“Não se nasce mulher, torna-se mulher”, disse a Simone de Beauvoir. É com base nessa ideia que venho pensando sobre minha infãncia, como fui aos poucos me tornando menino/homem e, principalmente, as vezes em que assumi o papel machista de opressor.

Quando criança, ainda no Ensino Fundamental e na idade dos nove ou dez anos, minha compleição física não ajudava a me distinguir fisicamente de meninas, pois era magro, tímido e delicado. Para mim, ser menino ou ser menina não eram questões que ainda faziam sentido, elas nunca haviam se colocado como dignas de pensamento ou mesmo de nota. Eu poderia muito bem ser um anjo, portanto sem sexo, sem maldade: vivia envolvido em paixões platônicas e em brincadeiras com as crianças da minha rua. Nessa época, meus colegas, por sua vez, já eram meninos que pegavam meninas.

Inspirado pelo irmão mais velho, que parecia transgressor com seus cabelos longos, também deixei os meus crescerem. Da minha experiência com cabelos compridos, trago três relatos que podem ilustrar minha análise sobre masculinidades e maldades.

O primeiro diz respeito a um evento ocorrido durante um passeio com a família. Ao passar por mim, um grupo de garotos teria dito que eu era uma menina muito bonita (vendo as fotos, eu bem poderia ser!). Não esqueço a ação de minha avó: ela veio até mim e mencionou exatamente essa situação, usando-a como indicador de que eu não estava parecendo um menino. Senti-me agredido não por ser objeto do olhar de transeuntes do mesmo sexo que eu, mas por ser repreendido pelos conceitos de um familiar. O comentário, a risada, a maldade, tudo apontava para um mesmo fator: eu estava deslocado do meu lugar. Em outras palavras, eu deveria aprender a me comportar como menino, para que isso nunca mais acontecesse.

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O segundo relato refere-se à reação da minha mãe, que dias depois me levou para cortar os cabelos. Lembro que chorei quando saímos da cabelereira. Ela me parou e perguntou se eu realmente achava que ela faria alguma coisa pelo meu mal. Não, eu não achava, e ainda não acho. Entretanto, saber que as intenções eram positivas não diminuiu o impacto de ser atravessado – cortado, inclusive. Eu não podia continuar como era, pois havia algo de errado comigo, e não poderia continuar a chorar, pois reconhecia as boas intenções que me silenciavam.

O terceiro relato segue o fluxo dos acontecimentos para o dia seguinte ao corte, na escola. Meus colegas apontavam para mim e riam, dizendo que eu havia finalmente virado um menino, que eu era tão bonita antes, e outros comentários carregados de maldade infantil. A tentativa de me enquadrar como um garoto (de cabelos curtos) não era suficiente, pois a performance estava incorreta. Meninos não eram tímidos e delicados, nem anjinhos ingênuos. Eram espoletas, agitados, brigões.

Não apenas a família, mas também a escola intercedia na maneira como eu me apresentava. Aos poucos, fui aprendendo como deveria me portar e o que era um comportamento aceitável. Por meio das intervenções da avó, da mãe e dos colegas, comecei a entender que eu precisava me adequar – ao que deveria me adequar, só compreendi anos mais tarde.

O aprender a ser menino estava vinculado a ser sexualmente ativo com meninas. Embora eu já estivesse começando a entender que me atraíam os corpos masculinos, minhas paixões platônicas permaneciam direcionadas às meninas. Eu dizia para mim mesmo que, em casa, podia me imaginar com homens, mas no mundo lá fora eu deveria ser perfeitamente heterossexual. Não pensava em fingir ser algo que não fosse: eu realmente acreditava que podia ser duas coisas distintas, dependendo de quem estivesse me olhando em determinado momento.

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Esse ser menino e ser heterossexual estavam vinculados obrigatoriamente a não ser equiparado às meninas (maior agressão possível ao ego masculino). Contudo, as identidades sociais que aprisionam os sujeitos são insuficientes para conter suas complexidades, que terminam por vazar. Esses vazamentos produzem rupturas no modelo macho/fêmea, homem/mulher, hetero/homo. Saber que a atração pelo corpo masculino era errada me ensinou a ignorar esses desejos.

Curiosamente, muito antes de dar vazão aos meus desejos, eu já sabia que de alguma forma não correspondia às expectativas sociais, mesmo que fosse insistentemente enquadrado pela voz dos outros. “Viadinho”, “gay”, “putão”, essas palavras indicavam quem os outros pensavam que eu era, ou deveria ser, mas para mim não faziam nenhum sentido. Eu não era nada daquilo. Não pensava, em defesa própria, que eu fosse heterossexual, mas sim que deveria me esforçar para sentir desejo por garotas.

Recordo-me de uma situação em que, recebendo xingamentos homofóbicos na escola, um amigo recorreu ao serviço de orientação estudantil. A solução encontrada pela profissional foi que ele se afastasse de mim, que parecia ser o causador desses constrangimentos em função da nossa proximidade no colégio. Pelo tempo em que ele se manteve afastado, a situação foi resolvida. A educadora estava correta na sua análise e conseguiu solucionar, para meu amigo heterossexual, o problema de estar sendo considerado homossexual.

