No último dia 03 de maio, sábado, uma dona de casa foi brutalmente espancada nas ruas do bairro de Morrinhos, Guarujá, litoral de São Paulo. Fabiane Maria de Jesus foi agredida, amarrada, espancada e arrastada para os fundos do bairro por homens que tinham a intenção de matá-la. Quando a polícia chegou ao local, teve dificuldades em retirar a vítima, devido ao imenso número de agressores e à violência demonstrada por eles. Permaneceu hospitalizada, em estado grave, até a manhã de segunda-feira, 05 de maio, quando faleceu devido à gravidade dos ferimentos.

O motivo do homicídio: um boato.

A página Guarujá Alerta, hospedada no Facebook, espalhou a notícia de que uma mulher estaria sequestrando crianças na região para rituais de magia negra. Foi divulgado um retrato falado, de procedência desconhecida – e, possivelmente, apenas outro rumor. Usuários da página aumentaram o clima de tensão ao afirmar que sabiam de crianças que haviam desaparecido ou que tinham sido encontradas mortas e mutiladas.

De acordo com a polícia, nada disso era verdadeiro: não há registros de desaparecimentos na cidade. Fabiane andava pelo bairro Morrinhos no fatídico sábado, e foi confundida com a suposta sequestradora de crianças. Ela não sabia de nada. Não tinha relação nenhuma com os crimes que, na realidade, nunca aconteceram. Pagou com a vida por algo que sequer existia de fato.

Nas redes sociais, a comoção foi instantânea. Muitos destacaram o “linchamento de uma mulher inocente”. Inocente. Sim, ela era inocente: mas mesmo que não fosse, isso não tornaria a atitude de seus agressores correta ou justificável. Não se pode corrigir barbárie com ainda mais barbárie. O fato de sequer ter existido o crime pelo qual Fabiane foi acusada, julgada sumariamente – sem direito a defesa – e punida não deveria ser relevante para a questão.

O Brasil passa, atualmente, por uma onda de linchamentos. São “flash mobs macabros”, como rotulou um jornalista do Espírito Santo. Essa torrente de barbarismo, presente em diversos estados da federação, aparenta ter se tornado mais frequente após as declarações “polêmicas” (ou melhor: levianas) de uma apresentadora de jornal televisivo em fevereiro, após um adolescente ter sido espancado e preso a um poste no Rio de Janeiro. Ela afirmou que a ação dos “vingadores” era compreensível e se tratava de “legítima defesa coletiva de uma sociedade sem estado contra um estado de violência sem limite”. Declaração imprudente, irresponsável, tacanha, absurda, rasa e maniqueísta. O suficiente para insuflar os ânimos de uma população que tem a televisão como principal fonte de informação e entretenimento, e amplificar o turbilhão de violência que já estava se prenunciando.

Fabiane Maria de Jesus
A memória de Fabiane Maria de Jesus pergunta: quem teve o sadismo vicariante de filmar o linchamento?

Seria igualmente raso considerar que os únicos responsáveis pela morte de Fabiane foram seus agressores. O falecimento dessa dona de casa comum, mãe de duas filhas, deriva de uma confluência de fatores. O principal deles está em frente ao espelho: a nossa própria omissão. A nossa passividade quando vemos uma injustiça se desnudar diante de nossos olhos. O desinteresse em desmentir um boato ou averiguar os fatos. A insensatez em espalhar notícias falsas. A dificuldade em compreender que todas as decisões, incluindo a decisão de não tomar ação alguma, acarretam consequências e implicam em responsabilidades.

A morte dela é culpa nossa: culpa da sociedade brasileira e de sua incompreensível indiferença, de sua total apatia quando as bases de nosso convívio social se tornam ameaçadas por indivíduos de intelecto torpe, que são escravos de suas opiniões irrefletidas e paixões mais primitivas.

Porém, alguns indivíduos, por representarem instituições ou devido ao poder pessoal que detêm, seja ele de origem política ou midiática, incorrem em uma parcela maior de culpa pela morte de Fabiane. Alguns foram responsáveis, direta ou indiretamente, por essa tragédia. Outros poderiam tê-la evitado. Aproveitar-me-ei do estilo do escritor francês Émile Zola para acusá-los, citar seus nomes e evidenciar a parcela de culpa de cada um neste horrendo crime.

Acuso os indivíduos presentes no linchamento de Fabiane Maria de Jesus de homicídio qualificado e formação de quadrilha, ao unirem-se como trogloditas para cometerem a barbárie que resultou na morte da dona de casa.

Acuso os moradores do bairro Morrinhos, em Guarujá/SP, de omissão de socorro, por não terem tentado desmentir os boatos, evitar o início do linchamento ou conter os agressores de Fabiane antes da chegada das autoridades competentes.

Acuso os criadores, administradores e usuários da página Guarujá Alerta de terem sido os motivadores do homicídio, devido à ação de espalhar irresponsavelmente rumores a respeito de uma mulher que estaria sequestrando crianças na região com a finalidade de matá-las para realizar “rituais de magia negra”, sem averiguar a veracidade das informações veiculadas, e disseminando junto às mentiras um retrato falado de procedência, no mínimo, obscura.

