A revolução da inteligência artificial

A Revolução da Inteligência Artificial, Parte 1

Em Ciência, Comportamento, Consciência por Tim UrbanComentários

Nota do autor: a razão deste artigo ter levado três sema­nas para ser con­cluído é que a medida em que me apro­fun­dava em pes­qui­sas sobre Inte­li­gên­cia Arti­fi­cial, eu não con­se­guia acre­di­tar no que estava lendo. E per­cebi bem rápido que aquilo que está acon­te­cendo no mundo da Inte­li­gên­cia Arti­fi­cial não é ape­nas um tema impor­tante, mas é, DE LONGE, o tema mais impor­tante para o nosso futuro. Então eu dese­java apren­der tanto quanto pos­sí­vel a res­peito, e uma vez que feito isso, quis ter cer­teza de que escre­ve­ria um artigo real­mente expli­cando toda a situ­a­ção e por­que o assunto é tão impor­tante. Não é de sur­pre­en­der que o artigo tenha se tor­nado absur­da­mente longo, então o dividi em duas par­tes. Esta é a parte 1.

Nota do Tra­du­tor: devido a sua exten­são, deci­di­mos divi­dir as duas par­tes do artigo de Tim Urban em duas par­tes. Na ver­são bra­si­leira, por­tanto, este artigo terá 4 par­tes.


Esta­mos à beira de uma mudança com­pa­rá­vel ao sur­gi­mento da vida humana da Terra — Ver­nor Vinge

Qual é a sen­sa­ção de estar nesse lugar?

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Parece ser um lugar bem intenso de se viver — mas aí você tem que se lem­brar de algo sobre o que sig­ni­fica situar-se em um grá­fico de tempo: você não con­se­gue ver o que está à sua direita. Então é essa a real sen­sa­ção de estar ali:

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O que parece ser uma expe­ri­ên­cia bem comum…


O Futuro Longínquo — Em Breve

Ima­gine pegar uma máquina do tempo e retor­nar a 1750 — uma época em que o mundo estava em per­ma­nente luta pelo poder, comu­ni­ca­ção a longa dis­tân­cia sig­ni­fi­cada ou gri­tar bem alto ou dis­pa­rar uma bola de canhão, e todas as for­mas de trans­porte comiam feno. Quando você che­gar lá, você pega um cara, traz ele para 2015 e aí pas­seia com ele pela cidade, obser­vando como rea­girá a tudo que ver. É impos­sí­vel para nós com­pre­en­der o que seria para ele ver cáp­su­las bri­lhan­tes cor­rendo em uma ave­nida, falar com pes­soas que esti­ve­ram no outro lado do oce­ano na manhã daquele mesmo dia, olhar par­ti­das que estão sendo joga­das há quilô­me­tros de dis­tân­cia, ouvir uma per­for­mance musi­cal que acon­te­ceu 50 anos atrás, brin­car com um retân­gulo mágico que ele pode usar para cap­tu­rar ima­gens da vida real ou gra­var um momento de sua vida, gerar um mapa com um ponto azul para­nor­mal que mos­tra onde ele está, olhar o rosto de alguém e con­ver­sar com essa pes­soa ainda que ela esteja do outro lado do país, e todo um mundo de incon­ce­bí­veis fei­ti­ça­rias. E tudo isso antes de você mos­trar a ele e a inter­net e expli­car coi­sas como a Esta­ção Espa­cial Inter­na­ci­o­nal, o Grande Coli­sor de Hadróns, armas nucle­a­res ou a Teo­ria Geral da Rela­ti­vi­dade.

Essa expe­ri­ên­cia, para ele, não seria sur­pre­en­dente, ou cho­cante ou mesmo colap­sante — essas pala­vras não são gran­des o sufi­ci­ente. Na ver­dade ele pode até mor­rer.


