“Este o nosso destino: amor sem conta, distribuído pelas coisas pérfidas ou nulas, doação ilimitada a uma completa ingratidão, e na concha vazia do amor a procura medrosa, paciente, de mais e mais amor.

Amar a nossa falta mesma de amor, e na secura nossa amar a água implícita, e o beijo tácito, e a sede infinita.”

(Carlos Drummond de Andrade)

Amor, esta palavra que evoca tanto, que os poetas pelos séculos cantaram e a humanidade aos trancos vive, revive, renova. O sábio poeta Rilke, em cartas trocadas com um jovem escritor (Cartas a um jovem poeta), recomendou-lhe fugir de temas grandiosos e amplos sobre os quais nada ao certo se sabe e muito, a despeito disso, já se disse, como a vida, a morte e o amor. Sobretudo, talvez, o amor, porque é assunto em que se enrodilha a humanidade e repete cotidianamente a si mesma, como uma imagem refletida infinitamente em espelhos, que despertou tanta criatividade que toda a beleza e utilidade foi exposta magnanimamente pelos poetas, compositores, escritores e artistas de toda sorte.

Drummond, em Amar, apresenta o amor como destino do homem, uma doação ilimitada que só não é desapegada nem exige nada em troca porque se faz a uma completa ingratidão, querendo com isso dizer que se espera algo em troca. Apesar de se esperar algo e encontrar o vazio, busca-se-o, continuamente. O amor desse poema é o amor que não se extingue nunca, é o mesmo que Quintana nos mostra em seu Poeminha Sentimental, aquele que é sempre o mesmo amor sentido e que muda apenas de destinatário, como uma energia que se dirige a diferentes personagens.

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Foto: Clarissa de Baumont

Que, afinal de contas, significa amar? Que tem o amor com as nossas relações interpessoais? Amamos o outro ou amamos a ideia que dele fazemos, amamos o que dele recebemos ou somos capazes de amá-lo apesar do que não recebemos? O nosso amor, enfim, sai do universo que existe através dos nossos olhos e transcende ou é a expressão mais íntima e extrema de nosso egocentrismo?

Sobre Amor e Renúncia

Camões, dentre seus sonetos, mostra um amor que é renúncia e sacrifício, um “fogo que arde sem se ver, ferida que dói e não se sente”. “Não querer mais que bem querer”, esse sim o amor que nada espera, o querer estar preso por vontade, o servir.

Foto: Jonathan Santhus.
Foto: Jonathan Santhus.

Renato Russo adaptou o soneto e musicou-o, anos mais tarde, em Monte Castelo. A música altera o texto do soneto de Camões e mescla-o ao bíblico de uma das Cartas de Paulo de Tarso aos Coríntios, que na letra de Renato Russo fica: “ainda que eu falasse a língua dos homens e falasse a língua dos anjos, sem amor, eu nada seria. É só o amor que conhece o que é verdade; o amor é bom, não quer o mal, não sente inveja ou se envaidece”.

O amor aqui se apresenta idealmente como aceitação do outro, como aproximar-se de um estado de perfeição ou transcendência, como desapego, como luz e calor. Um amor profundo e quase sobrenatural, o amor que redime, o amor que salva.

 O Amor enquanto Desejo Inatingível, ou o Amor Platônico

Soneto LXVI

Não te quero senão porque te quero, e de querer-te a não querer-te chego, e de esperar-te quando não te espero, passa o meu coração do frio ao fogo.

Quero-te só porque a ti te quero. Odeio-te sem fim e odiando te rogo, e a medida do meu amor viajante é não te ver e amar-te como um cego.

Talvez consumirá a luz de Janeiro seu raio cruel meu coração inteiro, roubando-me a chave do sossego

Nesta história só eu me morro, e morrerei de amor porque te quero, porque te quero amor, a sangue e fogo.  Pablo Neruda, Cem sonetos de amor

Apenas a humanidade é capaz de amar uma ideia. A imaginação permite a idealização de um objeto e a criação de sensações que nada tem de próximas com a realidade física. A única correspondência que existe é entre o ser que pensa e o próprio pensamento. O amor platônico é um modo de amar a si mesmo refletindo-se num objeto idealizado.

O canto dos poetas às virgens e musas foi uma das grandes expressões artísticas desse amor que é uma relação entre o poeta e sua poesia, não entre um homem e uma mulher, mas entre o homem ou a mulher e seu universo particular.

Álvares de Azevedo, poeta brasileiro do século XIX, da chamada geração ultra-romântica (a do “morrer de amor”) é um dos grandes artistas exemplares do amor platônico. Sua história pessoal colaborou para isso: acometido de tuberculose extremamente jovem, morreu aos vinte anos de idade. A juventude pensante vive abstrações com sobrenatural intensidade, apesar de não ter experiências concretas suficientes. O poeta não teve tempo de as ter. Imperava, em lugar da experiência, o desejo.

