CAPA-COFREADEMAR

O assalto mais famoso comandado por Dilma

Em Consciência, História por Victor LisboaComentários

Para quem não sabe, quando guer­ri­lheira, Dilma foi a líder do “maior golpe da his­tó­ria do ter­ro­rismo mun­dial”. Isso nas pala­vras de Elio Gas­pari, jor­na­lista que recen­te­mente afir­mou que o impe­a­ch­ment de Dilma foi, sim, um golpe. Por­tanto, nin­guém mais impar­cial. Ele fez essa afir­ma­ção com res­paldo em seu livro “A Dita­dura Escan­ca­rada”, segundo volume de sua série de livros “Ilu­sões Arma­das”, série essa que é de lei­tura obri­ga­tó­ria por todos aque­les que que­rem enten­der o que está acon­te­cendo no Bra­sil neste momento.

Esse golpe sem pre­ce­den­tes his­tó­ri­cos inter­na­ci­o­nais é o famoso assalto ao cofre do Ade­mar de Bar­ros. Eu conto essa his­tó­ria no iní­cio do meu segundo livro fic­ci­o­nal, inti­tu­lado justo Ano Zero e ainda sendo escrito (não quei­ram saber do pri­meiro livro!), pois é um dos inci­den­tes que dá iní­cio à trama.

O assalto coman­dado por Dilma é um dos epi­só­dios mais inte­res­san­tes do período da dita­dura mili­tar. Então é uma boa ideia apre­sen­tar aqui o tre­cho do livro em que meus per­so­na­gens con­tam a his­tó­ria do cofre do Ade­mar:


(…)

Setem­bro de 1973

Na cozi­nha, esta­vam sen­ta­dos em torno da mesa de fór­mica o jor­na­lista, o padre, a espiã e a pros­ti­tuta. Era um domingo chu­voso em São Paulo. Todas as aten­ções esta­vam con­cen­tra­das no jor­na­lista, que tra­zia uma pasta cheia de recor­tes de jor­nais e foto­gra­fias.

- Bom, isso é o que con­se­gui apu­rar sobre os fatos — disse Amaro, abrindo sua pasta na mesa e espa­lhando os docu­men­tos na frente dos demais. — Vou expli­car tudo em deta­lhes caso nem todos este­jam a par da situ­a­ção polí­tica no Bra­sil. Mas antes, só para reca­pi­tu­lar­mos: após a tor­tura e pouco antes de mor­rer, o pro­fes­sor falou de uma carta que estava com “o arge­lino”, certo Sabine?

- Isso. — res­pon­deu a espiã. — Depois, quando foi a minha vez de ser inter­ro­gada e tor­tu­rada per­gun­ta­ram sobre o “cofre da amante”.

Como se espe­rasse a deixa, Amaro pas­sou para os demais a foto antiga de um homem de bigode, com um terno bem ali­nhado, fazendo pose sen­tado na frente de um belo carro.

ademar de barros e carro oficial da assembléia. | assalto ao cofre do ademar

- Bom, é muito pro­vá­vel que se refe­riam ao roubo do cofre de Ade­mar de Bar­ros, o sujeito aí dessa foto. Você não sabe por ser estran­geira, Sabine, mas Ade­mar de Bar­ros foi um polí­tico cor­rupto que gover­nou o Estado de São Paulo por três vezes, sendo a pri­meira como inter­ven­tor fede­ral no regime do dita­dor Var­gas. Ele era um sujeito muito cor­rupto e pode­roso. Já durante suas cam­pa­nhas polí­ti­cas ficou conhe­cido pelo slo­gan “rouba mas faz”. 

- Eu me lem­bro! — Disse Otá­via. — Quando cri­ança, a gente can­tava uma mar­chi­nha de car­na­val ou algo do gênero, não tenho cer­teza, sobre o Ade­mar, e que era assim: Quem não conhece? Quem nunca ouviu falar? Na famosa cai­xi­nha do Ade­mar?

A pros­ti­tuta havia se apru­mado na cadeira, enchido o peito de ar e can­tado com uma voz de soprano sur­pre­en­dente bela. O padre Daniel aplau­diu e Sabine mos­trou-se impas­sí­vel. Amaro limi­tou-se a sor­rir e em seguida mos­trou aos demais a man­chete de um jor­nal, em que letras gar­ra­fais anun­ci­a­vam: “GANGS DE BANCO TAMBÉM ROUBAM COFRE DE ADEMAR”.

