser­gio Machado falando isso.

Acha que a Dilma cons­pira com a mídia gol­pista (!!)? Tem lá o Renan falando isso.

Só acho que a gente devia per­ce­ber a ten­dên­cia aí: se você já pen­sou alguma coisa ruim de algum polí­tico na vida, é pos­sí­vel que esse pen­sa­mento seja refe­ren­dado pelos vaza­men­tos. Eu não duvido nada que ama­nhã des­cu­bram que a Dilma bate em cri­ança, que o Temer faz sacri­fí­cio humano, sei lá. Por outro lado, lite­ral­mente todas as nar­ra­ti­vas “posi­ti­vas” foram nega­das.

Lula que­ria assu­mir minis­té­rio pra sal­var o Bra­sil? Não, era pra sal­var a classe polí­tica — inclu­sive cogi­ta­ram ele ser minis­tro do Temer!

Dilma caiu por­que é honesta? Não, ela ten­tou influir na Lava Jato por meio de Car­dozo, Del­cí­dio, Mer­ca­dante, falou com Lewan­dowski, falou até com um dos Mari­nho pra ten­tar con­se­guir uma cober­tura midiá­tica mais “light”. Dilma caiu por­que NÃO con­se­guiu bar­rar a Lava Jato.

O impe­a­ch­ment foi con­tra a cor­rup­ção? Não, foi uma ten­ta­tiva (falha, deses­pe­rada, fra­cas­sada) de sal­var os cor­rup­tos — pode até só ter se tor­nado uma pos­si­bi­li­dade por conta dos pro­tes­tos de quem era con­tra a cor­rup­ção, mas a arti­cu­la­ção era no sen­tido con­trá­rio.

Aécio é uma alter­na­tiva limpa? Não, “todo mundo conhece o esquema do Aécio”.

E por aí vai. Acho que a gente pode­ria ten­tar tirar con­clu­sões mais sóbrias, mesmo cíni­cas desse tipo de coisa. Con­clu­sões que todo mundo que não endossa a ati­tude de tor­cida-orga­ni­zada já conhe­cia ou apóia:

- Polí­ti­cos são movi­dos por auto-inte­resse. Não existe “bon­dade”, “pelo povo”, “pelo Bra­sil”, etc. Alguns têm con­vic­ções dife­ren­tes dos outros, mui­tos podem que­rer melho­rar as coi­sas, mas eles só vão agir/endossar uma pro­posta — por melhor que ela seja — se isso os bene­fi­ciar.

- Não tem nin­guém limpo. Não tem “dife­rente”, não tem o par­tido da pureza (insira aqui o da sua esco­lha). A maior pre­o­cu­pa­ção do sis­tema polí­tico é con­sigo mesmo: as suas ati­tu­des mais drás­ti­cas (impe­a­ch­ment, Lula na casa civil) foram no sen­tido de auto­pre­ser­va­ção. Espe­rar mes­si­a­nismo ou rup­tura de uma estru­tura dese­nhada para se auto­per­pe­tuar é malu­quice.

- A demo­cra­cia “repre­senta a soci­e­dade”? Olha, sei não. A demo­cra­cia coloca lá quem foi votado, mas a casta polí­tica se orga­niza em torno de si mesma. Isso é ver­da­deiro em inú­me­ros aspec­tos — Bra­sí­lia ser uma cida­dela no meio do nada, iso­lada do resto do país, ensi­mes­mada, é só o exem­plo mais escan­ca­rado. Tal­vez o maior efeito (nega­tivo) da demo­cra­cia seja legi­ti­mar as ati­tu­des desse grupo de gangs­ters ofi­ci­ais que tra­ba­lha basi­ca­mente por si e para si — o feti­che dos “milhões de votos” tra­ba­lha rumo à para­li­sia, rumo à defesa de tudo que rolar, inde­pen­dente do que seja.

A minha posi­ção tenta ser a do nii­lismo ativo: citando Clé­ment Ros­set, “seja­mos feli­zes, tudo vai mal”. Ou mesmo Mao Tsé-Tung: “Tudo sob os céus está no mais pro­fundo caos; a situ­a­ção é exce­lente.” Pode­mos apro­vei­tar esse des­nu­da­mento por­no­grá­fico do sis­tema polí­tico pra pen­sar, ima­gi­nar algo novo: é isso que defen­de­mos? Essa estru­tura ‘demo­crá­tica’ nos favo­rece em alguma ins­tân­cia? Ou vale­ria a pena dese­jar algo dife­rente — seja o que for?

O prin­ci­pal é per­ce­ber que não há garan­tias — os pro­fe­tas do ine­vi­tá­vel, que dizem que um caos des­ses “fatal­mente vai gerar uma revolução/uma ditadura/uma mudança apocalíptica/etc” são covar­des, igno­ram que a his­tó­ria só parece óbvia em retros­pecto. Nada está escrito — e pode ser que tudo isso só resulte em uma inten­si­fi­ca­ção de mais do mesmo, que a gente não aprenda nada e só reforce o amor pelos polí­ti­cos “do nosso lado” e ignore o ridí­culo todo em volta.

Mas pode tam­bém não ser — acho que a maior con­sequên­cia posi­tiva de tudo isso é que rea­pren­de­mos a nos sur­pre­en­der. As reve­la­ções sur­gem e cor­ri­quei­ra­mente vemos algo ines­pe­rado, estra­nho. A com­pla­cên­cia do “fim da his­tó­ria” petista mor­reu — o futuro foi des­can­ce­lado. É assus­ta­dor, com cer­teza — a segu­rança de que “tudo vai con­ti­nuar igual” era con­for­ta­dora. Mas é tam­bém inten­sa­mente vivo: qual­quer coisa pode acon­te­cer, e esse qual­quer coisa (poten­ci­al­mente hor­ro­roso, poten­ci­al­mente legal) é a gente (espero!) que pode/deve/quer cons­truir.

Torço pela nossa ima­gi­na­ção pra bus­car saí­das desse labi­rinto e fer­ra­men­tas pra cons­truir algo mais inte­res­sante. Se não der, não deu, paci­ên­cia, pelo menos a gente ten­tou.


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Guilherme Assis
Tem 25 anos, trabalha com audiovisual e sempre se disse de esquerda. A definição mudou, mas ele continua o mesmo - sempre na oposição.

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