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Para Freud, o desejo é tão infindável quanto menos se realiza. O desejo (ou pulsão, ligada à sexualidade) é uma energia que nos move. A poesia (ou a arte) seria, nalgumas vezes, uma sublimação desse desejo que não se realiza sexualmente, um modo de transformá-lo em outra coisa.

Vem, anjo, minha donzela,
Minha’alma, meu coração!
Que noite, que noite bela!
Como é doce a viração!
E entre os suspiros do vento
Da noite ao mole frescor,
Quero viver um momento,
Morrer contigo de amor! (Álvares de Azevedo)

O perigo de se chegar à realidade através da ideia é exigir do outro que corresponda às expectativas de nossa própria idealização. Que tome a forma que fizemos dele, e não a que tem.

 

Da Ideia à Palpabilidade (e o dito Amor Erótico)

“Que escrúpulos químicos tem o impulso que gera

As seivas, e a circulação do sangue, e o amor?” (Álvaro de Campos, Se te Queres)

 

No filme Eu te Amo, de Arnaldo Jabor (1981), a personagem da atriz Sônia Braga, após o sofrimento do fim de um relacionamento, põe um vestido de festa e resolve “curtir a vida”. Conhece o personagem do ator Paulo César Peréio, recém-separado, e finge ser uma prostituta. A relação entre os dois personagens, cansados do romantismo, frustrados, começa desse modo, ambos à procura de um relacionamento sem envolvimento emocional, puramente sexual. A história não segue assim, por mais que o sofrimento lhes tenha colocado defesas.

Nalgumas vezes, nasce o inesperado amor vindo dos afetos irracionais.

Foto: Jonathan Santhus
Foto: Jonathan Santhus

A sensação palpável e corpórea, dessa vez, vincula a imaginação humana à reminiscência, ao retorno, mesmo à distância, àquilo que o corpo sentiu. Não mais como no platonismo a criação de um objeto inexistente: a apreensão do outro, dessa vez, é feita pelo contato. O que este outro nos fez sentir afeta-nos. De certo modo, no princípio, ama-se a pessoa. Não se cria uma forma na qual se tenta enquadrar o ser amado, a priori: interpreta-se-o. O outro passa a existir para nós através de nossa interpretação dele, de como age e como reagimos ao contato interpessoal.

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 O Amor e o Tempo: o retorno às ideias

Após um tempo, o amor, que é uma pretensão às vezes de continuar amando, cria uma responsabilidade. E a responsabilidade com o plano de amar, por vezes, acaba por se tornar o exclusivo sustentáculo do amor. Não predomina mais uma ideia e o querer um ser supostamente inatingível, nem mais os afetos e o desejo concreto e o contato, mas uma ideia a respeito da própria ideia do que o amor deveria ser, ou deveria ter sido e não foi.

Como na Quadrilha de Drummond, o tempo não raro modifica tudo, como o vento e a chuva mudam o relevo, a paisagem.

Na ária Habanera, da ópera Carmen, de Bizet, a cigana que tinha qualquer homem sob seus pés canta: “O amor é um pássaro rebelde que não se pode prender. E é em vão que nós o chamamos se convém a ele recusar.  Nada adiantará, ameaçar ou suplicar. Uma pessoa fala, a outra permanece quieta, e é a outra que eu prefiro – ele não me disse nada, mas me agrada. O amor é filho da Boemia, ele jamais conheceu qualquer lei.”

O sentir não obedece a regras. O amor que pretendíamos fosse redenção acaba por nos confundir: não raro, ficamos perdidos. Agarramo-nos a um passado idealizado e projetamos o que existiu e o que jamais existiu sobre um futuro (idealizadamente, tanto quanto o passado) perfeito ou em que a perfeição possa existir. Recusamo-nos a aceitar qualquer mudança, recusamo-nos a aceitar que nossas pretensões de amar tenham seguido rumo diverso.

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O Amor e o Sofrimento (e/ou a liquidez em nossos dias)

 

“De repente do riso fez-se o pranto
Silencioso e branco como a bruma
E das bocas unidas fez-se a espuma
E das mãos espalmadas fez-se o espanto”. 

(Soneto da Separação, Vinícius de Moraes) 

O fim do amor, ou a ilusão sobre o início de um amor que nunca houve, é uma fonte de sofrimento. A maior dificuldade de nos relacionarmos reside no fato fundamental de que o mundo por nós é conhecido através dos próprios olhos, dos próprios sentidos, e somos para nós mesmos a medida de todas as coisas. O egocentrismo é parcialmente inevitável. O outro nos é inacessível enquanto outro (a compreensão de qualquer coisa é parcial; pode ser mais ou menos parcial, evidentemente, mas jamais será totalizável). Totalizar o outro é submetê-lo a nós mesmos. Compreendê-lo é aceitar que há algo inapreensível, como nós  somos aos olhos dos outros.

