“Porque crescemos cercados por gigantescos arcos de histórias dramáticas em livros e filmes, acreditamos que nossas vidas deveriam estar repletas com imensos altos e baixos, então as pessoas criam drama onde não há nenhum.”

A frase é do escritor Kurt Vonnegut, embora proferida em torno dos anos 60, o efeito a que essa frase faz alusão torna-se mais evidente a cada dia.

A maior parte de nossos dias em nossa vida são chatos ou indiferentes. Nos acostumamos a isso, pois ninguém vive aventuras incessantes todo dia. Contudo, as diversas formas de entretenimentos que nos cercam vão contra esse princípio.

Propagandas publicitárias, filmes e romances literários com histórias fantasiosas e empolgantes trazem uma versão alternativa de uma realidade ideal em que gostaríamos de viver, com uma aventura atrás da outra, dando a impressão de que nossa vida deve ser tão agitada quanto o entretenimento que vemos.

Com a facilidade da comercialização da arte, essas histórias replicam-se cada vez mais rápido, nos acompanhando diariamente, influenciando na forma em que vemos o mundo, e até mesmo levando a alterar os planos que traçamos para nossas próprias vidas. A arte e a propaganda podem nos condicionar aos mais diversos comportamentos.

Nosso código de conduta é determinado culturalmente pelos valores que nos cercam.

kurt vonnegut drama citaçãoEsses valores sociais e culturais como se portar, como se vestir ou o que combina ou não com seu moletom listrado – são absorvidos conscientemente e inconscientemente pelas pessoas e refletido em seu comportamento, conforme o tipo de arte e de propaganda vigentes, podendo reforçar ou modificar os padrões de uma determinada sociedade.

Não é a toa que regimes totalitários inspirados em alguma doutrina que se expressava também culturalmente investiam muito em propaganda.

Para visualizar um exemplo bem esdrúxulo sobre a influência da arte em nosso comportamento ao longo dos séculos, é só supor que você tem um tio que nasceu há 240 anos.

Na sua adolescência, ele teria usado peruca branca, maquiagem pesada, jaqueta bordada com flores e meia calça (sim, isso mesmo!). Enfim, ele seria uma tremenda formosura.

O que fez um nobre tão pomposo de antigamente mudar seu estilo e usar uma simples camiseta de algodão da Lacoste e uma bermuda da Nike no século XXI?

Bom, aí entra um pouco de história da propaganda.

 

O PODER DA ARTE

Devido à Revolução Industrial, o foco passou a ser a produção de produtos em grande escala com menor custo – ou seja, roupas e itens mais simples e acessíveis.

Isso criou uma nova tendência de vestimenta para a nova classe que então emergiu, a classe média, que passou a ser um mercado de consumo mais rentável para os investidores do que roupas de luxo para poucos aristocratas.

Além de criar um novo mercado, isso moldou novas formas de se vestir, novos hábitos culturais e uma nova sociedade, influenciando todas as classe sociais.

Propagandas e cartazes de novas roupas, novos móveis e novas atrações artísticas incitavam o cidadão a uma forma de vida muito específica.

incitando ao consumo - publicidade e propaganda de antigamente
Nossos desejos pessoais são comumente refletidos na arte e na propaganda, e principalmente através das histórias que nos são vendidas através delas.

Um século mais tarde, com a invenção da película cinematográfica, histórias foram criadas e moldadas em curtos audiovisuais. Iniciou-se uma onda de imitação das celebridades, um culto em volta de suas personalidades.

No século atual, com a maior disseminação da propaganda em massa devido às novas tecnologias, as narrativas e filmes e propagandas publicitárias são onipresentes, nos estimulando ao consumo a cada segundo.

Com a internet, tudo se reinventou.

Para cada vídeo do Youtube aparece um trailer de um filme ou comercial, e a cada descida de página em um site qualquer aparecem umas 4 propagandas em pequenos quadrados. Neste mesmo site que você está lendo este texto, estão distribuídas várias delas, como esta abaixo (que ajudam a manter o AZ).

Você pode ignorá-las, mas o seu inconsciente não. Ele captura todos esses estímulos.

Você olha no anúncio da internet “Eu aprendi um idioma em um mês” e você se sente um lixo – você precisa ser como esse cara da publicidade, seus amigos poliglotas fazem você se lembrar do quão atrasado está no aprendizado de línguas.

A arte sempre desempenhou um papel em nossas ambições , pois nosso inconsciente jamais estará a salvo de nenhum estímulo, seja artístico, social ou sexual.

Queremos ter uma vida ideal, com relacionamentos amorosos fantásticos, trabalhos magníficos e uma vida financeira invejosa. De preferência, devemos ter tudo isso o quanto antes , fugindo da velhice, tendo a melhor aparência possível.

Contudo, a realidade é demorada, custosa e sofrida, ela não possui trilhas sonoras empolgantes ou planos de câmera dramáticos. Por mais que desejemos que nossas vidas sejam preenchidas com aventuras e acontecimentos épicos, a realidade não é assim.

