“Convém mesmo que duvideis, que estejais inseguros, kalamas.
Não aceiteis o que ouvis só porque o ouvis repetidamente; não aceiteis a tradição;
o boato; o conteúdo de um escrito sagrado; a conjetura; o axioma; o raciocínio especioso;
o atrativo de uma noção muito esmiuçada; a habilidade aparente dos outros
ou a consideração ‘este monge é nosso mestre’. Kalamas, quando descobrirdes por vós mesmos
que estas coisas são ruins, censuráveis; que os sábios as condenam, que; que aceitas e cultivas,
levam ao dano e à doença – então, ponde-as de lado.”

~kalama sutta


O Ateu Budista

Stephen Batchelor nos dá um instigante relato sobre sua jornada pelo mundo conhecendo o budismo, e também a si mesmo – ou forjando-se na bigorna do Caminho – em Confissões de um Ateu Budista.

Crescido na geração beatnik (termo que mistura o termo beat, do inglês, referido aos toxicodependentes e outros excluídos sociais, e sputnik, nome do primeiro satélite, russo, posto em órbita), Batchelor era mais um daqueles que não se sentiam parte da sociedade, mais ou menos como um precursor do Supertramp.

O vazio existencial dentro de si era maior do que qualquer vontade de desfrutar de bens materiais proporcionados pela época de ouro do Capitalismo. Talvez não seja bem questão do tamanho desse vazio (vazio tem tamanho?), mas de o quanto o autor tinha o poder de percebe-lo, ou de não ignorar essa ‘falta’ presente em todos nós. O que almejava era alcançar uma existência plena de sentido, o que até então nenhuma tradição religiosa ocidental tinha conseguido contemplar.

Imagino o autor tendo um sentimento de “mundo projetado”, no sentido de artificialidade, isto é, a noção de que o que se vivia não era a vida, mas algum tipo de cenário posto diante de seus olhos, para que percorresse essas pegadas de outras pessoas. Esse é um sentimento próprio do ser humano, mesmo considerando que muitas pessoas não possuem “farpas na mente” (termo usado em The Matrix, filme embebido por metáforas budistas muito bem colocadas).

Neo, personagem de Matrix, segurando balas de arma. | Aventuras de um Ateu Budista
Neo, o Desperto. O quão real é a realidade?

Foi nesse cenário que Batchelor decidiu viver de forma errante, viajando pelo mundo – o que era uma certa moda entre os beatniks, partindo de um sentimento sincero do indivíduo ou de mera coadunação social. Em meio a essas aventuras, experimentou muitos caminhos (o das drogas, da vida hippie e do ecletismo religioso) para finalmente conhecer o budismo e enxergar nessa religião o preenchimento existencial que tanto buscava. O encontro deu-se na Índia, com os adeptos do budismo tibetano (que estavam lá fugidos da invasão da China comunista no Tibete), com seus monges e lamas que entoavam mantras com vozes profundas de barítono em seus trajes cor de açafrão.

O contexto no qual ele se inseriu foi único. Imagino que, inicialmente, suas experiências tenham lembrado as de Matthieu Ricard, o bioquímico francês que virou monge budista e relatou com surpresa o encanto de ver ali pessoas que de fato viviam o que pregavam: eram compassivas, humildes e sábias, não ficando só no matracar de palavras bonitas e pouco praticadas.

A alegada racionalidade e ceticismo do budismo, no entanto, começou a falhar quando o recém-monge manifestou suas discordâncias com certas crenças sustentas por seus mestres. Durante anos havia tentado aceitar o karma e o renascimento, bases da prática e filosofia budistas, botando sempre a culpa de seu ceticismo em seus olhos limitados que não viam a verdade autoevidente, demonstrada e racional.

É conhecida a máxima proferida por Buda, de que ninguém deve acreditar simplesmente no que ele diz, mas que devem aderir aos seus ensinamentos por terem sentido na própria pele a sua validade. Entretanto, o autor logo passou a perceber que aqueles que não tinham se conformado com tais noções começavam a ser vistos com outros olhos pelos praticantes.

Provavelmente essa é uma manifestação inconveniente que surge em todo sistema de crenças institucionalizado. A flexibilidade se perde, pois passa a haver uma autoridade, um cânone – mesmo que implícito – a ser seguido.

Monges do budismo tibetano em seus tradicionais trajes cor de açafrão. | Aventuras de um Ateu Budista
Monges do budismo tibetano em seus tradicionais trajes cor de açafrão.

Coisa semelhante acontece entre os católicos, que citam um tanto superficialmente as “provas racionais” da existência de Javé, como as elaboradas pelos filósofos Tomás de Aquino e Agostinho, por exemplo. Porém, se um contra-argumento é apresentado, aí a discussão perde o tom de debate racional e vira um tipo de “ah, respeite minha crença”. Ué, é um debate racional ou uma exposição de crenças?

