Para quem não sabe, quando guerrilheira, Dilma foi a líder do “maior golpe da história do terrorismo mundial”. Isso nas palavras de Elio Gaspari, jornalista que recentemente afirmou que o impeachment de Dilma foi, sim, um golpe. Portanto, ninguém mais imparcial. Ele fez essa afirmação com respaldo em seu livro “A Ditadura Escancarada“, segundo volume de sua série de livros “Ilusões Armadas”, série essa que é de leitura obrigatória por todos aqueles que querem entender o que está acontecendo no Brasil neste momento.

Esse golpe sem precedentes históricos internacionais é o famoso assalto ao cofre do Ademar de Barros. Eu conto essa história no início do meu segundo livro ficcional, intitulado justo Ano Zero e ainda sendo escrito (não queiram saber do primeiro livro!), pois é um dos incidentes que dá início à trama.

O assalto comandado por Dilma é um dos episódios mais interessantes do período da ditadura militar. Então é uma boa ideia apresentar aqui o trecho do livro em que meus personagens contam a história do cofre do Ademar:


(…)

Setembro de 1973

Na cozinha, estavam sentados em torno da mesa de fórmica o jornalista, o padre, a espiã e a prostituta. Era um domingo chuvoso em São Paulo. Todas as atenções estavam concentradas no jornalista, que trazia uma pasta cheia de recortes de jornais e fotografias.

– Bom, isso é o que consegui apurar sobre os fatos – disse Amaro, abrindo sua pasta na mesa e espalhando os documentos na frente dos demais. – Vou explicar tudo em detalhes caso nem todos estejam a par da situação política no Brasil. Mas antes, só para recapitularmos: após a tortura e pouco antes de morrer, o professor falou de uma carta que estava com “o argelino”, certo Sabine?

– Isso. – respondeu a espiã. – Depois, quando foi a minha vez de ser interrogada e torturada perguntaram sobre o “cofre da amante”.

Como se esperasse a deixa, Amaro passou para os demais a foto antiga de um homem de bigode, com um terno bem alinhado, fazendo pose sentado na frente de um belo carro.

ademar de barros e carro oficial da assembléia. | assalto ao cofre do ademar

– Bom, é muito provável que se referiam ao roubo do cofre de Ademar de Barros, o sujeito aí dessa foto. Você não sabe por ser estrangeira, Sabine, mas Ademar de Barros foi um político corrupto que governou o Estado de São Paulo por três vezes, sendo a primeira como interventor federal no regime do ditador Vargas. Ele era um sujeito muito corrupto e poderoso. Já durante suas campanhas políticas ficou conhecido pelo slogan “rouba mas faz”. 

– Eu me lembro! – Disse Otávia. – Quando criança, a gente cantava uma marchinha de carnaval ou algo do gênero, não tenho certeza, sobre o Ademar, e que era assim: Quem não conhece? Quem nunca ouviu falar? Na famosa caixinha do Ademar?

A prostituta havia se aprumado na cadeira, enchido o peito de ar e cantado com uma voz de soprano surpreendente bela. O padre Daniel aplaudiu e Sabine mostrou-se impassível. Amaro limitou-se a sorrir e em seguida mostrou aos demais a manchete de um jornal, em que letras garrafais anunciavam: “GANGS DE BANCO TAMBÉM ROUBAM COFRE DE ADEMAR”.

– Além de ter roubado muito quando foi governador, dizem que até sua morte em 1969 Ademar detinha o monopólio do jogo clandestino em São Paulo e no Rio de Janeiro. E sempre houve boatos de que todo o dinheiro que ele acumulava estava em um cofre localizado na casa da sua amante, cofre esse que pesava mais de duzentos quilos, segundo dizem.

– Só de peso? – Interviu Otávia, assobiando. – Ou o cofre cheio de dinheiro?

– Não tenho certeza Otávia. Continuando, a Vanguarda Armada Revolucionária, o VAR, um grupo revolucionário de extrema esquerda que luta contra o regime militar, confirmou a existência do cofre. Esses caras descobriram que, na verdade, o cofre estava na casa do irmão da amante do Ademar, que dizem também estava metido com o jogo clandestino. Quem deu a eles detalhes sobre o cofre foi um sobrinho do Ademar, um jovem que participava do combate ao regime militar. A ideia do pessoal do VAR era roubar esse cofre para financiar a sua luta revolucionária. Planejaram o assalto e escolheram uma guerrilheira jovem, Dilma Rousseff, para comandar a iniciativa.

Amaro colocou no centro da mesa a foto de uma mulher jovem, com óculos de lentes grossas, cabelos morenos curtos e ondulados, segurando um número de identificação de prisioneira diante do peito.

dilma rousseff e o assalto ao cofre do ademar de barros

– Eu conheço essa moça. – Disse Sabine, com sua calma robótica, apontando para a foto. – Eu a incluí em um dos dossiês que enviei a meus chefes. O codinome dela era Wanda. Ela é considerada pela ditadura brasileira como um dos “cérebros” do VAR. E essa história agora não me é estranha, eu já escutei sobre uma iniciativa famosa dessa moça, uma ação sem precedentes internacionais.

