Não tenho o costume de usar o início do ano, ou seu fim, para planejar atividades, bolar metas ou para fazer levantamentos do que foi feito. Encaro o tempo de forma contínua, então qualquer época é propícia para me programar e refletir sobre êxitos e falhas.

Entretanto, é importante que saibamos transitar bem entre nossas próprias preferências – no meu caso, a visão mais ampla que não vê muito sentido nas convenções sociais – e pela adaptação necessária para se viver bem no mundo.

E foi pensando nisso que resolvi entrar provisoriamente no espírito de início de ano e dar algumas dicas sobre filmes, séries e livros com os quais tive contato nos últimos 365 dias e que deixaram sua marca de algum modo.

 

Wild Cards

George RR Martin
Parem de matar o cara, ele está escrevendo como nunca!

A primeira dica na verdade não é um livro, mas uma saga longuíssima no melhor estilo George R. R. Martin. O prolixo autor e assassino serial de personagens queridos é editor e também autor da coleção Wild Cards, junto com outros escritores de alta qualidade. A obra conta com mais de 10 livros, dentre os quais só 3 foram traduzidos para o português até o momento.

É uma mistura de ficção científica, mistério e muita ação ao contar a história de um universo paralelo que tem início no fim da Segunda Guerra Mundial, quando um vírus alienígena é liberado na Terra, matando e transformando boa parte da população em mutantes. Nessa linha temporal, passa a existir os Ases (mutantes com aparência humana, mas muito poderosos) e Curingas (os que ficaram deformados demais para se misturarem ao resto dos terráqueos).

Assim, a Guerra Fria vira uma verdadeira corrida armamentista de bombas, mas também desses Ases, seres poderosos recrutados (muitas vezes à força) para defender seus países. E é nesse contexto que o mundo vai mudando até chegar à década de 90, com muita conspiração, alienígenas e mutantes embrenhados numa rede de intrigas dignas de Game of Thrones.

O estilo literário é parecido com o de GoT, com cada capítulo focado em um personagem, e aos poucos suas histórias vão se tocando até percebermos o plano de fundo comum do enredo.

 

O Jogo do Anjo
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Outro livro que vale a indicação é O Jogo do Anjo, escrito por Carlos Ruiz Zafón. A história conta a vida de um escritor que deseja, sobretudo, ganhar dinheiro com seu trabalho literário. Mas tem um amor proibido e uma doença terminal que lhe tiram o ânimo para a vida e para o trabalho. Tudo muda quando um misterioso editor promete mundos e fundos caso aceite escrever um livro muito específico.

Além de interessantíssima, a primeira coisa que me atraiu e me manteve com os olhos vidrados nas páginas foi o estilo de escrita de Zafón. É uma incrível mistura de simplicidade narrativa, erudição e sofisticação no uso das palavras. Além disso, o fato do protagonista ser escritor também me despertou interesse na hora, obviamente.

Zafón é autor de outras obras que se passam todas num mesmo universo, podendo pescar referências e easter eggs de obras anteriores.

 

Neil Gaiman e Tess Garritsen

Isso é Sandman!
Isso é Sandman!

Como um rápido bônus nesse campo da ficção, indico os alucinantes livros de investigação da ex-médica e autora Tess Gerritsen (que começa por O Cirurgião, apesar de ter livros fora desse universo da detetive Rizzoli  e da médica Isles) e o fantástico autor de fantasia Neil Gaiman, que produz no universo dos quadrinhos (como o excelente e psicodélico Sandman) e dos livros.

Indico que os curiosos comecem pelos seus livros de contos, Coisas Frágeis (1 e 2). São pequenos e já dá pra começar a entender o estilo, para depois partir para coisas mais complexas, como Deuses Americanos. Esse último é uma excelente pedida para quem ama mitologia e gosta de refletir sobre os velhos e os novos tempos.

 

Confissões de um Ateu Budista

Stephen Batchelor
Stephen Batchelor

No campo dos livros de não-ficção, que por sinal é o tipo que mais leio, acho que vale indicar Confissões de um Ateu Budista e O que é Ciência, Afinal?.

O primeiro é escrito por Stephen Batchelor, um budista que mantém o espírito rebelde da mesma contra-cultura na qual conheceu o Budismo em seus anos áureos e rebeldes. No livro ele conta como migrou de uma crença quase cega, nos pressupostos um tanto esotéricos do budismo tibetano (desde peculiaridade até a crença numa espécie de trombeta que, quando tocada, impede que chova, até elementos básicos do budismo geral, como crença em karma e renascimento), passando pela sobriedade e minimalismo do zen-budismo coreano até chegar numa abordagem mais secular e talvez mais fiel ao que Gautama teria pregado originalmente, geralmente atribuída ao Budismo Theravada.