Ao mesmo tempo, no caso de Batchelor havia o obstáculo cultural.

Embora a sede por um sentido existencial seja um fenômeno espalhado pelo mundo, existem peculiaridades e diferenças conceituais no Ocidente e Oriente. Algumas questões só são coerentes aqui, enquanto outras, somente lá. E para o indivíduo que migra de uma região para outra em busca da prática de todo um novo conjunto de crenças que se mesclam à cultura e ao próprio modo de pensar daquele povo, em algum momento esses desafios se revelam. É como um japonês vindo morar, com certa idade, no Brasil. Mesmo num ambiente secular, a influência judaico-cristã na nossa sociedade é muito óbvia para quem não foi criado numa atmosfera calcada nessas bases.

Por isso Stephen Batchelor passou a se afeiçoar ao existencialismo europeu, pois parecia falar mais a sua língua.

Havia chegado o tempo de sair da Índia e procurar os braços de uma escola que parecia mais realista (aos seus olhos), e que abarcaria suas questões existenciais não depuradas pela meditação nem pelo entoar constante de mantras do sistema vajrayana.

O que é isto?

Após reunir um pouco de coragem, resolveu consultar seu mestre tibetano a respeito de um retiro zen-budista na Coréia. O aceite foi obtido meio a contragosto.

Lá o que encontrou foi completamente diferente daquilo que vivia na Índia. Toda a paisagem repleta de adereços que remetiam a deidades, hierarquia de seres, renascimentos, todo o colorido típico da cultura tibetana presente nos mosteiros budistas foi substituída pela sobriedade e minimalismo típicos de japoneses e coreanos.

koan 1 - aventuras de um ateu budista

A arte (escrita, pintura, poemas, arranjos florais, chá) e o trabalho cotidiano no mosteiro eram integrados totalmente à prática, eram estimulados, um pouco ao contrário do que acontecia no budismo tibetano, em que tais atividades poderiam ser vistas como distrações da busca pelo despertar.

O templo Songgwangsa era retilíneo, mas também apresentava elegantes curvas, tudo feito com uma economia de movimentos incrível. A sala de meditação (zendo) era vazia e todos deveriam sentar em silêncio, eretos, de frente para a parede.

O tipo de orientação também era bem diferente. Na Índia, existia, segundo o autor, explicitamente uma prática direcionada a encher os praticantes de certezas racionais. Não era algo nos moldes dos dogmas católicos, em que a bolha de realidade cristã influencia suas conclusões, mas era algo como: “temos tais e tais crenças, mas elas são resultado da autópsia racional sobre as ideias, olha só”. Daí há a obrigação a chegar às mesmas conclusões que eles e aceita-las.

No zen-budismo era bem diferente, pois o praticante budista era incitado a permanecer no âmbito das indagações, ao invés de ter de chegar a muitas respostas para tudo. Batchelor enxergou nisso uma aproximação com o existencialismo, o que já fez com que simpatizasse de cara com esse novo sistema Mahayana.

koan 2 - aventuras de um ateu budista

Batchelor bombardeou Kusan Sunim Roshi, o mestre zen-budista, com toda a sua história de questionamentos profundos, complicados, intrincados e quase paralisantes.

O mestre idoso de careca reluzente, sempre muito solícito, aberto e simpático, só pedia que sentasse de frente para a parede brilhantemente branca e tentasse responder “o que é isto?”.

A pergunta deixou o jovem monge do budismo tibetano com muitas minhocas na cabeça, mas a atividade intelectual em demasia não é um bom primeiro passo no zen-budismo. Dessa forma, os koans, essas questões desconcertantes, logo o fizeram ficar exausto, percebendo que uma resposta analítica não seria apropriada, devendo ser mais algo da ordem da experiência, do sentir com cada um dos poros de seu corpo. Essa experiência serve, dentre outras coisas, para que seja percebida a insuficiência da linguagem para expressar a vida em si mesma.

Apesar dos prós desse intercâmbio por diferentes tradições budistas, divergências teóricas perturbaram Batchelor, além de não ter conseguido passar pela experiência abrupta de despertar, ou de satori (para empregar o termo original em japonês, mais usado na escola Soto Zen, na ausência de uma melhor tradição).

koan 3 - aventuras de um ateu budista

Voltando para a comunidade do budismo tibetano, logo teve a insatisfação acentuada pelas controvérsias vindas do culto desautorizado oficialmente de uma divindade desaprovada pelo próprio Dalai Lama. Ele se perguntava como um grupo de pessoas tão lúcidas, racionais, poderia cair num tipo de esoterismo tão desleixado. Talvez seja mais um dos paradoxos culturais incompreensíveis para não-nativos.

O kalama sutta e a busca por Gautama

Essas incômodas controvérsias metafísicas e doutrinárias fizeram Batchelor mergulhar no Cânone Páli, o corpo de textos mais antigos da tradição budista, transcritos após 400 anos da morte do Buda.

