A arte dita as regras | Rodrigo Zottis

A arte sempre rege nossas vidas

Em Comportamento, História, O MELHOR DO AZ por Rodrigo ZottisComentário

Por­que cres­ce­mos cer­ca­dos por gigan­tes­cos arcos de his­tó­rias dra­má­ti­cas em livros e fil­mes, acre­di­ta­mos que nos­sas vidas deve­riam estar reple­tas com imen­sos altos e bai­xos, então as pes­soas criam drama onde não há nenhum.”

A frase é do escri­tor Kurt Von­ne­gut, embora pro­fe­rida em torno dos anos 60, o efeito a que essa frase faz alu­são torna-se mais evi­dente a cada dia.

A maior parte de nos­sos dias em nossa vida são cha­tos ou indi­fe­ren­tes. Nos acos­tu­ma­mos a isso, pois nin­guém vive aven­tu­ras inces­san­tes todo dia. Con­tudo, as diver­sas for­mas de entre­te­ni­men­tos que nos cer­cam vão con­tra esse prin­cí­pio.

Pro­pa­gan­das publi­ci­tá­rias, fil­mes e roman­ces lite­rá­rios com his­tó­rias fan­ta­si­o­sas e empol­gan­tes tra­zem uma ver­são alter­na­tiva de uma rea­li­dade ideal em que gos­ta­ría­mos de viver, com uma aven­tura atrás da outra, dando a impres­são de que nossa vida deve ser tão agi­tada quanto o entre­te­ni­mento que vemos.

Com a faci­li­dade da comer­ci­a­li­za­ção da arte, essas his­tó­rias repli­cam-se cada vez mais rápido, nos acom­pa­nhando dia­ri­a­mente, influ­en­ci­ando na forma em que vemos o mundo, e até mesmo levando a alte­rar os pla­nos que tra­ça­mos para nos­sas pró­prias vidas. A arte e a pro­pa­ganda podem nos con­di­ci­o­nar aos mais diver­sos com­por­ta­men­tos.

Nosso código de con­duta é deter­mi­nado cul­tu­ral­mente pelos valo­res que nos cer­cam.

kurt vonnegut drama citaçãoEsses valo­res soci­ais e cul­tu­rais como se por­tar, como se ves­tir ou o que com­bina ou não com seu mole­tom lis­trado — são absor­vi­dos cons­ci­en­te­mente e incons­ci­en­te­mente pelas pes­soas e refle­tido em seu com­por­ta­mento, con­forme o tipo de arte e de pro­pa­ganda vigen­tes, podendo refor­çar ou modi­fi­car os padrões de uma deter­mi­nada soci­e­dade.

Não é a toa que regi­mes tota­li­tá­rios ins­pi­ra­dos em alguma dou­trina que se expres­sava tam­bém cul­tu­ral­mente inves­tiam muito em pro­pa­ganda.

Para visu­a­li­zar um exem­plo bem esdrú­xulo sobre a influên­cia da arte em nosso com­por­ta­mento ao longo dos sécu­los, é só supor que você tem um tio que nas­ceu há 240 anos.

Na sua ado­les­cên­cia, ele teria usado peruca branca, maqui­a­gem pesada, jaqueta bor­dada com flo­res e meia calça (sim, isso mesmo!). Enfim, ele seria uma tre­menda for­mo­sura.

O que fez um nobre tão pom­poso de anti­ga­mente mudar seu estilo e usar uma sim­ples cami­seta de algo­dão da Lacoste e uma ber­muda da Nike no século XXI?

Bom, aí entra um pouco de his­tó­ria da pro­pa­ganda.

 

O PODER DA ARTE

Devido à Revo­lu­ção Indus­trial, o foco pas­sou a ser a pro­du­ção de pro­du­tos em grande escala com menor custo — ou seja, rou­pas e itens mais sim­ples e aces­sí­veis.

Isso criou uma nova ten­dên­cia de ves­ti­menta para a nova classe que então emer­giu, a classe média, que pas­sou a ser um mer­cado de con­sumo mais ren­tá­vel para os inves­ti­do­res do que rou­pas de luxo para pou­cos aris­to­cra­tas.

Além de criar um novo mer­cado, isso mol­dou novas for­mas de se ves­tir, novos hábi­tos cul­tu­rais e uma nova soci­e­dade, influ­en­ci­ando todas as classe soci­ais.

