Este é o primeiro artigo de uma série em que falo da inspiração e aspiração que originou o Portal Ano Zero.


1. A internet como imagem de Deus

Quando apresentei no Papo de Homem minha análise sobre as manifestações populares que varreram o Brasil em 2013, mencionei a teoria dos campos morfogenéticos, de Rupert Sheldrake. Segundo essa teoria maluca, nosso comportamento individual e coletivo seria influenciado por determinados padrões que, ressoando no tempo e no espaço, moldariam eventos aparentemente isolados e desconexos.

É o que ocorreria, por exemplo, com um protesto em Istambul contra a derrubada de 600 árvores em um parque e, logo a seguir, com manifestações em São Paulo contra o aumento da passagem de ônibus. Em ambos os casos, um campo morfogenético único (relacionado à manifestações populares em lugares públicos, direcionadas contra os governantes e reivindicando mudanças nas regras do jogo democrático), influenciaria a conduta das multidões, apesar de os motivos e o contexto em que se deram ambos os protestos serem totalmente diferentes.

Mas não é disso que quero tratar, e sim do comentário de um leitor ao texto, que se destacou entre os demais leitores por sua, digamos assim, criatividade. Identificado apenas como CSW, ele começou sua análise falando a respeito de possíveis campos de ressonância que determinariam o comportamento da humanidade:

“Sempre viajei nessas histórias de ressonância. Não conhecia esses trabalhos e pesquisas que você citou. Eu estava levando essa teoria dos campos com uma espécie de grid magnético que circunda a Terra e interage com tudo e todos, operando por diferencial de frequência. Então, as massas maiores de energia magnética de mesmo diferencial poderiam ressonar dentro de sua faixa de espectro livremente, criando uma espécie de broadcast de frequência para todos com o cérebro operando naquela faixa. Mas a teoria dos campos que você apresentou é melhor colocada.” (os negritos são meus)

Apesar do entusiasmo de CSW, a teoria dos campos morfogenéticos ainda não foi cientificamente comprovada, e talvez jamais seja. Nosso amigo leitor, claro, tinha perfeita ciência disso. Por tal razão, e numa boa sacada, ele considerou a tese de Rupert Sheldrake como uma espécie de metáfora para algo que ainda não existia na época em que foi formulada, mas para a qual a ideia, enquanto modelo, encaixa-see muito bem. Estamos falando da internet. CSW assim apresentou sua proposta:

“Deixando as viagens de lado, enquanto não sabemos se o tal campo existe, temos a internet para fazer este papel. Eu sempre falo que a internet lembra um pouco de como a figura de Deus é descrita para alguns. Na esfera absoluta, ela é tudo que existe em conhecimento humano e, na esfera relativa ou individual, ela é proporcional a sua curiosidade e a sua capacidade de fazer perguntas. Qualquer indivíduo pode aprender qualquer tópico, mas não pode aprender tudo, enquanto o absoluto não tem como expressar todo o conhecimento se não for em lotes menores de si mesmo, dando a impressão que não tem nada ali e ao mesmo tempo esta tudo ali. Uma página de internet faz parte do todo, mas não é todo conhecimento e se ela não estiver linkada a outras páginas ela é um nódulo isolado do todo. Onde eu quero chegar? Eu creio que este grid ou campo faz os links entres as páginas. Desculpem pessoal juro que não tomei nada antes de escrever.”

Observem bem a proposta subjacente a essa caprichosa ideia: a internet seria uma matriz envolvendo o planeta (acho que CSW cogitou usar matriz ao invés de grid mas, depois do filme dos irmãos Wachowski, tornou-se um tabu o uso de tal palavra) na qual cada site formaria um nódulo, conectado aos demais nódulos através de links, totalizando uma imensa base de informações

neuronios

Complementando esse exercício especulativo, é importante lembrar que a internet não é apenas composta de nódulos de informação conectados entre si – informação crua e muitas vezes redundante, acrescente-se. A internet é, também, composta por fluxos initerruptos de comunicação individual e coletiva.

De fato, é através da internet que o mundo civilizado de hoje em dia se comunica. Gostemos ou não, é por meio da internet que manifestamos nossas opiniões e expressamos grande parte de nossos sentimentos a amigos ou a seguidores. E é esse fluxo contínuo de comunicação que faz da internet muito mais do que uma simples base de dados, e sim algo que pulsa, algo que está, de certa forma, cheio de vida – a nossa vida, a vida individual e coletiva de praticamente todo o Ocidente civilizado.

A prova disso, do quanto é poderosa essa conjunção entre base de informação e via de comunicação, está na comprovada importância que teve a internet para a mobilização não só das manifestações que abalaram o Brasil em 2013, mas também para os protestos que ocorreram no Cairo, Nova Iorque, IstambulTeerãLondres e Madrid.

