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Antes e depois de Alan Moore

Em Comportamento, Consciência, Sociedade por Felipe NovaesComentário

Wat­ch­men é uma das melho­res his­tó­rias em qua­dri­nhos já fei­tas. Alan Moore, o rotei­rista, sim­ples­mente refor­mula a coluna dor­sal que sus­ten­tava todas as his­tó­rias de herois pro­du­zi­das até então. Traz um roteiro com mui­tas refe­rên­cias ao uni­verso inte­lec­tu­a­li­zado e à cul­tura pop, mes­clando as duas coi­sas com impres­si­o­nante natu­ra­li­dade: se por um lado temos as refle­xões apu­ra­dís­si­mas sobre a rela­ção dos seres huma­nos com o poder, do outro, temos a rees­tru­tu­ra­ção de per­so­na­gens heroi­cos clás­si­cos, colo­cando seus pezi­nhos na rea­li­dade.

De que­bra, ainda con­se­guiu usar refe­rên­cias à per­so­na­gens já exis­ten­tes, como Bat­man, mas refor­mu­lando seu con­ceito de maneira genial e fide­digna.

Antes do autor, o mundo das HQs era mani­queísta. O moci­nho era bom, vir­tu­oso e lutava con­tra um vilão que era a per­so­ni­fi­ca­ção do mal. Por que? Por­que sim. Não exis­tia expli­ca­ção. A figura do herói sim­bo­li­zava um ideal inal­can­çá­vel, pri­vi­lé­gio de seres kryp­to­ni­a­nos e mili­o­ná­rios asce­tas.

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A rela­ção do lei­tor com os per­so­na­gens era como a do cris­tão com seu deus: alme­jar ser como aquele ser é uma impos­si­bi­li­dade, sabe­mos disso, mas mesmo assim ten­ta­mos tro­pe­ga­mente repe­tir seus exem­plos.

Em Wat­ch­men há um cená­rio polí­tico mun­dial influ­en­ci­ado posi­tiva e nega­ti­va­mente pela pre­sença e ação de vigi­lan­tes mas­ca­ra­dos, incluindo super seres como o Dr. Manhat­tan. Um mundo, dessa vez, cheio de nuan­ces entre o preto e o branco, huma­nos com suas falhas em carne viva. Não há mais ide­ais utó­pi­cos.

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Isso era total­mente o oposto do que cos­tu­mava ser feito com his­tó­rias de heróis como Bat­man e Super Homem, com todos com seus totens morais invi­o­lá­veis, num mundo bem orga­ni­zado entre moci­nhos e ban­di­dos, entre aquele que faz a coisa certa e aquele que faz a coisa errada. Em Wat­ch­men, tam­pouco sabe­mos o que é certo e errado, quem é o vilão e quem é o moci­nho.

Antes os heróis eram tão ilu­mi­na­dos que res­tava certa dúvida sobre a ori­gem do cará­ter ilu­mi­nado: eles sem­pre tive­ram uma moral ina­ba­la­vel­mente cor­reta ou even­tos em suas infân­cias haviam for­jado tal atri­buto? De qual­quer forma, parece que até pou­cas déca­das essa per­gunta nem era feita. Sim­ples­mente não impor­tava. Ter dúvida sobre isso era como ques­ti­o­nar por que o deus judaico-cris­tão é bom: “ora, é bom por­que é Deus, é Deus por­que é bom.”

Encontros e desencontros psicológicos

Tal­vez seja injusto citar Bat­man como exem­plo de herói utó­pico, pois ele sem­pre me pare­ceu o herói mais bem tra­ba­lhado nos dife­ren­tes mati­zes morais moti­va­do­res de suas ações. É coe­rente reser­var uma pulga atrás da ore­lha sobre a sua nor­ma­li­dade psi­co­ló­gica.

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O tom mais dis­tante de uma vida real de fato é a oni­pre­sença da des­pre­o­cu­pa­ção com recur­sos mate­ri­ais. Ele sim­ples­mente tem todos os recur­sos que o dinheiro pode com­prar, o que per­mite que sua vida seja vin­cu­lada somente à busca pela jus­tiça. É mais ou menos como um aris­to­crata grego que tem escra­vos para fazer todo tra­ba­lho tri­vial, dis­po­ni­bi­li­zando tempo para seu senhor se dedi­car à filo­so­fia.

