Ano Zero e o Novo Aeon 2

Em Consciência, Sobre o AZ por Victor LisboaComentário

1. A revolução extraordinária

Cui­dado, ao cli­car no link que trouxe você até esse texto, ao con­fe­rir seus e-mails ou com­par­ti­lhar algo em qual­quer rede social, você pode estar par­ti­ci­pando de uma das mai­o­res trans­for­ma­ções da huma­ni­dade, mas com ape­nas par­cial cons­ci­ên­cia do que está ocor­rendo. É como ser o plânc­ton flu­tu­ando no topo de uma enorme onda, inca­paz de per­ce­ber a pro­por­ção gigan­tesca do fenô­meno do qual par­ti­cipa invo­lun­ta­ri­a­mente.

Mas, dife­rente de minús­cu­los orga­nis­mos aquá­ti­cos, essa par­ti­ci­pa­ção não pre­cisa ser invo­lun­tá­ria. Temos o poder de inter­fe­rir nesse fenô­meno, deci­dindo se ele vai ace­le­rar a evo­lu­ção humana ou ape­nas poten­ci­a­li­zar nos­sas pio­res carac­te­rís­ti­cas. Depende jus­ta­mente de tomar­mos cons­ci­ên­cia do que está acon­te­cendo.

E o que está acon­te­cendo?

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Recen­te­mente, escrevi dois arti­gos cor­re­la­tos. Em Ano Zero e o Novo Aeon, parte 1, tra­tei de espe­cu­la­ções sobre o poten­cial da inter­net, usando o con­ceito de cam­pos mor­fo­ge­né­ti­cos como uma metá­fora dos pro­ces­sos glo­bais de mobi­li­za­ção da cida­da­nia. E num artigo para o site Papo de Homem, dei um passo além e pro­pus que há um sen­tido pos­sí­vel para nos­sas vidas, um sen­tido que pode nos unir e trans­cen­der o indi­vi­du­a­lismo que cor­rói o mundo atual: cons­truir­mos uma forma de cons­ci­ên­cia que não nos per­tence, pois é da pró­pria natu­reza, do pró­prio mundo — uma cons­ci­ên­cia cole­tiva.

Mas como essa cons­ci­ên­cia cole­tiva emer­girá?

Bom, para res­pon­der a essa per­gunta, pre­ci­sa­mos falar um pouco sobre bio­lo­gia.

Há evi­dên­cias de que a natu­reza, desde as pri­mei­ras for­mas de vida no pla­neta, tende à for­ma­ção de sis­te­mas cada vez mais com­ple­xos atra­vés de pro­ces­sos de comu­ni­ca­ção. Essa é, aliás, a his­tó­ria de nossa ori­gem. Das colô­nias de orga­nis­mos uni­ce­lu­la­res exis­ten­tes nos oce­a­nos pri­mi­ti­vos sur­gi­ram os teci­dos e órgãos dos orga­nis­mos com­ple­xos. Essen­ci­al­mente, as célu­las de nos­sos cor­pos são paren­tes de pri­mi­ti­vas bac­té­rias uni­ce­lu­la­res. Nos­sos cor­pos, hoje, podem per­ce­ber cole­ti­va­mente vari­a­ções na tem­pe­ra­tura ambi­ente de uma forma que cada célula iso­la­da­mente não con­se­gui­ria pro­ces­sar.

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A forma como as bac­té­rias pri­mi­ti­vas uni­ram-se era um mis­té­rio até mea­dos da década de 90 do século pas­sado, quando o bió­logo James Sha­piro des­co­briu que os orga­nis­mos uni­ce­lu­la­res ten­dem natu­ral­mente a for­mar comu­ni­da­des atra­vés de redes rudi­men­ta­res de comu­ni­ca­ção base­a­das em flu­tu­a­ções de seus cam­pos ele­tro­mag­né­ti­cos. E em 2011  foi des­co­berto que essa comu­ni­ca­ção pode ocor­rer até mesmo a dis­tân­cias rela­ti­va­mente gran­des, numa espé­cie de ver­são “wire­less” da comu­ni­ca­ção já iden­ti­fi­cada em bac­té­rias uni­das em comu­ni­da­des — o DNA fun­ci­ona como uma “antena wire­less trans­mis­sora e recep­tora.