Assim como os textos que formam a Bíblia cristã, o Cânone Páli não foi feito para ser um livro conciso. É uma aglomeração de vários textos, de autores diferentes, com visões diferentes sobre o que Buda teria falado, de forma que ali existem tons distintos e trechos que se contradizem entre si; mas há também muita coisa que se pode aproveitar se quisermos obter uma biografia mais terrena de Sidarta Gautama e seu Dharma.

Para começar, o ex-monge (sim, a essa altura ele tinha desposado uma das monjas com quem compartilhava o mosteiro coreano) começou a separar do Cânone todas as noções estranhas, esotéricas, metafísicas, pois elas pareciam extremamente destoantes do tom da maior parte do texto, que era de um pragmatismo curioso.

Assim, descobriu que as passagens que falavam sobre karma, renascimento, deidades, reinos depois da morte e qualquer tipo de especulação metafísica não eram originais, mas vinham do contexto hindu da época do próprio Buda – tradição esta contestada por ele em diversos níveis. Provavelmente eram o resultado dos anos de tradição oral, que haviam sido suficientes para que mensagens típicas do contexto cultural desses 400 anos no sudeste da Ásia se misturassem ao tom lúcido e prático de Gautama.

Isso significava que grande parte dos problemas de Batchelor ao lidar com as minúcias das tradições budistas se deviam mais a uma herança hindu do que a problemas com o que poderia ser o budismo mais próximo do original.

Sua pesquisa lançou dúvidas até sobre o suposto status de príncipe de Sidarta Gautama. Ele parece sim ter sido de uma família abastada, mas não era exatamente da família real. Há sugestões também de que Buda teria voltado para casa em meio à sua jornada errante pela floresta, e que seu filho teria sido gerado num desses retornos.

Confissões de um Ateu Budista contém mais revelações desse tipo. Além de ser uma obra sobre as experiências mais profundas do autor, também é um leve e interessante trabalho histórico sobre as raízes do budismo – semelhante ao que hoje é feito, no Rio de Janeiro, pelo pesquisador Leonardo Chevitarese em relação ao Jesus histórico, o que também vem a revelar muito do colorido que a tradição posterior à morte desses homens impõe sobre seu real trabalho virtuoso e demasiado humano.

Outro ponto que guarda alguma semelhança com as pesquisas mais recentes sobre o Jesus histórico é das repercussões e possíveis intenção políticas do movimento de Buda. Assim como Jesus, sua mensagem não agia só no nível individual, mas também na esfera coletiva, política. Não é coincidência que ambos provavelmente tenham se metido em algumas confusões políticas (vide a morte por crucificação, que era um tipo de punição também para criminosos político-religiosos do século I).

ateubudista

E nesse altura, torna-se pertinente esclarecer que, em certo sentido, o título escolhido por Stephen Batchelor é estranho, pois o budismo é um pragmatismo dialético psicológico – portanto, já não tem incluída a crença em deus (es). Logo, um budista ateu não é exatamente uma redundância, pois budistas, pode-se dizer, são agnósticos sobre isso. Sendo assim, o uso do termo “ateu” talvez tenha sido uma ênfase na rejeição de toda metafísica ocidental e oriental.

Enfim, como isso é mais uma resenha do que um ensaio que pretende contar tudo sobre o livro, resolvi mostrar de maneira sucinta a estrutura e conteúdo da narrativa de Stephen Batchelor, mas sem denunciar coisas surpreendentes que ele aponta em sua interessantíssima jornada.

No fim da leitura dessa obra, a sensação que fica é a de que (1) o autor pode ter se enfiado num vespeiro, ao tentar secularizar os ensinamentos budistas, e que necessariamente acabou ‘batendo’ nas escolas budistas, principalmente as do mahayana (o grande veículo), que se embasam em textos posteriores à tradição Páli (logo, menos precisos sobre o aspecto histórico das narrativas e mensagens budistas). (2) Ao mesmo tempo, o retrato pretensamente ‘mais verídico’ esboçado já na segunda metade do livro, sobre a vida de Gautama, abre nossos olhos para a beleza de ensinamentos sábios que não precisam contar com aspectos esotéricos para ter sua eficiência na vida do homem comum.

É sobretudo essa simplicidade e máxima eficiência (por mais que seja um caminho longo e difícil) que sempre me atraíram no budismo, e que agora parecem estar solidificado.

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escrito por:

Felipe Novaes

Já quis ser paleontólogo, biólogo, astrônomo, filósofo e neurocientista, mas parece ter se encontrado na psicologia evolucionista. Nas horas vagas lê compulsivamente, escreve textos sobre a vida, o universo e tudo mais, e arruma um tempinho para o Positrônico Podcast. Contudo, durante todo o tempo procura se aprimorar na sabedoria e nas artes jedis do aikido.


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