“Enquanto um homem individualmente é um quebra-cabeça insolúvel, no conjunto ele se torna uma certeza matemática. Você nunca pode prever o que um homem fará, mas você pode dizer com precisão o que, em média, um deles fará. Individualmente eles variam, mas, em média, se mantêm constantes.”
– Arthur Conan Doyle

A última moda é a desconstrução. Essa característica do zeitgeist do século XXI pode ter seu ponto positivo na medida em que os indivíduos lutam para não ter sua singularidade eclipsada por estereótipos. Ninguém gosta de ouvir “você deve fazer isso porque você é X”, sendo “X” qualquer estereótipo relativo a “homem”, “mulher”, “negro”, “branco”, “velho”, “jovem”, etc.

Mas o lado ruim desse movimento, além do extremo relativismo que mais atrapalha do que ajuda, é a cegueira para o fato de que, ao mesmo tempo em que cada pessoa é singular, grupos são sujeitos a padrões mais bem definidos e previstos. É como diz Arthur Conan Doyle na citação de abertura deste texto, sobre indivíduos serem imprevisíveis e populações serem previsíveis.

É exatamente esse o caso quando a discussão se refere a quais critérios homens e mulheres utilizam para selecionar um parceiro ideal.

Há algum tempo, foi publicado no AZ um texto sobre essa temática, mostrando que o altruísmo era uma das características masculinas que mais chamavam a atenção das mulheres. A recepção foi a pior possível. O público caiu numa série de equívocos muito comuns na interpretação de estudos científicos que, por acaso, não apresentam resultados que satisfaçam a opinião geral.

Esses foram os principais argumentos falaciosos:

(i) “sério mesmo que você vai ignorar outros fatores?”

É muito claro que existem dezenas de variáveis que influenciam no quanto uma pessoa é considerada atraente na vida real. O fato de um estudo controlado testar o quanto uma característica x ou y é considerada quando se pesa a atratividade de alguém, não significa que na vida real só x e y sejam critérios válidos.

(ii) “nunca na minha vida vi altruísmo vencer beleza ou condição financeira”

É possível. Aliás, existem outros estudos mostrando que diante de certas condições ambientais, beleza e condição financeira podem ser critérios bem fortes. Ninguém disse que só o altruísmo importava.

(iii) “você está sendo machista ao supor que as mulheres são diferentes dos homens”

Não há nada de intrinsecamente machista em mostrar que há diferenças entre os sexos. O problema seria começar a legislar papéis sociais constrangedores que seriam obrigação típica dos homens ou das mulheres. Requer algum tipo de cegueira partir do pressuposto de que a única coisa que diferencia ambos os sexos biologicamente é o órgão genital que carregam entre as pernas.

Esses foram só três dos vários comentários mais frequentes que vi sobre o referido artigo aqui no AZ.

Foi pensando nessas confusões frequentes que resolvi escrever uma explicação mais detalhada sobre o que afinal de contas os pesquisadores escreveram no artigo científico original, publicado na British Journal of Psychology Society. Acredito que esse texto funcione também para instruir às pessoas sobre como esse estudos são feitos – e como a divulgação científica acaba deixando certos detalhes de fora por uma questão de economia de espaço mesmo, e também porque provavelmente os detalhes técnicos de uma pesquisa entediariam qualquer desavisado.

A definição de altruísmo e por que a evolução nos tornou ajudadores profissionais

O primeiro passo para desfazer a confusão sobre o altruísmo funcionar como um critério de atratividade, é explicar o que afinal estamos chamando de altruísmo e como se chegou à hipótese de que poderia atuar indiretamente nessa seara amorosa.

Ao contrário do que às vezes a sabedoria cotidiana informa, animais de outras espécies podem sim ser altruístas. O problema é que explicações robustas na biologia não exigem só uma descrição fisiológica ou etológica do traço, mas requerem também uma explicação funcional, que elucide o motivo pelo qual aquele traço foi selecionado ao longo da evolução. E esse foi por muito tempo o problema com o altruísmo. Por anos foi reconhecidamente um dilema tentar explicar como diabos a evolução teria “permitido” o surgimento de uma característica que parecia beneficiar outros indivíduos e prejudicar o altruísta.