Mas isso não é pri­vi­lé­gio do micros­có­pico mundo dos orga­nis­mos uni­ce­lu­la­res. Em 1997, a bió­loga Suzane Simard des­co­briu a exis­tên­cias de uma rede de comu­ni­ca­ção bioquí­mica entre árvo­res e fun­gos fez com que pes­qui­sa­do­res suge­ris­sem a exis­tên­cia de wood-wide web (“rede flo­res­tal”, para­fra­se­ando a world-wide web, “rede mun­dial”): os fun­gos e cogu­me­los fun­ci­o­na­riam como conec­to­res em uma genuína “inter­net”, da qual par­ti­ci­pa­riam espé­cies orga­nis­mos vege­tais mais com­ple­xos, pos­si­bi­li­tando uma per­cep­ção cole­tiva do que ocorre no meio ambi­ente e garan­tindo a cola­bo­ra­ção, e não a com­pe­ti­ção, entre todos. Segundo Simard e seus cole­gas, os indí­cios suge­rem que essa par­ce­ria entre vege­tais e orga­nis­mos fungi é tão antiga quanto o sur­gi­mento de plan­tas ter­res­tres há cerca de 500 milhões de anos atrás.

É como se a ten­dên­cia da natu­reza fosse unir indi­ví­duos em gru­pos, e esses em cole­ti­vi­da­des ainda mai­o­res, atra­vés de sis­te­mas de comu­ni­ca­ção. Tal pro­cesso pode ser um movi­mento “cego” da natu­reza — algo auto­má­tico, que todos orga­nis­mos vivos fazem por­que é sim­ples­mente dessa forma que a vida orgâ­nica tende a se orga­ni­zar e a evo­luir. Assim como a natu­reza tende a obser­var a lógica da Sequên­cia de Fibo­nacci durante a for­ma­ção de estru­tu­ras com­ple­xas, como se vê no vídeo a seguir, tam­bém have­ria uma ten­dên­cia espon­tâ­nea de esta­be­le­cer redes de comu­ni­ca­ção capa­zes de fazer emer­gir uma cons­ci­ên­cia cole­tiva.

2. Um sentido da vida inclusivo

Pode­mos, porém, inter­pre­tar que há uma inten­ção maior por trás desse pro­cesso, algo que se encaixa nas expec­ta­ti­vas daque­les que acre­di­tam na exis­tên­cia de uma enti­dade supe­rior, de um Deus que teria con­di­ci­o­nado a emer­gên­cia des­sas redes de comu­ni­ca­ção (ele­tro­mag­né­ti­cas, quí­mi­cas ou tec­no­ló­gi­cas), todas elas genuí­nos ensaios da cri­a­ção do suporte físico e lógico neces­sá­rio à mani­fes­ta­ção do espí­rito (qual­quer seme­lhança com Hegel não é mera coin­ci­dên­cia). Pode­mos tam­bém inter­pre­tar que, por alguma outra razão, a his­tó­ria do pró­prio uni­verso e dos orga­nis­mos vivos está con­di­ci­o­nada por uma espé­cie de von­tade cri­a­tiva, como acre­di­tam os teó­ri­cos da evo­lu­ção emer­gente, para os quais em algum ponto de qual­quer desen­vol­vi­mento bio­ló­gico a cons­ci­ên­cia está des­ti­nada a emer­gir, irre­me­di­a­vel­mente.

Mas mesmo aque­les que pre­fe­rem não depo­si­tar con­fi­ança na ideia de uma ten­dên­cia evo­lu­tiva espon­tâ­nea, e muito menos na exis­tên­cia de um Deus coor­de­nando tudo isso, bene­fi­ciam-se da pro­posta de que o sen­tido de nos­sas vidas deve ser a emer­gên­cia de uma cons­ci­ên­cia cole­tiva. Afi­nal, a inven­ti­vi­dade e enge­nho­si­dade humana estão aí para cons­truir­mos um sen­tido para nos­sas vidas, já que não há algum dado por um deus ou pela natu­reza, como pre­fe­rem pen­sar os ateus.

E de onde vem esse bene­fí­cio? Come­ça­mos a per­cebê-lo quando ana­li­sa­mos nossa his­tó­ria, e con­cluí­mos que a huma­ni­dade, até o momento, andou mais ou menos como um bêbado ou sonâm­bulo den­tro de uma loja de cris­tais: cam­ba­le­ando por rumos arbi­trá­rios esta­be­le­ci­dos por alguma crença reli­gi­osa ou regime tota­li­ta­rista, des­per­di­çando recur­sos, des­truindo vidas huma­nas em guer­ras estú­pi­das, sacri­fi­cando nosso desen­vol­vi­mento em nome de dog­mas e supers­ti­ções.