Rachel Sheherazade
Rachel Sheherazade: culpada.

Acuso a jornalista Rachel Sheherazade Barbosa de violar o código de ética dos jornalistas brasileiros com as declarações irresponsáveis, ignorantes e pérfidas que emitiu no programa SBT Brasil em 04/02/2014, quando cometeu incitação ao ódio e apologia ao crime, ampliando dramaticamente a recente onda de agressões e linchamentos presenciados em diversas cidades brasileiras.

Acuso a equipe do SBT Brasil e a emissora responsável pelo programa de negligência profissional e omissão, ao permitirem que a âncora televisiva supracitada incorresse nas graves práticas descritas acima.

Acuso as equipes dos programas Cidade Alerta, da Rede Record, e Brasil Urgente, da Rede Bandeirantes, de se aproveitarem perversamente da desgraça alheia, gerando lucro para seus patrões e para si mesmos através da propagação do ódio e da paranoia generalizados, fomentando a degradação moral e ética da população brasileira e dos profissionais de jornalismo.

Acuso os âncoras dos programas mencionados no parágrafo anterior, nomeadamente o sr. Marcelo Luiz Rezende Fernandes e o sr. José Luiz Datena, de incitar a conduta criminosa dos assim chamados “justiceiros”, por meio de declarações insidiosas a respeito da segurança pública, lucrando milhões de reais com a falsa ideia de que vivemos em estado de natureza hobbesiano.

Jornalistas
Datena e Marcelo Rezende: culpados.

Acuso o deputado federal Jair Messias Bolsonaro (PP-RJ) de leviandade e insensatez na condução de seu mandato, incorrendo repetidas vezes em quebra de decoro e apologia ao crime, em especial ao emitir uma declaração pública temerária, na qual defende os autointitulados grupos de “justiceiros”.

Acuso os ministros religiosos das denominações protestantes neopentecostais, em especial da Igreja Universal do Reino de Deus, de fomentarem a intolerância religiosa e o obscurantismo através da mercantilização da fé, criando uma massa de pessoas que não apenas se sente ameaçada pela assim chamada “magia negra”, como também crê que a ocorrência de tal desatino seja comum, tendo sido essa intolerância e obscurantismo fatores essenciais para o episódio do homicídio de Fabiane Maria de Jesus.

Acuso o ministro das telecomunicações, Paulo Bernardo Silva, de covardia e fraqueza moral, por não ter tomado as medidas necessárias para evitar que a imprensa televisiva brasileira se transformasse no atual circo de horrores que é, lembrando às emissoras e a seus investidores que elas são concessões estatais, devendo estar, portanto, comprometidas com o bem público.

Acuso o presidente do Supremo Tribunal Federal, sr. Joaquim Benedito Barbosa Gomes, de indiferença, desleixo e displicência, visto que, como ocupante do cargo mais alto do Poder Judiciário brasileiro, consistia em seu dever ético e moral emitir declaração pública condenando a tão falada “justiça com as próprias mãos”, preservando, assim, o Estado Democrático de Direito.

Acusados
Bolsonaro, Joaquim Barbosa, Paulo Bernardo, Edir Macedo e líderes neopentecostais: culpados.

Essas pessoas que acuso tornaram-se agentes nocivos à sociedade – algumas vezes, devido à sua irresponsabilidade, leviandade e brutalidade; em outras, pela sua negligência. Algumas delas também são símbolos, arquétipos do que há de pior no ser humano. Meu manifesto, registrado nessas linhas, não passa de um abafado grito de desespero de um afogado neste mar de bílis, e meu intuito é clamar pela reestruturação de nosso contrato social e pela obtenção da justiça – da justiça de fato, daquela vinculada à ética e à moral; não me refiro ao arremedo que se instaurou nas violências arbitrárias que assolam nosso país. Os criminosos homicidas que ceifaram a vida de Fabiane não devem ser chamados de “justiceiros”: não há justiça em nada do que fizeram.

Não possuo nenhum objetivo a não ser este: demonstrar minha indignação pela omissão coletiva e aquiescência irresponsável que deu asas aos inúmeros casos de espancamentos e linchamentos ocorridos nos últimos meses. Minha intenção, com este texto, é a de esclarecer as pessoas quanto à responsabilidade de seus atos e de suas escolhas – e, nesse caso, omitir-se também é uma escolha: também traz consequências. Os indivíduos que presenciaram o espancamento de Fabiane e nada fizeram para deter a turba enfurecida são cúmplices de sua morte. Podem esconder-se por trás de diversas justificativas e racionalizações; mas, nas profundezas de sua consciência, sabem que nenhuma dessas escusas é justa, que nenhuma delas os exime da culpa. Nenhuma os absolve. Ver uma injustiça e não tentar impedi-la imediatamente é equivalente a cometer aquela mesma injustiça.

David G. Borges

David G. Borges

David G. Borges é professor na Universidade Federal do Espírito Santo, formado em Biologia e em Filosofia, com mestrado também em Filosofia. Toca violão, luta boxe e, apesar de namorar uma vegetariana, adora bacon.
David G. Borges
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