1. A revolução extraordinária

Cuidado, ao clicar no link que trouxe você até esse texto, ao conferir seus e-mails ou compartilhar algo em qualquer rede social, você pode estar participando de uma das maiores transformações da humanidade, mas com apenas parcial consciência do que está ocorrendo. É como ser o plâncton flutuando no topo de uma enorme onda, incapaz de perceber a proporção gigantesca do fenômeno do qual participa involuntariamente.

Mas, diferente de minúsculos organismos aquáticos, essa participação não precisa ser involuntária. Temos o poder de interferir nesse fenômeno, decidindo se ele vai acelerar a evolução humana ou apenas potencializar nossas piores características. Depende justamente de tomarmos consciência do que está acontecendo.

E o que está acontecendo?

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Recentemente, escrevi dois artigos correlatos. Em Ano Zero e o Novo Aeon, parte 1, tratei de especulações sobre o potencial da internet, usando o conceito de campos morfogenéticos como uma metáfora dos processos globais de mobilização da cidadania. E num artigo para o site Papo de Homem, dei um passo além e propus que há um sentido possível para nossas vidas, um sentido que pode nos unir e transcender o individualismo que corrói o mundo atual: construirmos uma forma de consciência que não nos pertence, pois é da própria natureza, do próprio mundo – uma consciência coletiva.

Mas como essa consciência coletiva emergirá?

Bom, para responder a essa pergunta, precisamos falar um pouco sobre biologia.

Há evidências de que a natureza, desde as primeiras formas de vida no planeta, tende à formação de sistemas cada vez mais complexos através de processos de comunicação. Essa é, aliás, a história de nossa origem. Das colônias de organismos unicelulares existentes nos oceanos primitivos surgiram os tecidos e órgãos dos organismos complexos. Essencialmente, as células de nossos corpos são parentes de primitivas bactérias unicelulares. Nossos corpos, hoje, podem perceber coletivamente variações na temperatura ambiente de uma forma que cada célula isoladamente não conseguiria processar.

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A forma como as bactérias primitivas uniram-se era um mistério até meados da década de 90 do século passado, quando o biólogo James Shapiro descobriu que os organismos unicelulares tendem naturalmente a formar comunidades através de redes rudimentares de comunicação baseadas em flutuações de seus campos eletromagnéticos. E em 2011  foi descoberto que essa comunicação pode ocorrer até mesmo a distâncias relativamente grandes, numa espécie de versão “wireless” da comunicação já identificada em bactérias unidas em comunidades – o DNA funciona como uma “antena wireless transmissora e receptora.

Mas isso não é privilégio do microscópico mundo dos organismos unicelulares. Em 1997, a bióloga Suzane Simard descobriu a existências de uma rede de comunicação bioquímica entre árvores e fungos fez com que pesquisadores sugerissem a existência de wood-wide web (“rede florestal”, parafraseando a world-wide web, “rede mundial”): os fungos e cogumelos funcionariam como conectores em uma genuína “internet“, da qual participariam espécies organismos vegetais mais complexos, possibilitando uma percepção coletiva do que ocorre no meio ambiente e garantindo a colaboração, e não a competição, entre todos. Segundo Simard e seus colegas, os indícios sugerem que essa parceria entre vegetais e organismos fungi é tão antiga quanto o surgimento de plantas terrestres há cerca de 500 milhões de anos atrás.

É como se a tendência da natureza fosse unir indivíduos em grupos, e esses em coletividades ainda maiores, através de sistemas de comunicação. Tal processo pode ser um movimento “cego” da natureza – algo automático, que todos organismos vivos fazem porque é simplesmente dessa forma que a vida orgânica tende a se organizar e a evoluir. Assim como a natureza tende a observar a lógica da Sequência de Fibonacci durante a formação de estruturas complexas, como se vê no vídeo a seguir, também haveria uma tendência espontânea de estabelecer redes de comunicação capazes de fazer emergir uma consciência coletiva.

2. Um sentido da vida inclusivo

Podemos, porém, interpretar que há uma intenção maior por trás desse processo, algo que se encaixa nas expectativas daqueles que acreditam na existência de uma entidade superior, de um Deus que teria condicionado a emergência dessas redes de comunicação (eletromagnéticas, químicas ou tecnológicas), todas elas genuínos ensaios da criação do suporte físico e lógico necessário à manifestação do espírito (qualquer semelhança com Hegel não é mera coincidência). Podemos também interpretar que, por alguma outra razão, a história do próprio universo e dos organismos vivos está condicionada por uma espécie de vontade criativa, como acreditam os teóricos da evolução emergente, para os quais em algum ponto de qualquer desenvolvimento biológico a consciência está destinada a emergir, irremediavelmente.