Somos ani­mais incri­vel­mente esper­tos, a inte­li­gên­cia que nos dis­tin­gue dos demais seres vivos não impe­diu que já tenha­mos colo­cado a nossa sobre­vi­vên­cia, e mesmo a do pró­prio pla­neta, em risco várias vezes nos últi­mos cem anos, como fize­mos durante a louca cor­rida nuclear da Guerra Fria.

E sem­pre que mata­mos ou des­truí­mos cole­ti­va­mente, é em nome de alguma crença imposta por ide­o­lo­gias ou reli­giões que bus­cam dar um sen­tido para a nos­sas vidas, que bus­cam expli­car como che­ga­mos até aqui e o que deve­mos fazer a par­tir de agora. Mesmo no caso de Esta­dos decla­ra­da­mente ateus, como o regime sovié­tico e o regime maoísta, a neces­si­dade de viver­mos conec­ta­dos com uma aspi­ra­ção capaz de trans­cen­der nossa pró­pria indi­vi­du­a­li­dade e fini­tude sobre­vi­veu: ape­nas, em ambos os casos, tro­cou-se a figura de Deus pelo Estado e seus repre­sen­tan­tes. Basta lem­brar­mos da aura de divin­dade que havia no culto a Sta­lin e Mao — e, atu­al­mente, no culto ao Lider Supremo na Coreia do Norte.

É como se, na cena a seguir (do filme The Zero The­o­rem), o pro­ta­go­nista encar­nasse toda a huma­ni­dade, aguar­dando um cha­mado que acre­dita ou ide­a­liza já ter rece­bido em algum momento do pas­sado, espe­rando uma nova chance em que possa dizer um seguro sim à vida:

Esse cha­mado pode não ter jamais exis­tido, esse cha­mado pode ser algo que jamais venha a ocor­rer, mas ele toda­via existe enquanto expec­ta­tiva ina­fas­tá­vel den­tro de todos nós.

A solu­ção, por­tanto, tal­vez não seja rejei­tar essa neces­si­dade humana de sen­tido e trans­cen­dên­cia, pois ela não é nociva em si mesma — ela é só nociva na exata medida em que não nos cons­ci­en­ti­za­mos dela e somos por caval­ga­dos na dire­ção do desas­tre por aque­les que nos ven­dem alguma irre­fle­tida “solu­ção” para tal neces­si­dade. Os ateus até podem estar cer­tos ao afir­mar que não há Deus algum, mas estão enga­na­dos ao supor que se pode tirar algo do ima­gi­ná­rio humano e não colo­car nada em seu lugar sem que disso resulte uma enorme tra­gé­dia. Isso por­que o ser humano é um ani­mal que vive “den­tro” de seu pró­prio ima­gi­ná­rio, e se alguém duvida disso basta que observe como algo que não tem exis­tên­cia con­creta, mas ape­nas exis­tên­cia con­cei­tual como depo­si­tá­rio da noção fun­da­men­tal de “valor”, é capaz de coman­dar nos­sas vidas: o dinheiro.

O que nos falta tal­vez seja a cons­tru­ção de um sen­tido para nos­sas vidas cole­ti­vas que supra essa neces­si­dade do ima­gi­ná­rio de modo huma­nista, de modo cons­ci­ente, e res­pei­tando todas as for­mas de cren­ças e con­vic­ções polí­ti­cas e filo­só­fi­cas. Esse sen­tido, ainda, deve ser trans­cen­dente, pois é parece ser da natu­reza humana evo­luir melhor quando o alvo a que mira é quase inal­can­çá­vel. Desse modo, esse sen­tido deve cons­ti­tuir um pro­jeto que nos supera enquanto indi­ví­duos e que ultra­passa o curto tempo de nos­sas vidas.

Assim, mesmo para os que pre­fe­rem per­ma­ne­cer inte­gral­mente céti­cos, a pro­posta de que nos orga­ni­ze­mos em torno de um pro­jeto cole­tivo que trans­cenda nos­sas indi­vi­du­a­li­da­des e lance toda huma­ni­dade numa aven­tura comum é uma ideia boa o sufi­ci­ente para, se não exis­tir enquanto “von­tade” da natu­reza ou desíg­nio divino, ser huma­na­mente cri­ada.