Mas aqui temos algo inte­res­sante. Se ele retor­nar para 1750 e ficar com inveja de ter­mos visto sua rea­ção e deci­dir que quer ten­tar a mesma coisa, ele então entrará na máquina do tempo para regres­sar o mesmo período no pas­sado, pegará alguém no ano de 1500 e o trará para 1750, a fim de mos­trar seu mundo a essa outra pes­soa. E o cara de 1500 ficará cho­cado com um monte de coi­sas — mas ele não mor­rerá. Será uma expe­ri­ên­cia muito menos insana para ele, pois embora o ano de 1500 seja bem dife­rente do período de 1750, há muito menos dife­rença do que entre 1750 e 2015. O cara de 1500 apren­derá algu­mas coi­sas doi­das sobre o espaço e a física, ficará impres­si­o­nado com o quanto a Europa ficou com­pro­me­tida com essa moda nova de impe­ri­a­lismo, e pre­ci­sa­ria fazer algu­mas revi­sões sig­ni­fi­ca­ti­vas no mapa que tem do mundo. Mas obser­vando a vida coti­di­ana do ano de 1750 (trans­porte, comu­ni­ca­ção, etc), ele defi­ni­ti­va­mente não mor­re­ria.

Não, para o cara de 1750 ter tanta diver­são quanto nós tive­mos com ele, ele teria que vol­tar muito mais no tempo — tal­vez vol­tar até 12.000 AC, antes de a Pri­meira Revo­lu­ção Agrí­cola dar ori­gem as pri­mei­ras cida­des e ao con­ceito de civi­li­za­çã0. Se alguém de um mundo intei­ra­mente nômade  — de uma época em que os homens eram, de certo modo, ape­nas mais uma espé­cie de ani­mal — visse os impé­rios huma­nos de 1750, com suas igre­jas de ele­va­das tor­res, suas embar­ca­ções que cru­za­vam oce­a­nos, seu con­ceito de estar “den­tro” de uma cons­tru­ção, sua enorme mon­ta­nha de conhe­ci­mento cole­tivo acu­mu­lado e suas des­co­ber­tas — ele pro­va­vel­mente mor­re­ria.

E se, após mor­rer, ele ficasse tam­bém com inveja e dese­jasse fazer a mesma coisa? Se ele vol­tasse doze mil anos para 24.000 AC e pegasse um cara e trou­xesse ele para 12.000 AC, e mos­trasse a esse sujeito toda as coi­sas, esse cara diria algo como “certo, o que você está que­rendo me mos­trar?” Pois para o cara de 12.000 AC ter a mesma diver­são, ele pre­ci­sa­ria retor­nar 100.000 anos e pegar alguém a quem pudesse mos­trar o fogo e a lin­gua­gem pela pri­meira vez.

Para que alguém do pre­sente fosse trans­por­tado até o futuro e mor­resse de cho­que como eles mor­re­ram, seria neces­sá­rio que nave­gasse anos adi­ante no tempo até o momento em que tenha­mos atin­gido o “nível de pro­gresso mor­tí­fero”, ou, em outras pala­vras, até que alcan­çás­se­mos uma nova Uni­dade Fatal de Pro­gresso (UFP). E se uma UFP levou 100.000 para ser atin­gida a par­tir da época do noma­dismo, a pró­xima UFP, após a Revo­lu­ção Agrí­cola, levou ape­nas 12.000 anos. Já o mundo pos­te­rior à Revo­lu­ção Indus­trial mudou tão rapi­da­mente que uma pes­soa de 1750 pre­cisa avan­çar ape­nas algu­mas cen­te­nas de anos no tempo para que uma nova UFP tenha acon­te­cido.

Esse padrão — o pro­gresso humano desen­vol­vendo-se cada vez mais rápido ao longo do tempo — é o que o futu­rista Ray Kurzweil chama Lei dos Retor­nos Ace­le­ra­dos da his­tó­ria humana. Isso ocorre por­que soci­e­da­des mais avan­ça­das tem a habi­li­dade de pro­gre­dir em um ritmo mais veloz do que soci­e­da­des menos avan­ça­das — jus­ta­mente por serem mais avan­ça­das. A huma­ni­dade do século deze­nove sabia mais e tinha melhor tec­no­lo­gia do que a huma­ni­dade do século quinze, logo não é sur­presa que a huma­ni­dade tenha feito mais avan­ços no século deze­nove do que no século quinze — a huma­ni­dade do século quinze não tem como se com­pa­rar à huma­ni­dade do século deze­nove.