Esse teor ide­a­lista ou deca­dente das his­tó­rias depende do rotei­rista, por isso algu­mas vezes ele parece mais som­brio e obce­cado do que o nor­mal. Mas vou con­si­de­rar aqui jus­ta­mente as his­tó­rias que o colo­cam como alguém mais asceta e ide­a­li­zado, o nobre cava­leiro das tre­vas que jurou defen­der os fra­cos e opri­mi­dos após ter os pais assas­si­na­dos.

Sei que os fato­res que for­mam aquilo que nos tor­na­mos são quase inson­dá­veis, mas nin­guém acha­ria pro­vá­vel que uma cri­ança que pre­sen­ciou uma cena bru­tal des­sas fosse nas­cer com a mente rela­ti­va­mente sau­dá­vel de Bruce Wayne. Tudo bem, ele é um cara des­con­fi­ado e pre­ca­vido, mas não chega a ser algo a lá Jus­ti­ceiro (que tem um tom de deca­dên­cia depres­siva e uma infle­xi­bi­li­dade moral que chega a bei­rar o fas­cismo).

Nas his­tó­rias do mor­ce­gão vemos que sua visão é mani­queísta, o que, por sinal, esta­ria muito bem adap­tada ao mundo em que o per­so­na­gem vive (os fãs dos fil­mes mais recen­tes da DC sabem que nas adap­ta­ções esse uni­verso dia­loga menos com os extre­mos do bem e do mal). Mas, como em Wat­ch­men o mundo é dife­rente, as pes­soas são mol­da­das para outro tipo de rea­li­dade. Por isso pode­mos apon­tar Rors­chach e Coruja como refle­xos dis­tor­ci­dos do Bat­man. As seme­lhan­ças psi­co­ló­gi­cas entre eles são notá­veis, assim como suas dife­ren­ças.

Rorschach

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Wal­ter Kovacs é o que uma cri­ança pro­fun­da­mente trau­ma­ti­zada se tor­na­ria num mundo onde as fron­tei­ras entre o certo e o errado são tão rare­fei­tas, o que seria refor­çado pela força dos trau­mas infan­tis pelos quais pas­sou. Ao ter con­tato com o que há de mais vil na huma­ni­dade, assu­miu uma pos­tura obses­si­va­mente com­ba­tiva e dis­tó­pica sobre o poten­cial humano. Pas­sou a defen­der o ‘bem’ de maneira tão rígida e sem com­pai­xão, que sua luta virou veneno em suas veias.

Curi­o­sa­mente, em Bat­man Begins, é exa­ta­mente sobre isso que o obs­curo mes­tre Ras ‘al Ghul tenta pre­ve­nir o aven­tu­reiro Bruce Wayne, ainda nos pri­mei­ros pas­sos de sua jor­nada de auto-conhe­ci­mento e expe­ri­ên­cia com o ardi­loso mundo do crime. Ras diz que Bruce deve tomar cui­dado com seu ódio, pois aquilo iria cor­roê-lo até o fim. O cami­nho seria o domí­nio dessa emo­ção, um cami­nho com pouco ego.

Vemos já aí uma dife­rença fun­da­men­tal entre Rors­chach e Bat­man. Um sucum­biu total­mente à deca­dên­cia daquilo que com­ba­tia, o outro está sem­pre evi­tando ser con­su­mido pelo ódio para que não se iguale ao mal ao qual com­bate.

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A rela­ção com o alter ego, por outro lado, pos­sui algu­mas seme­lhan­ças entre os dois som­brios per­so­na­gens. Se a ver­da­deira iden­ti­dade de Bruce é o Bat­man, a de Wal­ter Kovacs é Rors­chach. A metá­fora vira rea­li­dade na pele do último, que passa a con­si­de­rar a más­cara como seu ver­da­deiro rosto. É nítido o sofri­mento do per­so­na­gem quando, em certo momento da nar­ra­tiva, a polí­cia o  cap­tura e tira a más­cara de seu rosto. O deses­pero é explí­cito, fazendo Rors­chach cha­mar o pedaço de tecido de “meu rosto”.