A meu respeito, o que ela fez? Além de me privar de uma amizade que ajudava a estabelecer força emocional para lidar com as pressões da escola e dos colegas mal intencionados, ignorou o que hoje vejo como o real problema: haver colegas que insultam os outros devido a inferências sobre sua sexualidade. A solução proposta, de se afastar do alvo principal dos xingamentos, ignora que a criação desses jovens agressores sancionava que ofendessem colegas considerados como desviantes ou inferiores. A ausência de uma intervenção do poder institucional da escola reforça essa ignorância e as consequências desses atos infligidos sobre alguns estudantes.

Assim como nos relatos anteriores, a forma de sanar os problemas foi a imposição do silêncio, ou seja, a eliminação daquilo que se diferenciava das expectativas. Para os “normais”, a solução é a confirmação silenciosa dessa normalidade, uma vez que só apontamos o dedo para aquilo que consideramos anormal.

Pode-se pensar, pela natureza das narrativas que expus até o momento, que minha infância foi marcada por agressões. Considerando meu interesse em problematizar as maldades envolvidas na formação dos meninos, ou sofridas por quem não se enquadra nas expectativas sociais sobre o que um menino faz ou não faz, seria possível iniciar uma discussão a respeito das intenções por trás de tais atos. O que querem essas avós, mães, colegas e educadoras que maltratam, que exigem, que enquadram? Quando alguém ri de mim por eu não ser um menino adequado, há em jogo uma maldade e um prazer em fazer o outro sofrer?

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Para esboçar uma resposta, trago outro relato de infância. Nas férias de verão de quando eu tinha onze anos, viajei com a família para o nordeste. Ficamos hospedados em um hotel, no qual eu tinha liberdade para circular livremente, e fiz amizade com diversas crianças. Uma delas era um menino um ou dois anos mais novo que eu. Ele tinha cabelos compridos e uma aparência andrógina. Perguntei-lhe se era menino ou menina e, percebendo ali uma oportunidade para divertir o grupo, insisti inúmeras vezes que ele não era realmente um garoto. Lembro-me de sua magoada insistência em dizer que era, sim, um menino – seus apelos ainda ecoam em minha memória.

O que ele era não importava, frente ao olhar classificador dos outros, que se deliciavam, junto comigo, em rir do desviado. Essa não foi a única vez em que me aproveitei de alguém cuja posição era contextualmente mais vulnerável que a minha e estabeleci o mesmo tipo de relação em que tantas vezes me machucaram. Eu não estava a serviço de nenhum objetivo definido, nem tentando construir um mundo que fizesse, de alguma forma, mais sentido.

Mesmo falando e rindo, eu estava em silêncio: aquelas palavras não eram minhas, aquelas ações fluíam por mim, mas carregavam intenções e visões de mundo que não me pertenciam, ao menos não conscientemente. Eu estava, nesse processo, experimentando outros papéis, como o desempenhado pelo opressor, uma postura que, mesmo do ponto de vista da vítima, aprende-se a mimetizar. Eu estava reproduzindo as regras do comportamento machista, que se baseia em diminuir o outro para sustentar a si próprio.

O projeto Silence = Death (Silêncio = Morte) foi desenvolvido no fim da década de 1980, nos Estados Unidos, como uma forma de protesto contra o silêncio institucional frente aos casos de SIDA, que era percebida como uma doença homossexual. Parece-me apropriado retomá-lo, ainda que fora de contexto, para que sua mensagem seja pensada como uma alternativa às maldades envolvidas em não ser um menino adequado.

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Penso, inicialmente, na forma como agi com aquele garoto nas férias. Ele tentou resistir, discutir, marcar sua posição. Porém, estava inserido em um contexto que não lhe era favorável, sendo o centro das piadas. O que poderia ter feito, destituído de poder como estava? Que táticaspoderia assumir para que a agressão fosse evidenciada e interrompida?

Se o sujeito interpelado está privado de poder, ou seja, se é incapaz de reagir, cabe ao colega, ao professor, ao sujeito que por ventura perceba, agir. Sem uma pedagogia ou uma política de empatia e interferência, restará aos sujeitos reforçarem suas posições de deslocados e resignarem-se ao destino que lhes foi imposto.

Se o sujeito interpelado está não apenas sem poder, mas também ignorante de sua própria condição, reproduzirá as maldades que lhe foram ensinadas como normais e apropriadas, perpetuando-as de modo mais ou menos confortável. Afinal, no universo machista, ou nós rimos ou alguém ri de nós, sem espaço para o companheirismo.

Há poucos anos, comecei a perceber as inúmeras maneiras como minha formação de menino me tornou uma pessoa pior. Pior para mim, que sofri tentando me adequar a um quadrado que não me contempla; pior para os outros, que foram algozes e alvos de trocas violentas comigo. Seria algo irrelevante se essa história fosse só minha, mas não é. Ela é a história de todos nós.

escrito por:

Tales Gubes

Tales é uma raposa entre seres humanos. Escreve sobre escrever, sexualidade, educação e empreendedorismo. Criou o Ninho de Escritores para unir e ajudar outras criaturas que também curtem transformar experiências em palavras.


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