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Sem afinidade não existe amizade

Em Comportamento, Consciência por Bruna ReginaComentário

Esse negó­cio de que opos­tos se atraem pode fun­ci­o­nar bem no mundo da Física — segundo a Lei de Cou­lomb a força entre duas car­gas elé­tri­cas será atra­tiva somente quando tais car­gas tive­rem sinais opos­tos entre si – mas defi­ni­ti­va­mente não fun­ci­ona no uni­verso das rela­ções huma­nas.

Gos­ta­ria de pro­por um exer­cí­cio. Ima­gine agora que você está sozi­nho em um bar e um estra­nho se apro­xima e senta ao seu lado. Ten­tando ini­ciar algum assunto, ele faz um comen­tá­rio sobre uma pin­tura pen­du­rada na parede — vamos supor que seja uma repro­du­ção de Noite Estre­lada sobre o Ródano de Van Gogh – dizendo: Acho esse cara super­va­lo­ri­zado, não vejo sen­tido algum na obra dele. Um louco que che­gou ao ponto de cor­tar a pró­pria ore­lha. Para você, Van Gogh é um artista incrí­vel, dotado de talento e sen­si­bi­li­dade. E a pin­tura em debate é sua obra favo­rita. Você:

  1. Entra­ria numa dis­cus­são sobre arte pós-impres­si­o­nista com o sujeito ten­tando fazê-lo mudar de opi­nião.
  2. Diria que não pensa o mesmo, mas que res­peita opi­niões dife­ren­tes das suas e ini­ci­a­ria uma nova con­versa.

As duas saí­das seriam pos­sí­veis, porém não acre­dito que alguém apai­xo­nado por Van Gogh não ela­bo­rasse um dis­curso em defesa de sua arte numa situ­a­ção como essa e jun­ta­mente demons­trasse sua indig­na­ção diante de tal afir­ma­ção. Uma con­versa teve iní­cio aqui, mas não uma con­versa que faci­li­tou a apro­xi­ma­ção entre essas duas pes­soas. Con­tudo, se o sujeito em ques­tão tam­bém apre­ci­asse Van Gogh, seria bem pro­vá­vel que seguido por um sor­riso de sim­pa­tia um diá­logo agra­dá­vel come­ça­ria a ser esta­be­le­cido.

Não me tomem por redu­ci­o­nista, meu exem­plo é para ser visto como um pequeno recorte sobre como seria mais pro­vá­vel sur­gir uma ami­zade entre duas pes­soas. É claro que não é a des­co­berta de um único ponto em comum que faz alguém tor­nar-se nosso amigo, e nem um único ponto de diver­gên­cia que vai nos fazer des­clas­si­ficá-lo da “lista”. Entre­tanto, espe­ci­al­mente quando nos defron­ta­mos em luga­res des­co­nhe­ci­dos, encon­trar alguém que declare um olhar seme­lhante ao nosso ajuda a aqui­e­tar a inse­gu­rança que sen­ti­mos em ter­re­nos inex­plo­ra­dos – se alguém aqui tem gos­tos pare­ci­dos com os meus então posso me sen­tir mais à von­tade, pelo menos terei sobre o que con­ver­sar.

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Mui­tas das minhas ami­za­des nas­ce­ram assim, do gosto pela cer­veja e sen­tar em roda, um assunto era colo­cado em pauta e ali no meio das pala­vras embri­a­ga­das um olhar de con­so­nân­cia se erguia e a roda se redu­zia a dois num canto falando e falando até cla­rear o dia. Outras vie­ram depois, quando aprendi a ver e soube que podia enca­rar e reco­nhe­cer quem pode­ria de ver­dade amigo ser e do enca­ra­mento veio o escan­ca­ra­mento dos gos­tos que eram quase os mes­mos, e a exi­bi­ção de ideias rece­bi­das com aten­ção e assi­mi­la­ção, e a con­fis­são dos cri­mes ouvi­dos sem jul­ga­mento e tudo isso come­çou por­que a gente gos­tava de vinho, cigarro, Godard e rou­pas com estampa poá.

Teve uma, uma que veio antes, dois anos depois que nasci, e foi cres­cendo enquanto a gente tam­bém cres­cia e assis­tía­mos os mes­mos dese­nhos e liá­mos os mes­mos livros e até hoje nos rende as melho­res con­ver­sas de três horas, inclu­sive agora que ela está há mais de 8 mil Km de mim.

Com alguns eu, tro­quei car­tas escri­tas à mão só pelo apreço a cos­tu­mes român­ti­cos anti­gos, deba­te­mos Cla­rice, Hesse e as nos­sas peque­nas vidas. E quando nos encon­trá­va­mos pes­so­al­mente mar­cá­va­mos em algum café.

E tem uma outra, que tenho agora, que come­çou deva­ga­ri­nho e no pre­sente é tão grande que já não cabe na sala, e a gente sabe que não vai ter­mi­nar por­que nós duas gos­ta­mos de dan­çar no escuro de olhos fecha­dos, ouvir Cae­tano Veloso, cam­biar poe­sias, beber cer­veja e tro­car a noite pelo dia.

No livro VIII da Ética a Nicô­ma­cos, Aris­tó­te­les fala sobre a ami­zade, dizendo que inde­pen­dente do sig­ni­fi­cado que a exis­tên­cia possa ter para qual­quer pes­soa todas dese­jam com­par­ti­lhá-la com um amigo, sendo assim, alguns ami­gos bebem jun­tos, outros jogam dados jun­tos, outros se jun­tam para os exer­cí­cios do atle­tismo ou para a caça, ou para o estudo da filo­so­fia, pas­sando seus dias jun­tos na ati­vi­dade que mais apre­ciam na vida, seja ela qual for; de fato, já que os ami­gos dese­jam con­vi­ver, eles fazem e com­par­ti­lham as coi­sas que lhes dão a sen­sa­ção de con­vi­vên­cia.”

Levando em conta a per­cep­ção do filó­sofo, não pode­mos dei­xar de notar que a ques­tão da afi­ni­dade está pre­sente em seu dis­curso sobre a ami­zade, pois no ato da par­ti­lha da exis­tên­cia fica explí­cito que há de exis­tir ‘von­ta­des de fazer’ em comum entre as par­tes. A ami­zade exige sin­to­nia e a sin­to­nia só surge quando encon­tra eco, quando existe afi­ni­dade.

Viní­cius de Moraes parece acre­di­tar na mesma ideia, em seu Soneto do Amigo ele enun­cia nos dois últi­mos ver­sos:

Um bicho igual a mim, sim­ples e humano
Sabendo se mover e como­ver
E a dis­far­çar com o meu pró­prio engano

O amigo: um ser que a vida não explica
Que só se vai ao ver outro nas­cer
E o espe­lho de minha alma mul­ti­plica.

Bruna Regina
Usa batom vermelho. É formada em psicologia. Gosta de dias nublados. Tem um filho chamado Pedro e um gato chamado Fidalgo. Sua banda favorita é Velvet Underground.

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