A maioria das pessoas vive nas cidades. Mas essas pessoas vivem realmente?

Viver é um verbo com vários significados, entre eles: ter vida, existir; entreter relações sociais ou amicais; gozar a vida; aproveitar-se da vida; tirar vantagem de tudo; passar toda ou a maior parte da existência em; ter habitação habitual em; morar e residir.

Bem, a parte de morar em algum lugar todos nós somos obrigados, mas você está vivendo a sua cidade?

Hoje presenciamos com cada vez mais frequência espetos antimendigos, bancos contra skaters e namorados, barreiras e diversos obstáculos que expõem o horror de certos urbanistas e autoridades pelo mundo.

Você já deve ter visto dispositivos que impedem as pessoas de se sentarem em algum lugar, podem ser espinhos, barras ou até mesmo floreiras. Em praças públicas algumas cidades estão optando por bancos com superfície inclinada, resistente a pichações e desenhados para afastar tanto os sem-teto como os skaters.

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Ainda que menos óbvios do que os espetos “antimendigo” de aço inoxidável que apareceram há pouco, há casos de locais públicos na Europa que chegam a utilizar alta tecnologia para afastar adolescentes, por exemplo.

Os skaters tentam subverter os bancos fazendo aquilo que sabem melhor. “Hoje estamos a mostrar que ainda se pode andar de skate aqui”, disse Dylan Leadley-Watkins, que moderou os ânimos depois de se lançar com o seu skate sobre um dos bancos no Covent Garden, em Londres. “O que quer que as autoridades façam para tentar destruir o espaço público, não se podem livrar das pessoas que frequentam a área sem ter que gastar dinheiro e fazer algo de que elas gostem.”

As ações dos skaters e daqueles que se indignaram com os espetos – removidos depois de uma petição online ter conseguido 100 mil assinaturas e o prefeito de Londres, Boris Johnson, ter aderido às críticas – chegam num momento em que muitos argumentam que as cidades estão-se a tornar ainda menos acolhedoras para certos grupos sociais.

O outro caso que tinha comentado que utiliza alta tecnologia é o uso caixas de som espalhadas por praças que emitem sinais sonoros em altas frequências. É comprovado que determinadas faixas de sons só são ouvidos por pessoas mais novas. Com o tempo o ouvido vai se tornando mais “cansado” e deixa de ouvir frequências mais altas. Assim como aqueles apitos para cachorros, que somente eles podem escutar.

Desta maneira com o som irritante saindo das caixas de som espalhadas pela praça, somente os adolescentes se sentem incomodados de utilizar aquele espaço, já que os mais velhos nem se dão conta do fato.

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Além dos dispositivos antiskate, os parapeitos das janelas ao nível do chão têm sido “enfeitados” com pontas ou espetos para impedir que as pessoas se sentem; assentos inclinados nas paradas de ônibus desencorajam a permanência e os bancos são divididos com apoio para os braços para evitar que as pessoas se deitem neles.

“Uma grande parte da arquitetura hostil é acrescentada posteriormente ao ambiente da rua, mas é evidente que “quem nós queremos neste espaço, e quem nós não queremos” é uma questão considerada desde cedo, no estágio do design”, diz o fotógrafo Marc Vallée, que tem documentado a arquitetura antiskate.

Outros enfatizam o valor do design do ambiente na prevenção do comportamento criminoso, insistindo que o tempo das soluções brutas como os espetos de aço já passou.


“Os espetos são parte de uma estética de fortaleza, já ultrapassada e nada bem-vinda nas comunidades para as quais o design urbano precisa ser inclusivo”, diz Lorraine Gamman, professora de design na Central St Martins (Faculdade de Artes e Design) e diretora do centro de investigação Design Contra o Crime, da mesma faculdade.

“Se quisermos usar o design para reduzir comportamentos antissociais, a democracia deve ser visível no design para a prevenção do crime que incorporamos nas nossas ruas”, diz.

Mas o problema creio eu, não está em limitar o acesso e uso de itens ou locais na cidade, mas sim o uso que a cidade tem para as pessoas. A escritora Jane Jacobs conseguiu como nenhum outro urbanista, explicar a cidade com clareza, mesmo sem nunca ter se formado em Arquitetura, Urbanismo ou Jornalismo. Para ela a cidade tem “olhos” e as interações entre a rua, calçada, casas e edifícios com as pessoas tem uma conexão muito íntima.

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Você tem medo de andar por uma rua deserta, pois ninguém está olhando para você. Pouca iluminação, muros altos e até mesmo grandes distâncias sem pessoas causa uma sensação de imprevisibilidade, tudo pode acontecer. Mas em um ambiente rico em comércio ou em regiões com casas de muros baixos, os olhos de todos se tornam a segurança de todos. Definir onde está o espaço privado e onde está o espaço público é fundamental para que haja segurança nas cidades.

O historiador de arquitetura Iain Borden disse que o surgimento da arquitetura hostil tem as suas raízes no design urbano e na gestão do espaço público dos anos 1990. Esse aparecimento, afirmou ele, “sugere que somos cidadãos da república apenas na medida em que estamos a trabalhar ou a consumir mercadorias diretamente”.


“Por isso é aceitável, por exemplo, ficar sentado, desde que você esteja num café ou num lugar previamente determinado onde podem acontecer certas atividades tranquilas, mas não ações como realizar performances musicais, protestar ou andar de skate.

O problema desses casos é que parece que cada vez mais estamos sendo afastados da cidade para dentro dos prédios. Temos medo de sair de casa, por isso nos enfurnamos dentro de muros altos. Temos medo de ficar sentado em uma praça, por isso lotamos shopping centers.

Seriam essas medidas uma forma de afastar também os “pobres” dos centros da cidade? Pois se não podem sentar em algum lugar qualquer, também não podem se juntar aos “ricos” em cafés e bares.

Fato é: a cidade foi e deve ser feita para todos. A segurança também tem que ser sentida onde quer que você ande. Mas andar pelas cidades já não tem sido tão fácil, já que dividimos espaço com milhares de carros todos os dias.

Mas esse problema, fica para um próximo artigo. Obrigado!


Todas as fotos são de Linda Nylind.

escrito por:

Thiago Hiroshi Arasaki

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