A primeira tentativa de explicação foi a teoria do altruísmo recíproco. Segundo esse modelo explicativo, os indivíduos altruístas teriam mais chances de receber comportamentos de ajuda no futuro, o que claramente era uma vantagem em termos de sobrevivência (o que conferiria mais tempo para se reproduzir e espalhar por aí mais indivíduos capazes de seguir o altruísmo recíproco).

O problema é que essa teoria sozinha não é eficiente ao ponto de explicar todas as manifestações possíveis de altruísmo, pelo simples de fato de que nem sempre um indivíduo que ajuda outros recebe ajuda em troca. Nesse sentido, passou-se a especular que esses altruístas poderiam ter maior sucesso como aliados e como parceiros amorosos, por sinalizarem características interessantes, implicitamente, para esse tipo de estratégia — coalizões e reprodução.

Essa história do que implicitamente uma característica custosa sinaliza é explicada pela teoria da sinalização custosa. Por exemplo, numa tribo de caçadores, um homem só poderia ser altruísta caso tivesse condições físicas (força, saúde) para caçar, e se fosse bem sucedido a ponto de conseguir alimento para si e para os companheiros. Ou mesmo conseguir passar por certo aperto em relação à quantidade menor de comida em prol da divisão com os demais. Toda essa inferência não precisa ser dita. O simples fato de oferecer aos outros um produto do seu trabalho diário já manda a mensagem. E isso pode interessar especialmente às mulheres de uma tribo de caçadores, já que elas realmente precisam formar par com um homem que seja capaz de manter uma cria.

Essa é uma inferência, uma hipótese, mas, conforme Arnock e seus colegas mostram no artigo original, é o que outros estudos por aí vem mostrando. Não só entre caçadores, mas também na nossa sociedade industrializada, homens mais altruístas parecem ser cotados como mais atraentes. Os mesmos estudos mostram que o mesmo efeito não ocorre em relação às mulheres, isto é, os homens não as consideram mais atraentes por serem mais altruístas.

A grande pergunta de Arnock, no entanto, é se além desses homens serem considerados mais atraentes, se eles de fato apresentam maior sucesso reprodutivo (se a quantidade de sexo que eles fazem e o número de parceiras sexuais cresce proporcionalmente ao quanto são considerados altruístas) — para a evolução, é esse resultado final que importa, isto é, se a característica x aumenta a quantidade de descendentes gerados.

Para isso, foram realizados dois estudos.

Nos bastidores de um estudo

A hipótese no primeiro era que os participantes que se classificassem como mais altruístas, também se classificariam como parceiros mais desejáveis, isto é, relatariam ter tido mais parceiros sexuais ao longo da vida, ter feito mais sexo casual; e entre os comprometidos, os mais altruístas fariam sexo mais frequentemente com a parceira. Os pesquisadores também esperaram que essas hipóteses só valessem para os homens, já que só eles parecem se beneficiar de acordo com o quão são considerados altruístas.

Todas essas medidas (o quão altruístas e o quão bons parceiros) foram extraídas através de escalas, instrumentos usados para mensurar determinado construto psicológico, o que é empregado muito cotidianamente em pesquisas dessa natureza (para mais detalhes, dê uma olhada no artigo original).

Os resultados desse primeiro estudo foram bem detalhados, mas aqui, por razões de poupar palavrório e preciosismo para o leitor não especializado, vou me deter ao essencial.

Parece que realmente o grau de altruísmo foi eficiente em predizer o sucesso reprodutivo dos participantes. Para chegar a essa conclusão, foi realizada uma análise estatística chamada regressão. Segundo a mesma técnica, esse modelo explicaria uma variância de 19% do sucesso reprodutivo dos indivíduos da amostra, o que significa mais ou menos que o altruísmo explica 19% do porquê os homens tem sucesso reprodutivo, o que também nos diz que sobram uns quase 80% a serem explicados por outras variáveis não levadas em consideração nesse estudo (o que é norma, pois nenhum estudo pode considerar todas as variáveis que possivelmente influenciam um fenômeno).

Levando em consideração agora a quantidade de parceiros sexuais, o altruísmo pareceu explicar 26% da variância do sucesso reprodutivo, mas somente para os homens. O altruísmo feminino nem mesmo pareceu impactar nesse caso.