3. A Noosfera

O cami­nho para a emer­gên­cia dessa cons­ci­ên­cia cole­tiva dá-se, ini­ci­al­mente, em dois cam­pos de atu­a­ção. Esses dois cam­pos resu­mem, em parte, o espí­rito prin­ci­pal do pro­jeto Ano Zero: Polí­tica e Amor. Polí­tica, com “P” maiús­culo, por meio do enga­ja­mento de todos na busca de uma soci­e­dade mais justa e pro­gres­sista, em que a vida não seja mais objeto de coi­si­fi­ca­ção e em que nos­sas deci­sões polí­ti­cas não sejam mais pau­ta­das por dog­mas reli­gi­o­sos ou ide­o­ló­gi­cos. Amor, com “A” maiús­culo, por meio do desen­vol­vi­mento de cora­ções des­per­tos, capa­zes de sen­tir com­pai­xão e de olhar amo­ro­sa­mente para os aspec­tos mais difí­ceis e dolo­ro­sos da con­di­ção exis­ten­cial de todos os seres vivos — em outras pala­vras, a cons­ci­ên­cia cole­tiva depende de cons­ci­ên­cias indi­vi­du­ais des­per­tas.

Mas, para além do enga­ja­mento social e do desen­vol­vi­mento de nos­sas cons­ci­ên­cias indi­vi­du­ais, ainda falta um com­po­nente. Esse com­po­nente é o subs­trato físico e lógico da cons­ci­ên­cia cole­tiva. É aí que entra a inter­net.

As pri­mei­ras per­cep­ções de que a inter­net é o suporte para a emer­gên­cia de uma cons­ci­ên­cia cole­tiva sur­gi­ram muito cedo. Em 1982, um autor “nova era” cha­mado Peter Rus­sel escre­veu um livro inti­tu­lado The Glo­bal Brain Awa­kens (“O Cére­bro Glo­bal Des­perta”), no qual pro­pu­nha que a revo­lu­ção tec­no­ló­gica e a rede de com­pu­ta­do­res uni­riam toda a espé­cie humana em um tipo de “cére­bro glo­bal”. A par­tir daí, a expres­são Glo­bal Brain ganhou noto­ri­e­dade, e hoje temos gru­pos como o Glo­bal Brain Ins­ti­tute, des­ti­nado a exa­mi­nar a pos­si­bi­li­dade de que seres huma­nos e equi­pa­men­tos tec­no­ló­gi­cos for­mem um grande “cére­bro” atra­vés de com­ple­xas redes de comu­ni­ca­ção.

Pes­so­al­mente detesto essa expres­são “Cére­bro Glo­bal”, por insi­nuar uma grande massa ence­fá­lica des­pro­vida de um corpo pelo qual possa real­mente sen­tir e se inte­grar com o ambi­ente cir­cun­dante em um nível que não seja exclu­si­va­mente o do cál­culo e da aná­lise. É uma metá­fora pobre.

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Porém, pode­mos ras­trear a ori­gem da ideia de que a inter­net seria a base para a for­ma­ção de uma cons­ci­ên­cia cole­tiva num período bem ante­rior à cri­a­ção da inter­net, nas pro­po­si­ções de um padre jesuíta cha­mado Pierre Tei­lhard de Char­din e de um geoquí­mico russo cha­mado Vla­di­mir Ver­nadsky. Déca­das antes da inter­net sur­gir, eles já tinham dado um nome àquilo que ela faria emer­gir: cha­ma­vam de “noos­fera” (do grego nous, inte­li­gên­cia, e sphaira, esfera).

Para Ver­nadsky, a evo­lu­ção do pró­prio pla­neta Terra teria três eta­pas. A pri­meira foi a geos­fera, com­posta por mate­rial ina­ni­mado e que foi a única até o sur­gi­mento das pri­mei­ras for­mas de vida. A segunda é a bios­fera, com­posta pelo com­plexo sis­tema de rela­ções eco­lo­gi­ca­mente equi­li­bra­das que une todos os seres vivos. A última, que está para emer­gir, é a noos­fera, resul­tante da emer­gên­cia da cons­ci­ên­cia humana.

Mas Ver­nadsky tinha uma per­cep­ção antro­po­cen­trista sobre o que seria a noos­fera. Para o russo, ela depen­de­ria de a huma­ni­dade ser capaz de trans­for­mar a bios­fera con­forme sua von­tade e alte­rar a pró­pria maté­ria. Um cami­nho peri­goso, por suas impli­ca­ções anti­e­co­ló­gi­cas e espe­cis­tas.

