Não defendo o ataque terrorista, mas...

Não defendo o ataque terrorista, mas…

Em Consciência, Religião, Sociedade por Nelson MoraesComentário

Lem­bro que, na época do aten­tado à Char­lie Hebdo, um ati­vista de esquerda disse no Face­book que não ape­nas não lamen­tava o ata­que ter­ro­rista como tinha a firme con­vic­ção de que “não havia nenhum ino­cente naquela reda­ção.

Ficou evi­dente que por “nenhum ino­cente” ele se refe­ria a doze pes­soas que fize­ram por mere­cer serem assas­si­na­das bru­tal­mente. Vale dizer – pra­ti­ca­ram galhofa com a reli­gião alheia, sabiam no que esta­vam se metendo: foram eles os cul­pa­dos.

À parte essa visão extre­mista, ainda pre­do­mi­nou na web, em cír­cu­los tidos como mais “tole­ran­tes”, o dis­curso “Não defendo o ter­ro­rismo, MAS

Raci­o­cí­nio idên­tico começa a ser apli­cado ao mas­sa­cre em Orlando. Pude ler, nas redes soci­ais, de ontem pra hoje, comen­tá­rios na base de “Com a vida devassa que leva­vam, espe­ra­vam o quê?”, “Quem não se res­peita não pode exi­gir res­peito” e, juro, “Tem que ver que a reli­gião do cara era radi­cal quanto a isso, que­riam o quê?”

Con­ti­nu­a­mos dando gua­rida, de uma forma abjeta, à ances­tral, à mile­nar, à con­sa­grada tole­rân­cia para com a into­le­rân­cia. Tes­te­mu­nhar um bloco mono­lí­tico de dog­mas defa­sa­dos rea­gindo a uma deter­mi­nada mani­fes­ta­ção de opo­si­ção, indi­vi­dual ou cole­tiva, e que venha a resul­tar num banho de san­gue, nos leva auto­ma­ti­ca­mente a diri­gir a res­pon­sa­bi­li­dade a quem teve o san­gue der­ra­mado. “Mexe­ram com quem estava qui­eto”.

Não. A cul­tura que ins­pira um mas­sa­cre em nome de pre­cei­tos reli­gi­o­sos ou dog­má­ti­cos nunca está qui­eta. Está sem­pre se mexendo, se des­vi­ando do rumo natu­ral da His­tó­ria, cor­rendo pra per­se­guir, coi­bir, calar quem pensa ou age dife­rente, se des­lo­cando desen­fre­a­da­mente, em todas as fren­tes, pra bar­rar a mar­cha evo­lu­tiva.

Para­do­xal­mente, os “qui­e­tos” são jus­ta­mente aque­les que jogam luz nas trans­for­ma­ções natu­rais do pro­cesso his­tó­rico, por­que exer­ci­tam sua natu­ral índole de ilus­trar, ou de regis­trar, o fato de que as coi­sas nunca ficam para­das.

Mas nós não vemos e não que­re­mos ver assim.

A into­le­rân­cia devia se mexer, sim, mas para se adap­tar ao ine­vi­tá­vel. Acom­pa­nhar a His­tó­ria. Acei­tar o ine­xo­rá­vel cami­nhar do pen­sa­mento. Mas não — enquanto ela se mexe insi­di­o­sa­mente, sem parar, para deter o avanço da dinâ­mica civi­li­za­tó­ria, ela con­se­gue enga­nar milhões com sua fin­gida pose de “qui­e­tude”. De quem não inter­fere em nada. De quem deve­ria ser dei­xada qui­eta – e res­pei­tada – em seu con­tem­pla­tivo imo­bi­lismo.

Nós com­pra­mos esta ver­são. E toda com­pra tem seu custo: treze, cin­quenta, cen­te­nas, milhões de vidas.


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Almirante de quatro costados (todos eles disponíveis para uso publicitário), é especialista em pescar pérolas e distribuí-las sem dar crédito às ostras.

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