Watchmen é uma das melhores histórias em quadrinhos já feitas. Alan Moore, o roteirista, simplesmente reformula a coluna dorsal que sustentava todas as histórias de herois produzidas até então. Traz um roteiro com muitas referências ao universo intelectualizado e à cultura pop, mesclando as duas coisas com impressionante naturalidade: se por um lado temos as reflexões apuradíssimas sobre a relação dos seres humanos com o poder, do outro, temos a reestruturação de personagens heroicos clássicos, colocando seus pezinhos na realidade.

De quebra, ainda conseguiu usar referências à personagens já existentes, como Batman, mas reformulando seu conceito de maneira genial e fidedigna.

Antes do autor, o mundo das HQs era maniqueísta. O mocinho era bom, virtuoso e lutava contra um vilão que era a personificação do mal. Por que? Porque sim. Não existia explicação. A figura do herói simbolizava um ideal inalcançável, privilégio de seres kryptonianos e milionários ascetas.

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A relação do leitor com os personagens era como a do cristão com seu deus: almejar ser como aquele ser é uma impossibilidade, sabemos disso, mas mesmo assim tentamos tropegamente repetir seus exemplos.

Em Watchmen há um cenário político mundial influenciado positiva e negativamente pela presença e ação de vigilantes mascarados, incluindo super seres como o Dr. Manhattan. Um mundo, dessa vez, cheio de nuances entre o preto e o branco, humanos com suas falhas em carne viva. Não há mais ideais utópicos.

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Isso era totalmente o oposto do que costumava ser feito com histórias de heróis como Batman e Super Homem, com todos com seus totens morais invioláveis, num mundo bem organizado entre mocinhos e bandidos, entre aquele que faz a coisa certa e aquele que faz a coisa errada. Em Watchmen, tampouco sabemos o que é certo e errado, quem é o vilão e quem é o mocinho.

Antes os heróis eram tão iluminados que restava certa dúvida sobre a origem do caráter iluminado: eles sempre tiveram uma moral inabalavelmente correta ou eventos em suas infâncias haviam forjado tal atributo? De qualquer forma, parece que até poucas décadas essa pergunta nem era feita. Simplesmente não importava. Ter dúvida sobre isso era como questionar por que o deus judaico-cristão é bom: “ora, é bom porque é Deus, é Deus porque é bom.”

Encontros e desencontros psicológicos

Talvez seja injusto citar Batman como exemplo de herói utópico, pois ele sempre me pareceu o herói mais bem trabalhado nos diferentes matizes morais motivadores de suas ações. É coerente reservar uma pulga atrás da orelha sobre a sua normalidade psicológica.

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O tom mais distante de uma vida real de fato é a onipresença da despreocupação com recursos materiais. Ele simplesmente tem todos os recursos que o dinheiro pode comprar, o que permite que sua vida seja vinculada somente à busca pela justiça. É mais ou menos como um aristocrata grego que tem escravos para fazer todo trabalho trivial, disponibilizando tempo para seu senhor se dedicar à filosofia.

Esse teor idealista ou decadente das histórias depende do roteirista, por isso algumas vezes ele parece mais sombrio e obcecado do que o normal. Mas vou considerar aqui justamente as histórias que o colocam como alguém mais asceta e idealizado, o nobre cavaleiro das trevas que jurou defender os fracos e oprimidos após ter os pais assassinados.

Sei que os fatores que formam aquilo que nos tornamos são quase insondáveis, mas ninguém acharia provável que uma criança que presenciou uma cena brutal dessas fosse nascer com a mente relativamente saudável de Bruce Wayne. Tudo bem, ele é um cara desconfiado e precavido, mas não chega a ser algo a lá Justiceiro (que tem um tom de decadência depressiva e uma inflexibilidade moral que chega a beirar o fascismo).

Nas histórias do morcegão vemos que sua visão é maniqueísta, o que, por sinal, estaria muito bem adaptada ao mundo em que o personagem vive (os fãs dos filmes mais recentes da DC sabem que nas adaptações esse universo dialoga menos com os extremos do bem e do mal). Mas, como em Watchmen o mundo é diferente, as pessoas são moldadas para outro tipo de realidade. Por isso podemos apontar Rorschach e Coruja como reflexos distorcidos do Batman. As semelhanças psicológicas entre eles são notáveis, assim como suas diferenças.

Rorschach

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Walter Kovacs é o que uma criança profundamente traumatizada se tornaria num mundo onde as fronteiras entre o certo e o errado são tão rarefeitas, o que seria reforçado pela força dos traumas infantis pelos quais passou. Ao ter contato com o que há de mais vil na humanidade, assumiu uma postura obsessivamente combativa e distópica sobre o potencial humano. Passou a defender o ‘bem’ de maneira tão rígida e sem compaixão, que sua luta virou veneno em suas veias.