Com relação à quantidade de sexo casual, os homens pareceram fazer mais do que as mulheres — a não ser que um minta mais do que o outro, o que também revelaria um efeito relativo ao sexo. E o altruísmo também jogou a favor dos homens, explicando 23% do sucesso reprodutivo nesse caso.

A influência do altruísmo foi mais fraca sobre os homens que estavam num relacionamento fixo, explicando só 13% da variância do sucesso reprodutivo.

O primeiro estudo teve uma limitação clara: as medidas de altruísmo e sucesso reprodutivo foram baseadas em autorrelato. Isso abre espaço para que o participante simplesmente minta ou esteja enganado sobre si mesmo, não lembre da informação ou algo do tipo. Além disso, as pessoas poderiam dar a resposta mais politicamente correta para basicamente ficarem “bem na fita”. Para manter a coisa mais segura contra esse tipo de viés, ainda tinha uma escala sobre desejabilidade social.

O estudo 2 foi um experimento, o que elimina a desejabilidade social (nome técnico para querer “ficar bem na fita”) e ao mesmo tempo oferece uma medida mais confiável dos níveis de altruísmo do participante. A tarefa experimental era o Dilema do Ditador, que em linhas gerais envolve manter quantidades de dinheiro fictício para si mesmo ou doar, em várias situações (dilemas).

Análises estatísticas muito parecidas foram feitas nesse caso. Resumidamente, parece que de fato quanto mais altruísta o participante se mostrava no experimento, mais ele parecia ter tido dates ao longo da vida. Mas essa interação só ocorreu nos participantes homens. O mesmo valeu para o número de parceiros sexuais ao longo da vida, quantidade de sexo casual e parceiros sexuais no último ano (nesses dois últimos casos, mulheres altruístas também tinham sucesso reprodutivo aumentado).

É dos caridosos que elas gostam mais

Percebe-se que os resultados foram um tanto mistos no que diz respeito ao quanto o comportamento altruísta prediz o sucesso reprodutivo ou a desejabilidade para o sexo oposto. Mas nos homens o altruísmo pareceu predizer mais vezes o sucesso reprodutivo do que em ambos os sexos.

Esses resultados corroboram o que estudos anteriores já tinham encontrado e teorizado. Aparentemente, o altruísmo é uma sinalização custosa que ajuda no sucesso reprodutivo especialmente dos homens. Isso é visto tanto em populações industrializadas quanto em tribos de caçadores-coletores. O altruísmo é um atributo que não só beneficia os que estão ao redor, mas também o seu emissor, pois aparentemente suas chances de fazer sexo aumentam.

Claro que nos termos da nossa sociedade, ajudar os outros pode não significar exatamente ter mais filhos. Temos uma série de artifícios tecnológicos que burla os mecanismos naturais, como camisinha e anticoncepcional, mas mesmo assim o sucesso reprodutivo pode ser mensurado através da quantidade de parceiros sexuais e de sexo que é feito — e foi isso que esses dois experimentos levaram em conta.

Isso tudo significa que a Verdade é que as mulheres gamam em qualquer homem altruísta que passar pelo caminho delas? Não.

Temos aqui uma pesquisa que utilizou dois métodos para testar hipóteses. Isso significa que descobrimos a relação e as influências entre diversas variáveis aqui, mas não significa que na vida real, no desenrolar das relações, a coisa se dê de maneira tão esquematizada. Existem vários critérios que esse estudo não levou em conta, mas justamente porque não fazia sentido para essa pesquisa, levá-los em consideração.

O que podemos tirar desse estudo é que ele é mais um dos que corroboram a ideia do altruísmo como sendo um critério de atratividade fortemente feminino, e que provavelmente um dos motivos do altruísmo ter evoluído é que além de ter sido vantajoso em termos de seleção natural, foi também nos termos da seleção sexual — assim como um rabo de pavão que o macho ostenta para impressionar a fêmea.

Felipe Novaes
Já quis ser paleontólogo, biólogo, astrônomo, filósofo e neurocientista, mas parece ter se encontrado na psicologia evolucionista. Nas horas vagas lê compulsivamente, escreve textos sobre a vida, o universo e tudo mais, e arruma um tempinho para o Positrônico Podcast. Contudo, durante todo o tempo procura se aprimorar na sabedoria e nas artes jedis do aikido.