Mas mesmo aqueles que preferem não depositar confiança na ideia de uma tendência evolutiva espontânea, e muito menos na existência de um Deus coordenando tudo isso, beneficiam-se da proposta de que o sentido de nossas vidas deve ser a emergência de uma consciência coletiva. Afinal, a inventividade e engenhosidade humana estão aí para construirmos um sentido para nossas vidas, já que não há algum dado por um deus ou pela natureza, como preferem pensar os ateus.

E de onde vem esse benefício? Começamos a percebê-lo quando analisamos nossa história, e concluímos que a humanidade, até o momento, andou mais ou menos como um bêbado ou sonâmbulo dentro de uma loja de cristais: cambaleando por rumos arbitrários estabelecidos por alguma crença religiosa ou regime totalitarista, desperdiçando recursos, destruindo vidas humanas em guerras estúpidas, sacrificando nosso desenvolvimento em nome de dogmas e superstições.

Somos animais incrivelmente espertos, a inteligência que nos distingue dos demais seres vivos não impediu que já tenhamos colocado a nossa sobrevivência, e mesmo a do próprio planeta, em risco várias vezes nos últimos cem anos, como fizemos durante a louca corrida nuclear da Guerra Fria.

E sempre que matamos ou destruímos coletivamente, é em nome de alguma crença imposta por ideologias ou religiões que buscam dar um sentido para a nossas vidas, que buscam explicar como chegamos até aqui e o que devemos fazer a partir de agora. Mesmo no caso de Estados declaradamente ateus, como o regime soviético e o regime maoísta, a necessidade de vivermos conectados com uma aspiração capaz de transcender nossa própria individualidade e finitude sobreviveu: apenas, em ambos os casos, trocou-se a figura de Deus pelo Estado e seus representantes. Basta lembrarmos da aura de divindade que havia no culto a Stalin e Mao – e, atualmente, no culto ao Lider Supremo na Coreia do Norte.

É como se, na cena a seguir (do filme The Zero Theorem), o protagonista encarnasse toda a humanidade, aguardando um chamado que acredita ou idealiza já ter recebido em algum momento do passado, esperando uma nova chance em que possa dizer um seguro sim à vida:

Esse chamado pode não ter jamais existido, esse chamado pode ser algo que jamais venha a ocorrer, mas ele todavia existe enquanto expectativa inafastável dentro de todos nós.

A solução, portanto, talvez não seja rejeitar essa necessidade humana de sentido e transcendência, pois ela não é nociva em si mesma – ela é só nociva na exata medida em que não nos conscientizamos dela e somos por cavalgados na direção do desastre por aqueles que nos vendem alguma irrefletida “solução” para tal necessidade. Os ateus até podem estar certos ao afirmar que não há Deus algum, mas estão enganados ao supor que se pode tirar algo do imaginário humano e não colocar nada em seu lugar sem que disso resulte uma enorme tragédia. Isso porque o ser humano é um animal que vive “dentro” de seu próprio imaginário, e se alguém duvida disso basta que observe como algo que não tem existência concreta, mas apenas existência conceitual como depositário da noção fundamental de “valor”, é capaz de comandar nossas vidas: o dinheiro.

O que nos falta talvez seja a construção de um sentido para nossas vidas coletivas que supra essa necessidade do imaginário de modo humanista, de modo consciente, e respeitando todas as formas de crenças e convicções políticas e filosóficas. Esse sentido, ainda, deve ser transcendente, pois é parece ser da natureza humana evoluir melhor quando o alvo a que mira é quase inalcançável. Desse modo, esse sentido deve constituir um projeto que nos supera enquanto indivíduos e que ultrapassa o curto tempo de nossas vidas.

Assim, mesmo para os que preferem permanecer integralmente céticos, a proposta de que nos organizemos em torno de um projeto coletivo que transcenda nossas individualidades e lance toda humanidade numa aventura comum é uma ideia boa o suficiente para, se não existir enquanto “vontade” da natureza ou desígnio divino, ser humanamente criada.