Isso tam­bém fun­ci­ona em esca­las meno­res. O filme De Volta para o Futuro estreou em 1985, e nele o “pas­sado” ocorre em 1955. No filme, quando Michael J. Fox retorna para 1955, é pego de sur­presa pela novi­dade que então era a TV, pelo preço dos refri­ge­ran­tes, pela falta de inte­resse nas estri­dên­cias da gui­tarra elé­trica, e pelas gírias da época. Era um mundo dife­rente sim — mas se o filme fosse feito hoje e o seu pas­sado ocor­resse em 1985, o filme seria muito mais diver­tido devido às dife­ren­ças serem mai­o­res. O pro­ta­go­nista esta­ria num tempo ante­rior aos com­pu­ta­do­res pes­so­ais, à inter­net e aos tele­fo­nes celu­la­res — o Marty McFly de hoje em dia, um ado­les­cente nas­cido no fim da década de 90, esta­ria muito mais des­lo­cado em 1985 do que o Marty McFly do filme estava em 1955.

E isso acon­tece pela mesma razão que aca­ba­mos de abor­dar: a Lei dos Retor­nos Ace­le­ra­dos. A taxa média de pro­gresso no período 1985 e 2015 é supe­rior a taxa entre 1955 e 1985 — pois o pri­meiro período ocor­reu num mundo mais avan­çado — muito mais coi­sas acon­te­ce­ram nos últi­mos trinta anos do que nas três déca­das que lhe pre­ce­de­ram.

Por­tanto, o pro­gresso ocorre em pas­sos cada vez mais lar­gos e cada vez mais rápi­dos. Isso nos faz pen­sar algu­mas coi­sas bem inte­res­san­tes sobre o futuro, certo?

Kurzweil sugere que o pro­gresso do século vinte inteiro seria con­quis­tado em ape­nas vinte anos se tivesse seguido a taxa de pro­gresso do ano 2000 — em outras pala­vras, no ano 2000, a taxa de pro­gresso era cinco vezes supe­rior à taxa média de pro­gresso de todo o século vinte. Ele acre­dita que outra taxa de pro­gresso seme­lhante à do século vinte ocor­reu entre 2000 e 2014, que outra taxa de pro­gresso equi­pa­rá­vel à do século vinte ocor­rerá até 2021, em ape­nas sete anos. Algu­mas déca­das mais tarde, ela ocor­rerá em menos de um mês. No final das con­tas, gra­ças à Lei do Retorno Ace­le­rado, Kurz­veil acre­dita que o século vinte e um terá mil vezes o pro­gresso ocor­rido no século vinte.

Se Kurz­veil e outros que con­cor­dam com ele esti­ve­rem cor­re­tos, então nós pode­re­mos ter um enfarto em 2030 da mesma forma que nosso cara de 1750 teve um em 2015 — isto é, a pró­xima UFP pode ocor­rer em ape­nas algu­mas déca­das — e o mundo em 2050 pode ser tão enor­me­mente dife­rente do mundo de hoje que nós mal o reco­nhe­ce­ría­mos.

Isso não é fic­ção cien­tí­fica. É o que mui­tos cien­tis­tas mais esper­tos e com mais conhe­ci­mento do que eu e você fir­me­mente acre­di­tam — e se você olhar para a his­tó­ria, é o que você logi­ca­mente pre­ve­ria.

