Assombrações Quânticas

Assombrações Quânticas

Em Ciência, Comportamento, Consciência por Estevao NoletoComentário

Fui cri­ado vendo pro­gra­mas como X-Tudo, Cas­telo Rá-Tim-Bum e O Mundo de Beak­man. Fran­ji­nha, da “Turma da Mônica”, e Dou­tor Brown, de “De Volta Para o Futuro”, me fize­ram que­rer ser um cien­tista no futuro. Mas ao longo dos anos fui tendo uma leve incli­na­ção para a enge­nha­ria. Hoje sou estu­dante de uma das várias que exis­tem no mundo e tenho por base ser um defen­sor da ciên­cia e de suas apli­ca­ções. Algu­mas coi­sas rela­ci­o­na­das a men­ti­ras sobre ela me dei­xam real­mente cha­te­ado, às vezes com raiva.

Ontem estava andando por uma livra­ria perto da minha casa e me depa­rei com um livro que com­prei ime­di­a­ta­mente, sobre física quân­tica. Como já disse, estudo enge­nha­ria e nela não se tenta des­co­brir o mundo que já existe. Mas tenho uma grande base para come­çar a enten­der este assunto e ser fas­ci­nado por ele. Plank, Hei­sen­berg, Schrö­din­ger, Eins­tein, são pes­soas que você já deve ter ouvido falar e foram fun­da­men­tais para o estudo da ciên­cia nesta área. Mas, infe­liz­mente, neste momento eles estão se revi­rando no túmulo.

Pro­cu­rando por “física quân­tica” no Goo­gle, logo se encon­tra rela­ções com espi­ri­tu­a­li­dade, mis­ti­cismo e téc­ni­cas que pro­me­tem algum tipo de cura. Já tinha escu­tado sobre uma delas, mas nunca tinha pres­tado aten­ção, e fiquei real­mente espan­tando com o que vi. A téc­nica se chama The­taHe­a­ling e pro­mete cura ime­di­ata atra­vés da alma, usando bases cien­tí­fi­cas, como a física quân­tica.

Quân­tico”, é a moda hoje em dia. Usando o termo, são 99,99% de chan­ces de ser pica­re­ta­gem. Se não se asso­ciar o “quân­tico” à física (física de ver­dade, equa­ções com variá­veis e inte­grais) pode dar adeus à vera­ci­dade. É mais ou menos o que acon­te­ceu com o “mag­né­tico” nos anos 80. “Quân­tico” é o bacon do mis­ti­cismo, tudo fica melhor com “quân­tico”.

isac asimov ciência

O The­taHe­a­ling ainda afirma que o paci­ente deve estar aberto e recep­tivo ao tra­ta­mento, pois nada pode mudar com rela­ção a você, sem o seu con­sen­ti­mento. Bem, eu achei que era cien­tí­fico! Não é pre­ciso acre­di­tar na gra­vi­dade para que ela atue sobre o seu corpo. No site ofi­cial da téc­nica, existe uma aba para con­ven­cer pes­soas céti­cas, como eu. Bus­cando levar para o ponto da ciên­cia, e afir­mando que “estu­dos difun­dem a efi­cá­cia desta téc­nica a par­tir de parâ­me­tros não sub­je­ti­vos”. Estu­dos estes que não se tem fon­tes. Eu gos­ta­ria de infor­mar aos adep­tos e cri­a­do­res dessa téc­nica que… ISSO É MAIS UMA PSEUDOCIÊNCIA! E esse tipo de coisa, com cer­teza não está res­trito ao século XXI.

Em 1995, Carl Sagan, um dos mai­o­res divul­ga­do­res cien­tí­fi­cos do século XX, publi­cou “O mundo assom­brado pelos demô­nios”, onde é mos­trado a base para o método cien­ti­fico e para o ceti­cismo filo­só­fico. Basi­ca­mente o método cien­tí­fico é fazer obser­va­ções, se ques­ti­o­nar, for­mu­lar hipó­te­ses, fazer expe­ri­ên­cias e acei­tar ou refu­tar tal hipó­tese. A astro­no­mia aju­dou a desen­vol­ver o método cien­tí­fico, as obser­va­ções dos pri­mei­ros astrô­no­mos eram ano­ta­das e com­par­ti­lha­das na forma de publi­ca­ções, que podiam ser com­pa­ra­das, che­ca­das e cor­ri­gi­das por outros astrô­no­mos.

O ceti­cismo filo­só­fico é uma maneira de cons­truir, enten­der, raci­o­na­li­zar e reco­nhe­cer argu­men­tos váli­dos e invá­li­dos, e prová-los de maneira inde­pen­dente. O livro de Carl Sagan deve­ria ser uma lei­tura obri­ga­tó­ria em todas as esco­las, que tem como obje­tivo edu­car e ensi­nar. Mas infe­liz­mente a pés­sima edu­ca­ção que temos se reflete na soci­e­dade, as pes­soas con­ti­nuam sendo cré­du­las, supers­ti­ci­o­sas, acre­di­tando em coi­sas sem nenhuma evi­dên­cia e sem nenhum tipo de von­tade de estu­dar. Pre­fe­rindo uma curi­o­si­dade mís­tica ao estudo de fato.

sagan ferramenta

O ceti­cismo crí­tico deve ser ensi­nado, para que exista bom senso. Você pode achar que o que as pes­soas não acre­di­tam não tem impor­tân­cia, mas isso vira uma bola de neve. No começo ques­ti­o­nam fatos con­cre­tos da ciên­cia e logo depois já estão acre­di­tando em home­o­pa­tia, astro­lo­gia, design inte­li­gente, acu­pun­tura, que as pirâ­mi­des foram cons­truí­das por ETs, que o homem não foi à Lua, e por aí vai. Não é à toa que o livro “O Segredo” foi best sel­ler mun­dial, vomi­tando bes­tei­ras e mais bes­tei­ras.