 

O IDEALISMO HUMANO

O que extraímos de tantos estímulos acumulados, dessa pressão do século XXI para nos tornarmos profissionais e pessoas cada vez mais bem-dotadas e multifuncionais, sendo e fazendo tudo?

Temos agora uma massa de jovens que nasceram nos anos 90 (como eu) e que fazem um pouco de tudo. Uma geração que não consegue se imaginar em um emprego apenas – e muitos desses jovens são workaholics (trabalhadores compulsivos) por vontade própria.

Eles ambicionam uma trajetória de vida profissional romântica, que idealizaram a partir de suas expectativas, mas que não corresponde ao mundo real. E assim a cada dia tornam-se mais inseguros e ansiosos sobre seu futuro.

A incapacidade de nos adaptarmos aos critérios de competitividade, produtividade e padrões de êxito da sociedade atual é, possivelmente, o que nos levou a maiores índices de insônia, depressão e ansiedade – uma gama de transtornos que abrange, hoje em dia, de crianças até idosos.

Por exemplo, o índice de depressão, apenas no Brasil, cresceu 705% em 16 anos.

Embora a depressão seja uma doença multifatorial, que possui também causas genéticas, o estresse e as más condições de trabalho podem ser gatilhos que disparam a predisposição a esse transtorno.

É provável que ao tentarmos fazer e ser tudo o que a sociedade exige, estejamos na busca de resultados simplesmente inalcançáveis. Muito do idealismo humano, presente na arte e na propaganda, baseia-se em um mundo inatingível, que não corresponde à realidade mas que ilude a muita gente.

Para muitos teóricos e estudiosos, a teoria de Guy Debord, da escola de Frankfurt, reflete o mundo de hoje.

teoria do espetáculo de guy debord | a arte dita as regrasDebord desenvolveu a Teoria do Espetáculo no final dos anos 1960.

De acordo com Debord, a mídia seria caracterizada pelo exagero, oferecendo uma realidade paralela à população como uma forma de alienação dos assuntos políticos e sociais – uma verdadeira fuga do mundo real.

“O espetáculo” seria o molde conformador da sociedade contemporânea, estimulando a população hoje em dia a preocupar-se mais com as aparências do que com a realidade tangível.

De acordo com Debord, a mídia atual é superficial e alienadora, com formas de entretenimento exageradas, que não retratavam a realidade.

Isso seria fruto da globalização e industrialização, como um escape a problemas atuais, moldando o pensamento popular e condicionando a população a diversos tipos de comportamentos específicos.

O problema dessa teoria, além de ser uma espécie de teoria da conspiração, é que ela novamente carece de dados empíricos. Debord erra, ainda, em dois pontos:

Primeiro, a mídia atual e o mundo do entretenimento não são homogêneos e inflexíveis, e não possuem uma pauta de subordinação a determinados valores. Existem veículos de comunicação partidários, e outros imparciais, de diversos tamanhos e dimensões.

Segundo, a necessidade de escaparmos da realidade e a tendência de preterirmos o mundo real à uma visão alternativa e fantasiosa da vida é algo muito mais intrínseco à nossa natureza do que uma consequência da industrialização.

A Roma Antiga, em torno de 300 A.C, possuía formas de entretenimento bem mais alienadoras que as atuais, como execuções de gladiadores por animais ferozes, duelo de cavaleiros com lanças e atribuição da vitória dos lutadores a deuses.

Até mesmo no Oriente Antigo, que ainda não tinha contato com os romanos, a população buscava formas de entretenimento tão superficiais e bizarras quanto no Ocidente, como danças em volta de prisioneiros que eram executados e pisoteados por elefantes.

Mas Debord acerta é ao afirmar que o entretenimento sempre retratará uma realidade artificial e alternativa aos nossos problemas atuais, em maior ou menor grau.

Nada que é reproduzido através de uma expressão artística irá retratar a realidade, pois toda arte nos inspira e condiciona a comportamentos e reflexões específicas – o que, claro, não faz a nenhum um robô.

Toda nossa paixão por algo, seja um produto vendido através da publicidade, um romance literárioou uma obra do cinema, é inspirada por um ideal, por algo que só existe dentro de nosso imaginário.

O idealismo é fruto da aspiração humana pela utopia, pelo mundo imaginário em que tudo acontece da forma mais épica e romântica possível.

O idealismo é inato à natureza humana, e nos serviu de motor impulsionador de grandes realizações.

A aspiração pelo ideal perpassa nossa cultura em várias de suas expressões: da criação de teorias sobre um mundo economicamente perfeito, passando pela existência de padrões de beleza, até os filmes do Tarantino nos quais um simples tiro de revólver faz jorrar litros e litros de sangue.

muito sangue
Tudo isso funciona na esfera idealista e artística, mas não na realidade.

Mas sabemos que que todas as pessoas do mundo não vão se comportar economicamente da forma prevista em uma teoria, que nunca vamos ser lindos o tempo todo, e que ver alguém tomando um tiro não é esteticamente agradável.

Mas é estimulante imaginar tais coisas, pois nos fazem emergir em nossa própria imaginação.