Então por­que é que, quando você me escuta dizendo algo como “o mundo daqui a 35 anos pode ser total­mente irre­co­nhe­cí­vel” você pensa “Legal… mas fala sério!”? Três são as razões pelas quais somos céti­cos a pre­vi­sões bizar­ras do futuro:

1) Quando se trata de his­tó­ria, nós pen­sa­mos em linha reta. Quando ima­gi­na­mos o pro­gresso dos pró­xi­mos 30 anos, olha­mos para trás e vemos o pro­gresso dos 30 anos ante­ri­o­res como um indi­ca­dor de como pro­va­vel­mente as coi­sas vão acon­te­cer. Quando pen­sa­mos no quanto o mundo irá mudar no século vinte e um, nós sim­ples­mente pega­mos o pro­gresso do século vinte e o colo­ca­mos no ano 2000. Esse foi o mesmo engano que o nosso cara de 1750 fez quando ele pegou alguém de 1500 e achava que iria deixá-lo em cho­que tanto quanto ele ficou em cho­que avan­çando o mesmo tempo no futuro.

É mais intui­tivo para nós pen­sar de forma linear, quando devía­mos estar pen­sando de forma expo­nen­cial. Se alguém for mais esperto a res­peito do tema, pre­verá o pro­gresso dos pró­xi­mos 30 anos não olhando para os 30 anos ante­ri­o­res, mas pegando a atual taxa de pro­gresso e base­ando seu jul­ga­mento nisso. Ele será mais pre­ciso, mas ainda estará longe da ver­dade. Para pen­sar no futuro cor­re­ta­mente, você pre­cisa ima­gi­nar as coi­sas evo­luindo numa taxa muito mais ace­le­rada do que a atual.

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2) A tra­je­tó­ria mais recente dos even­tos em geral nos apre­senta uma his­tó­ria dis­tor­cida. Pri­mei­ra­mente, mesmo uma íngreme curva expo­nen­cial parece linear quando você observa ape­nas uma pequena parte dela, da mesma forma que ocorre quando você olha para um pequeno seg­mento de um grande cír­culo bem de perto e ele parece quase uma linha reta. Em segundo lugar, o cres­ci­mento expo­nen­cial não é total­mente uni­forme e sem aci­den­tes. Kurzweil explica que o pro­gresso ocorre em “cur­vas em S”:

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Um S é cri­ado pela onda do pro­gresso quando um novo para­digma surge no mundo. A curva então passa por três fases:

1) Cres­ci­mento lento (a fase ini­cial do cres­ci­mento expo­nen­cial);

2) Cres­ci­mento rápido (a fase pos­te­rior, explo­siva do cres­ci­mento expo­nen­cial); e

3) Um nive­la­mento a medida em que o para­digma se con­so­lida [3].

Se você olhar ape­nas para a his­tó­ria recente, a parte da curva em S na qual você está neste momento pode obs­cu­re­cer sua per­cep­ção do quão rapi­da­mente as coi­sas estão evo­luindo. O período entre 1995 e 2007 viu a explo­são da inter­net, a inclu­são da Micro­soft, Goo­gle e Face­book na cons­ci­ên­cia cole­tiva, o nas­ci­mento das redes soci­ais e a intro­du­ção dos celu­la­res e depois dos smartpho­nes. Depois houve a Fase 2: a parte da explo­são de cres­ci­mento da curva em S. Mas de 2008 a 2015 houve menos avanço, ao menos no front tec­no­ló­gico. Alguém pen­sando no futuro hoje exa­mina os últi­mos pou­cos anos para esti­mar a atual taxa de pro­gresso, mas isso sig­ni­fica dei­xar de ver o pano­rama mais amplo. De fato, uma nova e enorme Fase 2 de explo­são do cres­ci­mento pode estar come­çando agora mesmo.

