Esse negócio de que opostos se atraem pode funcionar bem no mundo da Física – segundo a Lei de Coulomb a força entre duas cargas elétricas será atrativa somente quando tais cargas tiverem sinais opostos entre si – mas definitivamente não funciona no universo das relações humanas.

Gostaria de propor um exercício. Imagine agora que você está sozinho em um bar e um estranho se aproxima e senta ao seu lado. Tentando iniciar algum assunto, ele faz um comentário sobre uma pintura pendurada na parede – vamos supor que seja uma reprodução de Noite Estrelada sobre o Ródano de Van Gogh – dizendo: Acho esse cara supervalorizado, não vejo sentido algum na obra dele. Um louco que chegou ao ponto de cortar a própria orelha. Para você, Van Gogh é um artista incrível, dotado de talento e sensibilidade. E a pintura em debate é sua obra favorita. Você:

  1. Entraria numa discussão sobre arte pós-impressionista com o sujeito tentando fazê-lo mudar de opinião.
  2. Diria que não pensa o mesmo, mas que respeita opiniões diferentes das suas e iniciaria uma nova conversa.

As duas saídas seriam possíveis, porém não acredito que alguém apaixonado por Van Gogh não elaborasse um discurso em defesa de sua arte numa situação como essa e juntamente demonstrasse sua indignação diante de tal afirmação. Uma conversa teve início aqui, mas não uma conversa que facilitou a aproximação entre essas duas pessoas. Contudo, se o sujeito em questão também apreciasse Van Gogh, seria bem provável que seguido por um sorriso de simpatia um diálogo agradável começaria a ser estabelecido.

Não me tomem por reducionista, meu exemplo é para ser visto como um pequeno recorte sobre como seria mais provável surgir uma amizade entre duas pessoas. É claro que não é a descoberta de um único ponto em comum que faz alguém tornar-se nosso amigo, e nem um único ponto de divergência que vai nos fazer desclassificá-lo da “lista”. Entretanto, especialmente quando nos defrontamos em lugares desconhecidos, encontrar alguém que declare um olhar semelhante ao nosso ajuda a aquietar a insegurança que sentimos em terrenos inexplorados – se alguém aqui tem gostos parecidos com os meus então posso me sentir mais à vontade, pelo menos terei sobre o que conversar.

freeman

Muitas das minhas amizades nasceram assim, do gosto pela cerveja e sentar em roda, um assunto era colocado em pauta e ali no meio das palavras embriagadas um olhar de consonância se erguia e a roda se reduzia a dois num canto falando e falando até clarear o dia. Outras vieram depois, quando aprendi a ver e soube que podia encarar e reconhecer quem poderia de verdade amigo ser e do encaramento veio o escancaramento dos gostos que eram quase os mesmos, e a exibição de ideias recebidas com atenção e assimilação, e a confissão dos crimes ouvidos sem julgamento e tudo isso começou porque a gente gostava de vinho, cigarro, Godard e roupas com estampa poá.

Teve uma, uma que veio antes, dois anos depois que nasci, e foi crescendo enquanto a gente também crescia e assistíamos os mesmos desenhos e liámos os mesmos livros e até hoje nos rende as melhores conversas de três horas, inclusive agora que ela está há mais de 8 mil Km de mim.

Com alguns eu, troquei cartas escritas à mão só pelo apreço a costumes românticos antigos, debatemos Clarice, Hesse e as nossas pequenas vidas. E quando nos encontrávamos pessoalmente marcávamos em algum café.

E tem uma outra, que tenho agora, que começou devagarinho e no presente é tão grande que já não cabe na sala, e a gente sabe que não vai terminar porque nós duas gostamos de dançar no escuro de olhos fechados, ouvir Caetano Veloso, cambiar poesias, beber cerveja e trocar a noite pelo dia.

No livro VIII da Ética a Nicômacos, Aristóteles fala sobre a amizade, dizendo que independente do significado que a existência possa ter para qualquer pessoa todas desejam compartilhá-la com um amigo, sendo assim, alguns amigos bebem juntos, outros jogam dados juntos, outros se juntam para os exercícios do atletismo ou para a caça, ou para o estudo da filosofia, passando seus dias juntos na atividade que mais apreciam na vida, seja ela qual for; de fato, já que os amigos desejam conviver, eles fazem e compartilham as coisas que lhes dão a sensação de convivência.”

Levando em conta a percepção do filósofo, não podemos deixar de notar que a questão da afinidade está presente em seu discurso sobre a amizade, pois no ato da partilha da existência fica explícito que há de existir ‘vontades de fazer’ em comum entre as partes. A amizade exige sintonia e a sintonia só surge quando encontra eco, quando existe afinidade.

Vinícius de Moraes parece acreditar na mesma ideia, em seu Soneto do Amigo ele enuncia nos dois últimos versos:

Um bicho igual a mim, simples e humano
Sabendo se mover e comover
E a disfarçar com o meu próprio engano

O amigo: um ser que a vida não explica
Que só se vai ao ver outro nascer
E o espelho de minha alma multiplica.

escrito por:

Bruna Regina

Usa batom vermelho. É formada em psicologia. Gosta de dias nublados. Tem um filho chamado Pedro e um gato chamado Fidalgo. Sua banda favorita é Velvet Underground.


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