Em dezembro de 1964, através de uma única sessão noturna de gravação em Englewood Cliffs, Nova Jersey, John Coltrane e seu quarteto gravaram o álbum A Love Supreme.

O álbum de jazz é considerado a obra-prima de Coltrane – o ponto culminante de seu despertar espiritual – que vendeu um milhão de cópias. O que ele representa é demasiado humano: o fim de um vício, uma busca devocional e um “agradecimento” a Deus.

Cinco décadas depois, ainda em Nova Jersey, há 50 milhas do centro da cidade, ao longo de 12 horas interruptas em abril deste ano e abastecido por energéticos da Monster em um quarto em Princeton, Ji-Sung Kim escreveu um algoritmo para ensinar um computador a tocar jazz por si mesmo.

Kim, um estudante do segundo ano de Princeton, de 20 anos de idade, estava morrendo de pressa – ele tinha uma prova na manhã seguinte. O projeto que ele havia concluído era uma rede computacional neural, chamado de deepjazz.

Lançado no GitHub, o programa gerou uma onda de excitação e ceticismo no Hacker News, sendo reproduzido mais de 100.000 vezes no SoundCloud, fazendo sucesso no Japão.

O código foi feito em Phyton com algumas notas de demo de saxofone. Desde essa invenção, a música gerada por computador aumentou, junto com o ramo da arte visual de todos os métodos e gêneros.

A arte de computador, na era dos grandes dados e do aprendizado profundo, são cálculos feitos por algoritmos abertos. Temos agora de nos esforçar – ou para rejeitar ou para aceitar – a arte digital.

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Na indústria atual, há uma forte tensão entre “eficiência, capitalismo, e comércio!” versus “robôs estão roubando nossos empregos!“. Mas para a arte algorítmica, a tensão é mais sutil. Apenas 4% do trabalho feito na economia dos Estados Unidos exige “criatividade a um nível humano médio”, segundo a empresa de consultoria McKinsey and Company.

Dessa forma, a arte de computador – que explicitamente tenta cada vez buscar mais espaço -, é uma questão não de eficiência ou equidade, mas de confiança. Arte requer investimentos emocionais e frênicos, com a promessa de retorno de uma fatia partilhada da experiência humana.

Quando vemos uma arte que sabemos que é de computador, a nossa preocupação assustadora torna-se: quem está do outro lado da tela? É humano? Poderíamos, então, concluir que “isso não é arte.”

A promessa dos algoritmos na arte e na música detém um potente fascínio popular. A busca pela palavra “algoritmo” nas páginas do site FiveThirtyEight possui 516 resultados.

Na era do big data, os algoritmos são destinados a diversas atividades; tratar de doenças, prever as decisões do Supremo Tribunal Federal, revolucionar os esportes e prever a beleza do pôr do sol. Eles vão também, se diz, prevenir o suicídio, prever se a sua dieta é saudável, prever se um suposto filme vai fazer sucesso, dentre outas funcionalidades.

Quanto mais grandiosas as aplicações de algoritmos e de inteligência artificial (IA) nas diversas atividades, essas são muitas vezes precedidas por campos de provas aparentemente mais manejáveis – digamos.

O programa da Google especializado em jogar Go – AlphaGo  – agora é considerado o maior campeão do jogo, algo que antes muitos consideravam um “grande desafio” para a IA. Mas esses concursos não são trampolins triviais – eles podem ser vistos como afrontas à humanidade.

Um comentarista, percebendo que o programa do Google iria ganhar o jogo de Go, disse que se “sentia fisicamente doente”.

É a mesma coisa para projetos de arte de computador. Kim e seu amigo Evan Chow, que desenvolveu o código que é usado em deepjazz, são membros da geração mais jovem de uma longa linhagem de artistas de computador (estes dois artistas não estão passando fome).

“A ideia é muito promissora”, disse Kim. Você pode usar uma AI para criar arte. Isso é normalmente um processo que pensamos que era algo exclusivamente humano e imutável. Kim concordou que a deepjazz e a arte de computador são muitas vezes um campo de provação.

“Eu não vou usar a palavra ‘perturbante'”, disse ele, e em seguida continuou: “É louco como uma AI pode moldar a indústria da música”, imaginando um aplicativo construído através de pura tecnologia, como deepjazz. “Você cantarola uma melodia e o programa reproduz o resto do ritmo, uma AI geradora de música.”

Como uma nova startup, o valor de muitos projetos de computadores que fazem arte até agora é apenas uma promessa. A demo púbica de deepjazz é limitada e improvisa apenas uma canção, “And Then I Knew” (1995), de Pat Metheny Group. Mas o código é público, e tem sido ajustado para tocar a música tema de Friends, por exemplo.