O hiper­foco de ambos tam­bém tam­bém tem cer­tas seme­lhan­ças. Kovacs é tão obce­cado pelo estudo e com­bate ao crime que parece nem mesmo tomar banho ou se ali­men­tar apro­pri­a­da­mente, tama­nho seu hiper­foco. Na mesma cena, os poli­ci­ais quase não con­se­guem se apro­xi­mar por causa de seu tor­tu­oso fedor. Em outras,  ele apa­rece filando comida enla­tada na casa do Coruja, de uma forma que denun­cia um estô­mago pos­si­vel­mente carente.

Bat­man, por sua vez, na mai­o­ria das vezes satis­faz suas neces­si­da­des pri­mor­di­ais, tal­vez mais pela pre­sença do mor­domo e amigo Alfred do que por si mesmo. Alfred fun­ci­ona como a ponte que traz Wayne de volta ao mundo que há para além de suas obses­sões. Não por acaso, per­so­na­gens seme­lhan­tes, que olha­ram para o mesmo abismo e que não con­se­gui­ram resis­tir ao olhar devol­vido (como  o Jus­ti­ceiro), não pos­suem essas ânco­ras que o impe­dem de mer­gu­lhar de vez na lou­cura, pelo con­trá­rio, são muito mais soli­tá­rios.

Coruja

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Daniel Drei­berg é um homem de meia idade, tímido e inse­guro. Her­dou for­tu­nas de seu pai e usou a verba, ali­ada às suas habi­li­da­des ali­men­ta­das por inte­resses nerds na área da tec­no­lo­gia e da orni­to­lo­gia, para cons­truir uma nave de com­bate, armas e um traje espe­cial. Tudo isso ins­pi­rado na coruja, ani­mal que ins­pira temor reve­ren­cial e res­peito, papel que, nas his­tó­rias do Homem Mor­cego é desem­pe­nhado pelo, obvi­a­mente, mor­cego.

Finan­ceira e inte­lec­tu­al­mente há algu­mas seme­lhan­ças com Bat­man, mas as dife­ren­ças apa­re­cem sobre­tudo na per­so­na­li­dade e na rela­ção com a más­cara. Wayne não é um cara tímido e inse­guro, ao con­trá­rio. Seu foco e con­fi­ança com cer­teza são fato­res impor­tan­tes em sua vida de com­bate ao crime. Além disso, o bili­o­ná­rio bona­chão de Gotham fun­ci­ona como um dis­farce per­feito para sua ver­da­deira face, a que é reve­lada assim que a más­cara é colo­cada.

Coruja

Coruja não pos­sui uma per­so­na­li­dade biná­ria assim. Com ou sem más­cara ele é a mesma pes­soa, ape­nas com o acrés­cimo da con­fi­ança que o traje con­fere, algo mais pare­cido com Peter Par­ker e seu alter-ego, o Homem Ara­nha. Ali ele se sente real­mente à von­tade e dono de si.

Não é que Bruce tenha um trans­torno de múl­ti­pla per­so­na­li­dade, mas sim que ao se ves­tir de mor­cego, se sente livre para parar de fin­gir. E todo fin­gi­mento é volun­tá­rio, ao con­trá­rio da natu­reza sen­ti­men­tal e, natu­ral­mente, invo­lun­tá­ria que existe entre Daniel Drei­berg e seu alter ego. Ambos, Bat­man e Coruja, estão cons­ci­en­tes de tudo, mas um muda volun­ta­ri­a­mente, enquanto o outro é afe­tado sem que­rer.

O legado de Alan Moore

Esse é o uni­verso que Alan Moore nos legou, com heróis dis­tor­ci­dos, pes­soas com suas pró­prias dores e falhas ten­tando aju­dar outros seres huma­nos com suas maze­las; herois que não são nem tão heroi­cos assim, que não estão no ramo por abne­ga­ção, por sub­ser­vi­ên­cia auto-con­quis­tada, mas pelo tama­nho grande de seus egos, para ten­tar sarar suas pró­prias feri­das.

 

Felipe Novaes
Já quis ser paleontólogo, biólogo, astrônomo, filósofo e neurocientista, mas parece ter se encontrado na psicologia evolucionista. Nas horas vagas lê compulsivamente, escreve textos sobre a vida, o universo e tudo mais, e arruma um tempinho para o Positrônico Podcast. Contudo, durante todo o tempo procura se aprimorar na sabedoria e nas artes jedis do aikido.

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