3) Nos­sas pró­prias expe­ri­ên­cias nos fazem velhos ran­zin­zas a res­peito do futuro. Nós base­a­mos nos­sas ideias sobre o mundo em nossa expe­ri­ên­cia pes­soal, e essa expe­ri­ên­cia enrai­zou a taxa de cres­ci­mento do pas­sado em nos­sas men­tes como “o modo como as coi­sas acon­te­cem. Tam­bém somos limi­ta­dos por nossa ima­gi­na­ção, que pega nossa expe­ri­ên­cia e a usa para ela­bo­rar as pre­di­ções sobre o futuro — mas fre­quen­te­mente, o que sabe­mos sim­ples­mente não nos dá as fer­ra­men­tas neces­sá­rias para pen­sar com exa­ti­dão sobre o futuro [2]. Quando ouvi­mos uma pre­vi­ção sobre o futuro que con­tra­diz nossa expe­ri­ên­cia base­ada em como as coi­sas fun­ci­o­nam, nosso extinto tende a con­si­de­rar essa pre­vi­são ingê­nua. Se eu dis­ser a você, mais tarde neste artigo, que você pode viver 150 anos, ou 250 anos, ou pode nem mesmo mor­rer, você ins­tin­ti­va­mente pen­sará “isso é idi­ota — se tem uma coisa que sei sobre a his­tó­ria é que todo mundo morre”. E sim, nin­guém do pas­sado dei­xou de mor­rer. Mas nin­guém do pas­sado voou num avião antes do avião ser inven­tado.

Então embora ceti­cismo possa pare­cer cor­reto a medida em que você ler este artigo, pro­va­vel­mente ele estará errado. O fato é que, se for­mos real­mente lógi­cos e espe­rar­mos que os padrões da  his­tó­ria con­ti­nuem, con­clui­re­mos que muito, muito, muito mais coi­sas muda­rão nas pró­xi­mas déca­das do que intui­ti­va­mente espe­ra­mos que mude. A lógica tam­bém sugere que se a espé­cie mais avan­çada em um pla­neta con­ti­nuar a dar sal­tos cada vez mais lar­gos em uma taxa de ace­le­ra­ção cada vez maior, em algum ponto essa espé­cie dar[a um salto tão grande que alte­rará com­ple­ta­mente a vida tal como é conhe­cida, bem como sua per­cep­ção do que sig­ni­fica ser um humano — da mesma forma como a evo­lu­ção pros­se­guiu dando gran­des sal­tos em dire­ção à inte­li­gên­cia até final­mente dar um salto tão enorme para che­gar ao ser humano que isso alte­rou com­ple­ta­mente para qual­quer cri­a­tura o que sig­ni­fica estar viva no pla­neta Terra. E se você pas­sar mais tempo lendo sobre o que está acon­te­cendo hoje na ciên­cia e tec­no­lo­gia, você come­çará a ver um monte de sinais silen­ci­o­sa­mente dando a enten­der que a vida como atu­al­mente a conhe­ce­mos pode não supor­tar o salto que está por vir em seguida.

A Estrada para a Superinteligência

O que é Inte­li­gên­cia Arti­fi­cial?

Se você é como eu, você cos­tuma pen­sar que Inte­li­gên­cia Arti­fi­cial é um tolo con­ceito de fic­ção cien­tí­fica, mas depois você come­çou a ouvir esse con­ceito men­ci­o­nado por pes­soas sérias, e você real­mente não enten­deu.

Há três razões pelas quais mui­tas pes­soas ficam con­fu­sas quando se trata de Inte­li­gên­cia Arti­fi­cial:

1) Nós asso­ci­a­mos Inte­li­gên­cia Arti­fi­cial com fil­mes. Star Wars. Exter­mi­na­dor do Futuro. 2001 — Uma Odis­seia no Espaço. Mesmo os Jet­sons. E todas essas são obras de fic­ção, assim como são fic­ci­o­nais os per­so­na­gens robó­ti­cos. Então isso faz com que Inte­li­gên­cia Arti­fi­cial pareça um pouco fic­ci­o­nal para nós.

2) Inte­li­gên­cia Arti­fi­cial é um tema muito amplo. Esse assunto abrange desde cal­cu­la­do­ras de celu­lar até car­ros sem moto­rista. Inte­li­gên­cia Arti­fi­cial diz res­peito a todas essas coi­sas, o que é um pouco con­fuso.