Claro que não são apenas músicas de jazz que têm sido tratadas por computador – gabaritos e canções populares, como “Genetic Jammer”, música polifônica, foram colocados através do toque algorítmico.

A arte visual, também, tem sido submetida a algoritmos há décadas. Dois engenheiros criaram esta imagem – provavelmente a primeira imagem feita 100% em computador– nos Laboratórios Bell em Murray Hill, New Jersey, em algum lugar geograficamente entre Coltrane e Kim, em 1966. A peça foi exibida no Museu de Arte Moderna, em 1968.

A New York Times revisou uma das primeiras exposições de arte de computador, em 1965, e exibiu o trabalho por dois cientistas e um computador digital IBM #7094, em uma galeria de Nova York.

“Até agora, os meios são de maior interesse do que o resultado final”, escreveu o Times. Mas a avaliação, pelo falecido Stuart Preston, continua a assumir um tom surpreendentemente entusiasmado:

Não importa o que o futuro nos reserva – e os cientistas preveem um momento em que quase qualquer tipo de pintura pode ser gerada por computador – o toque real do artista deixará de desempenhar qualquer papel na elaboração de uma obra de arte.

Quando esse dia chegar, o papel do artista será composto de formulação matemática, organizando uma série de pontos em grupos, em um típico padrão desejado.

A partir daí, tudo será confiado ao deus ex machina. Libertado do tédio da técnica e da mecânica da imagem tomada, o artista simplesmente irá “dar o norte” ao programa.

A máquina é como se fosse o pincel – que um ser humano irá segurar. Há, de fato, exemplos de computadores ajudando músicos simplesmente a “dar o norte”.

Emily Howell é o nome de um programa de computador. A criação de David Cope, agora um professor emérito da Universidade da Califórnia em Santa Cruz, nasceu da luta frustrante de Cope para terminar uma ópera de sua autoria (composições de Howell são executadas por músicos humanos).

Esta música é passável. Pode até ser boa, e é. Mas outra coisa que a torna mais interessante é o simples fato de que foi composta por um computador. É interessante como um meio – uma amplificação da expressão artística do Cope, ao invés de uma sublimação. Mas persiste a tensão.

O trabalho de Manfred Mohr, um pioneiro da arte algorítmica em que ele próprio é um músico (humano) de jazz, vai bem como um artista. Nomeadamente sua pintura, P-706/B (2000), tem como base um hipercubo de seis dimensões.


Passei a próxima hora lendo sobre Mohr, o homem.

Às vezes a “musica computacional”  também ocorre ao contrário, ou seja – os seres humanos citam a música, softwares e danças para o programa formular. E em um desses casos, o mercado tem falado em voz alta.

Por exemplo, Vocaloids são sintetizadores cantando, desenvolvidos pela Yamaha, e antropomorfizados pela empresa japonesa Crypton. Um Vocaloid popular, Hatsune Miku (o nome traduzido significa “o primeiro som do futuro”), fez uma turnê norte-americana que foi um tremendo sucesso nesse ano, onde Miku apareceu como um holograma, e cada ticket em Nova York custava 75 dólares.

Miku é uma grande estrela pop, mas não um ser humano. Apenas uma performance digital. Ela também apareceu no Late Show com David Letterman.

No mês passado, a equipe Google Brain anunciou Magenta, um projeto para usar a máquina de aprendizagem para exatamente os fins artísticos descritos aqui, que lançou a pergunta: “Podemos usar a aprendizagem de computador para criar uma arte e músicas atraentes?” (A resposta já é muito clara: “Sim”, mas lá vai.)

O projeto segue os passos da Google’s Deep Dream Generator, que reimagina e materializa imagens de sonhos (ou pesadelos), utilizando redes neurais.

Mas a verdade honesta no final de tudo isso é que toda esta distinção entre o que é ou não humano é redundante. “A arte computacional” realmente não existe em um sentido mais provocativo do que a expressão “arte da pintura” ou “arte do piano”.

O software algorítmico foi escrito por seres humanos, usando teorias pensadas por seres humanos, usando um computador construído por humanos, utilizando características escritas por um ser humano, utilizando materiais recolhidos por nós, humanos, em uma empresa composta por seres humanos, utilizando ferramentas construídas pela humanidade e assim por diante.

A arte dos computadores é a arte humana – um subconjunto ao invés de uma distinção completa.

Um comentarista humano diferente, depois de testemunhar o programa vencendo o campeão humano do jogo Go, se sentiu fisicamente bem e soltou outra nota: “Um resultado surpreendente para a tecnologia. E um elogio às capacidades incríveis do cérebro humano.”

Assim é a arte de computador. É um elogio ao cérebro humano – é um complemento para tintas a óleo e notas de saxofone.


Retirado e adaptado de Aeon, tradução por Rodrigo Zottis.


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