O livro é interessante não só por expor a trajetória do erudito, mas também por contar com algumas doses da erudição típica de quem já foi monge. Há toda uma discussão, mais pro fim, (1) sobre os textos mais antigos do budismo (o cânone páli), (2) sobre o que teria sido acréscimo posterior e (3) como algumas contingências históricas típicas da Índia contemporânea de Buda teriam semeado o inconformismo do nobre Gautama com a fixidez social e religiosa de suas terras, motivando-o a desistir de sua antiga vida em busca de uma forma mais gratificante e realista de se viver neste mundo (do mesmo jeito que Supertramp teve sua inconformidade produzida pela convivência familiar conflituosa).

 

O que é Ciência, Afinal?

Calma! A ciência não é como você imagina!
Calma! A ciência não é como você imagina!

Esse é escrito pelo prolífico filósofo da ciência chamado A. F. Chalmers, que nos conta de forma instigante o que é a ciência. Ele embarca em explicações profundas sobre as principais formulações dos mais clássicos filósofos da área, incluindo Popper e Kuhn.

Esse é o tipo de tema extenso e profundo que tomaria todo um artigo, portanto, aqui me detenho mais ao básico.

Mas saiba que até você, fanboy de Carl Sagan, deve lê-lo. O que aprendi estudando Filosofia da Ciência é que muitas vezes os cientistas sabem muito pouco sobre os pressupostos embutidos nos métodos que usam. É claro, se todo cientista for parar pra se dedicar à reflexão intensiva sobre isso, nenhum deles fará ciência, pois ficarão estacionados em teorizações que muitas vezes duram décadas sem uma resposta coerente. No entanto, o mero conhecimento dessas questões amplia de  uma maneira inimaginável as articulações possíveis pelo método empírico.

 

True Detective

WTF?
WTF?

No quesito série, 2014 foi muito generoso. Tivemos a HBO exibindo a curta e excelente True Detective – que já ganha o espectador com a música de abertura – estrelada por Matthew Mcconaughey e surpreendendo a todos na interpretação do detetive Rust Cohle, um cara taciturno, mas com um incrível ar filosófico e badass ao mesmo tempo.

Algumas pessoas adoraram o personagem, mas não curtiram muito a série em si. O que posso dizer, sem parecer pretensioso, é que os fãs e apreciadores de Robert Chambers e H. P. Lovecraft vão entender do que se trata a história mais provavelmente do que aqueles que nunca ouviram falar nesse gênero chamado horror cósmico.

Enfim, a série fala sobre dois detetives com personalidades muito diferentes: um é introvertido, ateu, pessimista e adora filosofar, enquanto o outro é mais sociável, tradicional, conservador e religioso, como todo sulista americano. Eles começam a investigar um assassinato que, aparentemente, reproduz uma série de homicídios que ocorreu anos antes, trazendo de volta histórias e conspirações já enterradas, algo que parece beirar um abismo mais profundo do que todos suspeitavam no início.

Hannibal

Adivinhem o que/quem vamos comer hoje?
Adivinhem o que/quem vamos comer hoje?

Outra série que possui um clima denso e sombrio é Hannibal. Em alguns episódios era necessário voltar a alguns diálogos de tão densa que a coisa é.

O programa conta com uma trilha sonora que parece criar um efeito de balão sendo inflado. Ficamos apreensivos porque sabemos que em algum momento vai haver um estouro, mas não sabemos quando acontecerá. É como se o Hannibal fosse um tigre sorrateiro, frio, prestes a dar o bote na jugular de alguém sem que ninguém desconfie do perigo que corre.

A frieza e profundidade intelectual do psiquiatra – que de certa forma é um paralelo interessante com o clássico O Médico e o Monstro – criam um contraste perturbador com a monstruosidade que se esconde por trás de sua máscara de sábia calma.

Will Graham, o investigador que usa suas habilidades singularmente empáticas para entender os crimes dos serial killers, também se vê numa teia grudenta quando a manipulação de seu consultor e amigo Hannibal Lecter começa a fazer com que sua personalidade se perca em meio a tantas dúvidas sobre si, sobre suas memórias, sobre quem realmente é.

 

Black Mirror

Você gasta seu dinheiro em apps 24 h por dia e depois trabalha mais pra comprar mais apps, mais entretenimento.
Você gasta seu dinheiro em apps 24 h por dia e depois trabalha mais pra comprar mais apps, mais entretenimento.

Essa é uma série inglesa com poucos episódios por temporada. Cada programa é uma história diferente, com personagens novos, talvez também numa diferente época. No entanto, os episódios são unidos pela temática que faz uso de uma tecnologia futurista que lembra muito a nossa atual era de smartphones, tablets, comunicação virtual contínua e instantânea, registro compulsivo de imagens e momentos. Tudo isso carregado da reflexão sobre o impacto social que essas tecnologias causam no cotidiano das pessoas, em relações que parecem se dar de maneira totalmente novas graças a essas ferramentas.

