Entrei na faculdade em 2006. Até 2003/2004, eu era bastante cético a respeito do Aquecimento Global. Na época, o assunto era mais chamado de “mudanças climáticas” e eu levantava uma sobrancelha e pensava “grande! mudança numa coisa que, por definição, está sempre mudando!”.

Como sempre me interessei muito por zoologia e afins, chamou minha atenção nas mudanças nos padrões migratórios e, mais ainda, na distribuição de certos crustáceos, fungos e plantas extremamente sensíveis à temperatura. Sim, algo estava acontecendo mesmo, algo de bem diferente dos últimos milênios.

Na faculdade, não há aulas sobre “Aquecimento Global”. A rotina é ser massacrado por matemática e física e, no meio disso tudo, pingam aqui e acolá disciplinas fundamentais sobre dinâmica de fluídos e tratamento estatístico dos dados do sistema-terra. É com o que aprendemos de sólido sobre ciência em geral, meteorologia em particular, que nos tornamos hábeis para opinar de forma autônoma sobre o que os dados nos dizem.

Eu aprendi que:

— dados são ruins na maior parte do planeta, com monitoramento iniciado há poucas décadas: quanto mais antigos os dados, piores eles são;

— o ciclo biogeoquímico mais importante, o do carbono, é extremamente mal conhecido: há brechas enormes em seus processos que nós não conhecemos ou não entendemos adequadamente;

— o maior reservatório de carbono, o Oceano, é muito pouco conhecido, mensurado, dimensionado e monitorado: pode ter o Godzilla lá e nós não sabemos;

— nossos modelos matemáticos funcionam à base de gambiarras matemáticas e computacionais;

— dentro de certas limitações, conhecemos de forma geral muito bem o perfil climático do planeta e sabemos facilmente identificar quais os fatores que o influenciam com maior intensidade;

Então, sim, os dados simplesmente mostravam de maneira muito convincente um Aquecimento Global (que nem de longe é dos piores da história do planeta) absurdamente acelerado. Nem esquentou tanto assim, esquentou muito, muito rápido.

Entre 2008-10 eu estava convencido do Aquecimento Global, mas dadas as enormes brechas em nosso conhecimento sobre o sistema-Terra, não me convencia do papel humano nele ser preponderante.

Mas a questão é que, apresentados os dados, tenho de concluir algo.

Cientistas sempre podem argumentar, a qualquer momento, sobre qualquer assunto, que mais investigações são necessárias. Levando em consideração tudo o que já se sabe, o que pode ser dito a respeito das principais forçantes que gerariam um incremento no Efeito Estufa (este incremento é o tal Aquecimento Global)?

— Que a única forçante fortemente correlacionada ao progressivo e acelerado aumento das temperaturas é o aumento na opacidade atmosférica em relação às ondas longas: e tal opacidade aumentou em virtude do acúmulo de determinados gases, provenientes da atividade humana.

Ah, e todas aquelas brechas? Então, elas atestam que nós não sabemos muito bem como o sistema-Terra reagirá ao Aquecimento Global?

Será que um sistema de feedback negativo envolvendo aumento da nebulosidade contrabalanceará o Aquecimento? Não sei, é uma possibilidade. Será que um sistema de feedback positivo envolvendo a liberação de dióxido de carbono e metano pelos oceanos inflacionará o Aquecimento? Não sei, é outra possibilidade. Será que diversos feedbacks positivos e negativos serão disparados e a previsibilidade climática será prejudicada? Não sei, é uma possibilidade.

O que aprendemos, por fim? Que não é ativismo apocalíptico quem convence seres racionais, mas a apresentação de evidências.

Pessoas comuns não são lá tão racionais, nem apegadas às evidências, é verdade, como bem demonstra a eleição de Trump: mas a elas é possível fomentar algum nível básico de entendimento e de respeito pelos especialistas racionais.

Uma pena que a cultivada irracionalidade acadêmica e anticientificismo endêmico fomentados pelos ativismos políticos nas últimas décadas não ajuda nisso.


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Leandro Bellato
Metereologista com a cabeça nas nuvens e o pé nas estrelas, flutua sem rumo satisfazendo sua vasta curiosidade sobre os mais variados e desconexos temas, de literatura à astrofísica, de antropologia à bioquímica, de cultura pop aos pré-socráticos.