Como seres humanos, precisamos desses exageros e principalmente da arte -ela nos acompanha desde as épocas mais primordiais até os dias de hoje.

Uma mensagem artística nada mais é do que uma forma de propaganda. A imagem visual humana sempre foi suscetível a influências, e a tecnologia apenas potencializou tudo isso.

A pintura neoclássica do século XVIII, por exemplo, era fantasiosa. Embora impusesse um conceito de beleza, era sinônimo de simetria, detalhismo e perfeição, valores que intrinsecamente fascinam o ser humano.

Assim como a propaganda atual, os pintores eram alvo de muitas críticas. Alegava-se que os quadros representavam um mundo exagerado e artificial, com mensagens subliminares e significados ocultos.

Um exemplo polêmico foram/são as pinturas do pintor neoclássico William-Adolphe Bouguereau.

Suas pinturas muitas vezes retratavam camponeses, mendigos e lutadores que passavam por situações miseráveis, contudo a estética dessas figuras estava longe de refletir a miséria a que eram submetidos.

pintura camponesa de Família indigente, 1865 | a arte dita as regras
Família indigente, 1865

Erika Langmuir, crítica da época, diz que:

“A obra (de Bouguereau) não serve como reportagem social, ela ofende a realidade. O sr. Bouguereau pode ensinar seus alunos como desenhar, mas não pode ensinar aos ricos como e o quanto as pessoas sofrem em seu redor”.

Bouguereau é apenas um exemplo de vários pintores criticados por excesso de exagero. No mesmo século, o principal acontecimento mais marcante do Brasil – a Independência – foi retratado artisticamente de forma incoerente, de maneira proposital e com fins publicitários muito claros.

Dentre os erros das pinturas, está a quantidade absurda de pessoas presentes e a roupa de almirante no imperador.

Todos esses erros foram produzidos com uma finalidade proposital, devido à necessidade de elevar a imagem do imperador Dom Pedro I a salvador e ícone adorado pela população brasileira.

pintura independencia | a arte dita as regras
Independência ou Morte, do pintor paraibano Pedro Américo (óleo sobre tela, 1888).

Montado em uma mula, acompanhado de 6 pessoas e em roupas simplórias, após receber as notícias da corte, Dom Pedro cortou as relações com Portugal. Surgia a independência.

O pintor do quadro da independência do Brasil, Pedro Américo, defende-se das críticas:

“A realidade inspira, e não escraviza o pintor. Inspira-o aquilo que ele acha digno de ser oferecido à contemplação pública, mas não o escraviza o quanto encobre contrário aos desígnios da arte, os quais muitas vezes coincidem com os desígnios da história.”

Pedro Américo está certíssimo, a obra produzida pelo artista é fruto de seu esforço e de sua visão artística, assim como outras formas de entretenimento.

O senso estético de um artista não deve ser subordinado a uma pauta específica, seja ela realista ou fantasiosa. Os artistas estão longe de receber qualquer culpa por nosso fascínio ao idealismo.

 

A FANTASIA SERVE PARA ALGO?

Devemos sempre buscar aprimorar nossas vidas de forma a torná-las tão espetaculares quanto as histórias que nos bombardeiam na publicidade e nas expressões artísticas do cotidiano.

Seria ótimo se pudéssemos, de fato, voltar para casa todo dia com um ensinamento diferente. Pois se nos rendermos à acomodação, levaremos uma vida sem inspirações, de improdutividade, tédio e insuficiência.

Nietzsche diz que uma alma vazia tenta preencher a falta de inspiração de outras formas, principalmente com produtos e drogas, que são vendidas por publicidades que utilizam uma linguagem superficial.

Nunca estaremos a salvo de uma visão persuasiva em torno de um romance, de uma história de vida ou de um produto. Nós precisamos do idealismo, mas não devemos nos abalar por não conseguirmos viver de uma forma ideal e utópica, pois a realidade é vagarosa.

Todos os dias cinzentos de nossas vidas apenas são cinzas porque acreditamos que resultados devem ser imediatos e as aventuras, incessantes. Esse é o drama artificial a que Kurt se refere, na frase que abriu este texto.

A realidade mostra que, para sermos bem sucedidos, precisamos de esforço e persistência diárias .

Eu, como ilustrador, posso dizer que fiquei mais de 7 meses trabalhando em uma só ilustração, pois a cada dia tentava torná-la mais próxima do ideal que estava estava em minha cabeça.

Se por um lado minha visão idealista imaginava uma ilustração maravilhosa, por outro precisei desligar esse “filtro”. Pois se não o fizesse, provavelmente continuaria ilustrando por mais alguns longos meses.

A idealização em excesso, assim como a sua ausência, pode nos levar a uma vida repleta de frustrações.

Tudo depende da forma como nos assenhoramos de nossa própria idealização, fazendo com que trabalhe para nós, ao invés de nos fagocitar e afastar do mundo real – no qual feliz ou infelizmente vivemos.

A vida imita a arte, mas imita muito mal.


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escrito por:

Rodrigo Zottis

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