Como bom fã da Filosofia da Mente, consigo enxergar nessa série cenários futurísticos não muito absurdos que desafiam as reflexões filosóficas. Por exemplo, em um dos episódios, uma mulher desolada pela morte repentina do marido contrata um serviço que promete recolher todas as informações deixadas por ele na internet (facebook, twitter, vídeos, comentários, blog, etc) e simular sua personalidade com um software. Feito isso, ela pode conversar via bate-papo com o homem, como se fosse o próprio cônjuge teclando de algum lugar. Ela se surpreende, fica emocionada e ao mesmo tempo assustada, pois realmente parece o marido.

A história faz com que questionemos até que ponto uma simulação indiferenciável de uma personalidade real não é aquela personalidade de fato. Em outras palavras, como diria um argumento clássico da Filosofia da Mente, se eu pinto um quadro idêntico nos mínimos detalhes à Mona Lisa de Da Vinci, até que ponto não posso afirmar que meu quadro não é a própria Mona Lisa?

E, para além disso, já pensou nas consequências sociais de uma tecnologia como essa? Como o ser humano encararia o luto?

Enfim, as perspectivas são múltiplas. Veja Black Mirror e garanto que vai ficar de cabelos em pé.

Sobre filme é mais complicado falar, ou melhor, de lembrar. Vejo muitos filmes, praticamente um ou dois por semana, então fica mais complicado lembrar de todos e compará-los cuidadosamente. Tentei usar o Filmow como auxílio para relembrar meu catálogo de filmes de 2014.

Minha primeira dica é Interestelar. Ele faz a cabeça de fãs de ficção científica, pois parece um episódio de Through The Wormhole, só que sem o Morgan Freeman e com uma história muito humana a ser contada no meio de toda a confusão das leis da física e do futuro incerto real da nossa raça. Mas, enfim, quem quiser uma análise aprofundada pode ler Interestelar e o confronto com o indizível.

Um filme que vale a pena ser citado pelo quesito diversão é Guardiões da Galáxia. A contramão de todas as expectativas, o filme foi uma excelente comédia e aventura do universo Marvel. Certas estruturas conceituais, entretanto, encerram alguma profundidade, o que é inesperado nesse tipo de filme, como explica o Victor no excelente texto Guardiões da Galáxia e o Cristianismo Primitivo.

E para fechar, os dois últimos filmes que vi em 2014: Boyhood e Predestination.

 

Boyhood

9O primeiro é a singela vida de um garotinho que nasce numa família conturbada e que vai crescendo em meio a isso tudo.

O filme foi gravado ao longo de pouco mais de uma década, acompanhando o envelhecimento real dos atores. Duas coisas podem resumir o que me chamou a atenção nesse filme: (1) o quanto a banalidade da vida humana é tudo, menos banal, o que em parte me lembra muito a máxima zen-budista que faço questão de lembrar todo dia e agir em conformidade com ela (o que não quer dizer que eu consiga): samsara é nirvana e nirvana é samsara. (2) Boyhood também é a oportunidade de contemplar de forma impressionante a linha de eventos que vai produzindo os interesses e a personalidade de uma pessoa, respondendo às necessidades e oportunidades do seu ambiente nativo (claro, tem ainda a variância correspondente à genética… O ambiente não está sozinho nessa).

 

Predestination

Não, você não imagina o que é isso tudo.
Não, você não imagina o que é isso tudo.

E, por último, cito Presdestination que, assim como Boyhood, é com Ethan Hawke. Esse é um filme com potencial de clássico sci-fi, que narra a missão de uma espécie de agente que trabalha para uma companhia americana cuja função é monitorar o tempo, se assegurando de que besteiras não aconteçam para embaralhar a linha temporal tradicional.

Falar muito sobre Predestination é sinônimo de soltar muitos spoilers, então vou deixar o leitor sedento por mais informações. Para isso, veja o filme. Garanto que você chegará ao término do filme com umas 5 ou 6 conexões a mais entre seus neurônios do córtex frontal.

Essas são as minhas dicas, daquilo que eu recomendaria que as pessoas lessem e vissem neste ano. E você? Tem alguma boa dica para compartilhar? Deixe nos comentários!

escrito por:

Felipe Novaes

Já quis ser paleontólogo, biólogo, astrônomo, filósofo e neurocientista, mas parece ter se encontrado na psicologia evolucionista. Nas horas vagas lê compulsivamente, escreve textos sobre a vida, o universo e tudo mais, e arruma um tempinho para o Positrônico Podcast. Contudo, durante todo o tempo procura se aprimorar na sabedoria e nas artes jedis do aikido.