- Além de ter rou­bado muito quando foi gover­na­dor, dizem que até sua morte em 1969 Ade­mar deti­nha o mono­pó­lio do jogo clan­des­tino em São Paulo e no Rio de Janeiro. E sem­pre houve boa­tos de que todo o dinheiro que ele acu­mu­lava estava em um cofre loca­li­zado na casa da sua amante, cofre esse que pesava mais de duzen­tos qui­los, segundo dizem.

- Só de peso? — Inter­viu Otá­via, asso­bi­ando. — Ou o cofre cheio de dinheiro?

- Não tenho cer­teza Otá­via. Con­ti­nu­ando, a Van­guarda Armada Revo­lu­ci­o­ná­ria, o VAR, um grupo revo­lu­ci­o­ná­rio de extrema esquerda que luta con­tra o regime mili­tar, con­fir­mou a exis­tên­cia do cofre. Esses caras des­co­bri­ram que, na ver­dade, o cofre estava na casa do irmão da amante do Ade­mar, que dizem tam­bém estava metido com o jogo clan­des­tino. Quem deu a eles deta­lhes sobre o cofre foi um sobri­nho do Ade­mar, um jovem que par­ti­ci­pava do com­bate ao regime mili­tar. A ideia do pes­soal do VAR era rou­bar esse cofre para finan­ciar a sua luta revo­lu­ci­o­ná­ria. Pla­ne­ja­ram o assalto e esco­lhe­ram uma guer­ri­lheira jovem, Dilma Rous­seff, para coman­dar a ini­ci­a­tiva.

Amaro colo­cou no cen­tro da mesa a foto de uma mulher jovem, com ócu­los de len­tes gros­sas, cabe­los more­nos cur­tos e ondu­la­dos, segu­rando um número de iden­ti­fi­ca­ção de pri­si­o­neira diante do peito.

dilma rousseff e o assalto ao cofre do ademar de barros

- Eu conheço essa moça. — Disse Sabine, com sua calma robó­tica, apon­tando para a foto. — Eu a incluí em um dos dos­siês que enviei a meus che­fes. O codi­nome dela era Wanda. Ela é con­si­de­rada pela dita­dura bra­si­leira como um dos “cére­bros” do VAR. E essa his­tó­ria agora não me é estra­nha, eu já escu­tei sobre uma ini­ci­a­tiva famosa dessa moça, uma ação sem pre­ce­den­tes inter­na­ci­o­nais.

- Pois foi Dilma e mais doze guer­ri­lhei­ros que numa tarde de julho de 1969 entra­ram numa man­são em Santa Teresa, bairro nobre do Rio, e rou­ba­ram o famoso cofre da amante do Ade­mar.

Eles foram muito auda­ci­o­sos. Bate­ram a porta e se apre­sen­ta­ram dis­far­ça­dos de poli­ci­ais fede­rais que pro­cu­ra­vam por mate­rial sub­ver­sivo. Vocês sabem, nos dias de hoje, se a Polí­cia Fede­ral toca a cam­pai­nha e se apre­senta desse jeito, nin­guém dis­cute, nin­guém se opõe, jus­ta­mente pra que não levan­tar mai­o­res sus­pei­tas. Então entra­ram facil­mente, arma­dos com sub­me­tra­lha­do­ras e fuzis FAL. Parte do grupo ficou do lado de fora, dando cober­tura, outra parte furou os pneus dos car­ros na gara­gem, e outros amar­ra­vam os cri­a­dos e mora­do­res da man­são.”

Ocor­re­ram situ­a­ções engra­ça­das durante o assalto. A cozi­nheira se recu­sou a lar­gar o fogão quando lhe mos­tra­ram as armas e dis­se­ram para se ren­der, dizendo que se dei­xasse a carne estra­gar a ‘patroa’ não iria gos­tar. Tinha uma copeira tomando banho, e ela não levou a sério as ame­a­ças para que saísse logo do banheiro e ficou lá ter­mi­nando o seu banho sem pressa.”

- É o que sem­pre digo. — Sabine inter­rom­peu Amaro, falando dessa vez com um sota­que ale­mão car­re­gado — Os revo­lu­ci­o­ná­rios bra­si­lei­ros são jovens des­pre­pa­ra­dos da classe média, ingê­nuos que se ati­ram ao perigo e não sabem se impor nem mesmo com armas em mãos. Jamais vão con­se­guir nada no Bra­sil, só sofri­mento para eles pró­prios e uma des­culpa para o regime mili­tar aumen­tar a opres­são sobre toda a popu­la­ção. Unbe­fan­gen, naiv.