– Pois foi Dilma e mais doze guerrilheiros que numa tarde de julho de 1969 entraram numa mansão em Santa Teresa, bairro nobre do Rio, e roubaram o famoso cofre da amante do Ademar.

“Eles foram muito audaciosos. Bateram a porta e se apresentaram disfarçados de policiais federais que procuravam por material subversivo. Vocês sabem, nos dias de hoje, se a Polícia Federal toca a campainha e se apresenta desse jeito, ninguém discute, ninguém se opõe, justamente pra que não levantar maiores suspeitas. Então entraram facilmente, armados com submetralhadoras e fuzis FAL. Parte do grupo ficou do lado de fora, dando cobertura, outra parte furou os pneus dos carros na garagem, e outros amarravam os criados e moradores da mansão.”

“Ocorreram situações engraçadas durante o assalto. A cozinheira se recusou a largar o fogão quando lhe mostraram as armas e disseram para se render, dizendo que se deixasse a carne estragar a ‘patroa’ não iria gostar. Tinha uma copeira tomando banho, e ela não levou a sério as ameaças para que saísse logo do banheiro e ficou lá terminando o seu banho sem pressa.”

– É o que sempre digo. – Sabine interrompeu Amaro, falando dessa vez com um sotaque alemão carregado – Os revolucionários brasileiros são jovens despreparados da classe média, ingênuos que se atiram ao perigo e não sabem se impor nem mesmo com armas em mãos. Jamais vão conseguir nada no Brasil, só sofrimento para eles próprios e uma desculpa para o regime militar aumentar a opressão sobre toda a população. Unbefangen, naiv.

Sabine falava mais para si mesma do que para para os três brasileiros, que estavam atônitos, já que era a primeira vez que a alemã falava sua língua natal. Mais ainda, era a primeira vez que demonstrava alguma emoção. Ela parecia irritada, como se aquilo fosse algo que a afetasse pessoalmente. Por isso, todos ficaram quietos até que ela não tivesse nada mais a dizer e não houvesse mais chances de ela dar mais detalhes sobre sua origem misteriosa.

manchete sobre assalto ao cofre de ademar de barros

Amaro pigarreou para romper o silêncio e disse:

– Bom, continuando, os invasores foram no segundo andar da mansão e seguiram as orientações do sobrinho do Ademar para encontrar o cofre. Eles planejavam descer o cofre em um carrinho de mão, mas no final rolaram o cofre pela escadaria de mármore. Levaram-no até uma caminhonete que estacionaram na frente da casa e foram embora. Tudo isso em menos de meia hora.

“Foi um golpe sem precedentes até mesmo para os critérios internacionais. No cofre havia mais de dois milhões e meio de dólares. É o maior golpe da história da luta revolucionária até agora. Nunca nenhuma investida de nenhum grupo subversivo rendeu tanto dinheiro. E isso no mundo inteiro.”

– Sim, agora sim sei sobre o que você está falando. – Disse Sabine. – Mas não sabia dessa história como o roubo do “cofre da amante”. Sei que os combatentes do VAR conseguiram num só golpe milhões de dólares para financiar a luta armada contra o regime, e que o dinheiro simplesmente sumiu, ou pelo menos não se sabe com certeza como foi distribuído.

– Será que era isso que seus torturadores queriam? – Perguntou Otávia. – Saber onde foi parar o dinheiro.

– Só sei da história por intermédio de terceiros, não tenho ideia de onde foi parar esse dinheiro. E eles queriam saber é de uma carta, só de uma carta.

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– É possível que houvesse outros documentos no cofre do Ademar. – Falou o padre Daniel, até agora escutando em silêncio. – Além de dinheiro, outras coisas importantes que ele tivesse conseguido ao longo da vida e que possuíssem algum valor. Você disse que os seus torturadores não eram exatamente militares, certo Sabine?

– Sim, eu acho que eles estavam envolvidos de alguma forma com o objetivo militar de combater os diversos movimentos revolucionários de esquerda, e talvez até contassem com a participação de militares. Mas sou experiente o suficiente para saber que eles também eram clandestinos, no sentido de que suas atividades não tinham a aprovação oficial do regime militar.

– Gente, vamos manter o foco. – Disse Amaro. – O que sabemos é que é uma carta que vale mais do que dois milhões e meio de dólares e que custou a vida de um homem e possivelmente de uma menina barbaramente assassinada.

– Porra mas que carta é essa que vale mais do que dois milhões meio de dólares, meu Deus do Céu? – Gritou Otávia. – Desculpa padre, pelo palavrão.

