Depois da bomba dupla que foram a lista do Fachin (que compromete basicamente todo mundo, e por isso enfraquece a ideia de que o PT é especialmente perseguido pela justiça) e a delação dos Odebrecht (que afirma não só que o Lula recebeu milhões em propina, favores e presentes, mas também que ele era um aliado das grandes empresas e dos patrões e empreiteiras desde os anos 70), parece que finalmente muita gente está abandonando o barco do lulismo.

Pessoas como Laura Carvalho, Cynara Menezes, Paulo Henrique Amorim e veículos como o El País e o Intercept de Glenn Greenwald têm soltado textos que se resumem a “lutei na trincheira por um bom tempo, mas não dá mais”.

Claro, para que minha esperança não se empolgue muito, esses textos no geral foram recebidos com comentários chamando os autores de traidores, entreguistas, aliados da direita, agentes da CIA, etc. É que sempre vai ter uma galera (seja por esperança ingênua, seja por ter apostado demais nesse jogo) que não desiste nunca, e os argumentos que restaram pra defender o Lula são… curiosos.

As duas coisas que mais vi sendo ditas foram “estão tentando difamar a figura heroica de Lula ao chamá-lo de pelego” e “o ataque a Lula vai acabar destruindo toda a classe política”.

Sobre o primeiro argumento, me surpreende a infinita ignorância quanto à discussão e historiografia pregressa. Lula é, óbvio,uma figura complexa, e seu mérito enquanto representante dos trabalhadores é discutido há décadas. Sindicalistas e metalúrgicos já questionavam a santidade de Lula há tempos, e mesmo filmes da época (como “ABC da Greve”) já retratavam uma figura ambígua e ao mesmo tempo mais interessante e verossímil do que os caricatos salvador dos trabalhadores entreguista venal.

Quanto ao segundo argumento, nem vou entrar no mérito filosófico/da ciência política. Não vou discutir se a prisão e anulação de Lula realmente indicam o desmoronamento da classe política, nem vou tratar do mérito quanto a isso ser algo bom ou ruim.

Vamos pensar exclusivamente em retórica, em estratégia, pragmaticamente. Vivemos um momento de extrema crise política. Basicamente, todas as instituições e figuras do espectro político são odiadas. E aí surgem apoiadores de Lula e dizem “sem ele, a classe política vai desabar!”.

Mesmo aceitando que precisamos da classe política tradicional para evitar algo pior (e essa já é uma ideia discutível), a quem se quer convencer com esse discurso? Dizer de peito aberto que Lula representa a salvação da classe política é admitir que ele é o candidato do “grande acordo nacional”, do “estancar a sangria”, do ataque à Lava Jato. Tudo que essa suposta defesa faz é avisar ao eleitorado que Lula é Temer, Lula é Aécio, Lula é PMDB, Lula é a pizza servida a todos.

É triste constatar, mais uma vez, que a postura de “esquerda”, para muitos, é o conservadorismo mais reativo, mais basal. Defendemos o tempo todo a quebra de ícones e a mudanca estrutural, mas quando surge a oportunidade para repensar um herói e suas contradições e participar de um processo brutal de criação do novo (o que virá depois da Lava Jato? Eu não sei se vai ser bom ou ruim, mas vai ser novo e aberto à mudança, e quem diz prever o futuro com certeza é ou ingênuo ou safado), reagimos todos com um “não é bem assim, calma aí”, e defendemos o status quo mais falido e reacionário.

E depois de tudo isso, bom lembrar que o discurso terrorista do medo que diz “confiem na classe política tradicional, esses outsiders prometendo mudança são assustadores, por favor!” fracassou recentemente nos EUA e no Reino Unido. O retrospecto é um fracasso, talvez não seja legal insistir no erro.

Guilherme Assis
Tem 25 anos, trabalha com audiovisual e sempre se disse de esquerda. A definição mudou, mas ele continua o mesmo – sempre na oposição.
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