Já Char­din foi mais feliz. O fran­cês con­cor­dava com a con­cep­ção de evo­lu­ção ter­res­tre em três eta­pas, mas enten­dia que a noos­fera sur­gi­ria e seria cons­ti­tuída pela inte­ra­ção das men­tes huma­nas. Segundo o jesuíta, emer­gên­cia da noos­fera depen­de­ria da for­ma­ção de cone­xões soci­ais com­ple­xas: a medida em que uma rede social fosse capaz de unir todos os seres huma­nos, a con­sequên­cia seria a emer­gên­cia da noos­fera.

Para Char­din, no atual está­gio da his­tó­ria humana esta­ría­mos trans­pondo o limiar para uma época em que ocor­rerá a uni­fi­ca­ção de nos­sas cons­ci­ên­cias por meio da tec­no­lo­gia. Ele con­si­de­rava que a nova tec­no­lo­gia estava cri­ando um “sis­tema ner­voso” para a huma­ni­dade, uma mem­brana reti­cu­lar sobre a Terra, ini­ci­ando a era da civi­li­za­ção uni­fi­cada. E Char­din pen­sou tudo isso muito antes do sur­gi­mento da inter­net.

4. Ano Zero

A expres­são “rede social”, no caso de Char­din, é uti­li­zada em seu sen­tido soci­o­ló­gico ori­gi­nal. Porém, é uma feliz coin­ci­dên­cia que esse mesmo termo seja uti­li­zado para refe­rir-se a uma das fer­ra­men­tas mais popu­la­res da inter­net. Esse vasto sis­tema des­cen­tra­li­zado, não sujeito a nenhum governo, capaz de unir ins­tan­ta­ne­a­mente pes­soas sepa­ra­das por dis­tân­cias oceâ­ni­cas, cri­ando cone­xões múl­ti­plas em torno de uma mesma ideia ou aspi­ra­ção, con­cre­tiza o con­ceito de noos­fera, a ideia sobre a emer­gên­cia de uma cons­ci­ên­cia cole­tiva que trans­cende nos­sas indi­vi­du­a­li­da­des.

Hoje em dia, um menino na Coreia do Sul pode ter muito mais afi­ni­dade e tra­var uma rela­ção muito mais rica com um outro menino situ­ado na Espa­nha, que tam­bém curte ani­mês e com o qual troca ideias ins­tan­ta­ne­a­mente pela inter­net, do que com todos os seus cole­gas de aula e seus vizi­nhos. Aos pou­cos, cone­xões não-locais uni­rão pes­soas que comun­gam da mesma visão de mundo em nódu­los, como se as ideias que com­par­ti­lham for­mas­sem uma grande ideia que tra­fega pelos mean­dros de uma cons­ci­ên­cia pla­ne­tá­ria.

Algo de sur­pre­en­dente está acon­te­cendo nas últi­mas déca­das, e jus­ta­mente devido à essa com­plexa rede de comu­ni­ca­ção que per­mi­tiu que você cli­casse em um link para che­gar neste artigo. Cin­quenta anos atrás, era pos­sí­vel a Hit­tler e seus ami­gos joga­rem seis milhões de seres huma­nos em cam­pos de con­cen­tra­ção sem que a maior parte da popu­la­ção alemã tivesse ideia do que estava real­mente ocor­rendo. Hoje, gra­ças à uni­ver­sa­li­za­ção do equi­pa­mento audi­o­vi­sual e à conec­ti­vi­dade da inter­net, difi­cil­mente um ato de bar­bá­rie deixa de ser docu­men­tado por pelo menos de uma câmera, sendo levado ao conhe­ci­mento de pes­soas situ­a­das no outro extremo do pla­neta com um atraso de, no máximo, vinte e qua­tro horas.

Claro, há bol­sões de “cegueira ciber­né­tica” no mundo, onde abu­sos de todo tipo são per­pe­tra­dos, mas eles ten­dem a dimi­nuir. Escân­da­los como a pri­são de Abu Graib demo­ra­riam anos para serem des­co­ber­tos se ocor­res­sem há cinco déca­das atrás, ou então sua divul­ga­ção seria desa­fi­ada por táti­cas de con­tra-infor­ma­ção das auto­ri­da­des — obs­tá­cu­los esses que pouco sig­ni­fi­cam nos dias de hoje, quando as foto­gra­fias de pre­sos tor­tu­ra­dos vira­li­zam na inter­net rapi­da­mente. Com mani­fes­ta­ções como Occupy Wall Street, a pri­ma­vera árabe, os pro­tes­tos em Istam­bul e no Bra­sil, even­tos esses que se apro­vei­ta­ram do poten­cial mobi­li­za­dor das redes soci­ais, tive­mos uma amos­tra do que virá: hoje os seres huma­nos tomam conhe­ci­mento de fatos cole­ti­va­mente, pelas redes soci­ais, sem inter­me­diá­rios e com a agi­li­dade sufi­ci­ente para indig­na­rem-se, orga­ni­za­rem-se e ten­ta­rem rever­ter a situ­a­ção — atu­al­mente, medi­ante mani­fes­ta­ções públi­cas; mas, no futuro, de outras for­mas ainda não ima­gi­na­das.