Basta substituir a teoria dos campos morfogenéticos de Rupert Sheldrake por essa ideia de uma estrutura virtual que permite a comunicação quase simultânea entre dois pontos distantes, e temos o meio através do qual padrões de comportamento e estados emocionais podem propagar-se como se fossem campos de ressonância, atingindo regiões do planeta em uma velocidade realmente sem precedentes na história humana.

2. A internet biológica

Mas voltemos ao CSW. Eu estava, naquele momento da conversa, interessado em saber mais detalhes sobre sua teoria de um grid magnético que circundaria a Terra e influenciaria comportamentos. Estimulei-o a expor seu pensamento, e ele apresentou algumas especulações, no mínimo, desconcertantes:

“Victor, agradeço o incentivo, mas eu não tenho o foco necessário para desenvolver estes assuntos. Eu sou de Tecnologia da Informação, tenho tendências esotéricas, e na época eu estava entretido com a lenda dos “Registros Akáshicos“, uma espécie de nuvem de memórias coletivas, e a possibilidade de as memórias de todos nós NÃO estarem disponivel “localmente”, e sim em todo lugar do planeta. Hoje é fácil colocar nesses termos, pois temos a computação em nuvem, que dá um exemplo prático disso.

Então, para não perder o foco, entendi que devia começar humildemente. Teria de haver um órgão no corpo que agiria como modulador de frequências e um outro (ou o mesmo) que seria conversor de magnetismo em impulsos elétricos e viceversa (uma placa de rede ethernet biológica). Me pareceu um bom começo. Até onde eu saiba, fazemos modulações eletrônicas com cristais e pedras. Eu achei interessante que microcristais de calcita estivessem presente na glândula pineal. Oh! havia achado algo. A grosso modo, tínhamos na pineal uma possível placa de rede (natural) e o cérebro um ótimo conversor elétrico/magnético bioquímico. Mas pera lá! Isso seria generalizar DEMAIS a coisa. Talvez analisar o efeito piezoelétrico como um primeiro passo fosse mais adequado.”

Trocando em miúdos, CSW prosseguiu com suas especulações e cogitou se a internet não possuiria um precedente biológico no cérebro humano. Nesse caso, já estaríamos todos conectados uns aos outros há muito tempo, bem antes de surgir a internet, graças a uma placa de rede biológica, que estaria situada em nossos cérebros: a glândula pineal – que, por ser dotada de microcristais de calcita, em tese poderia efetuar a modulação de frequências e a conversão de impulsos elétricos e magnéticos necessários para nos manter conectados quando estivéssemos literalmente na mesma frequência.

Ano Zero e o Novo Aion I

E aqui nem vou me deter aqui no espinhoso assunto que é o fato de que a glândula pineal foi considerada por Descartes, Georges Bataille e Irene Blavastky como o lugar em que a alma permanecia conectada ao corpo. Muito menos vou tentar estabelecer conexões entre a teoria de CSW e o fato de que, como o neurologista Rick Strassman observou, a glândula pineal é o lugar em que o corpo humano produz espontaneamente pequenas quantidades de DMT, uma substância alucinógena que altera, ou mesmo determina, a nossa percepção da realidade. Vamos prosseguir passando por cima disso tudo.

A internet seria, portanto, não só uma representação de algo que já existe entre nós de forma mais tênue – uma conexão entre pessoas que estão receptivas, em determinado momento, a um mesmo ritmo oscilatório de ondas eletromagnéticas. A internet seria uma estrutura amplificadora dessa conexão, estimulando e propagando frequências compartilhadas por grupos de indivíduos, potencializando o contato daqueles que já estão predispostos a se unirem.

3. O ralo do banheiro e a galáxia

Certo, eu entendo: isso tudo é viagem demais. Novamente, estamos aqui no reino da pura especulação. Mas esse fato elementar não passa desapercebido para nosso amigo CSW:

“Mas essa historia é longa e ainda bem inconclusiva. Eu levo na brincadeira e como uma agradável viagem mental para passar o tempo. Vale lembrar que meus princípios também não são ortodoxos e tudo começou porque alguns princípios esotéricos diziam que “tudo que esta embaixo esta em cima e tudo que esta dentro é refletido fora”. Se a internet foi exteriorizada em “matéria” ou em “3D”, ela deveria existir em outros “planos de percepção”. Então eu procuro correspondências biológicas que suportem estas afirmações.