Pro­pa­gan­das e car­ta­zes de novas rou­pas, novos móveis e novas atra­ções artís­ti­cas inci­ta­vam o cida­dão a uma forma de vida muito espe­cí­fica.

incitando ao consumo - publicidade e propaganda de antigamente

Nos­sos dese­jos pes­so­ais são comu­mente refle­ti­dos na arte e na pro­pa­ganda, e prin­ci­pal­mente atra­vés das his­tó­rias que nos são ven­di­das atra­vés delas.

Um século mais tarde, com a inven­ção da pelí­cula cine­ma­to­grá­fica, his­tó­rias foram cri­a­das e mol­da­das em cur­tos audi­o­vi­su­ais. Ini­ciou-se uma onda de imi­ta­ção das cele­bri­da­des, um culto em volta de suas per­so­na­li­da­des.

No século atual, com a maior dis­se­mi­na­ção da pro­pa­ganda em massa devido às novas tec­no­lo­gias, as nar­ra­ti­vas e fil­mes e pro­pa­gan­das publi­ci­tá­rias são oni­pre­sen­tes, nos esti­mu­lando ao con­sumo a cada segundo.

Com a inter­net, tudo se rein­ven­tou.

Para cada vídeo do You­tube apa­rece um trai­ler de um filme ou comer­cial, e a cada des­cida de página em um site qual­quer apa­re­cem umas 4 pro­pa­gan­das em peque­nos qua­dra­dos. Neste mesmo site que você está lendo este texto, estão dis­tri­buí­das várias delas, como esta abaixo (que aju­dam a man­ter o AZ).

Você pode ignorá-las, mas o seu incons­ci­ente não. Ele cap­tura todos esses estí­mu­los.

Você olha no anún­cio da inter­net “Eu aprendi um idi­oma em um mês” e você se sente um lixo — você pre­cisa ser como esse cara da publi­ci­dade, seus ami­gos poli­glo­tas fazem você se lem­brar do quão atra­sado está no apren­di­zado de lín­guas.

A arte sem­pre desem­pe­nhou um papel em nos­sas ambi­ções , pois nosso incons­ci­ente jamais estará a salvo de nenhum estí­mulo, seja artís­tico, social ou sexual.

Que­re­mos ter uma vida ideal, com rela­ci­o­na­men­tos amo­ro­sos fan­tás­ti­cos, tra­ba­lhos mag­ní­fi­cos e uma vida finan­ceira inve­josa. De pre­fe­rên­cia, deve­mos ter tudo isso o quanto antes , fugindo da velhice, tendo a melhor apa­rên­cia pos­sí­vel.

Con­tudo, a rea­li­dade é demo­rada, cus­tosa e sofrida, ela não pos­sui tri­lhas sono­ras empol­gan­tes ou pla­nos de câmera dra­má­ti­cos. Por mais que dese­je­mos que nos­sas vidas sejam pre­en­chi­das com aven­tu­ras e acon­te­ci­men­tos épi­cos, a rea­li­dade não é assim.

 

O IDEALISMO HUMANO

O que extraí­mos de tan­tos estí­mu­los acu­mu­la­dos, dessa pres­são do século XXI para nos tor­nar­mos pro­fis­si­o­nais e pes­soas cada vez mais bem-dota­das e mul­ti­fun­ci­o­nais, sendo e fazendo tudo?

Temos agora uma massa de jovens que nas­ce­ram nos anos 90 (como eu) e que fazem um pouco de tudo. Uma gera­ção que não con­se­gue se ima­gi­nar em um emprego ape­nas — e mui­tos des­ses jovens são wor­kaho­lics (tra­ba­lha­do­res com­pul­si­vos) por von­tade pró­pria.

Eles ambi­ci­o­nam uma tra­je­tó­ria de vida pro­fis­si­o­nal român­tica, que ide­a­li­za­ram a par­tir de suas expec­ta­ti­vas, mas que não cor­res­ponde ao mundo real. E assim a cada dia tor­nam-se mais inse­gu­ros e ansi­o­sos sobre seu futuro.

A inca­pa­ci­dade de nos adap­tar­mos aos cri­té­rios de com­pe­ti­ti­vi­dade, pro­du­ti­vi­dade e padrões de êxito da soci­e­dade atual é, pos­si­vel­mente, o que nos levou a mai­o­res índi­ces de insô­nia, depres­são e ansi­e­dade — uma gama de trans­tor­nos que abrange, hoje em dia, de cri­an­ças até ido­sos.

Por exem­plo, o índice de depres­são, ape­nas no Bra­sil, cres­ceu 705% em 16 anos.