Curiosamente, em Batman Begins, é exatamente sobre isso que o obscuro mestre Ras ‘al Ghul tenta prevenir o aventureiro Bruce Wayne, ainda nos primeiros passos de sua jornada de auto-conhecimento e experiência com o ardiloso mundo do crime. Ras diz que Bruce deve tomar cuidado com seu ódio, pois aquilo iria corroê-lo até o fim. O caminho seria o domínio dessa emoção, um caminho com pouco ego.

Vemos já aí uma diferença fundamental entre Rorschach e Batman. Um sucumbiu totalmente à decadência daquilo que combatia, o outro está sempre evitando ser consumido pelo ódio para que não se iguale ao mal ao qual combate.

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A relação com o alter ego, por outro lado, possui algumas semelhanças entre os dois sombrios personagens. Se a verdadeira identidade de Bruce é o Batman, a de Walter Kovacs é Rorschach. A metáfora vira realidade na pele do último, que passa a considerar a máscara como seu verdadeiro rosto. É nítido o sofrimento do personagem quando, em certo momento da narrativa, a polícia o  captura e tira a máscara de seu rosto. O desespero é explícito, fazendo Rorschach chamar o pedaço de tecido de “meu rosto”.

O hiperfoco de ambos também também tem certas semelhanças. Kovacs é tão obcecado pelo estudo e combate ao crime que parece nem mesmo tomar banho ou se alimentar apropriadamente, tamanho seu hiperfoco. Na mesma cena, os policiais quase não conseguem se aproximar por causa de seu tortuoso fedor. Em outras,  ele aparece filando comida enlatada na casa do Coruja, de uma forma que denuncia um estômago possivelmente carente.

Batman, por sua vez, na maioria das vezes satisfaz suas necessidades primordiais, talvez mais pela presença do mordomo e amigo Alfred do que por si mesmo. Alfred funciona como a ponte que traz Wayne de volta ao mundo que há para além de suas obsessões. Não por acaso, personagens semelhantes, que olharam para o mesmo abismo e que não conseguiram resistir ao olhar devolvido (como  o Justiceiro), não possuem essas âncoras que o impedem de mergulhar de vez na loucura, pelo contrário, são muito mais solitários.

Coruja

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Daniel Dreiberg é um homem de meia idade, tímido e inseguro. Herdou fortunas de seu pai e usou a verba, aliada às suas habilidades alimentadas por interesses nerds na área da tecnologia e da ornitologia, para construir uma nave de combate, armas e um traje especial. Tudo isso inspirado na coruja, animal que inspira temor reverencial e respeito, papel que, nas histórias do Homem Morcego é desempenhado pelo, obviamente, morcego.

Financeira e intelectualmente há algumas semelhanças com Batman, mas as diferenças aparecem sobretudo na personalidade e na relação com a máscara. Wayne não é um cara tímido e inseguro, ao contrário. Seu foco e confiança com certeza são fatores importantes em sua vida de combate ao crime. Além disso, o bilionário bonachão de Gotham funciona como um disfarce perfeito para sua verdadeira face, a que é revelada assim que a máscara é colocada.

Coruja

Coruja não possui uma personalidade binária assim. Com ou sem máscara ele é a mesma pessoa, apenas com o acréscimo da confiança que o traje confere, algo mais parecido com Peter Parker e seu alter-ego, o Homem Aranha. Ali ele se sente realmente à vontade e dono de si.

Não é que Bruce tenha um transtorno de múltipla personalidade, mas sim que ao se vestir de morcego, se sente livre para parar de fingir. E todo fingimento é voluntário, ao contrário da natureza sentimental e, naturalmente, involuntária que existe entre Daniel Dreiberg e seu alter ego. Ambos, Batman e Coruja, estão conscientes de tudo, mas um muda voluntariamente, enquanto o outro é afetado sem querer.

O legado de Alan Moore

Esse é o universo que Alan Moore nos legou, com heróis distorcidos, pessoas com suas próprias dores e falhas tentando ajudar outros seres humanos com suas mazelas; herois que não são nem tão heroicos assim, que não estão no ramo por abnegação, por subserviência auto-conquistada, mas pelo tamanho grande de seus egos, para tentar sarar suas próprias feridas.

 

escrito por:

Felipe Novaes

Já quis ser paleontólogo, biólogo, astrônomo, filósofo e neurocientista, mas parece ter se encontrado na psicologia evolucionista. Nas horas vagas lê compulsivamente, escreve textos sobre a vida, o universo e tudo mais, e arruma um tempinho para o Positrônico Podcast. Contudo, durante todo o tempo procura se aprimorar na sabedoria e nas artes jedis do aikido.


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