Podíamos fazer afirmações bem profanas de que, no futuro, vamos chegar a estas conclusões porque não teremos energia suficiente para manter o volume de dados e aparecerá a solução mais simples de utilizar os campos magnéticos do planeta e sua energia para armazenar a grande nuvem. Isso não antes da próxima geração de tecnologias (cristais de armazenamento, holografia e processamento quântico). Criando a sequência cronológica tecnologia a base silício, tecnologia de quartzo e, por último, tecnologia biológica (creio que será nesta última que entenderemos os campos magnéticos da Terra).”

galaxia

É verdade que há um lema na alquimia que diz “o que está abaixo, também está acima”, significando esse lema que há padrões na estrutura da realidade, padrões esses observáveis tanto no nível microscópico quanto macroscópico. Por exemplo, a formação de espirais é um padrão tanto nas moléculas de DNA presentes na vida orgânica como na estrutura da nossa própria galáxia e na água que escorre em uma pia.

furacao

Dessa forma, assim como no caso dos tais campos de ressonância de Rupert Sheldrake, determinados padrões (não só estruturais, mas procedimentais) tenderiam a repetir-se em diversos níveis aparentemente desconexos. A ciência já devidamente documentou 46 casos em que espécies de vida unicelulares espontaneamente se agruparam para formar organismos multicelulares de forma totalmente autônoma – ou seja, nenhum desses 46 casos está causalmente relacionado com os demais. É como se essa reunião de indivíduos, fosse uma etapa natural de evolução da própria vida no planeta.

ralo

Na hipótese proposta por CSW, o que se especula é se o mesmo princípio que fez bactérias procariontes unirem-se em organismos multicelulares, e que fez seres humanos agruparem-se em sociedades complexas, é responsável por, neste momento da história, determinar a reunião de nossas individualidades em uma mesma experiência de consciência coletiva. E, nesse caso, o padrão utilizado para a concretização dessa tendência seria o mesmo que reúne mentes sintonizadas em uma idêntica frequência: um padrão que estaríamos repetindo com a criação da internet, como forma de manifestar essa latente consciência supraindividual, essa potencial consciência que pertenceria a toda humanidade – quem sabe, a todo o planeta.

4. O que realmente importa

Mas essas especulações esperançosas demais, grandiosas demais, sobre a natureza da internet esbarram em uma realidade feia demais, mesquinha demais. Segundo a Safernet Brasil, associação civil destinada ao levantamento e denúncia de violações dos direitos humanos na internet, entre 2010 e 2013 o número de denúncias de páginas incitadoras de violência (seja racial, sexual, política, de justiçamentos, etc.). Em 2013, havia mais de 21 mil páginas na internet incitando à violência. Dessas, mais de 5 mil faziam apologia a crimes contra a vida, por meio da defesa de grupos de extermínio, apoio a “justiçamentos” e estímulo ao suicídio.

É como se a internet fosse um espelho seletivo e convexo, capaz de refletir e aumentar o que há de pior ou melhor em nós. Como se fosse um amplificador, que pode recolher e difundir com maior intensidade o nosso ódio, a nossa intolerância e a nossa ignorância – ou, alternativamente, as nossas melhores esperanças.

Essa é a questão principal, o que realmente importa. E nosso amigo CSW, mesmo com toda sua incrível capacidade de especular, estava perfeitamente ciente disso:

Vale dizer que a cada minuto que perdemos em dramas sociais ultrapassados, é um minuto a menos rumo a nosso desenvolvimento como seres humanos e como espécie. A muitos séculos a corrupção vem sendo discutida e a cada nova geração o problema se mantém. Temos as estrelas para conquistar, temos um universo para explorar e estamos estancados em “dramas”. Hoje, políticos. Amanhã não se sabe. Estou feliz com os protestos e espero que desta vez possamos ter os céus abertos, investimentos e fundos as pesquisas, a educação e ao desenvolvimento de todos nós como um todo que somos (ou parece ser). Obrigado por este espaço e grande abraço. P.s – se descobrir alguma coisa venho te contar ..rs”

No fundo, não importa se existe uma matriz planetária de conexões nodais entre nossos cérebros, graças a uma placa de rede biológica situada em nossa glândula pineal. Também não importa se a internet é a representação moderna de uma divindade primitiva, ou a estrutura que amplificará uma sutil ressonância que une mentes já vinculadas entre si graças a uma mesma frequência. Tampouco importa se estamos diante da formação, através da internet, de uma consciência coletiva – da qual Ano Zero é uma das primeiras formas deliberadas de expressão.

Terra

O importante é que, cada minuto que perdemos em dramas sociais ultrapassados, em crises econômicas originadas pelo capital especulativo, em guerras religiosas inspiradas em dogmas medievais, em preconceitos e ódios recíprocos, nós afundamos cada vez mais na lama da ignorância e do medo. Enquanto isso, as fronteiras da ciência, o caminho para as estrelas, as potencialidades da compreensão de nossa própria consciência, enfim as inúmeras possibilidades de construirmos algo próximo a utopia, permanecem inacessíveis ao homem comum.

O importante, é que em algum momento, precisamos tomar um passo firme, que nos conduza para fora desse lamaçal. E Ano Zero está aqui, como uma modesta forma de estimular esse primeiro passo.

escrito por:

Victor Lisboa