Embora a depres­são seja uma doença mul­ti­fa­to­rial, que pos­sui tam­bém cau­sas gené­ti­cas, o estresse e as más con­di­ções de tra­ba­lho podem ser gati­lhos que dis­pa­ram a pre­dis­po­si­ção a esse trans­torno.

É pro­vá­vel que ao ten­tar­mos fazer e ser tudo o que a soci­e­dade exige, este­ja­mos na busca de resul­ta­dos sim­ples­mente inal­can­çá­veis. Muito do ide­a­lismo humano, pre­sente na arte e na pro­pa­ganda, baseia-se em um mundo ina­tin­gí­vel, que não cor­res­ponde à rea­li­dade mas que ilude a muita gente.

Para mui­tos teó­ri­cos e estu­di­o­sos, a teo­ria de Guy Debord, da escola de Frank­furt, reflete o mundo de hoje.

teoria do espetáculo de guy debord | a arte dita as regrasDebord desen­vol­veu a Teo­ria do Espe­tá­culo no final dos anos 1960.

De acordo com Debord, a mídia seria carac­te­ri­zada pelo exa­gero, ofe­re­cendo uma rea­li­dade para­lela à popu­la­ção como uma forma de ali­e­na­ção dos assun­tos polí­ti­cos e soci­ais — uma ver­da­deira fuga do mundo real.

O espe­tá­culo” seria o molde con­for­ma­dor da soci­e­dade con­tem­po­râ­nea, esti­mu­lando a popu­la­ção hoje em dia a pre­o­cu­par-se mais com as apa­rên­cias do que com a rea­li­dade tan­gí­vel.

De acordo com Debord, a mídia atual é super­fi­cial e ali­e­na­dora, com for­mas de entre­te­ni­mento exa­ge­ra­das, que não retra­ta­vam a rea­li­dade.

Isso seria fruto da glo­ba­li­za­ção e indus­tri­a­li­za­ção, como um escape a pro­ble­mas atu­ais, mol­dando o pen­sa­mento popu­lar e con­di­ci­o­nando a popu­la­ção a diver­sos tipos de com­por­ta­men­tos espe­cí­fi­cos.

O pro­blema dessa teo­ria, além de ser uma espé­cie de teo­ria da cons­pi­ra­ção, é que ela nova­mente carece de dados empí­ri­cos. Debord erra, ainda, em dois pon­tos:

Pri­meiro, a mídia atual e o mundo do entre­te­ni­mento não são homo­gê­neos e infle­xí­veis, e não pos­suem uma pauta de subor­di­na­ção a deter­mi­na­dos valo­res. Exis­tem veí­cu­los de comu­ni­ca­ção par­ti­dá­rios, e outros impar­ci­ais, de diver­sos tama­nhos e dimen­sões.

Segundo, a neces­si­dade de esca­par­mos da rea­li­dade e a ten­dên­cia de pre­te­rir­mos o mundo real à uma visão alter­na­tiva e fan­ta­si­osa da vida é algo muito mais intrín­seco à nossa natu­reza do que uma con­sequên­cia da indus­tri­a­li­za­ção.

A Roma Antiga, em torno de 300 A.C, pos­suía for­mas de entre­te­ni­mento bem mais ali­e­na­do­ras que as atu­ais, como exe­cu­ções de gla­di­a­do­res por ani­mais fero­zes, duelo de cava­lei­ros com lan­ças e atri­bui­ção da vitó­ria dos luta­do­res a deu­ses.

Até mesmo no Ori­ente Antigo, que ainda não tinha con­tato com os roma­nos, a popu­la­ção bus­cava for­mas de entre­te­ni­mento tão super­fi­ci­ais e bizar­ras quanto no Oci­dente, como dan­ças em volta de pri­si­o­nei­ros que eram exe­cu­ta­dos e piso­te­a­dos por ele­fan­tes.

Mas Debord acerta é ao afir­mar que o entre­te­ni­mento sem­pre retra­tará uma rea­li­dade arti­fi­cial e alter­na­tiva aos nos­sos pro­ble­mas atu­ais, em maior ou menor grau.

Nada que é repro­du­zido atra­vés de uma expres­são artís­tica irá retra­tar a rea­li­dade, pois toda arte nos ins­pira e con­di­ci­ona a com­por­ta­men­tos e refle­xões espe­cí­fi­cas — o que, claro, não faz a nenhum um robô.