3) Uti­li­za­mos Inte­li­gên­cia Arti­fi­cial o tempo todo em nossa vida coti­di­ana, mas fre­quen­te­mente não per­ce­be­mos que se trata de Inte­li­gên­cia Arti­fi­cial. John McCarthy, que cunhou o termo “Inte­li­gên­cia Arti­fi­cial” em 1956, recla­mou que “assim que foi cri­ada, nin­guém mais a cha­mou de Inte­li­gên­cia Arti­fi­cial” [4]. Devido a esse fenô­meno, a Inte­li­gên­cia Arti­fi­cial em geral soa como uma mítica pre­di­ção do futuro mais do que uma rea­li­dade. Ao mesmo tempo, isso faz com que pareça um con­ceito popu­lar do pas­sado que nunca se tor­nou ver­dade. Ray Kurz­veil diz que cos­tuma escu­tar as pes­soas dize­rem que a Inte­li­gên­cia Arti­fi­cial é um con­ceito que mur­chou na década de 1980, afir­ma­ção que ele com­para a “insis­tir que a inter­net mor­reu no estouro da bolha pon­to­com no iní­cio da pri­meira década do século vinte” [5]

Então vamos escla­re­cer as coi­sas. Em pri­meiro lugar, pare de pen­sar em robôs. Um robô é um con­tai­ner para uma Inte­li­gên­cia Arti­fi­cial, às vezes imi­tando a forma humana, às vezes não — mas a Inte­li­gên­cia Arti­fi­cial em si mesma é o com­pu­ta­dor den­tro do robô. A Inte­li­gên­cia Arti­fi­cial é o cére­bro, e o robô é seu corpo — se é que ela tem um corpo. Por exem­plo, o soft­ware e os dados por trás da Siri são uma Inte­li­gên­cia Arti­fi­cial, a voz femi­nina que ouvi­mos é a per­so­ni­fi­ca­ção dessa Inte­li­gên­cia Arti­fi­cial, e não tem nenhum robô envol­vido nessa his­tó­ria.

Em segundo lugar, você pro­va­vel­mente já ouviu o termo “sin­gu­la­ri­dade” ou “sin­gu­la­ri­dade tec­no­ló­gica. Esse termo tem sido usado na mate­má­tica para des­cre­ver uma situ­a­ção seme­lhante a uma assin­tota na qual as regras habi­tu­ais já não mais se apli­cam. Tem sido usada na física para des­cre­ver fenô­me­nos como um infi­ni­ta­mente pequeno e denso buraco negro ou ponto onde tudo fica espre­mido na exata situ­a­ção logo ante­rior ao Big Bang.

Nova­mente, tra­tam-se de situ­a­ções em que as regras habi­tu­ais não se apli­cam. Em 1993, Ver­nor Vinge escre­veu um famoso artigo no qual ele apli­cou o termo sin­gu­la­ri­dade para se refe­rir ao momento no futuro quando a inte­li­gên­cia de nossa tec­no­lo­gia supe­rar a nossa pró­pria inte­li­gên­cia — um momento para ele quando a vida como a conhe­ce­mos mudará para sem­pre e as regras habi­tu­ais não mais se apli­ca­rão. Ray Kurz­veil então tor­nou as coi­sas um pouco con­fu­sas ao defi­nir a sin­gu­la­ri­dade como o momento quando a Lei do Retorno Ace­le­rado atin­giu um ritmo tão extremo que o pro­gresso tec­no­ló­gico acon­tece em um ritmo apa­ren­te­mente infi­nito, e após esse momento esta­re­mos vivendo em um mundo total­mente dife­rente. Des­co­bri que mui­tos dos atu­ais teó­ri­cos da Inte­li­gên­cia Arti­fi­cial para­ram de usar esse termo, e ele é de qual­quer forma con­fuso, então não irei usá-lo (muito embora esta­re­mos focando nessa ideia ao longo de todo o artigo).