Sabine falava mais para si mesma do que para para os três bra­si­lei­ros, que esta­vam atô­ni­tos, já que era a pri­meira vez que a alemã falava sua lín­gua natal. Mais ainda, era a pri­meira vez que demons­trava alguma emo­ção. Ela pare­cia irri­tada, como se aquilo fosse algo que a afe­tasse pes­so­al­mente. Por isso, todos fica­ram qui­e­tos até que ela não tivesse nada mais a dizer e não hou­vesse mais chan­ces de ela dar mais deta­lhes sobre sua ori­gem mis­te­ri­osa.

manchete sobre assalto ao cofre de ademar de barros

Amaro pigar­reou para rom­per o silên­cio e disse:

- Bom, con­ti­nu­ando, os inva­so­res foram no segundo andar da man­são e segui­ram as ori­en­ta­ções do sobri­nho do Ade­mar para encon­trar o cofre. Eles pla­ne­ja­vam des­cer o cofre em um car­ri­nho de mão, mas no final rola­ram o cofre pela esca­da­ria de már­more. Leva­ram-no até uma cami­nho­nete que esta­ci­o­na­ram na frente da casa e foram embora. Tudo isso em menos de meia hora.

Foi um golpe sem pre­ce­den­tes até mesmo para os cri­té­rios inter­na­ci­o­nais. No cofre havia mais de dois milhões e meio de dóla­res. É o maior golpe da his­tó­ria da luta revo­lu­ci­o­ná­ria até agora. Nunca nenhuma inves­tida de nenhum grupo sub­ver­sivo ren­deu tanto dinheiro. E isso no mundo inteiro.”

- Sim, agora sim sei sobre o que você está falando. — Disse Sabine. — Mas não sabia dessa his­tó­ria como o roubo do “cofre da amante”. Sei que os com­ba­ten­tes do VAR con­se­gui­ram num só golpe milhões de dóla­res para finan­ciar a luta armada con­tra o regime, e que o dinheiro sim­ples­mente sumiu, ou pelo menos não se sabe com cer­teza como foi dis­tri­buído.

- Será que era isso que seus tor­tu­ra­do­res que­riam? — Per­gun­tou Otá­via. — Saber onde foi parar o dinheiro.

- Só sei da his­tó­ria por inter­mé­dio de ter­cei­ros, não tenho ideia de onde foi parar esse dinheiro. E eles que­riam saber é de uma carta, só de uma carta.

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- É pos­sí­vel que hou­vesse outros docu­men­tos no cofre do Ade­mar. — Falou o padre Daniel, até agora escu­tando em silên­cio. — Além de dinheiro, outras coi­sas impor­tan­tes que ele tivesse con­se­guido ao longo da vida e que pos­suís­sem algum valor. Você disse que os seus tor­tu­ra­do­res não eram exa­ta­mente mili­ta­res, certo Sabine?

- Sim, eu acho que eles esta­vam envol­vi­dos de alguma forma com o obje­tivo mili­tar de com­ba­ter os diver­sos movi­men­tos revo­lu­ci­o­ná­rios de esquerda, e tal­vez até con­tas­sem com a par­ti­ci­pa­ção de mili­ta­res. Mas sou expe­ri­ente o sufi­ci­ente para saber que eles tam­bém eram clan­des­ti­nos, no sen­tido de que suas ati­vi­da­des não tinham a apro­va­ção ofi­cial do regime mili­tar.

- Gente, vamos man­ter o foco. — Disse Amaro. — O que sabe­mos é que é uma carta que vale mais do que dois milhões e meio de dóla­res e que cus­tou a vida de um homem e pos­si­vel­mente de uma menina bar­ba­ra­mente assas­si­nada.

- Porra mas que carta é essa que vale mais do que dois milhões meio de dóla­res, meu Deus do Céu? — Gri­tou Otá­via. — Des­culpa padre, pelo pala­vrão.

- E quem disse que padre não pode ouvir ou falar pala­vrão? — Padre Daniel pis­cou e sor­riu. — Mas colo­car o nome de Deus na mesma frase de um pala­vrão, bem aí tal­vez não fique muito bem.

- Bom, seja qual for o con­teúdo dessa carta, a única pista para encon­trá-la será des­co­brir o para­deiro do dinheiro desse assalto, certo? Quem está a fim de me aju­dar nessa inves­ti­ga­ção?

Os outros três par­ti­ci­pan­tes da con­versa levan­ta­ram suas mãos. Amaro olhou para seus com­pa­nhei­ros e pen­sou que não pode­ria haver um grupo mais insó­lito: um jor­na­lista pobre e fra­cas­sado, um padre psi­ca­na­lista, uma pros­ti­tuta nietzs­che­ana e uma espiã alemã.

(…)

Victor Lisboa
Editor do site Ano Zero.

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