Toda nossa pai­xão por algo, seja um pro­duto ven­dido atra­vés da publi­ci­dade, um romance lite­rá­ri­oou uma obra do cinema, é ins­pi­rada por um ideal, por algo que só existe den­tro de nosso ima­gi­ná­rio.

O ide­a­lismo é fruto da aspi­ra­ção humana pela uto­pia, pelo mundo ima­gi­ná­rio em que tudo acon­tece da forma mais épica e român­tica pos­sí­vel.

O ide­a­lismo é inato à natu­reza humana, e nos ser­viu de motor impul­si­o­na­dor de gran­des rea­li­za­ções.

A aspi­ra­ção pelo ideal per­passa nossa cul­tura em várias de suas expres­sões: da cri­a­ção de teo­rias sobre um mundo eco­no­mi­ca­mente per­feito, pas­sando pela exis­tên­cia de padrões de beleza, até os fil­mes do Taran­tino nos quais um sim­ples tiro de revól­ver faz jor­rar litros e litros de san­gue.

muito sangue

Tudo isso fun­ci­ona na esfera ide­a­lista e artís­tica, mas não na rea­li­dade.

Mas sabe­mos que que todas as pes­soas do mundo não vão se com­por­tar eco­no­mi­ca­mente da forma pre­vista em uma teo­ria, que nunca vamos ser lin­dos o tempo todo, e que ver alguém tomando um tiro não é este­ti­ca­mente agra­dá­vel.

Mas é esti­mu­lante ima­gi­nar tais coi­sas, pois nos fazem emer­gir em nossa pró­pria ima­gi­na­ção.

Como seres huma­nos, pre­ci­sa­mos des­ses exa­ge­ros e prin­ci­pal­mente da arte –ela nos acom­pa­nha desde as épo­cas mais pri­mor­di­ais até os dias de hoje.

Uma men­sa­gem artís­tica nada mais é do que uma forma de pro­pa­ganda. A ima­gem visual humana sem­pre foi sus­ce­tí­vel a influên­cias, e a tec­no­lo­gia ape­nas poten­ci­a­li­zou tudo isso.

A pin­tura neo­clás­sica do século XVIII, por exem­plo, era fan­ta­si­osa. Embora impu­sesse um con­ceito de beleza, era sinô­nimo de sime­tria, deta­lhismo e per­fei­ção, valo­res que intrin­se­ca­mente fas­ci­nam o ser humano.

Assim como a pro­pa­ganda atual, os pin­to­res eram alvo de mui­tas crí­ti­cas. Ale­gava-se que os qua­dros repre­sen­ta­vam um mundo exa­ge­rado e arti­fi­cial, com men­sa­gens subli­mi­na­res e sig­ni­fi­ca­dos ocul­tos.

Um exem­plo polê­mico foram/são as pin­tu­ras do pin­tor neo­clás­sico Wil­liam-Adolphe Bou­gue­reau.

Suas pin­tu­ras mui­tas vezes retra­ta­vam cam­po­ne­ses, men­di­gos e luta­do­res que pas­sa­vam por situ­a­ções mise­rá­veis, con­tudo a esté­tica des­sas figu­ras estava longe de refle­tir a misé­ria a que eram sub­me­ti­dos.

pintura camponesa de Família indigente, 1865 | a arte dita as regras

Famí­lia indi­gente, 1865

Erika Lang­muir, crí­tica da época, diz que:

A obra (de Bou­gue­reau) não serve como repor­ta­gem social, ela ofende a rea­li­dade. O sr. Bou­gue­reau pode ensi­nar seus alu­nos como dese­nhar, mas não pode ensi­nar aos ricos como e o quanto as pes­soas sofrem em seu redor”.

Bou­gue­reau é ape­nas um exem­plo de vários pin­to­res cri­ti­ca­dos por excesso de exa­gero. No mesmo século, o prin­ci­pal acon­te­ci­mento mais mar­cante do Bra­sil — a Inde­pen­dên­cia — foi retra­tado artis­ti­ca­mente de forma inco­e­rente, de maneira pro­po­si­tal e com fins publi­ci­tá­rios muito cla­ros.

Den­tre os erros das pin­tu­ras, está a quan­ti­dade absurda de pes­soas pre­sen­tes e a roupa de almi­rante no impe­ra­dor.

Todos esses erros foram pro­du­zi­dos com uma fina­li­dade pro­po­si­tal, devido à neces­si­dade de ele­var a ima­gem do impe­ra­dor Dom Pedro I a sal­va­dor e ícone ado­rado pela popu­la­ção bra­si­leira.

pintura independencia | a arte dita as regras

Inde­pen­dên­cia ou Morte, do pin­tor parai­bano Pedro Amé­rico (óleo sobre tela, 1888).