3. A Noosfera

O caminho para a emergência dessa consciência coletiva dá-se, inicialmente, em dois campos de atuação. Esses dois campos resumem, em parte, o espírito principal do projeto Ano Zero: Política e Amor. Política, com “P” maiúsculo, por meio do engajamento de todos na busca de uma sociedade mais justa e progressista, em que a vida não seja mais objeto de coisificação e em que nossas decisões políticas não sejam mais pautadas por dogmas religiosos ou ideológicos. Amor, com “A” maiúsculo, por meio do desenvolvimento de corações despertos, capazes de sentir compaixão e de olhar amorosamente para os aspectos mais difíceis e dolorosos da condição existencial de todos os seres vivos – em outras palavras, a consciência coletiva depende de consciências individuais despertas.

Mas, para além do engajamento social e do desenvolvimento de nossas consciências individuais, ainda falta um componente. Esse componente é o substrato físico e lógico da consciência coletiva. É aí que entra a internet.

As primeiras percepções de que a internet é o suporte para a emergência de uma consciência coletiva surgiram muito cedo. Em 1982, um autor “nova era” chamado Peter Russel escreveu um livro intitulado The Global Brain Awakens (“O Cérebro Global Desperta”), no qual propunha que a revolução tecnológica e a rede de computadores uniriam toda a espécie humana em um tipo de “cérebro global”. A partir daí, a expressão Global Brain ganhou notoriedade, e hoje temos grupos como o Global Brain Institute, destinado a examinar a possibilidade de que seres humanos e equipamentos tecnológicos formem um grande “cérebro” através de complexas redes de comunicação.

Pessoalmente detesto essa expressão “Cérebro Global”, por insinuar uma grande massa encefálica desprovida de um corpo pelo qual possa realmente sentir e se integrar com o ambiente circundante em um nível que não seja exclusivamente o do cálculo e da análise. É uma metáfora pobre.

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Porém, podemos rastrear a origem da ideia de que a internet seria a base para a formação de uma consciência coletiva num período bem anterior à criação da internet, nas proposições de um padre jesuíta chamado Pierre Teilhard de Chardin e de um geoquímico russo chamado Vladimir Vernadsky. Décadas antes da internet surgir, eles já tinham dado um nome àquilo que ela faria emergir: chamavam de “noosfera” (do grego nous, inteligência, e sphaira, esfera).

Para Vernadsky, a evolução do próprio planeta Terra teria três etapas. A primeira foi a geosfera, composta por material inanimado e que foi a única até o surgimento das primeiras formas de vida. A segunda é a biosfera, composta pelo complexo sistema de relações ecologicamente equilibradas que une todos os seres vivos. A última, que está para emergir, é a noosfera, resultante da emergência da consciência humana.

Mas Vernadsky tinha uma percepção antropocentrista sobre o que seria a noosfera. Para o russo, ela dependeria de a humanidade ser capaz de transformar a biosfera conforme sua vontade e alterar a própria matéria. Um caminho perigoso, por suas implicações antiecológicas e especistas.

Já Chardin foi mais feliz. O francês concordava com a concepção de evolução terrestre em três etapas, mas entendia que a noosfera surgiria e seria constituída pela interação das mentes humanas. Segundo o jesuíta, emergência da noosfera dependeria da formação de conexões sociais complexas: a medida em que uma rede social fosse capaz de unir todos os seres humanos, a consequência seria a emergência da noosfera.

Para Chardin, no atual estágio da história humana estaríamos transpondo o limiar para uma época em que ocorrerá a unificação de nossas consciências por meio da tecnologia. Ele considerava que a nova tecnologia estava criando um “sistema nervoso” para a humanidade, uma membrana reticular sobre a Terra, iniciando a era da civilização unificada. E Chardin pensou tudo isso muito antes do surgimento da internet.

4. Ano Zero

A expressão “rede social”, no caso de Chardin, é utilizada em seu sentido sociológico original. Porém, é uma feliz coincidência que esse mesmo termo seja utilizado para referir-se a uma das ferramentas mais populares da internet. Esse vasto sistema descentralizado, não sujeito a nenhum governo, capaz de unir instantaneamente pessoas separadas por distâncias oceânicas, criando conexões múltiplas em torno de uma mesma ideia ou aspiração, concretiza o conceito de noosfera, a ideia sobre a emergência de uma consciência coletiva que transcende nossas individualidades.