A saúde da popu­la­ção tam­bém fica em risco com esse tipo de coisa, quando pes­soas como o famoso João de Deus entram na jogada, enga­nando e extor­quindo milha­res de fiéis. O ser humano é pre­gui­çoso e sem­pre busca ata­lhos, alguns deles podem ser fatais. A qui­mi­o­te­ra­pia, por exem­plo, é super des­gas­tante, mas ir num char­la­tão e ele afir­mar que vai te curar é melhor e mais fácil, não é?

Pois bem, sinto lhe infor­mar que João de Deus, curan­dei­ros e até os fun­da­do­res do The­taHe­a­ling são char­la­tões e deve­riam estar pre­sos! Na Legis­la­ção bra­si­leira pode-se usar legal­mente de arti­fí­cios para se com­ba­ter a pseu­do­ci­ên­cia. A Lei 2848/40 deixa isso bem claro em três arti­gos:

Art. 275. Incul­car, em invó­lu­cro ou reci­pi­ente de pro­duto ali­men­tí­cio ou medi­ci­nal, a exis­tên­cia de subs­tân­cia que não se encon­tra em seu con­teúdo ou que nele existe em quan­ti­dade menor que a men­ci­o­nada:
Pena — deten­ção, de um a três meses, ou multa.

Art. 283. Incul­car ou anun­ciar cura por meio secreto ou infa­lí­vel:
Pena — deten­ção, de três meses a um ano, e multa.

Art. 284. Exer­cer o curan­dei­rismo:
I — pres­cre­vendo, minis­trando ou apli­cando, habi­tu­al­mente, qual­quer subs­tân­cia;
II — usando ges­tos, pala­vras ou qual­quer outro meio;
III — fazendo diag­nós­ti­cos.
Pena — deten­ção, de seis meses a dois anos.

Pará­grafo único. Se o crime é pra­ti­cado medi­ante remu­ne­ra­ção, o agente fica tam­bém sujeito à multa.

É bem fácil iden­ti­fi­car as pseu­do­ci­ên­cias, todas seguem a mesma linha de raci­o­cí­nio. Usam ter­mos vagos e con­tra­di­tó­rios; não apre­sen­tam publi­ca­ções cien­tí­fi­cas váli­das (são áreas extre­ma­mente des­co­nhe­ci­das); cri­ti­cam o método cien­tí­fico; não têm cri­té­rio de fal­se­a­bi­li­dade; acham que estão sendo sabo­ta­dos pela grande indús­tria que não quer dar a “cura” à popu­la­ção; dis­far­çam coi­sas “mági­cas” com ter­mos cien­tí­fi­cos; evo­cam os “pode­res” da física quân­tica; usam a inver­são do ônus da prova; men­ci­o­nam civi­li­za­ções anti­gas que usa­vam o método, ou é tão novo que está sendo desen­vol­vido pela NASA, até mesmo algo que a ciên­cia ainda não tem méto­dos para detec­tar sua efi­ci­ên­cia.

Eles não têm pro­blema nenhum em falar que não sabem como fun­ci­ona, você que pre­cisa ape­nas acre­di­tar. Não é ques­tão de acre­di­tar, ciên­cia não é reli­gião, e ape­nas evi­dên­cias devem ser rele­va­das. Se medi­cina alter­na­tiva fun­ci­o­nasse, ela se cha­ma­ria ape­nas medi­cina. Essas coi­sas fazem com que o esforço de gran­des divul­ga­do­res cien­tí­fi­cos e defen­so­res do ceti­cismo como o pró­prio Carl Sagan, Neil Degrasse Tyson, Penn e Tel­ler, Stephen Haw­king, Richard Daw­kins e James Randi (pes­quise por Randi e seu desa­fio de 1 milhão de dóla­res) se torne em vão.

E, por fim, a ciên­cia não se ofende quando está errada, ela se auto cor­rige o tempo todo. Fale para um pseu­do­ci­en­tista ou defen­sor de uma pseu­do­ci­ên­cia que ele está errado, e você será mas­sa­crado e acu­sado de nega­dor da fé. Para­fra­se­ando Átila Iama­rino, “enquanto a ciên­cia cresce sobre os ombros de gigan­tes, as pseu­do­ci­ên­cias cres­cem sobre o bolso de desin­for­ma­dos”.

Estevao Noleto
Engineering student, geek, football lover, tech and science. Meus textos são apenas reflexões de uma época estranha.

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