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Na con­tra­mão desse cená­rio, temos as mani­fes­ta­ções que arras­ta­ram a Ucrâ­nia para a guerra civil, e a ade­são de seto­res rea­ci­o­ná­rios da soci­e­dade bra­si­leira aos pro­tes­tos de 2013. O lado negro dessa his­tó­ria tam­bém está na faci­li­dade de vigi­lân­cia por um Grande Irmão orwel­li­ano que se apro­vei­tasse da inter­net. Há alguns meses, des­co­briu-se que o governo ame­ri­cano uti­li­zava a rede para moni­to­rar a ati­vi­dade de milha­res de pes­soas, sendo que 90% dos moni­to­ra­dos eram alvos civis.

Na medida em que todos esta­mos conec­ta­dos, tam­bém esta­mos todos sendo obser­va­dos. Não há nada que possa esca­par aos olhos das câme­ras e che­gar rapi­da­mente ao conhe­ci­mento das auto­ri­da­des mal-inten­ci­o­na­das.

Mas o perigo não vem ape­nas dos pode­res gover­na­men­tais. A ini­ci­a­tiva pri­vada, prin­ci­pal­mente as gran­des cor­po­ra­ções, tra­tam a inter­net como uma forma de “pas­to­rear” os con­su­mi­do­res. O pró­prio Face­book acu­mula e nego­cia um volume impres­si­o­nante de infor­ma­ções com seus patro­ci­na­do­res, e ousa até mesmo ten­tar mani­pu­lar nossa emo­ções.

Ao alcance lite­ral de seus dedos, por­tanto, você tem uma fer­ra­menta que pode levar toda a huma­ni­dade a uma aven­tura emo­ci­o­nante, na dire­ção de uma nova etapa evo­lu­tiva do pla­neta, em que final­mente pode­re­mos con­cre­ti­zar um sen­tido cole­tivo para a vida humana, atra­vés da emer­gên­cia de uma cons­ci­ên­cia glo­bal, que trans­cen­derá nos­sas indi­vi­du­a­li­da­des.

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Porém, tam­bém ao alcance lite­ral de seus dedos, você tem uma fer­ra­menta que pode ser uti­li­zada como arma con­tra a demo­cra­cia e o pleno desen­vol­vi­mento humano.

Come­cei este artigo dizendo que esta­mos, sem per­ce­ber, den­tro de uma gigan­tesca onda. Mas tal­vez esteja errado. O que está se for­mando hoje em dia são duas gran­des ondas, rumando em sen­ti­dos opos­tos. De um lado, uma grande onda pro­gres­sista, escla­re­cida e huma­nista, com a aspi­ra­ção visi­o­ná­ria de criar um mundo melhor. De outro, uma grande onda rea­ci­o­ná­ria, con­su­mista e into­le­rante, des­ti­nada a bene­fi­ciar uma mino­ria de indi­ví­duos deten­to­res de quase toda a riqueza que há no mundo e seus asse­clas.

E Ano Zero? Ano Zero quer tor­nar-se uma pran­cha de surf sin­grando a onda pro­gres­sista, para que não seja­mos mais como o plânc­ton de que falei no iní­cio do texto. Ano Zero está longe de ser um site de arti­gos na inter­net, embora comece dessa forma. É, antes, um pro­jeto que aposta na ideia de que o sen­tido da vida humana é a emer­gên­cia de uma cons­ci­ên­cia cole­tiva, e que essa cons­ci­ên­cia depende da evo­lu­ção emo­ci­o­nal de cada indi­ví­duo, do apri­mo­ra­mento de nos­sas ins­ti­tui­ções polí­ti­cas e do cor­reto desen­vol­vi­mento do poten­cial que há na inter­net.

Victor Lisboa
Editor do site Ano Zero.

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