Hoje em dia, um menino na Coreia do Sul pode ter muito mais afinidade e travar uma relação muito mais rica com um outro menino situado na Espanha, que também curte animês e com o qual troca ideias instantaneamente pela internet, do que com todos os seus colegas de aula e seus vizinhos. Aos poucos, conexões não-locais unirão pessoas que comungam da mesma visão de mundo em nódulos, como se as ideias que compartilham formassem uma grande ideia que trafega pelos meandros de uma consciência planetária.

Algo de surpreendente está acontecendo nas últimas décadas, e justamente devido à essa complexa rede de comunicação que permitiu que você clicasse em um link para chegar neste artigo. Cinquenta anos atrás, era possível a Hittler e seus amigos jogarem seis milhões de seres humanos em campos de concentração sem que a maior parte da população alemã tivesse ideia do que estava realmente ocorrendo. Hoje, graças à universalização do equipamento audiovisual e à conectividade da internet, dificilmente um ato de barbárie deixa de ser documentado por pelo menos de uma câmera, sendo levado ao conhecimento de pessoas situadas no outro extremo do planeta com um atraso de, no máximo, vinte e quatro horas.

Claro, há bolsões de “cegueira cibernética” no mundo, onde abusos de todo tipo são perpetrados, mas eles tendem a diminuir. Escândalos como a prisão de Abu Graib demorariam anos para serem descobertos se ocorressem há cinco décadas atrás, ou então sua divulgação seria desafiada por táticas de contra-informação das autoridades – obstáculos esses que pouco significam nos dias de hoje, quando as fotografias de presos torturados viralizam na internet rapidamente. Com manifestações como Occupy Wall Street, a primavera árabe, os protestos em Istambul e no Brasil, eventos esses que se aproveitaram do potencial mobilizador das redes sociais, tivemos uma amostra do que virá: hoje os seres humanos tomam conhecimento de fatos coletivamente, pelas redes sociais, sem intermediários e com a agilidade suficiente para indignarem-se, organizarem-se e tentarem reverter a situação – atualmente, mediante manifestações públicas; mas, no futuro, de outras formas ainda não imaginadas.

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Na contramão desse cenário, temos as manifestações que arrastaram a Ucrânia para a guerra civil, e a adesão de setores reacionários da sociedade brasileira aos protestos de 2013. O lado negro dessa história também está na facilidade de vigilância por um Grande Irmão orwelliano que se aproveitasse da internet. Há alguns meses, descobriu-se que o governo americano utilizava a rede para monitorar a atividade de milhares de pessoas, sendo que 90% dos monitorados eram alvos civis.

Na medida em que todos estamos conectados, também estamos todos sendo observados. Não há nada que possa escapar aos olhos das câmeras e chegar rapidamente ao conhecimento das autoridades mal-intencionadas.

Mas o perigo não vem apenas dos poderes governamentais. A iniciativa privada, principalmente as grandes corporações, tratam a internet como uma forma de “pastorear” os consumidores. O próprio Facebook acumula e negocia um volume impressionante de informações com seus patrocinadores, e ousa até mesmo tentar manipular nossa emoções.

Ao alcance literal de seus dedos, portanto, você tem uma ferramenta que pode levar toda a humanidade a uma aventura emocionante, na direção de uma nova etapa evolutiva do planeta, em que finalmente poderemos concretizar um sentido coletivo para a vida humana, através da emergência de uma consciência global, que transcenderá nossas individualidades.

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Porém, também ao alcance literal de seus dedos, você tem uma ferramenta que pode ser utilizada como arma contra a democracia e o pleno desenvolvimento humano.

Comecei este artigo dizendo que estamos, sem perceber, dentro de uma gigantesca onda. Mas talvez esteja errado. O que está se formando hoje em dia são duas grandes ondas, rumando em sentidos opostos. De um lado, uma grande onda progressista, esclarecida e humanista, com a aspiração visionária de criar um mundo melhor. De outro, uma grande onda reacionária, consumista e intolerante, destinada a beneficiar uma minoria de indivíduos detentores de quase toda a riqueza que há no mundo e seus asseclas.

E Ano Zero? Ano Zero quer tornar-se uma prancha de surf singrando a onda progressista, para que não sejamos mais como o plâncton de que falei no início do texto. Ano Zero está longe de ser um site de artigos na internet, embora comece dessa forma. É, antes, um projeto que aposta na ideia de que o sentido da vida humana é a emergência de uma consciência coletiva, e que essa consciência depende da evolução emocional de cada indivíduo, do aprimoramento de nossas instituições políticas e do correto desenvolvimento do potencial que há na internet.

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