– E quem disse que padre não pode ouvir ou falar palavrão? – Padre Daniel piscou e sorriu. – Mas colocar o nome de Deus na mesma frase de um palavrão, bem aí talvez não fique muito bem.

– Bom, seja qual for o conteúdo dessa carta, a única pista para encontrá-la será descobrir o paradeiro do dinheiro desse assalto, certo? Quem está a fim de me ajudar nessa investigação?

Os outros três participantes da conversa levantaram suas mãos. Amaro olhou para seus companheiros e pensou que não poderia haver um grupo mais insólito: um jornalista pobre e fracassado, um padre psicanalista, uma prostituta nietzscheana e uma espiã alemã.

(…)

  • Rodrigo Müller Camatta

    original!

  • Rodrigo Müller Camatta

    original!

  • Cara, espionagem, dados curiosos sobre o passado que enriquecem nossa visão do presente político brasileiro…CURTI!

    Fiquei pensando aqui…tu tem alguma opinião sobre a ética envolvida nesse tipo de ato pra financiar a luta contra a ditadura militar? O quão isso seria “o certo a fazer”?

    • Obrigado pela leitura Felipe!

      Olha, sob o enfoque da ética a situação é extremamente complexa. Em primeiro lugar, acho legítima a resistência a qualquer forma de regime ditatorial, e o regime militar no Brasil era, lógico, ditatorial e deveria ser enfrentado com veemência. Porém, no caso específico dos grupos revolucionários, a situação era um tanto mais complicada, pois eles não estavam apenas combatendo a ditadura e desejando a restauração do sistema democrático anteriormente existente: tais grupos desejavam estabelecer uma ditadura do proletariado no Brasil (isso é fato, isso não é boato). Então, como um dos personagens do filme brasileiro “Pra Frente Brasil” (1982) diz, basicamente se tratava de trocar um regime antidemocrático de direita por um regime antidemocrático de esquerda.

      Dois males estavam se digladiando, portanto, e pedir para o cidadão da época escolher um deles é uma questão dificílima. Um desses lados (os militares), claro, era mais detestável que o outro, porque estava no poder e usava o aparato estatal para oprimir. Já os participantes dos movimentos revolucionários da época tinham a seu favor, em termos de moralidade, a ingenuidade de jovens que acreditavam em um sonho de utopia para a sociedade. Só que essa vantagem moral ainda é muito tênue.

      E essa ingenuidade custou caro ao país: fica claro, após estudar o período, que os grupos revolucionários de esquerda eram TUDO o que os setores mais linha dura do regime militar queriam para legitimar o aumento de seu poder e a manutenção dos militares no poder. É um esquema de retro-alimentação ideológica que às vezes temo que volte a ocorrer no Brasil: conservadores de direita utilizando as iniciativas de grupos da esquerda como elemento justificador da tomada do poder, e por consequência, ante essa tomada de poder, uma radicalização maior da esquerda que só serve para justificar uma maior violência ainda maior dos conservadores.

      Quanto aos assaltos e sequestros dos grupos revolucionários: como sou adepto da resistência não-violenta, tenho veementes dúvidas sobre se poderiam ser justificados. Afinal, quando entravam em um banco, apontavam uma arma não para o dono do banco, mas para um bancário, um vigilante, um office-boy, que se viam submetidos a uma ameaça real. Que culpa eles tinham? Os fins justificam os meios? Creio que não.

      Claro que muito pior, infinitamente pior, era o terrorismo de estado: parto do princípio de que se temos dois crimes iguais, e um dos crimes é praticado por um grupo de pessoas atuando clandestinamente, enquanto o outro é praticado por autoridades que utilizam a própria máquina estatal para perpetrá-lo, nesse segundo caso a reprovação é infinitamente maior. As torturas realizadas pelo regime militar foram bestiais, são crimes hediondos que deveriam ter levado os seus perpetradores aos tribunais, como ocorreu na Argentina. Mas, ainda assim, um ato violento não legitima o outro – ainda mais que, repetindo, esses grupos revolucionários não estavam buscando restaurar o “status quo ante” da democracia, eles estavam buscando (com muita ingenuidade e despreparo), iniciar uma revolução proletária e campesina que, na prática, apenas imporia aos brasileiros uma nova forma de autoritarismo. Logo, ainda que os fins justificassem os meios, nesse caso os fins não eram apenas a derrubada do regime militar e a devolução do poder aos cidadãos de uma democracia republicana – os fins iam além, e envolviam uma outra ruptura democrática.

      Tento resolver essa situação em meu livro contando tudo sob a perspectiva de dois personagens: uma alemã comunista que percebe as ciladas em que caíram os grupos revolucionários brasileiros, e um jornalista republicano e democrata que não aceita nem uma ditadura militar e tampouco uma ditadura do proletariado. Mas a história vai além do regime militar, e até muito além da situação do Brasil.