Nossos dias (a “contemporaneidade”) ensinam-nos a individualidade extrema. Nosso egocentrismo é exacerbado cotidianamente. Nossos padrões de existência criam a necessidade de buscar uma suposta felicidade a qualquer custo, a despeito de qualquer pessoa. “Vencer na vida” não pressupõe a existência alheia. Nossos modelos são inalcançáveis e egoístas. Nossas relações são voláteis, não se desenvolvem, são superficiais porque não temos tempo de conhecer a nós mesmos, quanto mais aos outros. A descartabilidade de tudo interfere no modo como vemos e lidamos com as nossas relações: o outro se torna supérfluo e descartável quando atrapalha nosso plano individual de felicidade.

Bauman, em Amor Líquido, fala a esse respeito, vinculando o modo como experimentamos o amor ao fato de que em nossa cultura nada é feito para durar. Nada tem sentido, nada se desenvolve, nada pode existir de fato se não se souber que seja como e o que for, amar e relacionar-se nem sempre é possível, porque é preciso abrir mão de algo, ou de muito. Não há meio de relacionar-se sem compreender isso. “Para ser feliz há dois valores essenciais que são absolutamente indispensáveis […] um é segurança e o outro é liberdade, você não consegue ser feliz e ter uma vida digna na ausência de um deles. Segurança sem liberdade é escravidão. Liberdade sem segurança é um completo caos. Você precisa dos dois. […] Cada vez que você tem mais segurança você entrega um pouco da sua liberdade. Cada vez que você tem mais liberdade você entrega parte da segurança. Então, você ganha algo e você perde algo” (Bauman).

 

O Amor e a Esperança 

“Amar os outros é a única salvação individual que conheço: ninguém estará perdido se der amor e às vezes receber amor em troca”. (Clarice Lispector)

O maior mistério do amor é o renascimento. Por mais que amar doa, por mais que nos sintamos feridos, por mais que suponhamos que o amor não tornará a existir em nós, voltamos a acreditar que amamos, que o amor é possível.

Drummond expressou isso em As Sem-Razões do Amor:

 Amor é primo da morte,

E da morte vencedor,

Por mais que o matem (e matam)

A cada instante de amor.

Na canção Bist du bei mir (Bach), do século XVIII, o amor é apresentado como um compartilhar solidões, a grande solidão que se apresenta soberbamente em dois momentos: à hora em que se nasce e à hora em que se morre. Diz, simplesmente, a canção: “se você estiver ao meu lado, partirei feliz da minha morte até o meu fim. Ah, que agradável final para mim se as tuas queridas mãos forem a última coisa que eu enxergar, fechando meus fiéis olhos.”

Pablo Neruda também apresenta em um de seus Cem Sonetos de Amor essa ideia, talvez romântica, talvez realista, de amor:

QUANDO eu morrer quero tuas mãos em meus olhos:

quero a luz e o trigo de tuas mãos amadas

passar uma vez mais sobre mim seu viço:

sentir a suavidade que mudou meu destino.

Quero que vivas enquanto eu, adormecido, te espero,

quero que teus ouvidos sigam ouvindo o vento,

que cheires o amor do mar que amamos juntos

e que sigas pisando a areia que pisamos.

Quero que o que amor continue vivo

e a ti amei e cantei sobre todas as coisas,

por isso segue tu florescendo, florida,

para que alcances tudo o que meu amor te ordena,

para que passeie minha sombra por teu pêlo,

para que assim conheçam a razão de meu canto.

 Sem saber como, nem quando, nem onde, seguimos amando, porque a vida, afinal, é feita de mistérios. O amor faz perder ao mesmo tempo em que nos salva da vida. Vai ver, sem amor, nada seríamos. Vai ver, sem amar, não se pode viver plenamente. Ainda que não se saiba o que é, exatamente, amar. Ainda que se tropece nas próprias pernas, ainda que nos firamos mutuamente pelo nosso egoísmo e nossa inabilidade. O amor não se extingue nunca, como disseram os poetas. O amor é o que (se) reconstrói e sobrevive ao tempo.

 

escrito por:

Clarissa de Baumont

Formada em Direito pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul e servidora pública em execução penal. Teve a alma aprisionada pela arte ao nascer e foi condenada a enxergar poesia no mundo. Por isso, topa (quase) qualquer negócio artístico. Toca piano para inspirar, canta para expirar e escreve para ser livre.