Por fim, se por um lado há mui­tos tipos ou for­mas de Inte­li­gên­cia Arti­fi­cial, já que se trata de um con­ceito abran­gente, as prin­ci­pais cate­go­rias sobre as quais pre­ci­sa­mos pen­sar estão base­a­das no cali­bre de uma Inte­li­gên­cia Arti­fi­cial. E há três prin­ci­pais cali­bres de Inte­li­gên­cia Arti­fi­cial:

Cali­bre 1 — Inte­li­gên­cia Arti­fi­cial Super­fi­cial (IAS): Às vezes cha­mada de Inte­li­gên­cia Arti­fi­cial Fraca, a IAS é a Inte­li­gên­cia Arti­fi­cial espe­ci­a­li­zada em uma só área. Exis­tem Inte­li­gên­cias Arti­fi­ci­ais que podem der­ro­tar o cam­peão mun­dial de xadres, mas essa é a única coisa que fazem. Peças para des­co­brir uma melhor maneira de arma­ze­nar dados em um hard drive e elas olha­rão para você como se não enten­des­sem o que diz.

Cali­bre 2 — Inte­li­gên­cia Arti­fi­cial Ampla (IAA): Às vezes cha­mada de Inte­li­gên­cia Arti­fi­cial Forte, ou Inte­li­gên­cia Arti­fi­cial de Nível Humano, a IAA refere-se a um com­pu­ta­dor que é tão inte­li­gente quando um ser humano em ter­mos gerais — uma máquina que pode desem­pe­nhar qual­quer tarefa inte­lec­tual que um ser humano pode. Criar uma IAG é muito mais difí­cil do que criar uma IAS, e não che­ga­mos lá ainda. Linda Gott­fred­son des­creve essa inte­li­gên­cia como “uma capa­ci­dade men­tal bem ampla que, entre outras coi­sas, envolve a habi­li­dade de deba­ter, pla­ne­jar, resol­ver pro­ble­mas, pen­sar abs­tra­ta­mente com­pre­en­der ideias com­ple­xas, apren­der rapi­da­mente e apren­der a par­tir da expe­ri­ên­cia”. A IAA seria capaz de fazer todas essas coi­sas tão facil­mente quanto você.

Cali­bre 3 — Supe­rin­te­li­gên­cia Arti­fi­cial (SA): Nick Bos­trom, filó­sofo de Oxford e um dos prin­ci­pais teó­ri­cos da Inte­li­gên­cia Arti­fi­cial, define supe­rin­te­li­gên­cia como “um inte­lecto que é muito mais inte­li­gente que os melho­res cére­bros huma­nos em pra­ti­ca­mente todos os cam­pos, incluindo cri­a­ti­vi­dade cien­tí­fica, sabe­do­ria geral e habi­li­da­des soci­ais”. A Supe­rin­te­li­gên­cia Arti­fi­cial abrange de um com­pu­ta­dor que é só um pouco mais inte­li­gente que um ser humano até um que é três milhões de vezes mais inte­li­gente que um ser humano — em todos os aspec­tos. A SA é a razão de os deba­tes sobre Inte­li­gên­cia Arti­fi­cial serem tão espi­nho­sos e o motivo pelo qual as pala­vras imor­ta­li­dade e extin­ção apa­re­ce­rão neste artigo múl­ti­plas vezes.

Até agora, os seres huma­nos con­se­gui­ram cons­truir a Inte­li­gên­cia Arti­fi­cial de menor cali­bre (a IAS) de tan­tas manei­ras que ela está em todo lugar. A Revo­lu­ção da Inte­li­gên­cia Arti­fi­cial é a estrada que parte da IAS, passa pela IAA e chega em SA — uma estrada na qual pode­re­mos não sobre­vi­ver mas que, de um modo ou de outro, mudará todas as coi­sas.


Leia a segunda parte, CLIQUE AQUI.

Tim Urban
Formado em Ciências Políticas pela Harvard University, é autor do site Wait But Why e fundador da ArborBridge.

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