Mon­tado em uma mula, acom­pa­nhado de 6 pes­soas e em rou­pas sim­pló­rias, após rece­ber as notí­cias da corte, Dom Pedro cor­tou as rela­ções com Por­tu­gal. Sur­gia a inde­pen­dên­cia.

O pin­tor do qua­dro da inde­pen­dên­cia do Bra­sil, Pedro Amé­rico, defende-se das crí­ti­cas:

A rea­li­dade ins­pira, e não escra­viza o pin­tor. Ins­pira-o aquilo que ele acha digno de ser ofe­re­cido à con­tem­pla­ção pública, mas não o escra­viza o quanto enco­bre con­trá­rio aos desíg­nios da arte, os quais mui­tas vezes coin­ci­dem com os desíg­nios da his­tó­ria.”

Pedro Amé­rico está cer­tís­simo, a obra pro­du­zida pelo artista é fruto de seu esforço e de sua visão artís­tica, assim como outras for­mas de entre­te­ni­mento.

O senso esté­tico de um artista não deve ser subor­di­nado a uma pauta espe­cí­fica, seja ela rea­lista ou fan­ta­si­osa. Os artis­tas estão longe de rece­ber qual­quer culpa por nosso fas­cí­nio ao ide­a­lismo.

 

A FANTASIA SERVE PARA ALGO?

Deve­mos sem­pre bus­car apri­mo­rar nos­sas vidas de forma a torná-las tão espe­ta­cu­la­res quanto as his­tó­rias que nos bom­bar­deiam na publi­ci­dade e nas expres­sões artís­ti­cas do coti­di­ano.

Seria ótimo se pudés­se­mos, de fato, vol­tar para casa todo dia com um ensi­na­mento dife­rente. Pois se nos ren­der­mos à aco­mo­da­ção, leva­re­mos uma vida sem ins­pi­ra­ções, de impro­du­ti­vi­dade, tédio e insu­fi­ci­ên­cia.

Nietzs­che diz que uma alma vazia tenta pre­en­cher a falta de ins­pi­ra­ção de outras for­mas, prin­ci­pal­mente com pro­du­tos e dro­gas, que são ven­di­das por publi­ci­da­des que uti­li­zam uma lin­gua­gem super­fi­cial.

Nunca esta­re­mos a salvo de uma visão per­su­a­siva em torno de um romance, de uma his­tó­ria de vida ou de um pro­duto. Nós pre­ci­sa­mos do ide­a­lismo, mas não deve­mos nos aba­lar por não con­se­guir­mos viver de uma forma ideal e utó­pica, pois a rea­li­dade é vaga­rosa.

Todos os dias cin­zen­tos de nos­sas vidas ape­nas são cin­zas por­que acre­di­ta­mos que resul­ta­dos devem ser ime­di­a­tos e as aven­tu­ras, inces­san­tes. Esse é o drama arti­fi­cial a que Kurt se refere, na frase que abriu este texto.

A rea­li­dade mos­tra que, para ser­mos bem suce­di­dos, pre­ci­sa­mos de esforço e per­sis­tên­cia diá­rias .

Eu, como ilus­tra­dor, posso dizer que fiquei mais de 7 meses tra­ba­lhando em uma só ilus­tra­ção, pois a cada dia ten­tava torná-la mais pró­xima do ideal que estava estava em minha cabeça.

Se por um lado minha visão ide­a­lista ima­gi­nava uma ilus­tra­ção mara­vi­lhosa, por outro pre­ci­sei des­li­gar esse “fil­tro”. Pois se não o fizesse, pro­va­vel­mente con­ti­nu­a­ria ilus­trando por mais alguns lon­gos meses.

A ide­a­li­za­ção em excesso, assim como a sua ausên­cia, pode nos levar a uma vida repleta de frus­tra­ções.

Tudo depende da forma como nos asse­nho­ra­mos de nossa pró­pria ide­a­li­za­ção, fazendo com que tra­ba­lhe para nós, ao invés de nos fago­ci­tar e afas­tar do mundo real — no qual feliz ou infe­liz­mente vive­mos.

A vida imita a arte, mas imita muito mal.

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Rodrigo Zottis
Rapaz que só faz o que faz pois espera que um dia seu legado possa ser completamente auto-explicativo.

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