Lembro que, na época do atentado à Charlie Hebdo, um ativista de esquerda disse no Facebook que não apenas não lamentava o ataque terrorista como tinha a firme convicção de que “não havia nenhum inocente naquela redação.

Ficou evidente que por “nenhum inocente” ele se referia a doze pessoas que fizeram por merecer serem assassinadas brutalmente. Vale dizer – praticaram galhofa com a religião alheia, sabiam no que estavam se metendo: foram eles os culpados.

À parte essa visão extremista, ainda predominou na web, em círculos tidos como mais “tolerantes”, o discurso “Não defendo o terrorismo, MAS…

Raciocínio idêntico começa a ser aplicado ao massacre em Orlando. Pude ler, nas redes sociais, de ontem pra hoje, comentários na base de “Com a vida devassa que levavam, esperavam o quê?”, “Quem não se respeita não pode exigir respeito” e, juro, “Tem que ver que a religião do cara era radical quanto a isso, queriam o quê?”

Continuamos dando guarida, de uma forma abjeta, à ancestral, à milenar, à consagrada tolerância para com a intolerância. Testemunhar um bloco monolítico de dogmas defasados reagindo a uma determinada manifestação de oposição, individual ou coletiva, e que venha a resultar num banho de sangue, nos leva automaticamente a dirigir a responsabilidade a quem teve o sangue derramado. “Mexeram com quem estava quieto”.

Não. A cultura que inspira um massacre em nome de preceitos religiosos ou dogmáticos nunca está quieta. Está sempre se mexendo, se desviando do rumo natural da História, correndo pra perseguir, coibir, calar quem pensa ou age diferente, se deslocando desenfreadamente, em todas as frentes, pra barrar a marcha evolutiva.

Paradoxalmente, os “quietos” são justamente aqueles que jogam luz nas transformações naturais do processo histórico, porque exercitam sua natural índole de ilustrar, ou de registrar, o fato de que as coisas nunca ficam paradas.

Mas nós não vemos e não queremos ver assim.

A intolerância devia se mexer, sim, mas para se adaptar ao inevitável. Acompanhar a História. Aceitar o inexorável caminhar do pensamento. Mas não – enquanto ela se mexe insidiosamente, sem parar, para deter o avanço da dinâmica civilizatória, ela consegue enganar milhões com sua fingida pose de “quietude”. De quem não interfere em nada. De quem deveria ser deixada quieta – e respeitada – em seu contemplativo imobilismo.

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escrito por:

Nelson Moraes

Almirante de quatro costados (todos eles disponíveis para uso publicitário), é especialista em pescar pérolas e distribuí-las sem dar crédito às ostras.


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